30 setembro 2016

A Casa de milhares de viticultores do Douro


O Estado Novo aplica o corporativismo ao Douro e ao vinho do Porto com a criação da Casa do Douro em 1932, do Instituto do Vinho do Porto e do Grémio dos Exportadores. Depois do Marquês de Pombal, O Estado volta a assumir um papel preponderante na gestão do sector. Nos anos seguintes, foram-lhe atribuídos poderes para elaborar a atualização do cadastro, distribuir o benefício, fornecer aguardente aos produtores, fiscalizar o vinho na região demarcada e conceder as guias para os vinhos serem transportados para o Entreposto de Gaia conforme decreto de 30 de Abril de 1940. O Instituto do Vinho do Porto passou a controlar a qualidade e a promoção externa. A paz forçada do sector suplantou o longo período de penúria dos anos 40 e 50. Depois de 1965, a procura externa começa a aumentar, o que permitiu algum desafogo e a opção pelo cultivo da vinha foi generalizada a dezenas de milhares de produtores.
Com o 25 de abril de 1974, o modelo corporativo foi extinto. A Casa Do Douro de inscrição obrigatória chegou a representar 40 mil viticultores. Muita da população a viver no Douro era proprietária de pequenas explorações e a instituição foi o guarda-chuva dos seus rendimentos enquanto associados nesta forte estrutura.
Os problemas importantes iniciaram-se em 1990 com a compra das ações da Real Companhia Velha (RCV). O objetivo era para além do papel de regulação e de representação dos pequenos e médios vitivinicultores, intervir no mercado do comércio e exportação. "O negócio" foi “encorajado” e “abençoado” pelo então primeiro-ministro Cavaco Silva. A Casa do Douro nunca conseguiu fazer valer os seus direitos enquanto acionista, comprou uma "guerra" com os comerciantes que a acusaram de ingerência no outro lado do negócio e marcou o início do descalabro financeiro da instituição que chegou a ter orçamentos superiores a 150 milhões de euros e foi mais poderosa do que muitos ministérios.
Em 1995, a região do Douro viu alterado o seu quadro institucional. Passou a estar dotada de um organismo interprofissional, - a Comissão Interprofissional da Região Demarcada do Douro (CIRDD), no qual tinham assento, em situação de absoluta paridade, os representantes da lavoura e do comércio, com o objetivo comum de disciplinar e controlar a produção e comercialização dos vinhos da região com direito a denominação de origem.
Este modelo sofreu nova alteração com a substituição, em 2003, da CIRDD por um Conselho Interprofissional integrado no Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP). Em termos formais, o IVDP faz a supervisão da viticultura duriense cabendo-lhe a certificação dos vinhos da Região Demarcada e a disciplina do sector na função fiscalizadora e sancionatória bem como, as responsabilidades de gestão e coordenação da vitivinicultura duriense.
Para suspender uma penhora sobre a Casa do Douro e os seus armazéns, colocou-se à venda, em 2004, um milhão de garrafas de vinho do Porto das colheitas de 1963 e 1964, permitindo um encaixe financeiro de 35 milhões de euros. Cada garrafa custava 40 euros (1963) e 35 euros (1964) e apenas os cidadãos naturais da Região Demarcada do Douro e seus residentes podiam comprar esse vinho. Ao todo, o produto em venda representou 3% dos stocks de vinho do Porto da Casa.
Em 2008, o IVDP denunciou o protocolo que existia para a gestão e fornecimento de dados do cadastro e o Ministério da Agricultura mandou executar judicialmente os créditos que alguns organismos estatais tinham sobre a organização, dando um sinal claro que pretendia deixar de contar com a instituição. Neste mesmo ano foi vendida mais de metade da participação que detinha na RCV à Global Wines. Depois de perder o controlo sobre a aguardente, a certificação e fiscalização dos vinhos do Douro e Porto, só restava o cadastro, cujo valor era incalculável, uma vez que acumulava informações relativas a mais de setenta anos de atividade.
O ministro das finanças, Vítor Gaspar, face às dívidas aconselhava a instituição a fechar portas. A Casa do Douro pública foi extinta em dezembro de 2014. Posteriormente, foi aberto um procedimento concursal para a sucessão da Casa do Douro ainda não completamente resolvido.

23 setembro 2016

A humilhação coletiva de uma cidade


Como vimos cerca de duas centenas e meia de pessoas foram castigadas pelos tumultos do Porto em reação à criação Real Companhia de Vinhos do Alto Douro, entre as quais, cerca de três dezenas condenadas à morte.
O Cabido da Sé do Porto apelou à clemência por intercessão das mais altas individualidades do reino, mas de nada valeu. Em cartas dirigidas ao rei, aos seus irmãos, ao Cardeal patriarca, ao Núncio Apostólico, ao Bispo eleito do Porto, ao Duque de Lafões e ao próprio Sebastião José de Carvalho e Melo afirmava-se que os factos foram extrapolados e que era apenas uma ínfima parte do Povo que interferiu nos acontecimentos e nunca houvera a intenção de ofender sua majestade.
A sentença foi aplicada de forma implacável com a única nuance do marquês ordenar à Misericórdia do Porto que tomasse conta dos órfãos que eram deixados, consequência da condenação à pena capital dos seus progenitores, num total de vinte e três. Resolução pouco importante face à natureza dos castigos, apenas serviria para mostrar à opinião pública a benevolência do Rei.
A seguinte grande humilhação coletiva foi o de sujeitar a cidade invicta a um controlo militar. No dia da chegada do Procurador Real com ele veio o Regimento de Dragões de Aveiro. segundo os autos exarados tivera um breve confronto com a população ciosa ainda da sua liberdade. A este primeiro contingente juntaram-se os Regimentos de Infantaria de Bragança e de Viana do Castelo e o de Cavalaria de Chaves, num total de 3000 homens. Acresce a este castigo um mais pesado que consistiu na obrigação de aboletamento de todos aqueles militares, isto é a obrigação de pagamento do seu alojamento e alimentação. O pagamento era suportado por imposto a que se denominou “contribuição militar” que aos poucos os habituais privilegiados foram saindo, restando o povo. Foi, pois, sobre a arraia-miúda que recaiu a obrigatoriedade do pagamento do aboletamento chegando a Câmara a queixar-se de famílias terem de vender roupa e móveis. Estranho fado este, trezentos anos volvidos, porque quem paga são os mesmos de sempre
No dia 10 de abril de 1757 foi decretado por carta real a extinção da Casa dos Vinte e Quatro que era o organismo representativo dos mesteres e que indicava à Câmara o juiz do Povo, verdadeiro governador da cidade. Este privilégio só seria restituído à cidade em 4 de abril de 1795 por decreto do príncipe regente.
A vereação foi substituída logo após o motim e este facto tem também de ser encarada como medida punitiva muito gravosa.
Por último, a execução dos condenados à pena capital teve foros de crueldade que visaram também o castigo coletivo e a humilhação. Assim os cadáveres esquartejados foram expostos durante largos dias e só após vários pedidos, o presidente da Alçada se dignou retirar as cabeças dos condenados e entretanto colocados nas saídas da cidade. Somente a 13 de agosto de 1760, quatro meses decorridos, foram retiradas as forcas espalhadas pelas ruas e subúrbios desta cidade” desde o tempo dos motins.

22 setembro 2016

Desobedecer ao rei é estar condenado à morte



Contada a história dos incidentes na forma de protestos contra a Companhia que começou com a revolta das tabernas e degenerou num levantamento populares das gentes do Porto a 23 de fevereiro de 1757, a seguir se narra a resposta do ministro de D. José.
A reação prova que ele não foi colhido de surpresa e estaria com certeza a par da insatisfação da população portuense. A abolição regional de um instituto que lhe era caro e se enquadrava na filosofia da política económica, protecionista e de monopólio que adotara para levar por diante o desenvolvimento do país e que era pedra angular do exercício do seu magistério. Para o marquês que era adepto de um poder central forte não “podia transigir com a contestação às ordens reais por parte de uma plebe ignara”. 
Cinco dias passados, a 28 de fevereiro, assinava o decreto em que nomeava João Pacheco Pereira de Vasconcelos, “Dezembargador do Paço e do meo Conselho” e concede-lhe todos os poderes, nos seguintes termos “sou servido conferir-vos toda a juridisção para os devidos efeytos sem restricção alguma, ordenando a todos os ministros a quem expedires as referidas ordens, cumprão vossos mandados pronta e exatamente”. Os poderes são totais para restabelecer a ordem e punir todos os implicados de um alto vexame à cidade, na opinião de muitos, a disponibilidade de todas as tropas que o Desembargador necessitasse, o burgo teria de as sustentar e aquartelar, como se pode ler no decreto exarado a 3 de março de 1757. Era nomeada pelo rei uma Alçada liderada pelo desembargador e equipada de meios humanos e materiais para se fazer “justiça” isto é mostrar a todos que desobedecer às ordens do soberano era estar condenado à morte.
O decreto de 28 de fevereiro revela um primeiro juízo sobre a situação que não mais se viria a alterar e constitui documento base para os executores da justiça. Os acontecimentos do motim da quarta-feira de cinzas são “delictos tão atrozes” que só o “prompto e severo castigo que sirva de exemplo aos maos” pode servir à Coroa.
Para punir bem e depressa foram dar plenos poderes ao ministro do rei e seus acólitos e a devassa prolongou-se de 15 de março a 24 de setembro. O marquês de Pombal mostra sinais de impaciência e manifestou em missivas várias a morosidade da aplicação da justiça. Em 18 de Agosto, o desembargador assegurava ao marquês que a justiça seria tão pesada que não mais haveria rebeliões em Portugal. Enganar-se-ia, pois, cerca de um ano depois, a 3 de setembro de 1758, aconteceria o regicídio. No entanto, a punição exemplar e desproporcionada.
Apesar da oposição de alguns juízes do tribunal da Relação o crime de lesa-majestade e a sua punição como tal havia de prevalecer com a argumentação de que a majestade não consiste só na pessoa do rei, mas também nas suas leis.
A sentença é um instrumento de humilhação de uma cidade briosa no seu poder e ciosa da sua liberdade e privilégios ancestrais. Dos quatrocentos e sessenta e dois suspeitos, os autos remetem para duzentos e sessenta e cinco réus e prova-se “plenamente” o crime cometido pela plebe de “Alta Traição” pois “esquecidos alguns dos seus habitantes da Religião, e da devida Fidelidade, em que sempre se distinguiram os vassallos Portuguezes, se atreverão a comover com a sua astúcia uma grande parte do ínfimo povo, que animado pelas vozes, dos que o concitarão, formou um Tumulto”.  Continua a descrição pormenorizada dos incidentes referindo-se nomeadamente que foram proferidos insultos a sua majestade caindo no horroroso crime de “LESA MAGESTADE da primeira cabeça”.
Vinte e seis pessoas foram condenadas à morte por enforcamento; cento e quarenta e dois castigados com diversas penas que iam desde açoites, condenação a galés e confiscação de bens até à obrigatoriedade de assistir ao suplício dos sentenciados; sessenta e três foram condenados a seis meses de prisão: cento e noventa e cinco foram mandados soltar após diversas audiências e apenas trinta e seis foram absolvidos.

Seguidamente daremos conta dos motivos da redução das tabernas da cidade a um número certo e a confirmação absoluta da Companhia do Alto Douro, se apontam os principais cabecilhas e se refere o restante enredo deste tumulto.

20 setembro 2016

Viva El-rei! Viva o Povo! Morra a Companhia!


A crescente fama dos vinhos do Douro redunda em crise, que teve particular acutilância no início do século XVIII com o aumento da fraude que se torna generalizada pondo em causa a sua qualidade, levando à criação da Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro, instituída por Alvará Régio de 10 de Setembro de 1756. O aumento dos preços e a monopolização do setor redunda em revolta nas tabernas, numa primeira fase, e virá rapidamente para as ruas.
 Os motins do Porto contra a Companhia decorreram na primeira parte do mandato de Sebastião José de Carvalho e Melo (1750 a 1777) e constituíram um teste à autoridade do marquês. A cidade da “liberdade” e da pujança do livre comércio tinha as características para testar a força da autoridade do governante em ascensão e uma boa oportunidade para subjugar a natural e histórica insubmissão das suas gentes.
A narração dos acontecimentos apoia-se em duas fontes fundamentais – as informações ou contas dadas pela Câmara do Porto a el-rei acerca do motim e o texto da Alçada que relata pormenorizadamente o ocorrido. Há ainda uma outra versão escrita pelo padre Agostinho Rebelo da Costa, 30 anos depois, que terá de ser entendida como uma tentativa de ilibar o bom nome da cidade.
Vamos aos factos relatados pelo auto da Câmara.
Era uma normal Quarta-feira de Cinzas, do dia 23 de Fevereiro do ano de 1757. A celebração do dia santo implicava a observância de feriado obrigatório por parte da população e, por conseguinte, uma disponibilidade de um grande número de pessoas, pois as celebrações religiosas só estavam marcadas para a tarde desse dia.
Era manhã, “pelas dez horas e meya da manhaa se congregarão vários rapazes com algumas mulheres no Terrº da Cordoaria desta Cidade, e entrando amotinados pela porta do Olival com um lenço arvorado em huma vara romperão em altas vozes dizendo Viva El Rey, Viva o Povo, e Morra a Companhia”.
Encaminharam-se para a rua de S. Bento da Vitória na direção da Praça de S. Domingos, onde se concentraram largas centenas de pessoas. Nessa rua vivia o Juiz do Povo que foi forçado a acompanhar os manifestantes, apesar de se dizer doente. Na frente da multidão e levado numa cadeirinha onde foi obrigado a sentar-se ouvia incomodado a vozearia feita palavra de ordem da multidão “Viva El-rey! Viva o Povo! Morra a Companhia!”.
Seguiram pela Rua das Flores, Terreiro das Religiosas de S. Bento, Rua do Loureiro e Rua Chã onde vivia o Desembargador e Corregedor do Crime e que servia de Chanceler e Governador das Justiças, o mais alto representante do Poder na cidade invicta “aonde chegarão incorporados mais de sinco mil pessoas, cujo número constava de rapazes, gallegos, marinheiros, mulheres e alguns officiais e homens de Capote, que mostravão ser pessoas de baixa esfera, porem, a nenhum se vio arma de qualidade alguma”.
O governador desceu à rua e ouviu a multidão que procurou “sossegar com a madura prudência”. Para desmobilizar os ânimos cedeu nas reivindicações proclamando o livre comércio do vinho e a extinção da Companhia, esperando com otimismo que sua Majestade confirmasse esta resolução para que tomasse efeito legal. No regresso por onde vieram, a ira da multidão alimentada pelo deferimento conseguido, deu de caras com a casa do Provedor da Companhia, Luís Beleza de Andrade, e logo choveram pedradas para as janelas. De dentro e de súbito foram disparados dois a três tiros que provocaram ferimentos graves em duas pessoas, mas não puseram em perigo as suas vidas como referem os autos da Câmara. Maior furor se acendeu no Povo que, num abrir e fechar de olhos irrompeu pelas portas e destruiu o rés-do-chão e o jardim.
Igual ou ainda maior raivosa investida foi feita aos escritórios da Companhia, contíguos à residência do Provedor onde provocaram estragos, lançando para a rua diversos papéis e livros. E mais não se passou pois acudiu a Guarda a requerimento do Juiz de Fora que pacificamente, sem represálias violentas, a mando do seu capitão serenou os ânimos “impedindolhes a resolução de deytarem à rua o dinheiro da mesma Companhia que nellas se achava com a voz de ser o mesmo dinheiro pertencente a V. Majestade”. Nesta altura, os acontecimentos tinham juntado muita gente perfazendo mais de 20 000 pessoas.
O governador pediu a ajuda de outros magistrados para suster a fúria popular recomendando-lhes que usassem de toda a prudência. O tenente-coronel, responsável pela defesa da cidade entretanto chegado com diversos militares tomou uma posição defensiva fazendo dispersar as pessoas. Na versão da Câmara ouve ainda confrontos instigados por alguns arruaceiros de que resultaram alguns soldados feridos, destacando-se um com mais gravidade pois passados dois dias ainda estava doente.
Às três da tarde ordenou-se aos franciscanos que pusessem a procissão de penitência programada para aquele dia na rua para “divertir o povo”. Nada mais ocorreu mas a prevenção das forças de segurança prolongou-se.
As informações dadas pela Câmara do Porto a el-rei acerca do tumulto estão escritas com todos os pormenores e dão a ideia das movimentações se tornarem uma torrente crescente, difícil de suster, sempre na ideia de a única responsabilidade ter de ser abonada às classes baixas e dando sempre pouca importância aos factos graves considerando-os de pouca monta e fruto da inconsciência e pouco esclarecimento da multidão, pois “foi mais poderosa a ignorância que a vontade”. A desculpabilização das classes gradas da sociedade é uma constante. “Este inopinado sucesso que pomos na real presença de Vossa Majestade sendo de universal sentimento para toda a nobreza e homens bons d`esta cidade, se nos faz mais sensível, porque gloriando-se ella sempre de ter V. Majestade n`ella os mais obedientes e fiéis vassalos, com esta acção de um povo ignorante, poderá ficar em dúvida a obediência de todos...”
Ainda se relata que foi feita uma inquirição para saber se alguma Cabeça ou figura da cidade esteve implicada concluindo-se que não e todos os inquiridos lamentaram o sucedido. O relato prossegue com as razões de a Câmara não ter comparecido como instituição pois vários vereadores encontravam-se ausentes ou noutras tarefas, nomeadamente religiosas, tendo em conta o dia, os acontecimentos teriam sido tão rápidos que não houve tempo para fazer representar a instituição.
É a Câmara que explica, ainda o motivo por que foram tocados os sinos da Misericórdia a rebate, relatando dever-se a dois rapazes de pouca idade que se introduziram de forma oculta na Torre a que logo se acudiu impedindo-os e castigando-os.
O relato da edilidade aponta a causa dos excessos não se coibindo a afirmar que ela se encontra nas queixas da população com a Mesa da Administração da Companhia para o preço do vinho e sua qualidade.
A finalizar prostram-se aos pés de S. Majestade “com o mais profundo respeito” e ratificam a sua “fidelidade e obediência”.

O motim foi particularmente festejado pela população já que, como vimos, os populares pensaram ter conseguido a extinção da Companhia por parte da maior autoridade da cidade e o livre comércio dos vinhos. Foram afixados editais pelo burgo e a boa nova foi também dada através de pregões e ao rufo de tambores. A seguir há de vir a repressão brutal, que se quis exemplar.

17 setembro 2016

A revolta das tabernas


Antes da criação da Companhia pela Coroa, a iniciativa privada tentou ultrapassar a crise de que falámos. Bartholomeu Pancorbo, fidalgo espanhol, é uma figura chave neste processo pois combateu a hegemonia inglesa com a colocação dos vinhos em locais onde nunca tinham chegado, concretamente os países do Báltico, associando-se a um francês de nome Joseph Dumont. Contudo a falta dos denominados “cabedaes” acaba com o negócio.
Num segundo momento Luís Beleza de Andrade, proprietário na região e morador no Porto encabeça uma reunião de reflexão com outros proprietários sobre a grave crise que se abate no comércio de vinhos e todos procuram soluções para a debelar.
Entre os participantes, frei João de Mansilha propõe pela primeira vez a criação de uma região demarcada. Esta é a novidade que se revelaria de capital importância para a perseveração da qualidade e alicerce seguro do desenvolvimento futuro das vinhas.
Esta figura virá a ser o verdadeiro mentor da região demarcada do Douro porque se tornou o principal defensor da criação da Companhia no paço real e aportou as ideias mais fortes para a sua concretização.
Várias vontades se reuniram para consumar a criação de uma sociedade monopolista bem ao gosto da época. O Marquês de Pombal que não enjeita a oportunidade de incrementar a produção nacional em relação à concorrência estrangeira, impondo monopólios para esmagar a concorrência interna dominada pelos interesses ingleses. O empenhamento de Bartholomeu Pancorbo, uma voz sempre troante na defesa do vinho e as diligências na corte de frei João de Mansilha culminaram na elaboração em Agosto de 1756, no Porto, do alvará da Companhia, que tomou forma oficial em 10 de Setembro do mesmo ano.
As grandes empresas opõem-se pois sentem-se prejudicadas por interesses estabelecidos, mas numa primeira fase mantiveram silêncio.
Porém, em surdina, a revolta foi aumentando qual bola que rola pela neve.
As limitações impostas originaram a redução do número das tabernas e o consequente agravo dos taberneiros e, mesmo que clandestinamente quisessem fazer a distribuição encontrariam, por certo, “grandes dificuldades na obtenção do produto, face à exclusividade dos fornecimentos para venda ao ramo na cidade e zona circundante de que a Companhia era usufrutuária”.
A bola do protesto girava com mais dimensão, a que se juntavam novos rostos.
Os tanoeiros que trocaram o livre exercício da profissão pela requisição obrigatória da Companhia e sujeitos a um controle rigoroso; os arrais conhecedores da navegação do rio abaixo, rio acima viram limitada a requisição dos seus serviços à nova estrutura monopolista; os pequenos armazenistas que eram dizimados pelo imposto forçado.
A ira tornou-se imparável quando chegou ao sangue quente dos consumidores, o povo tripeiro que pelos ouvidos lhes chegavam os boatos de doenças e até presuntivas mortes originadas pela ingestão do vinho, agora distribuído pela Companhia. Esta gente comum briosa da liberdade da sua cidade, da qualidade do vinho que era produzido a umas dezenas de km, mas que era seu. Esta arraia-miúda manipulada pelos ingleses, pelos comerciantes do vinho, por algum clero diretamente implicado e prejudicado no negócio.
As tabernas são o espaço escolhido: propagam-se ideias e prepara-se o tumulto. Aí o motim toma corpo, começa a ferver, caldeiam-se vontades para a ação. Também nas oficinas dos mesteirais: os sapateiros e os alfaiates são abundantemente referidos no acórdão do tribunal. Despeitados e avinhados, caldeados de outras revoltas bem-sucedidas e de “sangue na guelra” por espírito e personalidade “tripeira”, tomou as ruas e revoltou-se. As cabeças de motim, segundo a sentença da Alçada, são o Juiz do Povo, o armazenista Caetano Moreira da Silva que teve contra si quatro testemunhos e ainda três outros, três militares – um sargento e dois soldados. Foram todos executados.

15 setembro 2016

A companhia geral de agricultura e das vinhas do alto douro


A partir de 1740 o sector dos vinhos do Alto Douro entra em crise.
Na opinião de Jorge de Macedo as causas podem-se encontrar na concorrência em Inglaterra dos vinhos de outras regiões portuguesas, no desenvolvimento do comércio vinícola com o Brasil que provocaria a degradação da qualidade do produto e ainda uma baixa de produção entre 1750 a 1755 o que levou também a uma redução drástica da exportação (de 1716 a 1749 a exportação atingiu as 19 000 pipas, de 1750 a 1753 decréscimo para 16 000 pipas e de 1754-56 apenas 13 000 pipas; Se as exportações diminuíram 30%, os preços no mesmo período diminuíram 80% (!). A adição de baga de sabugueiro e de outras especiarias orientais para corresponder aos paladares ingleses é também fator segundo vários autores para o descrédito do vinho do Alto Douro.
Nas semanas que se seguiam à vindima, normalmente feita nos fins de Setembro ou em Outubro, os exportadores ingleses ou os seus corretores portugueses costumavam deslocar-se ao Alto Douro, onde inspecionavam os vinhos novos e efetuavam as suas encomendas.” A ganância de alguns e o descrédito do vinho do Douro e a baixa produção dinamizaram a procura em outros locais do país. Acresce a pouca regulamentação existente que instalava o caos no sector. Se a qualidade não tinha garantia os preços sofriam as regras duras do mercado não regulado “Os vinhos do Douro corriam o risco de se dissolverem economicamente numa região vinícola nacional, desaparecendo o privilégio natural do seu quase exclusivo na exportação; a região e os seus vinicultores estavam ameaçados de perder a preponderância no mercado de vinhos.” A crise atinge muitas famílias da região. A fome, a doença e o aumento da mortalidade proliferam.
Vários fatores se conjugavam para uma urgente regulamentação e estiveram na origem da Companhia: a necessidade sentida pelos operadores portugueses e o poder real de retirar o controlo do comércio dos vinhos aos ingleses; a preocupação sentida da defesa da integridade e qualidade dos vinhos combatendo-se o contrabando e os “taberneiros” da Invicta que os “adulteravam” para defesa da saúde pública, numa palavra lutar contra o deterioramento da reputação do vinho do Alto Douro; e a decadência assustadora dos rendimentos da produção.
            Deveremos atender à reforma profunda do País protagonizado pelo Marquês de Pombal que não se adequava a este desnorte e desorganização. Esta reforma visava a criação de uma burguesia nacional forte, o combate aos interesses estrangeiros (particularmente dos ingleses) com a receita mercantilista e monopolista, implementando todo um conjunto de            “medidas de um poder do Estado intervindo na luta da concorrência comercial entre vários produtores vinícolas nacionais.” A criação da Companhia constituía o processo predileto de Pombal contra os inoportunos comerciantes ingleses com quem tanto antipatizava [...] o seu principal objetivo era destruir o monopólio inglês.” Bastava um clique para se desencadear o processo.
Reafirma-se que, nesta época, o vinho do Porto tornara-se a bebida obrigatória das classes alta e média de Inglaterra e como escreveria, mais tarde, Croft em 1788 “Um inglês de certa linhagem e posição não pode dispensá-lo depois de um bom jantar.” Os ingleses virão a ser os principais prejudicados com a conceção da Companhia e o próprio marquês nunca negou que eles eram dos principais visados.

Estava tudo pronto para verdadeira revolução no Douro, mas esta não foi feita de veludo, nem pacífica, pois muito sangue havia de correr, como iremos ver.

12 setembro 2016

São largos os vestígios da ocupação romana da região e da correspondente exploração vinícola. “O vale do Douro constitui um corredor de povos e culturas, que, pelo menos desde a período da romanização desenvolveram a cultura da vinha”. As descobertas arqueológicas têm revelado fragmentos de cerâmicos associados ao armazenamento de vinho, inúmeras lagaretas cavadas na rocha (ver gravura 3), vestígios de lagares e mesmo de adegas que reportam aos séc. III e IV que atestam a viticultura e a vinificação da época romana.
            Para uma compreensão de toda a dimensão duriense é necessário ter em conta esta acumulação de culturas e influências diversas.
As sucessivas conquistas aos mouros e a consolidação do território a que viria a chamar-se Condado Portucalense, propiciou uma atenção dos reis de Leão na concessão de privilégios às populações da região do Douro que se concretizou na necessidade da concessão de um foral a um conjunto de povoados da bacia norte e sul do Douro: S. João da Pesqueira, Ansiães, Linhares, Paredes e Penela; pois o vale pressupunha fragilidade às investidas mouriscas e a distribuição de privilégios garantiria a fidelidade das populações e evitaria que se unissem ao inimigo.
As primeiras cartas forenses do rei Fernando Magno (séc. XI) doadas a Ansiães, S. João da Pesqueira, Penela, Paredes e Linhares são os documentos mais antigos referentes a territórios que hoje constituem o nosso país, estabelecem como imposto de “parata regis” uma paga em géneros para as despesas do palácio “duos panes uno de tritico et alio de centeno et uno almude de vino et alium de cevada” (dois pães de trigo e outro de centeio e um almude de vinho e outro de cevada) por cada vizinho (família na mesma habitação).
Em finais da idade Média intensificam-se as trocas comerciais, acelera-se o povoamento e desenvolve-se a agricultura. Nascem e crescem vilas e cidades principalmente as muralhadas (Freixo de Espada à Cinta, Torre de Moncorvo, Vila Nova de Foz Côa, Vila Flor, Ansiães, Freixo de Numão, Lamego, etc.) A instalação de diversas ordens religiosas predominantemente os monges de Cister dão grande contributo à produção, melhoria de qualidade do vinho e comércio que se faz exclusivamente pelo rio Douro até á foz em Gaia e no Porto. São exemplos desta atividade vitivinícola os mosteiros de Salzedas, S. João de Tarouca e S. Pedro das Águias. A este período de expansão do vinhedo não é alheio o movimento de senhorialização a que se assiste no séc. XII e XIII, que consiste, grosso modo, no poder dos nobres sobre extensos territórios,.
            Em 1254 o conflito entre o rei D. Afonso III e o bispo do Porto D. Julião por via do desembarque das mercadorias dos barcos que desciam o Douro termina na sentença régia que determina que dois terços dos barcos descarreguem no Porto e um terço em Gaia.
Em 1502, D. Manuel manda demolir os canais de pesca no rio Douro para facilitar a navegação desde a Pesqueira até ao Porto. A navegação a montante do rio é completamente impossível devido ao Cachão da Valeira. A produção de vinha a montante deste rio revela-se muito problemática e é incipiente devido a este facto e à dificuldade do transporte.
Em 1552, o cronista Rui Fernandes escrevia que os vinhos de Lamego eram “os mais excelentes vinhos e de mais dura que no reino se podem achar, e mais cheirantes, porque há vinhos de 4, 5, 6 anos e de quantos mais anos é, tanto mais excelente, e mais cheiroso.”
Ainda no séc. XVI, João de Barros refere na sua geografia de entre Douro e Minho e Trás-os-Montes os vinhos de qualidade produzidos nas terras próximas do Douro e em Pinhão.
A partir do séc. XVII, o cultivo da vinha e a produção do vinho tem um grande incremento com o estabelecimento no Porto de diversos negociantes ingleses, flamengos e hamburgueses para daí exportarem vinhos do Douro. Em meados deste século negociantes e produtores de vinhos do Douro manifestam-se contra a Câmara do Porto por esta pretender aumentar os impostos sobre os vinhos que entravam na cidade.
No último quartel do século XVII surgem dois pormenores que hão de marcar etimologicamente e em termos de qualidade o néctar das uvas do Douro. Em 1675 surge, pela primeira vez, a expressão “vinho do porto” no discurso sobre a introdução das artes no reino, da autoria de Duarte Ribeiro de Macedo. Em 1678 um inglês refere a junção de aguardente aos vinhos de embarque. Esta serviria para garantir a não deterioração nas grandes viagens marítimas e terrestres a que era submetido.
A celebração do tratado de Methwen em 1703 e a diminuição dos impostos sobre os vinhos portugueses contribui para um grande incremento das exportações.

No século XVIII, a partir da década de 30 e até á década de 50 assiste-se a fraudes generalizadas que põem em causa a qualidade do produto e a sua comercialização o que leva alguns exportadores e produtores entre os quais o Dr. Beleza de Andrade, D. Bartolomeu Pancorbo e Frei João de Mansilha a iniciarem um processo que culmina na criação da Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro que é instituída por Alvará Régio de 10 de Setembro de 1756. Como diz António Barreto é este o “ato fundador” da atual região.

10 setembro 2016

Uma região com história


A Região Demarcada do Douro estende-se por 250 000 hectares, e a plantação de vinha ocupa cerca de um quinto dessa área. Divide-se em três zonas distintas: a oeste, o Baixo Corgo, no centro o Cima Corgo, a leste o Douro Superior e dela fazem parte 22 municípios. Aí se produzem os vinhos correspondentes às denominações de origem “Porto” e “Douro.
O Alto Douro estende-se pelo vale do rio Douro a partir de Barqueiros, cerca de 100 km a montante do Porto até Barca de Alva e pelos vales dos seus afluentes, entre eles, Tua, Corgo, Torto, Pinhão... Abrigada dos ventos por altas serranias é essencialmente constituída por xistos. É um território agreste, ardente no Verão e frio no Inverno.
 No entanto, apenas 24 mil hectares foi classificado pela UNESCO como Património Mundial, ou seja, um décimo dessa área, que engloba treze concelhos, sendo Carrazeda de Ansiães é um deles.
O território do Alto Douro Vinhateiro integra o vale do Douro citado, que já é considerado Património Mundial nos seus extremos, nomeadamente a zona ribeirinha do Porto, e no lado oposto o Parque Arqueológico do Côa.
A acrescentar à principal cultura da vinha que produz os afamados associa-se o azeite e a amêndoa. À importância da região acresce a fauna deste espaço natural, onde se incluí o Parque Natural Arribes del Duero, em zona espanhola, sobretudo no que diz respeito às grandes aves de rapina, e à cegonha negra. As vertentes escarpadas desta área oferecem a tranquilidade necessária para albergar as inúmeras aves que aqui se reproduzem, como o Grifo, o Abutre do Egipto, símbolo do Parque Natural do Douro Internacional, a Águia-real, a Águia de Bonelli, a Águia Cobreira e a Cegonha-preta. Importantes populações de mamíferos podem também ser encontradas neste parque: o lobo, o corço, o javali, a lontra, a raposa, o coelho selvagem, entre outros.
Sendo os bosques de Carrascos (Quercus rotundifolia) os mais representativos encontramos também os sobreirais (quercus suber), os zimbrais (juniperus oxycedrus) e os carvalhais de carvalho negral (quercus pyrenaica). Proliferam ainda um conjunto de arbustos característicos: as estevas, as giestas, as cornalheiras, as lavandas e as urzes, conjuntamente com salgueiros e amieiros que aparecem junto das linhas de água.
Do alto das serranias, vem o coelho, a perdiz e o javali, tornando esta região um ponto de encontro para quem se dedica à caça. Dos rios e riachos chegam às mesas os barbos, as bogas, os escalos, as enguias, o sável, a tenca e a carpa. Terra do bom comer e bom beber, a região pode oferecer a quem chega um magnífico cardápio: cabrito assado, pratos de caça, presunto, alheiras, trutas com presunto, carne assada de porco (a famosa marrã), carnes de porco fumado; e doçaria variada: pão-de-ló, celestes, chila no forno, rosquilhas, bolinhos de amor.
As fortes tradições de recreação têm visibilidade nas inúmeras e dispersas romarias, nas festas religiosas anuais (Natal, Janeiras, Reis, Páscoa...) e nos trabalhos agrícolas principalmente as vindimas.
A paisagem do Douro é toda ela de enorme atrativo. Das cercanias serranas às margens do rio, da beleza da giesta selvagem aos socalcos da videira domesticada, passando pelas amendoeiras e cerejeiras em flor desdobra-se esta paisagem singular em cambiantes múltiplas.

O Alto Douro é um exemplo significativo da construção de uma paisagem a que concorreram várias civilizações e povos e em que o vinho foi sempre traço de união. A história da cultura do vinho no Alto Douro é muito antiga e reporta à pré-história como o atesta a descoberta de vestígios de grainhas de “vitis vinifera” na estação arqueológica do Buraco da Pala, no regato das Bouças, perto de Mirandela e datadas do século XX a.C. Este “intercâmbio de influências culturais diversas, continuamente sobrepostas, configurou um espaço de sincretismo cultural quer no imaginário coletivo tradicional, quer nos vestígios arqueológicos”, como se dizia no texto da apresentação da candidatura a património mundial e que merece um próximo olhar com revelações porventura surpreendentes.

08 setembro 2016

A fraga do tesouro



Conta-se que, no sítio da Cabreira, no termo de Mogo de Malta, existia uma fraga que todos os anos, dia de Natal, à meia-noite, se abria ao meio, e no interior da mesma se encontrava uma grande fortuna em moedas de ouro.

Conta-se que, num determinado ano, uma mulher pobre, ambicionando parte das moedas de ouro ali guardadas, ousou aventurar-se e com uma criança recém-nascida ao colo dirigiu-se para a fraga. Ao dar a primeira badalada da meia-noite, a fraga abriu-se e a mulher pôde entrar e levou consigo a criança. No interior ficou maravilhada com o que viu e depressa esqueceu o recém-nascido, enchendo o avental de moedas. Ao dar a última badalada tinha que sair porque a pedra fechar-se-ia. Ela rapidamente abandonou as entranhas megalítica, contudo a criança ficou lá dentro esquecida. Ao aperceber-se do que lhe tinha acontecido, com a aflição, levou as mãos à cabeça, soltou o avental, que logo se abriu, espalhando as moedas pela encosta abaixo. Para seu espanto e de todos os que queiram ver, as moedas transformaram-se em grandes pedras.

Conta-se que, no ano seguinte, a mesma mulher, como fazia todos os dias, com o coração ferido de tristeza, mas agora sem qualquer ambição de riqueza, e com um sentimento de recuperar o filho, voltou à fraga, seguiu as mesmas instruções e assim o recuperou, porque a criança estava precisamente no mesmo sítio onde o tinha deixado.

Podia contar-se que a partir daí, o seu filho e a sua educação foi, mais que qualquer valor material, o seu projeto de vida e o valor mais alto a que aspirou.

03 setembro 2016

O Ecce Homo de Selores



Nas nossas igrejas e capelas repousam objetos de inegável valor. Em Selores, o “Divino Ecce Homo” é uma bela imagem da arte sacra do concelho de Carrazeda de Ansiães e sobre ela se conta uma história, também bela e inspiradora. Apressamo-nos a contar:
Certo dia passou pela aldeia um pobre pedindo esmola. Ao chegar ao largo deparou com um perfeito tronco de amoreira.
No largo conversavam um grupo de pessoas ao sol, dirigindo-se a elas disse-lhes:
- Que belo pau para fazer um santo!
- E vós sois capazes de o fazer? – interrogaram-no em jeito de desafio.
- Olhem, põem-me aí num lugar, eu e o pau, fechem a porta e, durante três dias, não ma abram!
Algumas das pessoas que se encontravam no largo soalheiro, breve se aprontaram a arranjar as ferramentas, outras pegaram no tronco e levaram-no para uma casa situada ali bem perto. Aí se instalou o mendigo. Fechou a porta por dentro e durante três dias ninguém mais pode contactá-lo, nem tão pouco vivalma lhe pôs a vista em cima.
Ao terceiro dia, como fora prometido, a porta da casa, onde se abrigara o mendigo estava aberta e, com ansiedade, por ela alguém entrou.
Do mendigo nem um sinal, e, a partir daí, ninguém mais o viu. Bem o tentaram procurar por toda a aldeia e arredores, mas em vão. Muitos juravam que se tratava do próprio Cristo.
Lá dentro encontrava-se tão só uma belíssima imagem de Jesus de Nazaré, flagelado, atado e com a coroa de espinhos. À imagem que restou e à fé dos homens são atribuídos diversos milagres e bem-aventuranças. Entre os muitos milagres conta-se aquele que alguém ouviu por aí contar: “uma ocasião, andava um senhor à caça, andava lá prás ribeiras, quando se lhe disparou um tiro na barriga, que até as tripas lhe ficaram na mão. E então prometeu-se a ele, ao Divino Senhor Ecce Home, para que o salvasse, e o homem viveu.”
O Divino Ecce Homo, como refere o Evangelho segundo São João (19.5), foram as palavras pronunciadas pelo governador romano Pôncio Pilatos quando apresentou Jesus torturado perante a multidão hostil, à qual Pilatos submeteu o destino final do réu, posto que ele, Pilatos, lavava as mãos. Na iconografia cristã costuma chamar-se Ecce Homo ou Senhor da Cana Verde, vulgarmente com ela na mão a servir-lhe de cetro, às figurações de Jesus apresentado em sofrimento.
Aí está aquele Cristo na Igreja Paroquial de Selores, meio despido e tão igual ao ser e estar das humildes gentes, uma chaga dos pés à cabeça e tão dorido como as agruras do trabalho e da vida provocam na pobre gente, ao mesmo tempo, um Cristo que mantém a dignidade, tal qual a alma honrada dos rurais. O Senhor da Cana Verde é a personificação da fraternidade que une o homem humilde ao sobrenatural.   Assim sem mais…

É belo este pau de amoreira, cortado a golpes de navalha, pincelado com modestas tintas e soprado com o bafo santo da inspiração do artista que vale nas aflições das gentes humildes...

28 agosto 2016

Sou mais rica que tu que nada tens afinal?


O verso em epígrafe foi retirado do conhecido poema, a cidade e a aldeia, do antigo livro da 4.ª classe e mostra o antigo paradigma na sociedade portuguesa que assentava no facto de viver em locais completamente diferentes.
Ao falar-se em cidade pensava-se logo numa uma sociedade de maior posse de bens e de cultura, enquanto que o campo se destinava aos mais pobres e mais necessitados.
Atualmente, em ambos existem pessoas necessitadas e não tão necessitadas. A pouco e pouco, as diferenças existentes foram diminuindo fruto das novas acessibilidades, das novas tecnologias, mas ainda persistem, particularmente, no acesso aos serviços essenciais como sejam a cultura, a saúde, a educação…
Podemos transportar este conflito de viver na vila e na aldeia para os momentos atuais, e de a vila se ter transformado por causa do forte despovoamento rural, o local onde grande parte da população do concelho se concentra para viver (os que podem e lhes deixam), tendo sempre a aldeia presente e para onde se desloca sempre que pode, fruindo aí grande parte das suas vivências culturais.
Carrazeda é uma vila recente e está desprovida desse húmus da tradição que está presente em muitas aldeias do concelho.
A vila passa a ser sede do concelho em abril de 1734 e o seu desenvolvimento ganha outro impulso a partir do antigo núcleo que fica junto da Igreja Matriz que data de 1790. Curiosamente até ao 25 de abril de 1974 não é a localidade com mais habitantes no concelho, sendo suplantada por outras aldeias do concelho, como Vilarinho da Castanheira, Linhares, Fontelonga, Castanheiro do Norte.
A sua centralidade e a perda da importância e da mecanização da agricultura transformaram as aldeias em aglomerados quase fantasmas, mas ainda com fortes tradições, particularmente as religiosas.
Por isso realizar um cortejo etnográfico, uma procissão na vila só tem grande sentido com a participação das aldeias.
Por outro lado, é natural alguns amuos e muitas resistências dos habitantes da aldeia, contudo, atualmente, a importância da etnografia e cultura aldeã só faz sentido pleno se mostradas nas ruas da vila.

Para os nostálgicos e revivalistas aqui fica o poema:

"A Cidade e a Aldeia"
(Abílio Mesquita)

Cidade - Quem és tu, assim tão simples?
Aldeia - E tu, quem és a final?
Cidade - A nobreza da Cidade.
Aldeia - Aldeia de Portugal.
Cidade- Tenho lindas pedrarias,
              Jóias mil de muitas cores...
Aldeia - E eu tenho maior riqueza
              Nas minhas tão lindas flores...
Cidade - Tenho risos, alegrias
              Divertimentos constantes
Aldeia - Tenho a música dos ninhos
              E canções inebriantes.
Cidade - Tenho luz de noite a jorros,
              E não me levas a palma.
Aldeia - Tenho o Sol durante o dia,
              De noite a luz da minha alma...
Cidade - Vivo em palácios vistosos
              Que abundam pela Cidade.
Aldeia - E eu num casebre pequen0,
              Que o Sol beija com vaidade!
Cidade- A História fala de mim,
              Porque tenho algum valor...
Aldeia - Também tenho a minha História,
              Escrita com o meu suor
Cidade - Tenho o luxo que tu vês
              Próprio da minha grandeza.
Aldeia - E eu o luxo e a vaidade de gostar da singeleza!
Cidade - Sou mais rica do que tu,
              Que nada tens afinal!
Aldeia - Tenho aqui dentro do peito:

              "A ALMA DE PORTUGAL"!!!

06 junho 2016

Pelos caminhos de Portugal

Um belo dia em que o Sol apareceu neste mês de Maio, que nos presenteou com muita chuva e temperaturas baixas para a época. Fui com o meu vizinho e amigo Manuel Joaquim Lopes, descobrir novos horizontes e rumar a outras paragens. Caminhar na companhia da Nissan Navara, foi simplesmente maravilhoso. Venham connosco e sigam-nos. Saída de Carrazeda em direcção ao Pinhal do Norte, tomando a via rápida – que passa ao lado do Amedo, das Areias e do Pombal- para apanhar o IC5 – que vai de Miranda do Douro ao Pópulo no concelho de Alijó- e neste saír em direcção a Carlão, atravessando esta aldeia rumo ao Franzilhal e pelo caminho há a possibilidade de visitar a “Pala Pinta”, conjunto de rochas, com pinturas antigas e que entusiasmam quem se dedica a estudar estas coisas. Na aldeia do Franzilhal e numa curva muito, muito apertada, seguimos para o nosso destino a aldeia do Amieiro, antes de lá chegar paramos para umas fotografias ás termas de São Lourenço, que daqui pareciam casas de bonecas, uma vista fantástica, com todos os pormenores estava á nossa frente. De novo na estrada estreita, cheia de curvas, de ingreme descida pelos contornos de apertados vales, onde corria alegre uma pequena ribeira e finalmente a placa a anunciar a aldeia do Amieiro. Aqui visita obrigatória ao Rio Tua e onde em tempos existiu a estação de Caminho de Ferro da Linha do Tua denominada Santa Luzia. O comboio parava, as pessoas saiam e apanhavam a ponte ou o teleférico artesanal que ali existiu, assim como uma ponte na qual tive a felicidade de passar de carro, há muitos anos é verdade. Na aldeia do Amieiro visitamos a Capela de Santa Luzia, e o enorme largo onde está implantada e as Ruas estreitas  de uma aldeia tranquila, sossegada e onde só vai quem tem que fazer, além dos que ali vivem diariamente. Não visitei a sede do Grupo Recreativo, Cultural e Desportivo do Amieiro que editou durante uns anos o jornal “A VOZ DO AMIEIRO” do qual fui com orgulho modesto colaborador e que tinha como director o meu amigo Fernando A. Da Rocha Quintas. Este jornal como todos os jornais, foi uma voz que defendia os direitos dos humilhados, perante os poderes públicos e também dava voz aos que pelos seus méritos e feitos em prol do desenvolvimento da freguesia e do concelho de Alijó se distinguiram. Da visita ao “Oásis Transmontano” como lhe chamou o Dr. Manuel Silvério- Saímos para a aldeia de Safres, desta vez pela estrada com melhores condições e a subir até á aldeia de São Mamede de Riba Tua, depois pela velha estrada, passando pela Barragem em construção, até á aldeia de Foz Tua e chegada ao concelho de Carrazeda. Eis o reino maravilhoso a porta de entrada em terras de Ansiães, há diferenças? Há!.. mas só as vê quem as vive e sente. Vamos á aldeia de Ribalonga, numa estrada sinuosa, escoltados por vinhedos sempre a subir até à aldeia de Castanheiro do Norte e daqui rumo a Carrazeda chegamos ao nosso destino. Valeu a pena. Nós, no concelho de Carrazeda também temos aldeias bonitas, algumas desertas, outras para lá caminham e ír á Sentrilha ou á Felgueira é viajar no tempo. O caminho faz-se caminhando, citei a existência de um Jornal que terminou, como aconteceu a outros até a nível nacional como O Comércio do Porto e recentemente o Económico. Nós felizmente temos o Jornal “O Pombal”  que é uma porta aberta para a liberdade de pensamento dos leitores e colaboradores, que teimam em fazer mais e melhor. Amigos sorriam pois a chuva vai-se despedir e nós vamos de férias para a vinha, observar o crescimento das uvas e sonhar com uma boa colheita. Manuel barreiras Pinto

26 março 2016

Páscoa feliz

Se o Natal era a festa da família, a Páscoa era a festa da aldeia. A sua preparação começava com a elaboração dos folares e dos económicos e a cozedura nos fornos comunitários. Havia os folares doces e os de carne. Os doces comiam-se ao pequeno-almoço com o café, ou com um bom cálice de vinho tratado, que “ajuda a cortar a doçura”, diziam. Os de carne feitos com as chichas do porco incluíam a chouriça, o salpicão, o presunto e o toucinho, chamávamos-lhe carne gorda, que emprestava à massa um sabor divinal. Os económicos, na forma de montinhos polvilhados de açúcar, duravam longos dias e eram sempre um dos melhores mimos que se metia no saco da escola para o lanche do dia.

A missa pascal era obrigatória, antecedida dos três dias de penitências, jejuns, vias-sacras e do silêncio dos sinos que anunciavam, tristemente, ao meio-dia de quinta-feira a paragem no trabalho e, só despertavam na tarde de sábado e mais tarde na aurora de domingo, em tom festivo. À Eucaristia seguia-se o almoço melhorado que quase sempre incluía o borrego ou a ovelha, assados ou guisados, e o delicioso arroz doce, à sobremesa. À tarde, o compasso visitava todas as habitações para o beijar da cruz, acompanhado da algazarra da criançada, que pululava de casa em casa em busca dos “doces”, e do murmúrio de muitos que se visitavam em busca dos mimos e dos afetos para a boca e para a alma. 
"SELORES... e uma casa"

13 março 2016

The Last Days of Tua: The Last Harvest/ A Última Vindima (Pedro Duarte)

Esta é a história de Pedro Duarte, viticultor na região do Tua, integrada no Alto Douro Vinhateiro, classificado como Património Mundial pela UNESCO. Como tantos outros, foi obrigado a vender hectares de vinha para que se construa a Barragem de Foz Tua, uma barragem que ninguém quer, mas que todos vão pagar.
 

The last days of Tua / O último ano do Tua

The Last Days of Tua: The Last Down-River/A Última descida do rio (Ricar...

The Last Days of Tua: The Last Crop / A Última Colheita (Manuel Queiroga)

The Last Days of Tua: The Last Walk /A Última Caminhada (Aníbal Gonçalves)

06 fevereiro 2016

Carnaval: Carlos Fiúza



Recebemos o termo do italiano. Com ele quase deixámos de dizer entrudo. Mas não se afirme que é recente. Ajuntaremos que em Castilho encontramos ambos os termos Carnaval e Entrudo, e também o Gordo.

Mas chamemos à ribalta o Carnaval, o Entrudo, o Gordo, as máscaras, as bacanais, as serpentinas, os papelinhos, os arlequins, os dominós, os trajos regionais, o “Velho de Entrudo” e o Carnaval de todo o ano, numa mistura de filologia, história, mitologia, folclore, literatura, etc.

O Carnaval já não é o que era, mas, no entanto, além de sobreviver nas ridiculezas durante todo o ano, tem sempre algo de oportuno.

Onde e quando nasceu o Carnaval? Ninguém pode, com certeza absoluta, dar resposta a esta interrogação.

O mais certo será que o Carnaval nasceu no coração do primeiro homem que sentiu desejos de pandegar, deitando as tristezas para trás das costas, porque as “tristezas não pagam dívidas”, segundo a filosofia prática do nosso Povo.

Se quisermos, porém, relacionar costumes que a História Universal regista, nesse caso talvez o Carnaval haja sido evolução das festas bacanais e saturnais da Grécia e da Roma antigas.

Que as bacanais ou dionísias estavam no fundo de todo o pagode do Carnaval e suas variantes, não há que duvidar.

O deus das uvas, das vindimas e do vinho, o deus da bebedice, o deus da pinga, como se diz à portuguesa, o senhor Baco ou, à grega, o senhor Dionísio, deve ter grandes responsabilidades inspiratórias na quadra entrudesca. Quero dizer, as festas de Baco, as dionísias ou bacanais devem ser o principal modelo antigo das festas variantes, como as saturnais, as próprias florais, o Carnaval, o Entrudo e o próprio Gordo. As reminiscências pagãs são inegáveis, embora pluriformes.

Assim, por exemplo, em Roma, quando se celebravam os jogos Florais, isto é, os jogos em honra de Flora, a deusa das flores e da primavera, havia por lá o bom e o bonito, em danças e brincadeiras, em barulhos e corridas. Pois também essas festas deram o seu contributo às paródias entrudescas.

Filologicamente, o Carnaval é misterioso. Quero dizer, não se consegue descobrir com exatidão a origem da palavra portuguesa Carnaval e de suas equivalências em outras línguas.

Os próprios etimologistas não estão bem de acordo quanto à etimologia de Carnaval.

O problema da origem da palavra Carnaval, nas suas linhas gerais, é assim:

O mais antigo étimo dado a Carnaval foi “carne vale!” como quem diz: adeus carne! por a véspera de quarta feira ser o último dia do tempo dos divertimentos.

Tratando de Carnaval, registou o filólogo brasileiro Nascentes:

“Petrocchi dá como étimo o baixo latim “carnelevamen”, modificado depois em “carne vale!”... “Stappers interpreta o baixo latim “carnelevamen” como “carnis levamen”, prazer da carne, antes das tristezas e contingências da quaresma.”

A meu ver, a opinião de Stappers (levamen = prazer), é menos aceitável. E digo porquê. É que em latim “levamen” é, propriamente - alívio, consolação.

Quanto à palavra Carnaval, considerada só em relação à nossa Língua, direi que a recebemos, bem decerto, do italiano “carnevale”.

E agora ajunto:

O filólogo francês Dauzat aceita que o francês “carnaval” se formou do “italiano Carnevale”.

E assim vê-se que Dauzat aceita a semântica de em Carnaval haver o latim “levare”, suprimir ou tirar, ou seja, suprimir ou tirar a carne.

Em resumo: o Carnaval parece ligar o nome à supressão da carne pela Igreja, na noite anterior à quarta feira de Cinza.

E passemos à antiga denominação portuguesa do tempo do divertimento - o Entrudo.

Esta palavra Entrudo é mais feliz do que Carnaval pois se lhe sabe a origem: o latim “Introitus”.

Este étimo explica as formas arcaicas “entruido” (ainda vivedoira no povo da Beira) e “entroydo”, e bem assim a grafia com i, que se vê, por exemplo, no velho Morais ao registar Carnaval: “o tempo do Intrudo, as festas, regozijos, que então se fazem.”

Aos dias de Carnaval também se lhes chama dias “gordos”, porque são dias de carne, em oposição aos dias “magros” ou de peixe.

É que nos dias “gordos” é o domingo da carne, o da quinquagésima.

Esse nome de Gordo era (e é) considerado na província como uma verdadeira festa do ano.

O polimorfismo carnavalesco é constituído por tantas modalidades quantas a fantasia brincalhona pode inspirar. Uma dessas diversões consiste no disfarce das pessoas que então se vestem com trajes variados. São as “máscaras”, tirado o nome da palavra árabe “maskhara”, com o significado de zombaria. Esta é, de facto, a mais provável origem da máscara, a zombaria.

Já agora, não deixo de me referir a palavras estrangeiras que desnecessariamente se usam por ocasião do Carnaval. Por exemplo:

1 - Aqueles “papelinhos” de cor que se lançam à cara e à cabeça das pessoas chamam-se para aí de “confetti”, plural italiano de “confetto”, e que alguns erroneamente proferem à francesa, “confetti”, com tonicidade aguda.

“Papelinhos” era como sempre ouvia chamar.

Como os “papelinhos” andam em boa companhia as “serpentinas”, assim chamadas por, como as serpentes, se enrolarem em espiral.

2 - Palavra peregrina que se usa por vezes no Entrudo é “travesti”, que nada mais é do que o nosso “disfarce”, a nossa máscara. “Travestire” é, simplesmente, disfarçar-se, mascarar-se.

Da mais desencontrada origem são tais máscaras. E assim também variada é a explicação de nomes que o Carnaval faz viver e reviver.

O próprio teatro supeditou elementos de mascaragem. Por exemplo, o arlequim, de trajo retalhado de várias cores. Há mais do que uma explicação da sua origem, mas a de maiores probabilidades é esta:

“Arlecchino era o nome de um comediógrafo italiano, que foi para Paris nos tempos de Henrique III. Tornou-se famoso, e o seu nome, por extensão, passou a todos os atores farsantes, truões e palhaços, cujo papel era (e é) o de divertir o público com as suas paródias e piadas.

Outros dizem que arlequim veio do antigo francês “hellequim”, nome de um diabo.

O que se sabe é que a figura de arlequim era personagem cómica do teatro, quase sempre de máscara negra sobre os olhos, e trajo de retalhos de cores variegadas e vivas.

Outra dádiva do teatro ao Entrudo são os conhecidíssimos “pierrots”.

Esta palavra “pierrot”, apesar de francesa, é de origem italiana, donde os Franceses a adotaram.
Como personagem de pantomima, dizem etimólogos franceses que parece ser uma adaptação do italiano “Petrolino”, isto é, Pedrinho, diminutivo de Pedro. “Petrolino” era personagem da comédia italiana.

E os “dominós”? Os “dominós” do Carnaval, parece impossível, mas é verdade, esses mascarados de preto, de cabeça escondida no capuz, tiraram o nome da capa que os monges usavam, no inverno.

A origem era o latim “domino”, de “dominus”, Senhor, por influência da pronúncia francesa com acento na última sílaba.

Como pelo Entrudo se procura troçar de tudo, brincar com tudo, ridicularizar tudo, claro que as figuras mais cómicas não podiam faltar. É o caso das “velhas alcoviteiras”, e de tantos outros disfarces hilariantes.

Felizes as crianças que continuam a tradição, salpicando graciosamente as ruas de máscaras diversas.

Guardo para o fim uma figura carnavalesca que tanto interesse me despertava - a figura do “velho de entrudo”.

Vimos, há pedaço, que o Baco foi o grande precursor do Carnaval, tendo grande responsabilidade nos desmandos do Entrudo.

Só ele, só o deus da pinga terá essa responsabilidade? Talvez não. É que o tal Baco tinha uma espécie de ajudante e companheiro chamado Sileno.

Este Sileno gostava de andar de burro, quando acompanhava Baco. E então era ver Sileno ébrio, jovial, galante, a visitar terras e terras. Como era sátiro de avançada idade, a sua figura de velho folgazão, que a embriaguez tornava ridículo, suscitava o entusiasmo brincalhão da mocidade dos campos. E, assim, à volta do burro e de Sileno, que o montava, embriagado, juntavam-se pastores e pastoras e mais gentinha do campo, que aos saltos e apupos, chalaças e brutalidades o acompanhavam em grande banzé e chocarrices.

Assim era Sileno, o velho aio e companheiro de Baco, nos campos da Arcádia, lá na Grécia.

Ora, esse tal Sileno tornou-se à vida, naquelas festas de povos como o povo português que, pela quadra do Carnaval, por aldeias e cidades, fazia exibir o “velho de Entrudo”, afinal a reincarnação do Sileno da antiguidade pagã.

O Entrudo tinha para mim, noutros tempos, encantos vários. Hoje, não só porque já perderam a alegria de antanho, me atraem pouco ou nada as festas carnavalescas.

É que aprendi a observar a vida.

E na vida eu vejo tantas máscaras e tanta palhaçada, e tanta comicidade durante o ano todo, que, ao chegar ao Domingo Gordo, já não dou pelos disfarces e mascaragens de Entrudo.

O Carnaval põe à mostra o que é o bípede implume, na comédia da Vida.

Sim, na comédia da Vida…

não faltam palhaços, nem arlequins, nem dominós, nem… máscaras!





Carlos Fiúza