“É claro agora que a Grécia, a Irlanda e Portugal não podem e não vão reembolsar as suas dívidas totalmente (...)Assim, para ser realista, a Europa tem de preparar-se para alguma forma de redução da dívida, combinando a ajuda das economias mais fortes e a reestruturação das dívidas ("cortes de cabelo") impostas aos credores privados, que terão de aceitar menos do que o pagamento total”
Paul Krugman, prémio Nobel da Economia, Daqui.
30 maio 2011
27 maio 2011
Barragem de Foz do Tua: As máquinas avançaram
recebidas por correio electrónico
João da Cruz, João José de Freitas e outros carrazedenses ilustres estão a dar voltas mo túmulo...
Sentimento: Carlos Fiúza
Sentimento…
Eu não concordo absolutamente com o célebre Talleyrand, astuto diplomata francês, sujeito imoral e espirituoso, que nos legou a opinião de que a palavra foi dada ao homem para mentir.
Porque era hábil em estratagemas e em mentiras, fugiu-lhe a boca para a verdade, ao considerar a palavra como um instrumento de trapacices.
Porém, se não concordo absolutamente, reconheço felicidade parcial na observação, pois a palavra muita vez serve mais a mentira ou a ilusão do que a verdade.
Factos quotidianos frequentíssimos no-lo provam.
Apresentam-nos uma pessoa cujo conhecimento não nos desperta o menor interesse moral ou material, e logo exclamamos: “muito prazer em a conhecer”.
Está claro que não seria humanamente possível dizermos apenas: “tomo nota da sua pessoa e de seu nome”. Ou então: “tomo o seu conhecimento”. Ou ainda: “vamos a ver se a gente não se vem a zangar”.
Enfim, qualquer destas modalidades de prudência e sinceridade estão de todo imprevistas nas relações sociais.
Todavia, o caso é que, ao exclamarmos, diante de pessoa recém-apresentada: “muito prazer em a conhecer”, verdade, verdade, na mor parte dos casos, é mentira, não só pelo que toca à falta de “prazer” afirmado, senão também pelo exagero de classificar de excelência uma pessoa que nem sequer sabemos, ao certo, não seja antes refinadíssimo biltre.
O fenómeno é, porém, universal. E línguas há como o francês, por exemplo, onde o exagero ainda se torna maior do que em a nossa.
Já que falei em apresentações, recordemos a expressão francesa: “enchanté”.
Quer dizer, ficam logo “encantados” os franceses quando se veem pela vez primeira.
Marque-se um ponto de sobriedade à nossa língua. “Muito prazer” tem um poucochinho menos de imprudência do que “enchanté”.
E, se quiséssemos prosseguir a tomar a temperatura das expressões, víamos os ingleses com menos febre, pois “I am very glad to make your acquaintance” desce às vezes à frieza de um simples: “how do you do?”.
Coração e boca raramente andam a par na expressão dos seus sentimentos, e o mesmo acontece com o cérebro na expressão dos pensamentos.
Diz-se que o coração fala, que a boca fala, que os olhos falam, que o rosto se exprime.
É verdade. Mas, se fossemos a fazer um concurso, veríamos que a boca, precisamente porque é o mais próprio dos meios da expressão, é quem prega mais mentiras, nas suas variantes de hipocrisia, patranhas, aldrabices, etc.
A psicologia dos povos refreia ou desenfreia esta necessidade humana de mentir com palavras.
“Gosto imenso de auscultar a opinião do Povo” - eis outra frequente parlapatice.
O “imenso” não tem medida.
Mas a empolação natural ou fatal da linguagem obriga-nos a cair em afirmações deste descoco: “Gosto imenso de ouvir determinados políticos”.
As noites de luar, por exemplo, exercem em mim um estupendo enlevo.
Gosto muito de ver a palidez da lua, gosto do prateado das águas dos rios ou do mar, quando o luar cintila, tremeluzindo nas águas. Mas, confesso, talvez porque me deixe prender veramente pela magia do luar, já não suporto o seu elogio, mil vezes, por mil formas, repetido.
Dir-me-ão que a arte verdadeira é precisamente a procura da expressão para o inexprimível.
Mas eu quero afirmar que há também a arte de saber calar.
Umas vezes parece que as palavras não chegam; outras muitas, temos a impressão de que sobram.
E isto dá-se nos grandes momentos, como nos momentos de frívolo gastar da vida.
Quanto a exemplos de mentiras persuasivas, vemo-los em larga cópia de casos nas propagandas políticas, e de muita outra espécie.
Não há “produto” que não seja o “melhor de todos para o progresso do País”.
Sim, tudo isto assenta na potência de falsidade da palavra humana.
Ela é tão falsa, que até às vezes se brinca com as próprias juras. Há quem jure “por estes dois que a terra há de comer”, mas, para não lhe cair o castigo, põe ao pé dos olhos dois dedos e nestes faz tombar a responsabilidade do juramento.
Como a língua portuguesa não é mais santa que as demais línguas, sejamos indulgentes (mas não parvos) para com os recursos da mentira.
O que vale, no fim de contas, é que às “palavras leva-as o vento”...
O que vale é o “sentimento”… os “olhos” do nosso interior.
E já agora remato com este episódio verídico.
Aqui há tempos eu vi certa mãe pôr-se aos beijos ao filhote.
Deu-lhe um beijo, e chamou-lhe “meu menino”. Deu-lhe outro beijo, e disse “meu rico”, pondo um tom de raivinha amorosa no cerrar dos dentes com que proferiu a exclamação.
E o menino sorriu e a mãe, enlevada, ia a dizer: “meu…”, mas não acabou, estreitou-o a si, e poisou-lhe um grande beijo.
De modo que o BEIJO foi a melhor expressão da linguagem interior daquela MÃE.
Carlos Fiúza
Eu não concordo absolutamente com o célebre Talleyrand, astuto diplomata francês, sujeito imoral e espirituoso, que nos legou a opinião de que a palavra foi dada ao homem para mentir.
Porque era hábil em estratagemas e em mentiras, fugiu-lhe a boca para a verdade, ao considerar a palavra como um instrumento de trapacices.
Porém, se não concordo absolutamente, reconheço felicidade parcial na observação, pois a palavra muita vez serve mais a mentira ou a ilusão do que a verdade.
Factos quotidianos frequentíssimos no-lo provam.
Apresentam-nos uma pessoa cujo conhecimento não nos desperta o menor interesse moral ou material, e logo exclamamos: “muito prazer em a conhecer”.
Está claro que não seria humanamente possível dizermos apenas: “tomo nota da sua pessoa e de seu nome”. Ou então: “tomo o seu conhecimento”. Ou ainda: “vamos a ver se a gente não se vem a zangar”.
Enfim, qualquer destas modalidades de prudência e sinceridade estão de todo imprevistas nas relações sociais.
Todavia, o caso é que, ao exclamarmos, diante de pessoa recém-apresentada: “muito prazer em a conhecer”, verdade, verdade, na mor parte dos casos, é mentira, não só pelo que toca à falta de “prazer” afirmado, senão também pelo exagero de classificar de excelência uma pessoa que nem sequer sabemos, ao certo, não seja antes refinadíssimo biltre.
O fenómeno é, porém, universal. E línguas há como o francês, por exemplo, onde o exagero ainda se torna maior do que em a nossa.
Já que falei em apresentações, recordemos a expressão francesa: “enchanté”.
Quer dizer, ficam logo “encantados” os franceses quando se veem pela vez primeira.
Marque-se um ponto de sobriedade à nossa língua. “Muito prazer” tem um poucochinho menos de imprudência do que “enchanté”.
E, se quiséssemos prosseguir a tomar a temperatura das expressões, víamos os ingleses com menos febre, pois “I am very glad to make your acquaintance” desce às vezes à frieza de um simples: “how do you do?”.
Coração e boca raramente andam a par na expressão dos seus sentimentos, e o mesmo acontece com o cérebro na expressão dos pensamentos.
Diz-se que o coração fala, que a boca fala, que os olhos falam, que o rosto se exprime.
É verdade. Mas, se fossemos a fazer um concurso, veríamos que a boca, precisamente porque é o mais próprio dos meios da expressão, é quem prega mais mentiras, nas suas variantes de hipocrisia, patranhas, aldrabices, etc.
A psicologia dos povos refreia ou desenfreia esta necessidade humana de mentir com palavras.
“Gosto imenso de auscultar a opinião do Povo” - eis outra frequente parlapatice.
O “imenso” não tem medida.
Mas a empolação natural ou fatal da linguagem obriga-nos a cair em afirmações deste descoco: “Gosto imenso de ouvir determinados políticos”.
As noites de luar, por exemplo, exercem em mim um estupendo enlevo.
Gosto muito de ver a palidez da lua, gosto do prateado das águas dos rios ou do mar, quando o luar cintila, tremeluzindo nas águas. Mas, confesso, talvez porque me deixe prender veramente pela magia do luar, já não suporto o seu elogio, mil vezes, por mil formas, repetido.
Dir-me-ão que a arte verdadeira é precisamente a procura da expressão para o inexprimível.
Mas eu quero afirmar que há também a arte de saber calar.
Umas vezes parece que as palavras não chegam; outras muitas, temos a impressão de que sobram.
E isto dá-se nos grandes momentos, como nos momentos de frívolo gastar da vida.
Quanto a exemplos de mentiras persuasivas, vemo-los em larga cópia de casos nas propagandas políticas, e de muita outra espécie.
Não há “produto” que não seja o “melhor de todos para o progresso do País”.
Sim, tudo isto assenta na potência de falsidade da palavra humana.
Ela é tão falsa, que até às vezes se brinca com as próprias juras. Há quem jure “por estes dois que a terra há de comer”, mas, para não lhe cair o castigo, põe ao pé dos olhos dois dedos e nestes faz tombar a responsabilidade do juramento.
Como a língua portuguesa não é mais santa que as demais línguas, sejamos indulgentes (mas não parvos) para com os recursos da mentira.
O que vale, no fim de contas, é que às “palavras leva-as o vento”...
O que vale é o “sentimento”… os “olhos” do nosso interior.
E já agora remato com este episódio verídico.
Aqui há tempos eu vi certa mãe pôr-se aos beijos ao filhote.
Deu-lhe um beijo, e chamou-lhe “meu menino”. Deu-lhe outro beijo, e disse “meu rico”, pondo um tom de raivinha amorosa no cerrar dos dentes com que proferiu a exclamação.
E o menino sorriu e a mãe, enlevada, ia a dizer: “meu…”, mas não acabou, estreitou-o a si, e poisou-lhe um grande beijo.
De modo que o BEIJO foi a melhor expressão da linguagem interior daquela MÃE.
Carlos Fiúza
24 maio 2011
22 maio 2011
Passeio por Terras do Dão
Nem só de trabalho vive o homem.
Assim aproveita o preço simbólico de 15€ e se houver crianças em casa o preço desce para 5€ por criança até aos 15 anos de idade. Vem connosco á Senhora da Lapa - a Viseu e a Tarouca, numa viagem cultural, simpática e divertida. Vamos cuidar de nós, antes que outros se atrevam. Organização a cargo da Fábrica da Igreja de Santa Àgueda de Carrazeda de Ansiães, dia 11 de Junho. Vem viver um Sábado diferente, traz um amigo também.
DOMINGO 22 DE MAIO EM CARRAZEDA
SORRISOS ABERTOS DE ROSTOS JOVENS. Foi com o III Encontro de Comunidades denominado Rostos que a Escola Profissional de Ansiães, a DESCA e a Câmara Municipal de Carrazeda, levaram a efeito no Salão dos Bombeiros Voluntários de Carrazeda de Ansiães, uma festa de juventude, alegria e ritmo. Parabéns pela iniciativa e por estes belos sorrisos da doce e longinqua Àfrica. São Tomé e Principe e a Saudade... das mortnas da Cesária Èvora.
20 maio 2011
Uma chatice, os concursos públicos
Júlia Rodrigues sai do centro de emprego de Mirandela
A líder da concelhia do PS de Mirandela tinha sido nomeada para o cargo há ano e meio, em regime de substituição, mas agora perdeu o lugar para Paula Romão, técnica superior do IEFP, no concurso público para o lugar de directora do centro de emprego de Mirandela, em regime de comissão de serviço para os próximos três anos (...)
Júlia Rodrigues (...) também apresentou candidatura, mas acabou por não ser a escolhida neste processo de concurso público, cujo método de selecção passou pela avaliação curricular e uma entrevista.
(...) A nova orgânica do IEFP obriga a que os directores dos centros de emprego tenham licenciatura e cumulativamente pelo menos seis anos no quadro da carreira técnica superior.
Para os boys, os concursos públicos são uma chatice...
Por estes dias, nos serviços públicos têm-se admitido, sem qualquer concurso, trabalhadores fora dos quadros , valendo apenas única e exclusivamente a "cunha".
Basta reparar e ver a desfaçatez do sistema: com as restrições de acesso à carreira da função pública, desapareceram os concursos, e só trabalha no público quem tem "padrinhos"...
A líder da concelhia do PS de Mirandela tinha sido nomeada para o cargo há ano e meio, em regime de substituição, mas agora perdeu o lugar para Paula Romão, técnica superior do IEFP, no concurso público para o lugar de directora do centro de emprego de Mirandela, em regime de comissão de serviço para os próximos três anos (...)
Júlia Rodrigues (...) também apresentou candidatura, mas acabou por não ser a escolhida neste processo de concurso público, cujo método de selecção passou pela avaliação curricular e uma entrevista.
(...) A nova orgânica do IEFP obriga a que os directores dos centros de emprego tenham licenciatura e cumulativamente pelo menos seis anos no quadro da carreira técnica superior.
Para os boys, os concursos públicos são uma chatice...
Por estes dias, nos serviços públicos têm-se admitido, sem qualquer concurso, trabalhadores fora dos quadros , valendo apenas única e exclusivamente a "cunha".
Basta reparar e ver a desfaçatez do sistema: com as restrições de acesso à carreira da função pública, desapareceram os concursos, e só trabalha no público quem tem "padrinhos"...
Desliguem a luz
"A câmara de Bragança quer reduzir à factura energética desligando alguns pontos de iluminação pública durante a noite.Uma medida inserida num programa que a autarquia está a implementar e que visa também a eficiência energética dos edifícios municipais..."
Daqui
Daqui
Divulgação - Futsal
26ª Jornada do Campeonato Nacional de Futsal
3ª Divisão
Futebol Clube Carrazeda de Ansiaes
-
A. D. C Gualtar
Pavilhão de Escola Secundária
3ª Divisão
Sábado, 21 de Maio · 16:00 - 17:30
Futebol Clube Carrazeda de Ansiaes
-
A. D. C Gualtar
Pavilhão de Escola Secundária
18 maio 2011
Em português nos entendemos
O português, com diversas variantes fonéticas e caligráficas, é a língua de comunicação de diversas nações, na Europa, na África, na Ásia e na América. Se a língua tem a matriz latina, também colheu vocábulos nos diversos povos que aqui aportaram antes dos romanos, como sejam os fenícios (o sufixo ippo em Olisipo – Lisboa e Collipo – Leiria), os gregos, os celtas e os celtiberos (o sufixo briga que aparece, por exemplo, em Conímbriga).
A língua portuguesa tem a sua origem no latim e assim eram até D. Dinis escritos os documentos oficiais. Ao longo da nossa história houve diversas tentativas, particularmente na forma escrita, de aproximar a língua da matriz latina, Todas elas saíram goradas pela força da oralidade. O actual acordo é mais uma dessas cedências. A língua tem a sua origem imediata no chamado latim vulgar que o distingue do erudito e a origem popular é comummente aceite, “O Pacto de Gomes Pais e Ramiro Pais”, não oficial, é considerado o primeiro documento escrito em língua portuguesa.
O fenómeno de adopção de palavras de outras línguas continua até aos nossos dias. As invasões dos bárbaros não corresponderam em contribuição linguística à sua importância e longevidade e limita-se a alguns conteúdos: a guerra (guerra, roubar, espiar), as roupas (luva, fato), os animais (gansa, marta). Dos suevos e os visigodos herdámos palavras como aio, íngreme, espora, luva. Os árabes deixam-nos cerca de mil palavras em áreas específicas como a agricultura, os animais, as plantas (arroz, azeite, alface, açucena, alfarroba. Porém, a matriz latina sobrepõe-se a todas as invasões.
Em finais do século X iniciam-se as primeiras influências do francês. São daí a introdução dos vocábulos dama, chapéu e do sufixo -age “ -agem “. Será reforçada no século XIII pela instalação, em todo o território da Galiza e Portugal, das ordens monásticas francesas de Cluny e Cister. São desse período formas líricas próprias da literatura provençal e diversos vocábulos daí oriundos (trovador, alegre, frei).No século XVIII e XIX são introduzidos enormes francesismos, lembre-se a geração de 70.
A partir do séc. XV, a língua portuguesa enriquece-se com a contribuição das línguas indígenas (o bantu, o tupi e línguas asiáticas). A influência índia e africana transmitiram ao português numerosos vocábulos ainda hoje correntes: abacaxi, caipira, jacaré, batuque, samba. Tais marcas são testemunhos de uma primazia internacional do português, que durou até à metade do século XIX. Como hoje é o Inglês, o Português foi durante muitos anos a língua franca do comércio mundial.
Recentemente, fruto da globalização moderna, muitos vocábulos, particularmente ingleses, são adoptados.
O português moderno é obra de Garret e Eça. A frase liberta-se dos espartilhos clássicos e aproxima-se do falar do povo. Camilo, Aquilino, Júlio Dinis, Torga e mais recentemente Saramago e Agustina introduzem-lhe inúmeros vocábulos do linguajar popular, habitualmente pouco dignos de serem escritos e fazerem parte do objecto literário. Salvo o devido exagero, posso concluir que a língua portuguesa é primordialmente uma construção do povo.
A língua portuguesa tem a sua origem no latim e assim eram até D. Dinis escritos os documentos oficiais. Ao longo da nossa história houve diversas tentativas, particularmente na forma escrita, de aproximar a língua da matriz latina, Todas elas saíram goradas pela força da oralidade. O actual acordo é mais uma dessas cedências. A língua tem a sua origem imediata no chamado latim vulgar que o distingue do erudito e a origem popular é comummente aceite, “O Pacto de Gomes Pais e Ramiro Pais”, não oficial, é considerado o primeiro documento escrito em língua portuguesa.
O fenómeno de adopção de palavras de outras línguas continua até aos nossos dias. As invasões dos bárbaros não corresponderam em contribuição linguística à sua importância e longevidade e limita-se a alguns conteúdos: a guerra (guerra, roubar, espiar), as roupas (luva, fato), os animais (gansa, marta). Dos suevos e os visigodos herdámos palavras como aio, íngreme, espora, luva. Os árabes deixam-nos cerca de mil palavras em áreas específicas como a agricultura, os animais, as plantas (arroz, azeite, alface, açucena, alfarroba. Porém, a matriz latina sobrepõe-se a todas as invasões.
Em finais do século X iniciam-se as primeiras influências do francês. São daí a introdução dos vocábulos dama, chapéu e do sufixo -age “ -agem “. Será reforçada no século XIII pela instalação, em todo o território da Galiza e Portugal, das ordens monásticas francesas de Cluny e Cister. São desse período formas líricas próprias da literatura provençal e diversos vocábulos daí oriundos (trovador, alegre, frei).No século XVIII e XIX são introduzidos enormes francesismos, lembre-se a geração de 70.
A partir do séc. XV, a língua portuguesa enriquece-se com a contribuição das línguas indígenas (o bantu, o tupi e línguas asiáticas). A influência índia e africana transmitiram ao português numerosos vocábulos ainda hoje correntes: abacaxi, caipira, jacaré, batuque, samba. Tais marcas são testemunhos de uma primazia internacional do português, que durou até à metade do século XIX. Como hoje é o Inglês, o Português foi durante muitos anos a língua franca do comércio mundial.
Recentemente, fruto da globalização moderna, muitos vocábulos, particularmente ingleses, são adoptados.
O português moderno é obra de Garret e Eça. A frase liberta-se dos espartilhos clássicos e aproxima-se do falar do povo. Camilo, Aquilino, Júlio Dinis, Torga e mais recentemente Saramago e Agustina introduzem-lhe inúmeros vocábulos do linguajar popular, habitualmente pouco dignos de serem escritos e fazerem parte do objecto literário. Salvo o devido exagero, posso concluir que a língua portuguesa é primordialmente uma construção do povo.
A PROPÓSITO DE... VALORES!
APÓS OS REPETIDOS TREMORES DE TERRA E O TSUNAMI DEVASTADOR...
10 LIÇÕES JAPONESAS:
1. A CALMA
Nem um único sinal de pânico.
A tristeza foi crescendo mas a atitude positiva manteve-se.
2. A DIGNIDADE
Fora feitas longas filas para a água e mantimentos.
Nem uma palavra áspera ou um gesto bruto.
3. A CAPACIDADE
Arquitectura incrível e engenharia irrepreensível.
Os edifícios oscilaram, mas nenhum caiu.
4. O CIVISMO
As pessoas compravam somente o que precisavam para o presente, para que
todos pudessem ter acesso aos bens.
5. A ORDEM
Não houve saques nas lojas.
Não houve buzinões nem ultrapassagens nas estradas.
Apenas a compreensão pelo momento por que todos passavam.
6. O SACRIFÍCIO
Cinquenta trabalhadores não foram evacuados das instalações da central
Nuclear para assegurarem que a água do mar fosse bombeada para os reactores.
Nunca serão reembolsados!
7. A TERNURA
Os restaurantes reduziram os preços.
Uma ATM foi deixada sem segurança.
Os fortes cuidaram dos fracos e a entreajuda estava na rua em todos os
locais.
8. O TREINO
Os idosos e as crianças sabiam exactamente o que fazer.
E fizeram exactamente o que era pressuposto fazer.
9. A COMUNICAÇÃO SOCIAL
Os jornalistas mostraram dignidade e contenção no modo como reportaram as
notícias.
O sensacionalismo foi rejeitado.
Somente reportagens serenas.
10. A CONSCIÊNCIA
Quando numa loja, a energia eléctrica falhou, as pessoas colocaram as coisas
que tinham na mão nas prateleiras e saíram tranquilamente.
(recebido por email)
10 LIÇÕES JAPONESAS:
1. A CALMA
Nem um único sinal de pânico.
A tristeza foi crescendo mas a atitude positiva manteve-se.
2. A DIGNIDADE
Fora feitas longas filas para a água e mantimentos.
Nem uma palavra áspera ou um gesto bruto.
3. A CAPACIDADE
Arquitectura incrível e engenharia irrepreensível.
Os edifícios oscilaram, mas nenhum caiu.
4. O CIVISMO
As pessoas compravam somente o que precisavam para o presente, para que
todos pudessem ter acesso aos bens.
5. A ORDEM
Não houve saques nas lojas.
Não houve buzinões nem ultrapassagens nas estradas.
Apenas a compreensão pelo momento por que todos passavam.
6. O SACRIFÍCIO
Cinquenta trabalhadores não foram evacuados das instalações da central
Nuclear para assegurarem que a água do mar fosse bombeada para os reactores.
Nunca serão reembolsados!
7. A TERNURA
Os restaurantes reduziram os preços.
Uma ATM foi deixada sem segurança.
Os fortes cuidaram dos fracos e a entreajuda estava na rua em todos os
locais.
8. O TREINO
Os idosos e as crianças sabiam exactamente o que fazer.
E fizeram exactamente o que era pressuposto fazer.
9. A COMUNICAÇÃO SOCIAL
Os jornalistas mostraram dignidade e contenção no modo como reportaram as
notícias.
O sensacionalismo foi rejeitado.
Somente reportagens serenas.
10. A CONSCIÊNCIA
Quando numa loja, a energia eléctrica falhou, as pessoas colocaram as coisas
que tinham na mão nas prateleiras e saíram tranquilamente.
(recebido por email)
17 maio 2011
Manuel António Pina: Arte Poética
Arte Poética
Vai pois, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.
E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?
Poema incluído em Os Livros, ed. Assírio & Alvim, 2003
Vai pois, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.
E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?
Poema incluído em Os Livros, ed. Assírio & Alvim, 2003
16 maio 2011
Manuel António Pina - prémio Camões
Bem merecido!
O seu saber de “tratador de palavras” pede meças nos tempos que correm. As suas crónicas diárias no JN são uma delícia de análise quotidiana deste Portugal suave, mas injusto, com políticos e decisores que se acham demasiado importantes e sérios, com resultados abaixo do sofrível, e que Pina faz cair no ridículo. As Farpas do M. A. P. são certeiras e absolutamente necessárias num país que perde identidade, valores e sentido.
M. A. P. é um homem sem medos, frontal e desvinculado que foge ao monopólio dos comentadores papagaios da nossa praça, “benditos sejam”, pois afinal todos dizem a mesma coisa, isto é futilidades. É destes homens das letras que Portugal mais precisa, haja ou não crise, pois apontam caminhos que urge trilhar.
Bem-haja Manuel António Pina pela maneira como usa as palavras para clarear a realidade! Bem-haja por escrever o que falta dizer! Bem-haja por ainda me fazer sentir que vale a pena ser português! Bem-haja!...
O seu saber de “tratador de palavras” pede meças nos tempos que correm. As suas crónicas diárias no JN são uma delícia de análise quotidiana deste Portugal suave, mas injusto, com políticos e decisores que se acham demasiado importantes e sérios, com resultados abaixo do sofrível, e que Pina faz cair no ridículo. As Farpas do M. A. P. são certeiras e absolutamente necessárias num país que perde identidade, valores e sentido.
M. A. P. é um homem sem medos, frontal e desvinculado que foge ao monopólio dos comentadores papagaios da nossa praça, “benditos sejam”, pois afinal todos dizem a mesma coisa, isto é futilidades. É destes homens das letras que Portugal mais precisa, haja ou não crise, pois apontam caminhos que urge trilhar.
Bem-haja Manuel António Pina pela maneira como usa as palavras para clarear a realidade! Bem-haja por escrever o que falta dizer! Bem-haja por ainda me fazer sentir que vale a pena ser português! Bem-haja!...
Manuel António Pina: O Mundo como eles o vêem
Quando ontem soube que Dominique Strauss--Kahn, director-geral do FMI, tinha sido preso em Nova Iorque (a palavra é "detido", mas nem só de rigor jurídico vive a língua, alimenta-a também o desejo) acusado de crimes de violação e sequestro, a minha primeira reacção foi de irracional euforia: afinal havia Justiça - assim, com maiúscula e tudo - no Mundo!
Imaginei Strauss-Kahn acusado de violação dos direitos dos numerosos povos do Mundo que o FMI tem "resgatado", o último dos quais o português, e do sequestro de outras tantas economias nacionais para uso e abuso dos famosos mercados, "petit nom" da banca internacional e dos grandes fundos de especulação financeira.
E veio-me à memória o recente "memorando" da "troika" de FMI & Cª, que PS, PSD e CDS/PP disputam agora a honra de aplicar ao que sobrou das pensões, prestações sociais e salários após os sucessivos PEC aprovados pelos mesmos partidos. Ainda por cima as notícias diziam que Strauss-Kahn é reincidente em crimes semelhantes e não pude evitar lembrar-me dos estragos feitos pelo FMI (só para falar de exemplos recentes) na Grécia e na Irlanda.
Afinal a coisa era literal e Strauss-Kahn terá "apenas" sequestrado e tentado violar uma empregada do hotel onde estava hospedado. Compreende-se como deve ser o Mundo visto de dentro da sua cabeça: se põe e dispõe de povos inteiros porque não há-de dispor como bem entender de uma empregada de hotel?
No JN de hoje
Imaginei Strauss-Kahn acusado de violação dos direitos dos numerosos povos do Mundo que o FMI tem "resgatado", o último dos quais o português, e do sequestro de outras tantas economias nacionais para uso e abuso dos famosos mercados, "petit nom" da banca internacional e dos grandes fundos de especulação financeira.
E veio-me à memória o recente "memorando" da "troika" de FMI & Cª, que PS, PSD e CDS/PP disputam agora a honra de aplicar ao que sobrou das pensões, prestações sociais e salários após os sucessivos PEC aprovados pelos mesmos partidos. Ainda por cima as notícias diziam que Strauss-Kahn é reincidente em crimes semelhantes e não pude evitar lembrar-me dos estragos feitos pelo FMI (só para falar de exemplos recentes) na Grécia e na Irlanda.
Afinal a coisa era literal e Strauss-Kahn terá "apenas" sequestrado e tentado violar uma empregada do hotel onde estava hospedado. Compreende-se como deve ser o Mundo visto de dentro da sua cabeça: se põe e dispõe de povos inteiros porque não há-de dispor como bem entender de uma empregada de hotel?
No JN de hoje
12 maio 2011
Bem prega
"O governador civil de Bragança, Jorge Gomes, sugeriu hoje o «corte em mordomias» na GNR para resolver problemas de falta de dinheiro que afetam a Guarda e de que se queixou recentemente o comandante distrital de Bragança.
«Que cortem em muitas mordomias e têm o problema resolvido», afirmou, esclarecendo estar «a falar da Guarda Nacional República» em geral e não na de Bragança.
A reação do governador, que é o máximo responsável no distrito pelas forças de segurança, surge depois de o comandante distrital da GNR se ter queixado de que «o dinheiro não vai chegar para o ano todo» e que, devido aos cortes orçamentais, começa a «faltar para combustíveis, reparações, consumíveis»"
Daqui
Poderá ter toda a razão o senhor governador, porém, nisto de mordomias cada um toma as que quer... Quase todos já perceberam que o cargo de governador civil é perfeitamente escusado e também eram verbas (ou mordomias?) que se poupavam...
«Que cortem em muitas mordomias e têm o problema resolvido», afirmou, esclarecendo estar «a falar da Guarda Nacional República» em geral e não na de Bragança.
A reação do governador, que é o máximo responsável no distrito pelas forças de segurança, surge depois de o comandante distrital da GNR se ter queixado de que «o dinheiro não vai chegar para o ano todo» e que, devido aos cortes orçamentais, começa a «faltar para combustíveis, reparações, consumíveis»"
Daqui
Poderá ter toda a razão o senhor governador, porém, nisto de mordomias cada um toma as que quer... Quase todos já perceberam que o cargo de governador civil é perfeitamente escusado e também eram verbas (ou mordomias?) que se poupavam...
11 maio 2011
Comunicado do MCLT sobre as barragens enquanto PPP
"o MCLT vai pois confrontar todos os cabeças de lista por Bragança e Vila Real, mais os dirigentes de todos os partidos com assento parlamentar (...), e solicitar a sua posição oficial sobre as barragens enquanto PPP desastrosas, e sobre a barragem do Tua em particular, enquanto projecto de ruína social e económica a nível regional e nacional."
Nesta ligação, o comunicado completo e algum material sobre a Linha do Tua deste movimento.
Nesta ligação, o comunicado completo e algum material sobre a Linha do Tua deste movimento.
Acidente nas obras do IC5 em Carrazeda de Ansiães
Trabalhador caiu de seis metros de altura nas obras do futuro IC-5.
Aqui
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Divulgação - Reginorde
Este ano, a Reginorde de Mirandela vai decorrer de 25 a 29 de Maio.
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10 maio 2011
FICÇÕES
FICÇÕES
A década de sessenta tinha acabado de arrumar a de cinquenta há uns quinze dias. A vila tinha acordado com chuvadas fortes e persistentes, a rasgarem facilmente a fina neblina que se erguia das águas do Tua.
Laura, a professora, haveria de desembocar a qualquer momento na rua da República, junto ao parque, vinda do toural, com o rapazito preso por uma mão, ambos a toque de caixa, pois o sino da igreja não tardaria a bater as oito da matina e o comboio partia sempre às oito e um quarto.
A outra mão da professora trazia um saco de lona contendo duas marmitas de alumínio e um carolo de pão e, por isso, se tornava mais difícil a corrida contra os tempos, o do relógio e o do temporal que se abatia cruelmente sobre aquelas duas frágeis figuras.
Em chegando à passagem de nível, já fechada ao trânsito, atalhavam pela linha em direção à gare, pois já não havia tempo para ir à volta e entrar condignamente pela porta da estação de Mirandela.
Àquela hora da manhã, a estação abarrotava de passageiros, acompanhantes e mercadorias. É que, praticamente ao mesmo tempo, cruzavam-se ali dois comboios, o que vinha do Tua para Bragança e o do percurso inverso. A jovem professora e o filho entravam neste todas as manhãs e às vezes nem arranjavam lugar para se sentarem, com a enchente que já vinha de Bragança e de Macedo de Cavaleiros.
Naquele dia quinze de Janeiro, uma segunda-feira de muita água, a professora e o filho lograram sentar-se no banco almofadado e verde da automotora das oito e um quarto. Estavam ambos como pitos, molhados da cabeça aos pés. O garoto, sete anitos acabados de fazer, frequentava o seu primeiro ano de escola com a própria mãe, servindo-lhe também de companhia durante a semana de aulas na escola de Barcel. Regressavam às sextas, já no fim do dia, para de novo voltarem às segundas.
A aldeia de Barcel, cravada na encosta de um monte, na margem direita do Tua, não tinha estação de comboio. As estações que havia, eram as de Vilarinho e da Ribeirinha mas na margem esquerda.
Se o tempo estivesse de feição, dava para tirar o bilhete para Vilarinho e ir a penantes, passando a ponte e percorrendo depois cerca de uma légua, subindo e descendo e subindo.
No Inverno, geralmente, tirava-se o bilhete para a Ribeirinha, quase em frente a Barcel e depois era só atravessar o rio de barco. Mas a professora tivera um fim de semana arrasador e ainda se sentia cansada. E como não lhe apetecia andar nem um metro a pé, naquele dia tirou o bilhete para a Ribeirinha.
Quando se apearam da motora, a chuva tinha acalmado e era agora uma morrinha fria que rompia do nevoeiro ali instalado e que fazia tiritar de frio os dois únicos passageiros daquela pequena estação.
O chefe, fardado a rigor, do alto do seu chapéu redondamente branco, condoeu-se daquela aparição matinal e quis que entrassem no espaço do edifício ocupado para sua residência, para se aquecerem na lareira da cozinha.
- Ó senhora professora, é só um bocadinho para secarem ao menos a roupa, enquanto chamo o barqueiro.
A professora olhou para o relógio da gare e o ponteiro dos minutos estava mesmo ao chegar ao número dez romano. Já não havia tempo. A entrada era às nove em ponto e não se podia facilitar. Bô era! Vamos que aparecia o senhor inspetor! Credo! A senhora arrepiou-se, não sabendo se de pensar no senhor inspetor ou do frio de rachar que mordia, a coberto do nevoeiro cada vez mais denso.
Apertou a mão da criança numa mão e com a outra, segurou melhor o almoço que descansava nas marmitas de alumínio escondidas no saco de lona. Atravessaram a linha e logo após um pequeno carreiro a descer, corriam as águas agora turvas e mais ruidosas, da cheia que estava a acontecer. A professora assustou-se com a súbita e agressiva aparição ali a seus pés. Recuou, puxando o filho para trás. Olhou de soslaio para o relógio da estação. Ali estava o ângulo reto dos ponteiros, prestes a marcarem as exigentes nove horas! E se o senhor inspetor…
A professora, decidida a cumprir escrupulosamente o seu horário, ergueu a cabeça para a outra margem que não se via e rasgou o nevoeiro com o seu grito de revolta: ó barqueiro! Ó barqueiro! Mas nem o barqueiro nem o nevoeiro responderam à aflição do chamamento. O que se ouvia era o rumor cada vez mais forte da corrente a enfurecer-se.
Decorreram largos minutos que pareciam horas à desolada professora. O filho tremia cada vez mais e já choramingava agarrado à mãe.
Até que o nevoeiro condescendeu, volatizou-se um pouco e deixou entrever um barquito com um homem velho, de pé, inclinado sobre um pau comprido e esguio (vareiro) que segurava com as duas mãos, erguendo-o e mergulhando-o, para fazer deslizar o barco sobre as ruidosas e lamacentas águas. Mal encostou à margem, praguejou “a senhora num bê como bai o rio?” A professora respondeu-lhe com um pacificador “Deus o abençoe!” e lá entraram para o frágil barquito de madeira.
As águas turvas pareciam querer entrar a qualquer momento. A corrente era fortíssima e rapidamente deslizaram para o meio do leito. O velho transpirava e praguejava ainda mais, num esforço titânico para fazer obedecer o barco ao vareiro que subia e descia às profundezas do rio, num ritmo cada vez mais forte. Mãe e filho agarravam-se com força, aterrorizados e indefesos. Travava-se ali uma luta terrível e tripartida, entre o velho, o barco e as águas enfurecidas. O nevoeiro, entretanto, resolvera regressar, como que querendo ser testemunha privilegiada e única da luta de morte que ali acontecia.
Como a professora já demorava, os alunos foram descendo do povoado ao rio, para ver se ela vinha de barco. Uma a uma, as crianças iam-se juntando na margem direita e chamavam pela professora, pois apenas ouviam os barulhos difusos da corrente e do vareiro roçando no barco de madeira, enquanto subia e descia aflitivamente às mãos do velho barqueiro. “Estou aqui, meus filhos”, ouviram a certa altura as crianças.
Vislumbrava-se agora a ramagem das árvores que tombavam sobre as águas junto à margem. A distância a vencer não era grande. Mais um esforço do barqueiro-herói e já se podiam abraçar todos.
Como estavam relativamente perto, as crianças conseguiam ver agora o que se passava no rio. Estavam elas aos pulos, de contentes, quando repararam num enorme tronco que deslizava rápida e perigosamente, impelido pela forte corrente das águas, até que embateu em cheio no pequeno barco de madeira que ficou em fanicos. Os três corpos desapareceram num ápice, engolidas pela fúria da corrente e nunca mais se viram. As crianças começaram a berrar e a fugir em direção à aldeia.
Juntou-se logo o povo, correndo em direção ao local da tragédia.
Já tocava o sino da igreja a rebate, quando alguns conseguiram vislumbrar o pequeno saco de lona com o almoço da professora e do filho, preso num ramo junto à margem.
Hélder Rodrigues
A década de sessenta tinha acabado de arrumar a de cinquenta há uns quinze dias. A vila tinha acordado com chuvadas fortes e persistentes, a rasgarem facilmente a fina neblina que se erguia das águas do Tua.
Laura, a professora, haveria de desembocar a qualquer momento na rua da República, junto ao parque, vinda do toural, com o rapazito preso por uma mão, ambos a toque de caixa, pois o sino da igreja não tardaria a bater as oito da matina e o comboio partia sempre às oito e um quarto.
A outra mão da professora trazia um saco de lona contendo duas marmitas de alumínio e um carolo de pão e, por isso, se tornava mais difícil a corrida contra os tempos, o do relógio e o do temporal que se abatia cruelmente sobre aquelas duas frágeis figuras.
Em chegando à passagem de nível, já fechada ao trânsito, atalhavam pela linha em direção à gare, pois já não havia tempo para ir à volta e entrar condignamente pela porta da estação de Mirandela.
Àquela hora da manhã, a estação abarrotava de passageiros, acompanhantes e mercadorias. É que, praticamente ao mesmo tempo, cruzavam-se ali dois comboios, o que vinha do Tua para Bragança e o do percurso inverso. A jovem professora e o filho entravam neste todas as manhãs e às vezes nem arranjavam lugar para se sentarem, com a enchente que já vinha de Bragança e de Macedo de Cavaleiros.
Naquele dia quinze de Janeiro, uma segunda-feira de muita água, a professora e o filho lograram sentar-se no banco almofadado e verde da automotora das oito e um quarto. Estavam ambos como pitos, molhados da cabeça aos pés. O garoto, sete anitos acabados de fazer, frequentava o seu primeiro ano de escola com a própria mãe, servindo-lhe também de companhia durante a semana de aulas na escola de Barcel. Regressavam às sextas, já no fim do dia, para de novo voltarem às segundas.
A aldeia de Barcel, cravada na encosta de um monte, na margem direita do Tua, não tinha estação de comboio. As estações que havia, eram as de Vilarinho e da Ribeirinha mas na margem esquerda.
Se o tempo estivesse de feição, dava para tirar o bilhete para Vilarinho e ir a penantes, passando a ponte e percorrendo depois cerca de uma légua, subindo e descendo e subindo.
No Inverno, geralmente, tirava-se o bilhete para a Ribeirinha, quase em frente a Barcel e depois era só atravessar o rio de barco. Mas a professora tivera um fim de semana arrasador e ainda se sentia cansada. E como não lhe apetecia andar nem um metro a pé, naquele dia tirou o bilhete para a Ribeirinha.
Quando se apearam da motora, a chuva tinha acalmado e era agora uma morrinha fria que rompia do nevoeiro ali instalado e que fazia tiritar de frio os dois únicos passageiros daquela pequena estação.
O chefe, fardado a rigor, do alto do seu chapéu redondamente branco, condoeu-se daquela aparição matinal e quis que entrassem no espaço do edifício ocupado para sua residência, para se aquecerem na lareira da cozinha.
- Ó senhora professora, é só um bocadinho para secarem ao menos a roupa, enquanto chamo o barqueiro.
A professora olhou para o relógio da gare e o ponteiro dos minutos estava mesmo ao chegar ao número dez romano. Já não havia tempo. A entrada era às nove em ponto e não se podia facilitar. Bô era! Vamos que aparecia o senhor inspetor! Credo! A senhora arrepiou-se, não sabendo se de pensar no senhor inspetor ou do frio de rachar que mordia, a coberto do nevoeiro cada vez mais denso.
Apertou a mão da criança numa mão e com a outra, segurou melhor o almoço que descansava nas marmitas de alumínio escondidas no saco de lona. Atravessaram a linha e logo após um pequeno carreiro a descer, corriam as águas agora turvas e mais ruidosas, da cheia que estava a acontecer. A professora assustou-se com a súbita e agressiva aparição ali a seus pés. Recuou, puxando o filho para trás. Olhou de soslaio para o relógio da estação. Ali estava o ângulo reto dos ponteiros, prestes a marcarem as exigentes nove horas! E se o senhor inspetor…
A professora, decidida a cumprir escrupulosamente o seu horário, ergueu a cabeça para a outra margem que não se via e rasgou o nevoeiro com o seu grito de revolta: ó barqueiro! Ó barqueiro! Mas nem o barqueiro nem o nevoeiro responderam à aflição do chamamento. O que se ouvia era o rumor cada vez mais forte da corrente a enfurecer-se.
Decorreram largos minutos que pareciam horas à desolada professora. O filho tremia cada vez mais e já choramingava agarrado à mãe.
Até que o nevoeiro condescendeu, volatizou-se um pouco e deixou entrever um barquito com um homem velho, de pé, inclinado sobre um pau comprido e esguio (vareiro) que segurava com as duas mãos, erguendo-o e mergulhando-o, para fazer deslizar o barco sobre as ruidosas e lamacentas águas. Mal encostou à margem, praguejou “a senhora num bê como bai o rio?” A professora respondeu-lhe com um pacificador “Deus o abençoe!” e lá entraram para o frágil barquito de madeira.
As águas turvas pareciam querer entrar a qualquer momento. A corrente era fortíssima e rapidamente deslizaram para o meio do leito. O velho transpirava e praguejava ainda mais, num esforço titânico para fazer obedecer o barco ao vareiro que subia e descia às profundezas do rio, num ritmo cada vez mais forte. Mãe e filho agarravam-se com força, aterrorizados e indefesos. Travava-se ali uma luta terrível e tripartida, entre o velho, o barco e as águas enfurecidas. O nevoeiro, entretanto, resolvera regressar, como que querendo ser testemunha privilegiada e única da luta de morte que ali acontecia.
Como a professora já demorava, os alunos foram descendo do povoado ao rio, para ver se ela vinha de barco. Uma a uma, as crianças iam-se juntando na margem direita e chamavam pela professora, pois apenas ouviam os barulhos difusos da corrente e do vareiro roçando no barco de madeira, enquanto subia e descia aflitivamente às mãos do velho barqueiro. “Estou aqui, meus filhos”, ouviram a certa altura as crianças.
Vislumbrava-se agora a ramagem das árvores que tombavam sobre as águas junto à margem. A distância a vencer não era grande. Mais um esforço do barqueiro-herói e já se podiam abraçar todos.
Como estavam relativamente perto, as crianças conseguiam ver agora o que se passava no rio. Estavam elas aos pulos, de contentes, quando repararam num enorme tronco que deslizava rápida e perigosamente, impelido pela forte corrente das águas, até que embateu em cheio no pequeno barco de madeira que ficou em fanicos. Os três corpos desapareceram num ápice, engolidas pela fúria da corrente e nunca mais se viram. As crianças começaram a berrar e a fugir em direção à aldeia.
Juntou-se logo o povo, correndo em direção ao local da tragédia.
Já tocava o sino da igreja a rebate, quando alguns conseguiram vislumbrar o pequeno saco de lona com o almoço da professora e do filho, preso num ramo junto à margem.
Hélder Rodrigues
08 maio 2011
Cacófato, “Alma minha gentil…”?! (Carlos Fiúza)
Há coisas que são eternas e uma delas é a beleza da poesia…
Esta beleza eterna, por mais que se conheça, sempre nos oferece novos aspetos de atração.
Se os espíritos afogados na erudição camoniana me permitem, vou tentar comentar esteticamente este celebérrimo soneto, e ao mesmo tempo procurar desmontar a sua tão “celebrada” cacofonia.
E como os meus comentários vão ser espontâneos, ao sabor da reação estética do momento, pode ser que deste meu contacto sentimental algum pouco de interpretação poética realize.
Diz o soneto:
Alma minha gentil que te partiste,
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no céu eternamente,
E viva eu cá na Terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças de aquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E, se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te
Quão cedo de meus olhos te levou.
Bonitos versos! - exclamará alguma dama sonhadora.
Perfeitos versos! - comentará um “metrificador encartado”, ajuntando criticamente: À parte o senãozinho cacofónico - “alma minha”, perfeitos versos, na verdade.
Por mim, direi:
Sim, bonitos e perfeitos. Mas só isso? Muito mais do que isso, e mais do que sou capaz de comentar estilisticamente:
Logo de entrada, o vocativo Alma minha é profundamente expressivo, é potentemente expressivo, pois o amor de uma alma por outra alma só em unidade de espírito pode falar.
Alma minha é a fala daquele que noutro ser fundiu e confundiu a sua alma; por isso lhe chama sua.
Partindo-se ela deste mundo, foi como se um pedaço da própria alma com ela se partisse também.
Profundo significado, esse das duas primeiras palavras do soneto magistral:
Alma minha gentil…
Note-se também a delicadeza do qualificativo, tão doce de pronunciar e tão suave na expressão de quem ternamente chama pela alma de sua alma: gentil.
Aprecie-se, depois, aquele advérbio eternamente, aplicado ao voto de que a alma querida, que se foi cá da Terra, repouse na eternidade celestial:
Repousa lá no céu eternamente…
A tal anseio de eternidade responde bem o desejo de vida “sempre triste” para a outra parte de alma que cá ficou.
Ao repouso eterno da alma ida corresponde a tristeza perene da alma sofredora no Mundo:
E viva eu cá na Terra sempre triste.
Mas a ânsia da presença perdida faz que o Poeta exprima um rogo, uma súplica.
E pede, em nome da pureza do seu amor ardente (pureza que os olhos documentavam), pede que, se lá no céu houver lembrança da Terra, esse amor não seja olvidado, pois a sua pureza será, decerto, penhor de eternidade:
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças de aquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.
Morreu para os seus olhos aquela visão pura…
Ficou irremediável a mágoa causada pela morte da amada. Mas, se essa dor (posto que pequena na estimativa celestial) ainda algum valor puder ter, seja ela a credencial para um rogo a Deus - o de que não demore o encontro no Céu!
E assim, o Poeta suplica:
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
Atente-se bem na intenção com que o grande Lírico vincou a dolorosa brevidade da vida que Deus marcou à alma da sua amada.
Logo no princípio do soneto, o Poeta diz:
Alma minha gentil, que te partiste,
Tão cedo…
E é insistindo nesta prematuridade da morte da sua querida que o Poeta remata a poesia, arquitetando um contraste admirável, decomponível neste raciocínio, ia a dizer, neste raciocínio de amor: Deus encurtou-te a existência, levou-te bem cedo desta vida. Esse Deus, decerto, ouvirá o teu rogo de fazer tão breve o meu penar na terra, em saudade por ti, como breve foi o teu viver.
Roga a Deus, que teus anos encurtou, …
Mas repare-se: o amor do Poeta era puro. Era só de olhar:
Não te esqueças de aquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.
Primores expressionais do soneto camoniano: suavidade, delicadeza, intensidade emocional, síntese sentimental, simplicidade de termos, naturalidade incomparável.
No ponto de vista estilístico, este soneto é uma das mais belas flores de lirismo em Língua portuguesa.
Contudo, este soneto já tem exasperado os eruditos impenetráveis à beleza, aos “sinaleiros” do trânsito dos sons.
O “sinaleiro” manda parar o carro do soneto, logo ao princípio da marcha, porque há ali um encontro ilegal de sílabas:
Alma minha…
Camões escreveu isto com a mesma veemência com que diria vida minha, amor meu, amada minha.
Esqueceu-se dos “gramaticões” inflexivos, que olham mais à letra do que ao espírito expressional.
Mas prossigamos a marcha. Acabemos de uma vez para sempre com a estultícia de, com uma irreverente e materialista pseudo-emenda … estragar o talvez mais belo soneto em Língua portuguesa.
Estou em crer que o Poeta, no fogo da inspiração, não reparou nesta ninharia cacofónica, para sempre alçada à categoria de cacófato exemplar.
(Afinal, depende muito da malícia do leitor ou do ouvinte a junção fónica de sentido pouco recomendável …).
Pertence à malícia a responsabilidade de cacofonias que a inocência nem sempre descobre.
Deverei agora ajuntar que o apaixonado Poeta Luís de Camões não poderia conciliar a expressão de um amor puro com a malícia de uma cacofonia que os retóricos exagerados apontam desconsoladamente em: alma minha.
O quilate do verso não está no som do conjunto “ma minha”, mas no conjunto dessas duas palavras, alma minha, como tradutoras de amor que faz de duas almas uma só.
Como se sabe, este soneto de Camões está traduzido em várias línguas.
Pois nessas várias línguas o valor expressional, se se mantém, não é pelo som mas pelo sentido.
Vou à estante buscar a tradução inglesa e começo a ler:
“My gentle spirit … “
Quando o tradutor inglês escreve my spirit, procura traduzir a alma minha e, se sim ou não consegue o mesmo valor significativo, não é por ter ou não ter evitado a cacofonia.
Alguém aventou que no tempo de Camões o que se dizia era teta.
Para prova lembrou-se (estrofe XXXVI, canto II, de Os Lusíadas):
“Os crespos fios de ouro se esparziam
Pelo colo, que a neve escurecia;
Andando, as lácteas tetas lhe tremiam.”
Em resumo: embora antes e no tempo de Camões existisse o termo que eufemicamente se substitui por “peito”, “peitos” ou “seios”, o caso é que a pseudo-cacofonia de “alma minha” só está nos ouvidos impenetráveis à beleza expressional.
Repito: a cacofonia não vale como som que é. O que vale é o poder expressivo do conjunto.
Mais ainda: a expressão “alma minha” é tão natural que ela aparece no próprio espanhol de Camões.
O Poeta, em verso castelhano, escreveu, pondo na boca da mulher do príncipe herdeiro, D. João, quando ele morreu:
“Alma y primero amor del alma mia … “
Ora, eu creio que os “retóricos” rabugentos porão de lado o pseudocacófato da “alma minha” perante este espanhol - amor del alma mia.
Acarinhe-se, pois, alma mia …
Exalte-se, até, my spirit …
… Mas não se enjeite, nunca, alma minha gentil que te partiste …. flor maior do lirismo Camoniano!
Carlos Fiúza
Esta beleza eterna, por mais que se conheça, sempre nos oferece novos aspetos de atração.
Se os espíritos afogados na erudição camoniana me permitem, vou tentar comentar esteticamente este celebérrimo soneto, e ao mesmo tempo procurar desmontar a sua tão “celebrada” cacofonia.
E como os meus comentários vão ser espontâneos, ao sabor da reação estética do momento, pode ser que deste meu contacto sentimental algum pouco de interpretação poética realize.
Diz o soneto:
Alma minha gentil que te partiste,
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no céu eternamente,
E viva eu cá na Terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças de aquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E, se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te
Quão cedo de meus olhos te levou.
Bonitos versos! - exclamará alguma dama sonhadora.
Perfeitos versos! - comentará um “metrificador encartado”, ajuntando criticamente: À parte o senãozinho cacofónico - “alma minha”, perfeitos versos, na verdade.
Por mim, direi:
Sim, bonitos e perfeitos. Mas só isso? Muito mais do que isso, e mais do que sou capaz de comentar estilisticamente:
Logo de entrada, o vocativo Alma minha é profundamente expressivo, é potentemente expressivo, pois o amor de uma alma por outra alma só em unidade de espírito pode falar.
Alma minha é a fala daquele que noutro ser fundiu e confundiu a sua alma; por isso lhe chama sua.
Partindo-se ela deste mundo, foi como se um pedaço da própria alma com ela se partisse também.
Profundo significado, esse das duas primeiras palavras do soneto magistral:
Alma minha gentil…
Note-se também a delicadeza do qualificativo, tão doce de pronunciar e tão suave na expressão de quem ternamente chama pela alma de sua alma: gentil.
Aprecie-se, depois, aquele advérbio eternamente, aplicado ao voto de que a alma querida, que se foi cá da Terra, repouse na eternidade celestial:
Repousa lá no céu eternamente…
A tal anseio de eternidade responde bem o desejo de vida “sempre triste” para a outra parte de alma que cá ficou.
Ao repouso eterno da alma ida corresponde a tristeza perene da alma sofredora no Mundo:
E viva eu cá na Terra sempre triste.
Mas a ânsia da presença perdida faz que o Poeta exprima um rogo, uma súplica.
E pede, em nome da pureza do seu amor ardente (pureza que os olhos documentavam), pede que, se lá no céu houver lembrança da Terra, esse amor não seja olvidado, pois a sua pureza será, decerto, penhor de eternidade:
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças de aquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.
Morreu para os seus olhos aquela visão pura…
Ficou irremediável a mágoa causada pela morte da amada. Mas, se essa dor (posto que pequena na estimativa celestial) ainda algum valor puder ter, seja ela a credencial para um rogo a Deus - o de que não demore o encontro no Céu!
E assim, o Poeta suplica:
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
Atente-se bem na intenção com que o grande Lírico vincou a dolorosa brevidade da vida que Deus marcou à alma da sua amada.
Logo no princípio do soneto, o Poeta diz:
Alma minha gentil, que te partiste,
Tão cedo…
E é insistindo nesta prematuridade da morte da sua querida que o Poeta remata a poesia, arquitetando um contraste admirável, decomponível neste raciocínio, ia a dizer, neste raciocínio de amor: Deus encurtou-te a existência, levou-te bem cedo desta vida. Esse Deus, decerto, ouvirá o teu rogo de fazer tão breve o meu penar na terra, em saudade por ti, como breve foi o teu viver.
Roga a Deus, que teus anos encurtou, …
Mas repare-se: o amor do Poeta era puro. Era só de olhar:
Não te esqueças de aquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.
Primores expressionais do soneto camoniano: suavidade, delicadeza, intensidade emocional, síntese sentimental, simplicidade de termos, naturalidade incomparável.
No ponto de vista estilístico, este soneto é uma das mais belas flores de lirismo em Língua portuguesa.
Contudo, este soneto já tem exasperado os eruditos impenetráveis à beleza, aos “sinaleiros” do trânsito dos sons.
O “sinaleiro” manda parar o carro do soneto, logo ao princípio da marcha, porque há ali um encontro ilegal de sílabas:
Alma minha…
Camões escreveu isto com a mesma veemência com que diria vida minha, amor meu, amada minha.
Esqueceu-se dos “gramaticões” inflexivos, que olham mais à letra do que ao espírito expressional.
Mas prossigamos a marcha. Acabemos de uma vez para sempre com a estultícia de, com uma irreverente e materialista pseudo-emenda … estragar o talvez mais belo soneto em Língua portuguesa.
Estou em crer que o Poeta, no fogo da inspiração, não reparou nesta ninharia cacofónica, para sempre alçada à categoria de cacófato exemplar.
(Afinal, depende muito da malícia do leitor ou do ouvinte a junção fónica de sentido pouco recomendável …).
Pertence à malícia a responsabilidade de cacofonias que a inocência nem sempre descobre.
Deverei agora ajuntar que o apaixonado Poeta Luís de Camões não poderia conciliar a expressão de um amor puro com a malícia de uma cacofonia que os retóricos exagerados apontam desconsoladamente em: alma minha.
O quilate do verso não está no som do conjunto “ma minha”, mas no conjunto dessas duas palavras, alma minha, como tradutoras de amor que faz de duas almas uma só.
Como se sabe, este soneto de Camões está traduzido em várias línguas.
Pois nessas várias línguas o valor expressional, se se mantém, não é pelo som mas pelo sentido.
Vou à estante buscar a tradução inglesa e começo a ler:
“My gentle spirit … “
Quando o tradutor inglês escreve my spirit, procura traduzir a alma minha e, se sim ou não consegue o mesmo valor significativo, não é por ter ou não ter evitado a cacofonia.
Alguém aventou que no tempo de Camões o que se dizia era teta.
Para prova lembrou-se (estrofe XXXVI, canto II, de Os Lusíadas):
“Os crespos fios de ouro se esparziam
Pelo colo, que a neve escurecia;
Andando, as lácteas tetas lhe tremiam.”
Em resumo: embora antes e no tempo de Camões existisse o termo que eufemicamente se substitui por “peito”, “peitos” ou “seios”, o caso é que a pseudo-cacofonia de “alma minha” só está nos ouvidos impenetráveis à beleza expressional.
Repito: a cacofonia não vale como som que é. O que vale é o poder expressivo do conjunto.
Mais ainda: a expressão “alma minha” é tão natural que ela aparece no próprio espanhol de Camões.
O Poeta, em verso castelhano, escreveu, pondo na boca da mulher do príncipe herdeiro, D. João, quando ele morreu:
“Alma y primero amor del alma mia … “
Ora, eu creio que os “retóricos” rabugentos porão de lado o pseudocacófato da “alma minha” perante este espanhol - amor del alma mia.
Acarinhe-se, pois, alma mia …
Exalte-se, até, my spirit …
… Mas não se enjeite, nunca, alma minha gentil que te partiste …. flor maior do lirismo Camoniano!
Carlos Fiúza
05 maio 2011
Citações ao sabor da crise: Oliveira Martins - Fazendo tudo de novo
(...)
À medida que tudo caía e o chão, nivelado pelos terramotos de seis anos, pedia a régua e o esquadro do matemático construtor, o marquês de Pombal, rico pelos quintos do Brasil, levantava a nova cidade utilitária e abstracta.
Foi em Junho de 59 que o risco de Lisboa mereceu a sua aprovação. Em breves anos se ergueu do seio das ruínas a mole das construções anónimas: as ruas em alinhamentos rectos, as praças rectangulares, as fachadas simétricas e monótonas, as arcadas clássicas suportando os muros lisos, fendidos por janelas regulares e simples, os edifícios públicos centralizados em torno do Terreiro do Paço, que sob o nome de Praça do Comércio recebia no seu centro a estátua insípida do pseudo-fundador de Salento. Não se reedificava Lisboa: erguia-se, no lugar da antiga, uma nova cidade, porque Portugal, a que o jesuitismo quebrou a tradição da sua vida histórica, veio, desde o século xvii até aos nossos dias, de revoluções em revoluções, fazendo tudo de novo (1640, 1755, 1834). Árvore sem raízes, qualquer sopro abala a construção inteira, e depois de cada terramoto, os estadistas, perante a ausência de vida colectiva, podem livremente seguir os impulsos do seu próprio pensamento. A sociedade estéril e muda, somente pede alguém que a governe e a faça feliz; recebe tudo, aclamando os audazes. A grande catástrofe do século xvi embrutecera-a; corrompera-lhe o carácter, quando a encontraram assim aflita; e na sua miséria mesquinha e torpe, conservou apenas o messianismo sebastianista como fé, esperança, e princípio de coesão espontânea.
(...)
Oliveira Martins, in "o terramoto", História de Portugal
À medida que tudo caía e o chão, nivelado pelos terramotos de seis anos, pedia a régua e o esquadro do matemático construtor, o marquês de Pombal, rico pelos quintos do Brasil, levantava a nova cidade utilitária e abstracta.
Foi em Junho de 59 que o risco de Lisboa mereceu a sua aprovação. Em breves anos se ergueu do seio das ruínas a mole das construções anónimas: as ruas em alinhamentos rectos, as praças rectangulares, as fachadas simétricas e monótonas, as arcadas clássicas suportando os muros lisos, fendidos por janelas regulares e simples, os edifícios públicos centralizados em torno do Terreiro do Paço, que sob o nome de Praça do Comércio recebia no seu centro a estátua insípida do pseudo-fundador de Salento. Não se reedificava Lisboa: erguia-se, no lugar da antiga, uma nova cidade, porque Portugal, a que o jesuitismo quebrou a tradição da sua vida histórica, veio, desde o século xvii até aos nossos dias, de revoluções em revoluções, fazendo tudo de novo (1640, 1755, 1834). Árvore sem raízes, qualquer sopro abala a construção inteira, e depois de cada terramoto, os estadistas, perante a ausência de vida colectiva, podem livremente seguir os impulsos do seu próprio pensamento. A sociedade estéril e muda, somente pede alguém que a governe e a faça feliz; recebe tudo, aclamando os audazes. A grande catástrofe do século xvi embrutecera-a; corrompera-lhe o carácter, quando a encontraram assim aflita; e na sua miséria mesquinha e torpe, conservou apenas o messianismo sebastianista como fé, esperança, e princípio de coesão espontânea.
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Oliveira Martins, in "o terramoto", História de Portugal
04 maio 2011
Assalto à Linha do Tua. Outro?
Linha do Tua: Assaltantes de carris apanhados em flagrante
A GNR de Carrazeda de Ansiães deteve em flagrante delito dois indivíduos a furtar carris no troço da linha do Tua que vai ficar submerso pela barragem de Foz Tua, divulgou hoje aquela força de segurança.
Os assaltantes foram apanhados na noite de domingo, próximo do apeadeiro de Santa Luzia, com 17 carris em ferro com cerca de cinco metros de comprimento carregados num veículo de mercadorias, de acordo com informação das relações públicas da GNR de Bragança.
Os carris furtados e a viatura utilizada pelos suspeitos foram apreendidos no local.
Daqui
A GNR de Carrazeda de Ansiães deteve em flagrante delito dois indivíduos a furtar carris no troço da linha do Tua que vai ficar submerso pela barragem de Foz Tua, divulgou hoje aquela força de segurança.
Os assaltantes foram apanhados na noite de domingo, próximo do apeadeiro de Santa Luzia, com 17 carris em ferro com cerca de cinco metros de comprimento carregados num veículo de mercadorias, de acordo com informação das relações públicas da GNR de Bragança.
Os carris furtados e a viatura utilizada pelos suspeitos foram apreendidos no local.
Daqui
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