30 setembro 2016

A Casa de milhares de viticultores do Douro


O Estado Novo aplica o corporativismo ao Douro e ao vinho do Porto com a criação da Casa do Douro em 1932, do Instituto do Vinho do Porto e do Grémio dos Exportadores. Depois do Marquês de Pombal, O Estado volta a assumir um papel preponderante na gestão do sector. Nos anos seguintes, foram-lhe atribuídos poderes para elaborar a atualização do cadastro, distribuir o benefício, fornecer aguardente aos produtores, fiscalizar o vinho na região demarcada e conceder as guias para os vinhos serem transportados para o Entreposto de Gaia conforme decreto de 30 de Abril de 1940. O Instituto do Vinho do Porto passou a controlar a qualidade e a promoção externa. A paz forçada do sector suplantou o longo período de penúria dos anos 40 e 50. Depois de 1965, a procura externa começa a aumentar, o que permitiu algum desafogo e a opção pelo cultivo da vinha foi generalizada a dezenas de milhares de produtores.
Com o 25 de abril de 1974, o modelo corporativo foi extinto. A Casa Do Douro de inscrição obrigatória chegou a representar 40 mil viticultores. Muita da população a viver no Douro era proprietária de pequenas explorações e a instituição foi o guarda-chuva dos seus rendimentos enquanto associados nesta forte estrutura.
Os problemas importantes iniciaram-se em 1990 com a compra das ações da Real Companhia Velha (RCV). O objetivo era para além do papel de regulação e de representação dos pequenos e médios vitivinicultores, intervir no mercado do comércio e exportação. "O negócio" foi “encorajado” e “abençoado” pelo então primeiro-ministro Cavaco Silva. A Casa do Douro nunca conseguiu fazer valer os seus direitos enquanto acionista, comprou uma "guerra" com os comerciantes que a acusaram de ingerência no outro lado do negócio e marcou o início do descalabro financeiro da instituição que chegou a ter orçamentos superiores a 150 milhões de euros e foi mais poderosa do que muitos ministérios.
Em 1995, a região do Douro viu alterado o seu quadro institucional. Passou a estar dotada de um organismo interprofissional, - a Comissão Interprofissional da Região Demarcada do Douro (CIRDD), no qual tinham assento, em situação de absoluta paridade, os representantes da lavoura e do comércio, com o objetivo comum de disciplinar e controlar a produção e comercialização dos vinhos da região com direito a denominação de origem.
Este modelo sofreu nova alteração com a substituição, em 2003, da CIRDD por um Conselho Interprofissional integrado no Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP). Em termos formais, o IVDP faz a supervisão da viticultura duriense cabendo-lhe a certificação dos vinhos da Região Demarcada e a disciplina do sector na função fiscalizadora e sancionatória bem como, as responsabilidades de gestão e coordenação da vitivinicultura duriense.
Para suspender uma penhora sobre a Casa do Douro e os seus armazéns, colocou-se à venda, em 2004, um milhão de garrafas de vinho do Porto das colheitas de 1963 e 1964, permitindo um encaixe financeiro de 35 milhões de euros. Cada garrafa custava 40 euros (1963) e 35 euros (1964) e apenas os cidadãos naturais da Região Demarcada do Douro e seus residentes podiam comprar esse vinho. Ao todo, o produto em venda representou 3% dos stocks de vinho do Porto da Casa.
Em 2008, o IVDP denunciou o protocolo que existia para a gestão e fornecimento de dados do cadastro e o Ministério da Agricultura mandou executar judicialmente os créditos que alguns organismos estatais tinham sobre a organização, dando um sinal claro que pretendia deixar de contar com a instituição. Neste mesmo ano foi vendida mais de metade da participação que detinha na RCV à Global Wines. Depois de perder o controlo sobre a aguardente, a certificação e fiscalização dos vinhos do Douro e Porto, só restava o cadastro, cujo valor era incalculável, uma vez que acumulava informações relativas a mais de setenta anos de atividade.
O ministro das finanças, Vítor Gaspar, face às dívidas aconselhava a instituição a fechar portas. A Casa do Douro pública foi extinta em dezembro de 2014. Posteriormente, foi aberto um procedimento concursal para a sucessão da Casa do Douro ainda não completamente resolvido.

28 agosto 2016

Sou mais rica que tu que nada tens afinal?


O verso em epígrafe foi retirado do conhecido poema, a cidade e a aldeia, do antigo livro da 4.ª classe e mostra o antigo paradigma na sociedade portuguesa que assentava no facto de viver em locais completamente diferentes.
Ao falar-se em cidade pensava-se logo numa uma sociedade de maior posse de bens e de cultura, enquanto que o campo se destinava aos mais pobres e mais necessitados.
Atualmente, em ambos existem pessoas necessitadas e não tão necessitadas. A pouco e pouco, as diferenças existentes foram diminuindo fruto das novas acessibilidades, das novas tecnologias, mas ainda persistem, particularmente, no acesso aos serviços essenciais como sejam a cultura, a saúde, a educação…
Podemos transportar este conflito de viver na vila e na aldeia para os momentos atuais, e de a vila se ter transformado por causa do forte despovoamento rural, o local onde grande parte da população do concelho se concentra para viver (os que podem e lhes deixam), tendo sempre a aldeia presente e para onde se desloca sempre que pode, fruindo aí grande parte das suas vivências culturais.
Carrazeda é uma vila recente e está desprovida desse húmus da tradição que está presente em muitas aldeias do concelho.
A vila passa a ser sede do concelho em abril de 1734 e o seu desenvolvimento ganha outro impulso a partir do antigo núcleo que fica junto da Igreja Matriz que data de 1790. Curiosamente até ao 25 de abril de 1974 não é a localidade com mais habitantes no concelho, sendo suplantada por outras aldeias do concelho, como Vilarinho da Castanheira, Linhares, Fontelonga, Castanheiro do Norte.
A sua centralidade e a perda da importância e da mecanização da agricultura transformaram as aldeias em aglomerados quase fantasmas, mas ainda com fortes tradições, particularmente as religiosas.
Por isso realizar um cortejo etnográfico, uma procissão na vila só tem grande sentido com a participação das aldeias.
Por outro lado, é natural alguns amuos e muitas resistências dos habitantes da aldeia, contudo, atualmente, a importância da etnografia e cultura aldeã só faz sentido pleno se mostradas nas ruas da vila.

Para os nostálgicos e revivalistas aqui fica o poema:

"A Cidade e a Aldeia"
(Abílio Mesquita)

Cidade - Quem és tu, assim tão simples?
Aldeia - E tu, quem és a final?
Cidade - A nobreza da Cidade.
Aldeia - Aldeia de Portugal.
Cidade- Tenho lindas pedrarias,
              Jóias mil de muitas cores...
Aldeia - E eu tenho maior riqueza
              Nas minhas tão lindas flores...
Cidade - Tenho risos, alegrias
              Divertimentos constantes
Aldeia - Tenho a música dos ninhos
              E canções inebriantes.
Cidade - Tenho luz de noite a jorros,
              E não me levas a palma.
Aldeia - Tenho o Sol durante o dia,
              De noite a luz da minha alma...
Cidade - Vivo em palácios vistosos
              Que abundam pela Cidade.
Aldeia - E eu num casebre pequen0,
              Que o Sol beija com vaidade!
Cidade- A História fala de mim,
              Porque tenho algum valor...
Aldeia - Também tenho a minha História,
              Escrita com o meu suor
Cidade - Tenho o luxo que tu vês
              Próprio da minha grandeza.
Aldeia - E eu o luxo e a vaidade de gostar da singeleza!
Cidade - Sou mais rica do que tu,
              Que nada tens afinal!
Aldeia - Tenho aqui dentro do peito:

              "A ALMA DE PORTUGAL"!!!

06 junho 2016

Pelos caminhos de Portugal

Um belo dia em que o Sol apareceu neste mês de Maio, que nos presenteou com muita chuva e temperaturas baixas para a época. Fui com o meu vizinho e amigo Manuel Joaquim Lopes, descobrir novos horizontes e rumar a outras paragens. Caminhar na companhia da Nissan Navara, foi simplesmente maravilhoso. Venham connosco e sigam-nos. Saída de Carrazeda em direcção ao Pinhal do Norte, tomando a via rápida – que passa ao lado do Amedo, das Areias e do Pombal- para apanhar o IC5 – que vai de Miranda do Douro ao Pópulo no concelho de Alijó- e neste saír em direcção a Carlão, atravessando esta aldeia rumo ao Franzilhal e pelo caminho há a possibilidade de visitar a “Pala Pinta”, conjunto de rochas, com pinturas antigas e que entusiasmam quem se dedica a estudar estas coisas. Na aldeia do Franzilhal e numa curva muito, muito apertada, seguimos para o nosso destino a aldeia do Amieiro, antes de lá chegar paramos para umas fotografias ás termas de São Lourenço, que daqui pareciam casas de bonecas, uma vista fantástica, com todos os pormenores estava á nossa frente. De novo na estrada estreita, cheia de curvas, de ingreme descida pelos contornos de apertados vales, onde corria alegre uma pequena ribeira e finalmente a placa a anunciar a aldeia do Amieiro. Aqui visita obrigatória ao Rio Tua e onde em tempos existiu a estação de Caminho de Ferro da Linha do Tua denominada Santa Luzia. O comboio parava, as pessoas saiam e apanhavam a ponte ou o teleférico artesanal que ali existiu, assim como uma ponte na qual tive a felicidade de passar de carro, há muitos anos é verdade. Na aldeia do Amieiro visitamos a Capela de Santa Luzia, e o enorme largo onde está implantada e as Ruas estreitas  de uma aldeia tranquila, sossegada e onde só vai quem tem que fazer, além dos que ali vivem diariamente. Não visitei a sede do Grupo Recreativo, Cultural e Desportivo do Amieiro que editou durante uns anos o jornal “A VOZ DO AMIEIRO” do qual fui com orgulho modesto colaborador e que tinha como director o meu amigo Fernando A. Da Rocha Quintas. Este jornal como todos os jornais, foi uma voz que defendia os direitos dos humilhados, perante os poderes públicos e também dava voz aos que pelos seus méritos e feitos em prol do desenvolvimento da freguesia e do concelho de Alijó se distinguiram. Da visita ao “Oásis Transmontano” como lhe chamou o Dr. Manuel Silvério- Saímos para a aldeia de Safres, desta vez pela estrada com melhores condições e a subir até á aldeia de São Mamede de Riba Tua, depois pela velha estrada, passando pela Barragem em construção, até á aldeia de Foz Tua e chegada ao concelho de Carrazeda. Eis o reino maravilhoso a porta de entrada em terras de Ansiães, há diferenças? Há!.. mas só as vê quem as vive e sente. Vamos á aldeia de Ribalonga, numa estrada sinuosa, escoltados por vinhedos sempre a subir até à aldeia de Castanheiro do Norte e daqui rumo a Carrazeda chegamos ao nosso destino. Valeu a pena. Nós, no concelho de Carrazeda também temos aldeias bonitas, algumas desertas, outras para lá caminham e ír á Sentrilha ou á Felgueira é viajar no tempo. O caminho faz-se caminhando, citei a existência de um Jornal que terminou, como aconteceu a outros até a nível nacional como O Comércio do Porto e recentemente o Económico. Nós felizmente temos o Jornal “O Pombal”  que é uma porta aberta para a liberdade de pensamento dos leitores e colaboradores, que teimam em fazer mais e melhor. Amigos sorriam pois a chuva vai-se despedir e nós vamos de férias para a vinha, observar o crescimento das uvas e sonhar com uma boa colheita. Manuel barreiras Pinto

26 março 2016

Páscoa feliz

Se o Natal era a festa da família, a Páscoa era a festa da aldeia. A sua preparação começava com a elaboração dos folares e dos económicos e a cozedura nos fornos comunitários. Havia os folares doces e os de carne. Os doces comiam-se ao pequeno-almoço com o café, ou com um bom cálice de vinho tratado, que “ajuda a cortar a doçura”, diziam. Os de carne feitos com as chichas do porco incluíam a chouriça, o salpicão, o presunto e o toucinho, chamávamos-lhe carne gorda, que emprestava à massa um sabor divinal. Os económicos, na forma de montinhos polvilhados de açúcar, duravam longos dias e eram sempre um dos melhores mimos que se metia no saco da escola para o lanche do dia.

A missa pascal era obrigatória, antecedida dos três dias de penitências, jejuns, vias-sacras e do silêncio dos sinos que anunciavam, tristemente, ao meio-dia de quinta-feira a paragem no trabalho e, só despertavam na tarde de sábado e mais tarde na aurora de domingo, em tom festivo. À Eucaristia seguia-se o almoço melhorado que quase sempre incluía o borrego ou a ovelha, assados ou guisados, e o delicioso arroz doce, à sobremesa. À tarde, o compasso visitava todas as habitações para o beijar da cruz, acompanhado da algazarra da criançada, que pululava de casa em casa em busca dos “doces”, e do murmúrio de muitos que se visitavam em busca dos mimos e dos afetos para a boca e para a alma. 
"SELORES... e uma casa"

13 março 2016

The Last Days of Tua: The Last Harvest/ A Última Vindima (Pedro Duarte)

Esta é a história de Pedro Duarte, viticultor na região do Tua, integrada no Alto Douro Vinhateiro, classificado como Património Mundial pela UNESCO. Como tantos outros, foi obrigado a vender hectares de vinha para que se construa a Barragem de Foz Tua, uma barragem que ninguém quer, mas que todos vão pagar.
 

The last days of Tua / O último ano do Tua

The Last Days of Tua: The Last Down-River/A Última descida do rio (Ricar...

The Last Days of Tua: The Last Crop / A Última Colheita (Manuel Queiroga)

The Last Days of Tua: The Last Walk /A Última Caminhada (Aníbal Gonçalves)

06 fevereiro 2016

Carnaval: Carlos Fiúza



Recebemos o termo do italiano. Com ele quase deixámos de dizer entrudo. Mas não se afirme que é recente. Ajuntaremos que em Castilho encontramos ambos os termos Carnaval e Entrudo, e também o Gordo.

Mas chamemos à ribalta o Carnaval, o Entrudo, o Gordo, as máscaras, as bacanais, as serpentinas, os papelinhos, os arlequins, os dominós, os trajos regionais, o “Velho de Entrudo” e o Carnaval de todo o ano, numa mistura de filologia, história, mitologia, folclore, literatura, etc.

O Carnaval já não é o que era, mas, no entanto, além de sobreviver nas ridiculezas durante todo o ano, tem sempre algo de oportuno.

Onde e quando nasceu o Carnaval? Ninguém pode, com certeza absoluta, dar resposta a esta interrogação.

O mais certo será que o Carnaval nasceu no coração do primeiro homem que sentiu desejos de pandegar, deitando as tristezas para trás das costas, porque as “tristezas não pagam dívidas”, segundo a filosofia prática do nosso Povo.

Se quisermos, porém, relacionar costumes que a História Universal regista, nesse caso talvez o Carnaval haja sido evolução das festas bacanais e saturnais da Grécia e da Roma antigas.

Que as bacanais ou dionísias estavam no fundo de todo o pagode do Carnaval e suas variantes, não há que duvidar.

O deus das uvas, das vindimas e do vinho, o deus da bebedice, o deus da pinga, como se diz à portuguesa, o senhor Baco ou, à grega, o senhor Dionísio, deve ter grandes responsabilidades inspiratórias na quadra entrudesca. Quero dizer, as festas de Baco, as dionísias ou bacanais devem ser o principal modelo antigo das festas variantes, como as saturnais, as próprias florais, o Carnaval, o Entrudo e o próprio Gordo. As reminiscências pagãs são inegáveis, embora pluriformes.

Assim, por exemplo, em Roma, quando se celebravam os jogos Florais, isto é, os jogos em honra de Flora, a deusa das flores e da primavera, havia por lá o bom e o bonito, em danças e brincadeiras, em barulhos e corridas. Pois também essas festas deram o seu contributo às paródias entrudescas.

Filologicamente, o Carnaval é misterioso. Quero dizer, não se consegue descobrir com exatidão a origem da palavra portuguesa Carnaval e de suas equivalências em outras línguas.

Os próprios etimologistas não estão bem de acordo quanto à etimologia de Carnaval.

O problema da origem da palavra Carnaval, nas suas linhas gerais, é assim:

O mais antigo étimo dado a Carnaval foi “carne vale!” como quem diz: adeus carne! por a véspera de quarta feira ser o último dia do tempo dos divertimentos.

Tratando de Carnaval, registou o filólogo brasileiro Nascentes:

“Petrocchi dá como étimo o baixo latim “carnelevamen”, modificado depois em “carne vale!”... “Stappers interpreta o baixo latim “carnelevamen” como “carnis levamen”, prazer da carne, antes das tristezas e contingências da quaresma.”

A meu ver, a opinião de Stappers (levamen = prazer), é menos aceitável. E digo porquê. É que em latim “levamen” é, propriamente - alívio, consolação.

Quanto à palavra Carnaval, considerada só em relação à nossa Língua, direi que a recebemos, bem decerto, do italiano “carnevale”.

E agora ajunto:

O filólogo francês Dauzat aceita que o francês “carnaval” se formou do “italiano Carnevale”.

E assim vê-se que Dauzat aceita a semântica de em Carnaval haver o latim “levare”, suprimir ou tirar, ou seja, suprimir ou tirar a carne.

Em resumo: o Carnaval parece ligar o nome à supressão da carne pela Igreja, na noite anterior à quarta feira de Cinza.

E passemos à antiga denominação portuguesa do tempo do divertimento - o Entrudo.

Esta palavra Entrudo é mais feliz do que Carnaval pois se lhe sabe a origem: o latim “Introitus”.

Este étimo explica as formas arcaicas “entruido” (ainda vivedoira no povo da Beira) e “entroydo”, e bem assim a grafia com i, que se vê, por exemplo, no velho Morais ao registar Carnaval: “o tempo do Intrudo, as festas, regozijos, que então se fazem.”

Aos dias de Carnaval também se lhes chama dias “gordos”, porque são dias de carne, em oposição aos dias “magros” ou de peixe.

É que nos dias “gordos” é o domingo da carne, o da quinquagésima.

Esse nome de Gordo era (e é) considerado na província como uma verdadeira festa do ano.

O polimorfismo carnavalesco é constituído por tantas modalidades quantas a fantasia brincalhona pode inspirar. Uma dessas diversões consiste no disfarce das pessoas que então se vestem com trajes variados. São as “máscaras”, tirado o nome da palavra árabe “maskhara”, com o significado de zombaria. Esta é, de facto, a mais provável origem da máscara, a zombaria.

Já agora, não deixo de me referir a palavras estrangeiras que desnecessariamente se usam por ocasião do Carnaval. Por exemplo:

1 - Aqueles “papelinhos” de cor que se lançam à cara e à cabeça das pessoas chamam-se para aí de “confetti”, plural italiano de “confetto”, e que alguns erroneamente proferem à francesa, “confetti”, com tonicidade aguda.

“Papelinhos” era como sempre ouvia chamar.

Como os “papelinhos” andam em boa companhia as “serpentinas”, assim chamadas por, como as serpentes, se enrolarem em espiral.

2 - Palavra peregrina que se usa por vezes no Entrudo é “travesti”, que nada mais é do que o nosso “disfarce”, a nossa máscara. “Travestire” é, simplesmente, disfarçar-se, mascarar-se.

Da mais desencontrada origem são tais máscaras. E assim também variada é a explicação de nomes que o Carnaval faz viver e reviver.

O próprio teatro supeditou elementos de mascaragem. Por exemplo, o arlequim, de trajo retalhado de várias cores. Há mais do que uma explicação da sua origem, mas a de maiores probabilidades é esta:

“Arlecchino era o nome de um comediógrafo italiano, que foi para Paris nos tempos de Henrique III. Tornou-se famoso, e o seu nome, por extensão, passou a todos os atores farsantes, truões e palhaços, cujo papel era (e é) o de divertir o público com as suas paródias e piadas.

Outros dizem que arlequim veio do antigo francês “hellequim”, nome de um diabo.

O que se sabe é que a figura de arlequim era personagem cómica do teatro, quase sempre de máscara negra sobre os olhos, e trajo de retalhos de cores variegadas e vivas.

Outra dádiva do teatro ao Entrudo são os conhecidíssimos “pierrots”.

Esta palavra “pierrot”, apesar de francesa, é de origem italiana, donde os Franceses a adotaram.
Como personagem de pantomima, dizem etimólogos franceses que parece ser uma adaptação do italiano “Petrolino”, isto é, Pedrinho, diminutivo de Pedro. “Petrolino” era personagem da comédia italiana.

E os “dominós”? Os “dominós” do Carnaval, parece impossível, mas é verdade, esses mascarados de preto, de cabeça escondida no capuz, tiraram o nome da capa que os monges usavam, no inverno.

A origem era o latim “domino”, de “dominus”, Senhor, por influência da pronúncia francesa com acento na última sílaba.

Como pelo Entrudo se procura troçar de tudo, brincar com tudo, ridicularizar tudo, claro que as figuras mais cómicas não podiam faltar. É o caso das “velhas alcoviteiras”, e de tantos outros disfarces hilariantes.

Felizes as crianças que continuam a tradição, salpicando graciosamente as ruas de máscaras diversas.

Guardo para o fim uma figura carnavalesca que tanto interesse me despertava - a figura do “velho de entrudo”.

Vimos, há pedaço, que o Baco foi o grande precursor do Carnaval, tendo grande responsabilidade nos desmandos do Entrudo.

Só ele, só o deus da pinga terá essa responsabilidade? Talvez não. É que o tal Baco tinha uma espécie de ajudante e companheiro chamado Sileno.

Este Sileno gostava de andar de burro, quando acompanhava Baco. E então era ver Sileno ébrio, jovial, galante, a visitar terras e terras. Como era sátiro de avançada idade, a sua figura de velho folgazão, que a embriaguez tornava ridículo, suscitava o entusiasmo brincalhão da mocidade dos campos. E, assim, à volta do burro e de Sileno, que o montava, embriagado, juntavam-se pastores e pastoras e mais gentinha do campo, que aos saltos e apupos, chalaças e brutalidades o acompanhavam em grande banzé e chocarrices.

Assim era Sileno, o velho aio e companheiro de Baco, nos campos da Arcádia, lá na Grécia.

Ora, esse tal Sileno tornou-se à vida, naquelas festas de povos como o povo português que, pela quadra do Carnaval, por aldeias e cidades, fazia exibir o “velho de Entrudo”, afinal a reincarnação do Sileno da antiguidade pagã.

O Entrudo tinha para mim, noutros tempos, encantos vários. Hoje, não só porque já perderam a alegria de antanho, me atraem pouco ou nada as festas carnavalescas.

É que aprendi a observar a vida.

E na vida eu vejo tantas máscaras e tanta palhaçada, e tanta comicidade durante o ano todo, que, ao chegar ao Domingo Gordo, já não dou pelos disfarces e mascaragens de Entrudo.

O Carnaval põe à mostra o que é o bípede implume, na comédia da Vida.

Sim, na comédia da Vida…

não faltam palhaços, nem arlequins, nem dominós, nem… máscaras!





Carlos Fiúza

24 janeiro 2016

Resultados em Carrazeda de Ansiães: PR 2016

Marcelo Rebelo de Sousa
Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa

64,19%
1.843 votos
Sampaio da Nóvoa
António Manuel Seixas Sampaio da Nóvoa

16,23%
466 votos
Marisa Matias
Marisa Isabel dos Santos Matias

8,01%
230 votos
Maria de Belém
Maria de Belém Roseira Martins Coelho Henriques de Pina

4,39%
126 votos
Vitorino Silva
Vitorino Francisco da Rocha e Silva

3,34%
96 votos
Paulo de Morais
Paulo Alexandre Baptista Teixeira de Morais

1,32%
38 votos
Edgar Silva
Edgar Freitas Gomes da Silva

1,04%
30 votos
Henrique Neto
Henrique José de Sousa Neto

0,84%
24 votos
Cândido Ferreira
Cândido Manuel Pereira Monteiro Ferreira

0,38%
11 votos
Jorge Sequeira
Jorge Manuel Pais Seara Rodrigues Sequeira

0,24%
7 votos
EM BRANCO

1,23%
36 votos
NULOS

1,02%
30 votos
VOTANTES
42,86%
2.937 VOTANTES
6.853 INSCRITOS

14 janeiro 2016

REN prevê arranque de novas barragens só a partir de 2020 - Foz Tua fica de fora

REN prevê arranque de novas barragens só a partir de 2020 | Económico

Da lista inicial do Plano Nacional de Barragens, apenas Foz Tua, sob gestão da EDP, ganhou forma, encontrando-se em fase final de construção. O grupo eléctrico liderado por António Mexia aponta a sua conclusão para finais de 2016.

08 janeiro 2016

O rio que chora

Era uma vez um rio que entoava cantigas da minha terra ao sabor das estações. No estio, canções de embalar, no longo inverno, canções de assustar e, dizem que, também cantigas de amor.

Ele morava num vale encantado… um mar de pedras e penedos, com precipícios e lugares mágicos, palco perfeito a quem queria escutar as suas cantigas. 

E o que eram e de onde vinham estas melodias que ecoavam pelo vale encantado? Eram com certeza canções de amor porque o nosso rio namorava com as pedras em mil ternuras e incontáveis murmúrios. 
E como nos grandes amores, não faltavam grandes zangas que redundavam em fortes enxurradas e levava tudo à frente numa fúria incontida,..
a que seguiam silêncios de estios prolongados, quais amuos de namorados. 
Fruto deste amor, uma imensidão de pedras rolantes, vistosas, atraentes e, outra vez, muitas e muitas cantigas de amor...

Todos os vales encantados têm os seus extraordinários habitantes e as suas fantásticas façanhas. Ano após ano, num porfiar de séculos, povoou-o de prodigiosas varandas, janelas e postigos onde plantaram o sustento. Ali vinham encher o peito de ar, ouvir baladas e, particularmente, calejar as mãos na enxada e desafiar a força e os sons do rio cantante. Quem plantou e cuidou, também colheu figos doces como o mel, 
amêndoa gostosa, uvas que se transformavam em vinho sem igual 
e azeitona que dava azeite fino de sabor incomparável. 
Da cortiça dos sobreiros, fez casas de abelhas, pródigas em oferecer-lhe o mel e a cera que lhes alumiava a noite escura. 
Também por lá deambulavam poetas e demais artistas à procura de musas inspiradoras, mas era sempre o rio cantante que se fazia ouvir mais forte e só os que tinham alma grande e apurado ouvido o sabiam escutar. 

O rio de que vos falo orgulhava-se de ser selvagem e quase indomável.
Certa ocasião riscaram-no com duas linhas e nele colocaram um cavalo de ferro que vomitava fumo das entranhas e atroava os ares com um silvo agudo. 
Mas ele não se importou. 
Continuou a cantar, 
e a mostrar-se mais vaidoso aos olhos dos viajantes que para ele olhavam boquiabertos das janelas do corcel de fumo porque mal percebiam o que o rio lhes dizia.  


A este rio cantante vão agora colocar uma mordaça em forma de barragem
 e o rio das canções de embalar, de assustar e, de amor… 
vai calar-se para sempre. 

Se agora forem ouvi-lo com o coração aberto e a alma grande, perceberão que já não canta, apenas chora… 


retirada daqui 

04 janeiro 2016

Em memória de Hélder Rodrigues: Fernando Gouveia



Ontem, dia 2 de janeiro, foi a enterrar na sua terra natal, em Mirandela, o professor e escritor Hélder Rodrigues, que, durante largos anos, exerceu a sua profissão em Carrazeda de Ansiães, onde morava.

Não posso dizer que tenha privado com ele, pois as nossas vidas diferentes só raramente proporcionaram ligeiros encontros, ou em apresentações de livros ou em manifestações culturais no concelho. A notícia funesta da sua morte apanhou-me de surpresa e, na solidão da aldeia onde por acaso me encontro, lancei a mão ao seu “A Salto” para recordar um pouco das histórias transmontanas que ele tão bem sabia contar. Sem dar por isso, agarrado pela sua escrita genuína, li de um só fôlego as 120 páginas em que nos cria roteiros de vida de duas personagens, ambas bem enquadradas no caráter-tipo que melhor corresponde aos nossos conterrâneos. Pela voz de Malaquias, que conta na primeira pessoa a epopeia humana da emigração dos anos sessenta, e pela descrição do Aragão, onde se espelham todas as cambiantes de vidas que são locais mas espelham a universal natureza humana, em toda a sua grandeza e generosidade, mas também em momentos de crueza e calculismo, Hélder Rodrigues não se limitou a escrever ficções, pois deu-nos inteira, quase em transcrição fonética de rara fidelidade, a rudeza do falar das fragas, a justificar um glossário final de quase duzentos termos ou expressões recolhidas do manancial da fala das nossas aldeias.

Já tinha lido a sua última publicação de contos “Terra Parda”, em exemplar que teve a gentileza de me autografar no ato de apresentação em Carrazeda. Sobre a sua escrita, daquilo que dela me foi dado ler, já tinha escrito em tempos neste blogue que em cada transmontano que escreve há um pouco de Torga, como se a terra comum nos entrasse a todos pela escrita dentro. E reparei agora que no peritexto de “A Salto” lá está a invocação do Mestre de São Martinho da Anta, numa belíssima citação do seu “Diário”. O Hélder escrevia com as tripas, com a dor escondida deste ser transmontano que nos marca a alma, com o olhar de humanidade que reclama a dignificação do trabalho duro e do espírito de sacrifício que nos marca.

Com a morte precoce deste professor dedicado e escritor sensível, Carrazeda perde um grande intelectual, e mais do que isso, um cidadão carrazedense que deixou nas suas páginas as referências ao concelho e à sua gente.

Aqui deixo a minha simples homenagem, na certeza de que ele merece uma homenagem pública à altura da sua obra.


Fernando Gouveia

02 janeiro 2016

De luto

O membro deste blogue, Helder Rodrigues, nascido em Mirandela e residente em Carrazeda de Ansiães faleceu na entrada do novo ano.

Professor durante muitos anos no concelho, interventor social e político da região, foi autor de variadas obras literárias, tais como: "A palavra na boca", Os Contos de Pedra", "A Salto” e duas outras de carácter social e cultural que retratam idiossincrasias carrazedenses, que são: "A festa de Santa Eufémia" e "Ciganos". A sua última obra "Terra Parda" é um conjunto de contos cujos protagonistas, no dizer de A. Pires Cabral, "são homens e mulheres rudes e inteiriços, talhados no granito e no xisto que lhes serviu de berço, aconchegados nos ditames da sua identidade cultural, que vivem histórias ora extraordinárias, ora banais muitas vezes salpicadas de tragédias, outras vezes de humor".

A sua presença assídua neste grupo espelhou sempre uma genuína aptidão para a reflexão, pautada por uma enorme capacidade de humor e doseada da sua invulgar apetência para o uso das palavras na poesia na prosa. Por vezes presenteava-nos com trechos ficcionais deliciosos que demonstram a sua rara competência na técnica da escrita criativa.

Para além de partir um valioso membro de “Pensar Ansiães”, e este blogue ficar mais pobre, é um amigo que nos deixa e também um pouco de nós se vai. A melhor homenagem que lhe possamos prestar é ler ou reler a sua obra.

A toda a família sentidos pêsames.

(foto retirada da sua página do facebook)