08 maio 2011

Cacófato, “Alma minha gentil…”?! (Carlos Fiúza)

Há coisas que são eternas e uma delas é a beleza da poesia…
Esta beleza eterna, por mais que se conheça, sempre nos oferece novos aspetos de atração.
Se os espíritos afogados na erudição camoniana me permitem, vou tentar comentar esteticamente este celebérrimo soneto, e ao mesmo tempo procurar desmontar a sua tão “celebrada” cacofonia.
E como os meus comentários vão ser espontâneos, ao sabor da reação estética do momento, pode ser que deste meu contacto sentimental algum pouco de interpretação poética realize.

Diz o soneto:

Alma minha gentil que te partiste,
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no céu eternamente,
E viva eu cá na Terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças de aquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E, se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te
Quão cedo de meus olhos te levou.

Bonitos versos! - exclamará alguma dama sonhadora.
Perfeitos versos! - comentará um “metrificador encartado”, ajuntando criticamente: À parte o senãozinho cacofónico - “alma minha”, perfeitos versos, na verdade.
Por mim, direi:
Sim, bonitos e perfeitos. Mas só isso? Muito mais do que isso, e mais do que sou capaz de comentar estilisticamente:

Logo de entrada, o vocativo Alma minha é profundamente expressivo, é potentemente expressivo, pois o amor de uma alma por outra alma só em unidade de espírito pode falar.
Alma minha é a fala daquele que noutro ser fundiu e confundiu a sua alma; por isso lhe chama sua.
Partindo-se ela deste mundo, foi como se um pedaço da própria alma com ela se partisse também.
Profundo significado, esse das duas primeiras palavras do soneto magistral:

Alma minha gentil…

Note-se também a delicadeza do qualificativo, tão doce de pronunciar e tão suave na expressão de quem ternamente chama pela alma de sua alma: gentil.
Aprecie-se, depois, aquele advérbio eternamente, aplicado ao voto de que a alma querida, que se foi cá da Terra, repouse na eternidade celestial:

Repousa lá no céu eternamente…

A tal anseio de eternidade responde bem o desejo de vida “sempre triste” para a outra parte de alma que cá ficou.
Ao repouso eterno da alma ida corresponde a tristeza perene da alma sofredora no Mundo:

E viva eu cá na Terra sempre triste.

Mas a ânsia da presença perdida faz que o Poeta exprima um rogo, uma súplica.
E pede, em nome da pureza do seu amor ardente (pureza que os olhos documentavam), pede que, se lá no céu houver lembrança da Terra, esse amor não seja olvidado, pois a sua pureza será, decerto, penhor de eternidade:

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças de aquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.

Morreu para os seus olhos aquela visão pura…
Ficou irremediável a mágoa causada pela morte da amada. Mas, se essa dor (posto que pequena na estimativa celestial) ainda algum valor puder ter, seja ela a credencial para um rogo a Deus - o de que não demore o encontro no Céu!

E assim, o Poeta suplica:

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

Atente-se bem na intenção com que o grande Lírico vincou a dolorosa brevidade da vida que Deus marcou à alma da sua amada.
Logo no princípio do soneto, o Poeta diz:

Alma minha gentil, que te partiste,
Tão cedo…

E é insistindo nesta prematuridade da morte da sua querida que o Poeta remata a poesia, arquitetando um contraste admirável, decomponível neste raciocínio, ia a dizer, neste raciocínio de amor: Deus encurtou-te a existência, levou-te bem cedo desta vida. Esse Deus, decerto, ouvirá o teu rogo de fazer tão breve o meu penar na terra, em saudade por ti, como breve foi o teu viver.

Roga a Deus, que teus anos encurtou, …

Mas repare-se: o amor do Poeta era puro. Era só de olhar:

Não te esqueças de aquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.

Primores expressionais do soneto camoniano: suavidade, delicadeza, intensidade emocional, síntese sentimental, simplicidade de termos, naturalidade incomparável.
No ponto de vista estilístico, este soneto é uma das mais belas flores de lirismo em Língua portuguesa.

Contudo, este soneto já tem exasperado os eruditos impenetráveis à beleza, aos “sinaleiros” do trânsito dos sons.
O “sinaleiro” manda parar o carro do soneto, logo ao princípio da marcha, porque há ali um encontro ilegal de sílabas:

Alma minha…

Camões escreveu isto com a mesma veemência com que diria vida minha, amor meu, amada minha.
Esqueceu-se dos “gramaticões” inflexivos, que olham mais à letra do que ao espírito expressional.

Mas prossigamos a marcha. Acabemos de uma vez para sempre com a estultícia de, com uma irreverente e materialista pseudo-emenda … estragar o talvez mais belo soneto em Língua portuguesa.

Estou em crer que o Poeta, no fogo da inspiração, não reparou nesta ninharia cacofónica, para sempre alçada à categoria de cacófato exemplar.
(Afinal, depende muito da malícia do leitor ou do ouvinte a junção fónica de sentido pouco recomendável …).
Pertence à malícia a responsabilidade de cacofonias que a inocência nem sempre descobre.

Deverei agora ajuntar que o apaixonado Poeta Luís de Camões não poderia conciliar a expressão de um amor puro com a malícia de uma cacofonia que os retóricos exagerados apontam desconsoladamente em: alma minha.

O quilate do verso não está no som do conjunto “ma minha”, mas no conjunto dessas duas palavras, alma minha, como tradutoras de amor que faz de duas almas uma só.

Como se sabe, este soneto de Camões está traduzido em várias línguas.
Pois nessas várias línguas o valor expressional, se se mantém, não é pelo som mas pelo sentido.
Vou à estante buscar a tradução inglesa e começo a ler:

“My gentle spirit … “

Quando o tradutor inglês escreve my spirit, procura traduzir a alma minha e, se sim ou não consegue o mesmo valor significativo, não é por ter ou não ter evitado a cacofonia.

Alguém aventou que no tempo de Camões o que se dizia era teta.
Para prova lembrou-se (estrofe XXXVI, canto II, de Os Lusíadas):

“Os crespos fios de ouro se esparziam
Pelo colo, que a neve escurecia;
Andando, as lácteas tetas lhe tremiam.”

Em resumo: embora antes e no tempo de Camões existisse o termo que eufemicamente se substitui por “peito”, “peitos” ou “seios”, o caso é que a pseudo-cacofonia de “alma minha” só está nos ouvidos impenetráveis à beleza expressional.
Repito: a cacofonia não vale como som que é. O que vale é o poder expressivo do conjunto.

Mais ainda: a expressão “alma minha” é tão natural que ela aparece no próprio espanhol de Camões.
O Poeta, em verso castelhano, escreveu, pondo na boca da mulher do príncipe herdeiro, D. João, quando ele morreu:

“Alma y primero amor del alma mia … “

Ora, eu creio que os “retóricos” rabugentos porão de lado o pseudocacófato da “alma minha” perante este espanhol - amor del alma mia.

Acarinhe-se, pois, alma mia …
Exalte-se, até, my spirit …

… Mas não se enjeite, nunca, alma minha gentil que te partiste …. flor maior do lirismo Camoniano!


Carlos Fiúza

8 comentários:

Anónimo disse...

Caro Carlos Fiúza,

ANÁLISE DO SONETO – “Alma minha gentil…” – PARTE I

Este poema (soneto) não intitulado, escrito por Luís de Camões, apresenta como tema principal a paixão do sujeito poético para coma sua amada, que, para tristeza, morreu jovem. Como a amada do sujeito poético já se despediu para sempre, o tom desse poema é simplesmente revoltado por um ambiente amargo e triste. O poema também tem a função de revelar a saudade do sujeito poético à sua amada que, provavelmente, o pode ouvir do céu. O poema é constituído por quatro estrofes, duas quadras e dois tercetos. As duas quadras apresentam rima interpolada e emparelhada e os dois tercetos rima cruzada.

A primeira estrofe introduz a situação dos amados. Logo no início do poema, o sujeito poético invoca a sua amada emocionadamente através da designação amorosa “alma minha gentil”, dando-nos a conhecer que o poema é dedicado a uma pessoa que ele ama com alma. Depois desta apóstrofe, também no primeiro verso, revela que ela já tinha falecido. O verbo “partiste” neste contexto tem o significado de morrer, mas o sujeito poético não quis utilizar “morrer” para nos dizer que a sua amada só partiu para um mundo diferente, mas continuará viva. No segundo verso, o advérbio de intensidade “tão” reforça o adjectivo “cedo” dizendo-nos que ela morreu ainda muito nova. Nos dois versos seguintes o sujeito poético mostra outra vez que acredita que a sua amada continua viva através do verbo “repousa”; o determinante demonstrativo “lá” fez o céu parecer não tão misterioso por ser o local onde ela vive. Note-se que “Céu” é escrito com maíuscula referindo-se, possivelmente, ao “Paraíso”. Os advérbios “eternamente” e “sempre” são muito intensos, ambos são sem fim, com a ausência da noção do tempo. Os dois amados estão assim separados pelo céu e terra, pelo que não se vislumbra reencontro.

Na estrofe seguinte, o sujeito poético faz um pedido para a sua amada não o esquecer. O “assento etéreo” é referido como “céu”. Ele suplica para que no céu as pessoas vindas da terra continuem a ter a memória do que se passou com eles quando estavam na terra, para que a sua amada não se esqueça “...daquele amor ardente / Que já nos olhos meus tão puro viste” (es2,vs3-4). A expressão do “amor ardente” está a realçar o quão apaixonado o sujeito poético está pela sua amada, amor que está escrito nos olhos puros dele. Como o adjectivo “puro” significa sem mistura, e os “olhos” são a porta para a alma e coração, caracterizando os seus “olhos” como sendo “puro(s)”, ele quer dizer que tudo nele é somente a paixão verdadeira e honesta por ela.

Respeitosos cumprimentos,

LVS

(CONTINUA, …)

Anónimo disse...

ANÁLISE DO SONETO – “Alma minha gentil…” – PARTE II

(CONTINUAÇÃO, …)

O terceto que vem a seguir diz exactamente como ele ficou depois de ela ter morrido: doloroso, magoado e sem remédio, que são apresentados em forma dum assíndeto no último verso da estrofe “da mágoa, sem remédio...”. A amada do sujeito poético é como se fizesse parte física e psicológica dele, porque, depois de a perder, ele ficou “sem remédio”.

Na última estrofe do poema, o sujeito poético pede a sua amada para pedir a Deus para que ele morra também mais cedo, para poder ver a sua amada. Na segunda parte do primeiro verso, houve uma inversão “..que teus anos encurtou”. O verbo “encurtou” está, mais uma vez a referir que a morte da sua amada é jovem de mais, a sua vida foi curta de mais. O segundo verso é o pedido que ele quer que a sua amada faça a Deus, o advérbio de intensidade “tão” serve para enfatizar “cedo” que ele também quer morrer, e o desejo que ele quer ver a sua amada.

Finalmente, o sujeito poético não se esqueceu de relembrar outra vez a insatisfação que sente pelo facto de o destino ter levado a vida da sua amada demasiado depressa. “Meus olhos” é uma sinédoque, “olhos” é apenas uma parte do corpo mas está a representar o corpo todo, os olhos não podem ver a sua amada é mesma coisa de estar separada dela. Neste verso também o advérbio “cedo” que se está a referir à morte da sua amada, este “cedo”, juntamente com o do verso anterior, formam uma epanalepse. Por fim, a utilização de vários pronomes de segunda pessoa “te” ao longo do soneto faz-nos pensar que no pensamento do sujeito poético, no mundo só existia ele e a sua amada. Por isso, é talvez este o maior e o mais belo pensamento do Ser humano: a idiossincrasia do Amor!...

Respeitosos cumprimentos,

LVS

Anónimo disse...

Esta análise do senhor LVS é demasiadamente académica. Qualquer aluno do secundário faz esta análise-tipo e portanto é uma análise standardizada. Gostava de ver era o que os senhores HR e CF têm a dizer mas sem serem académicos como o sr. LVS.
PT

Carlos disse...

“Sentimento” ou “Saber”?

E ainda nos dizem que “todos os caminhos vão dar a Roma”…

…Por incapacidade (leia-se: “mais olhos que barriga”) devo ter tomado um “carreiro”!

Não sendo “académico”, deixei falar o “coração”…

E como este não é a “sede” do saber…

…não atingi nem a “periferia” da análise que pretendia… ficando-me, tão só, pelos subúrbios!

...A bota era bem maior que o pé!

O meu caro LVS, pelo contrário, soube escolher a avenida…

…o “Circo Máximo” foi o seu horizonte!


Cumprimentos
Carlos Fiúza

Anónimo disse...

Há cá cada comentarista. Não sabem dizer nada de útil. Limitam-se a mandar umas "postas de pescada" que melhor era estarem calados.

Um carrazedense

Anónimo disse...

Só uma pergunta: quando se copia não se deve pôr aspas?

Anónimo disse...

Caro Carlos Fiúza,

Não. Não foi a “avenida…" a escolhida, mas tão só, uma singela frincha, talvez, idêntica ao tipo da chave das fechaduras da casa típica transmontana. Mas, não obstante essa brecha ser mais pequenita que o “Postigo da Traição” do Castelo e Vila de Ansiães permitiu-me, entre outros, alcançar novos horizontes, à guisa do soneto com que, o meu caro, me saciou o Ego, bem como o auto-conceito e a auto-estima. Bem-haja, por isso!

Respeitosos cumprimentos

LVS

Anónimo disse...

Será a avenida do deslumbramento ou pura ficção?