17 maio 2011

Manuel António Pina: Arte Poética

Arte Poética

Vai pois, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.

Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.

Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.

E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?

Poema incluído em Os Livros, ed. Assírio & Alvim, 2003

8 comentários:

Carlos disse...

Belíssimo poema, este de Manuel António Pina.

Parabéns ao premiado e parabéns ao administrador do blogue por o trazer à "praça pública".

A imagem-mensagem aqui trazida pelo poeta não é um grito de caverna deste século XXI e nada tem de rupestre... como o papel nada tem de rocha.

Atentemos nela!


Carlos Fiúza

Anónimo disse...

e agora o que dirá o lvs? este blogue está a ficar muito fino. nós, os do povo, nem sabemos o que dizer.

Anónimo disse...

O título "Arte Poética" deste poema de Manuel A. Pina (MAP), bem nos poderia remeter (se quisessemos e se tivessemos tempo e espaço para desenvolver), para duas escolas de crítica literária antagónicas: a do formalismo russo (Viktor Chklovsky; Roman Yackobsosn...) e a escola simbolista francesa ( Charles Baudelaire; Stéphane Mallarmé...). Por outro lado, este poema também nos poderia remeter (fenómeno de intertextualidade) para um poema de Vitorino Nemésio (VN) exatamente com o mesmo título: "Art Poétique"! Na verdade, VN na sua poesia, manifestou uma certa tendência para a Arte Poética, talvez influenciado por Paul Verlaine, pois, como se sabe, VN, passou 13 anos da sua vida em França e, nesta fase, é notória a sua preocupação com a remodelação da sua poesia até a transformar numa metalinguagem, por exemplo, em poemas como "La Voyelle Promise", "Credo", "De l'imprissance poétique", "Le Soutenain de l'Apparence" e o próprio "Art Poétique".
Mas Manuel A. Pina não é um formalista. Eu diria que é mais um simbolista, em constante procura da verdade, como o deixa transparecer no presente poema, num trabalho criativo de linguagem aparentemente simples mas belo (música) e fluente. Com efeito, o seu discurso emotivo mostra-se intensificador de emoções, através da dicotomia ação ("vai, pois") / reação ("tapa os ouvidos"). Os recursos expressivos para captar sentidos conotativos têm aqui um sentido apelativo: "vai, pois"/"regressa então"/mas não olhes para trás", com recurso expresso aos tempos verbais presente/futuro/passado (por esta ordem estrutural), sendo que este passado revela um regresso frustrante à realidade, como nos mostram os três derradeiros versos. No que concerne aos aspetos formais,este poema é formado por quatro quadras, com métrica irregular e rima interpolada (1ª, 2ª e 4ª estrofes) e rima emparelhada (3ª estrofe).
Eis aqui, caro amigo e colega José Mesquita, a minha análise (superficial) ao poema de Manuel A. Pina que tão oportunamente aqui nos trouxeste. Como sabes, um poema tem várias leituras, esta minha é a possível neste momento em que escrevo, através da decifração dos símbolos que contém e que o autor utiliza, certamente para fazer ressaltar ao leitor o esforço de modernidade e de procura constante de valores que o poeta aqui realiza de forma magistral.
Um abraço.
h.r.

Anónimo disse...

Obrigado, LVS.

Carlos disse...

Caro h.r.

Puxa!, como diriam os brasileiros...

..."nós, os do povo, nem sabemos o que dizer!

A sua análise é esmagadoramente certeira!

Parabens,
Carlos Fiúza

Anónimo disse...

Poema deslumbrante e actualíssimo do poeta beirão, Manuel António Pina (M.A.P.)

De acordo com o núcleo principal desta alegoria poética, importa referir que, para contextualizarmos este “Arte Poética” não é necessário ir tão longe como foi “h.r.”. Bastava tão só enquadrá-lo na fase tardia do “surrealismo” português.

Com efeito, este belíssimo poema, como o designa Carlos Fiúza (C.F.) é, na verdade, “um grito de caverna deste século XXI e nada tem de rupestre”. Sim, é isso, caríssimo C. F.. Tem razão. Porém, concordará comigo se disser que, não é “pedra tosca”; é, antes, “pedra polida”, isto é, esculpida e modelada através da destreza do cinzel da escrita, vulgarmente designada, “pena”.

Entretanto, se parafrasearmos Roland Barthes, a língua, é a familiaridade social do poeta. Talvez por isso, ou não, M.A.P. diz com toda a convicção que, "onde sinto meu sangue é na poesia". É assim que, na minha modesta opinião, este escritor sente-se, talvez, mais realizado do que na função de jornalista/cronista do Jornal de Notícias.

No poema que nos é apresentado nesta janela electrónica da comunicação, o seu autor, revela uma ironia bastante esmerada e saudável com o passado recente surrealista de onde salientamos, entre outros poetas deste espaço temporal, por exemplo, Herberto Helder e Mário Cesariny.

Neste contexto, face a alguns vocábulos expressos no poema, podemos inferir em termos telegráficos que, em relação à trilogia: tempo, visão e sentidos, há, na verdade, em todo o corpo do texto poético, uma grande e melancólica ansiedade da influência. Daí que, estão reunidos um conjunto de substâncias sobre as quais nos podemos interrogar: até onde podemos chegar?!...

Por conseguinte, é nesta ambiência que constatamos um ressentimento e ironia, em que o discurso poético é deveras (?) emotivo, mostrando-se intensificador de emoções, cuja sinestesia é, francamente, um sarcasmo bastante revelador da “Arte poética” que emerge do sujeito poético, perante a sociedade actual.

No que concerne à acção e à expressividade dos verbos, encontram-se no presente, passado e futuro, o que significa que está presente um espaço temporal entre o de “hoje”, “ontem” e “amanhã”. Daí que, esta actuação/movimento, revelam um regresso frustrante à realidade, originando, obviamente, o escárnio desse contexto sociológico e espaço temporal.

Respeitosos cumprimentos.

LVS

Anónimo disse...

Obrigado, professor Hélder.

Anónimo disse...

Meus queridos comentadores da arraia miúda à qual pertencemos todos, salvo os Drs de vários doutoramentos,que só já não o são a nível intelectual,mas havendo- os, vê-se bem quem são!São os que não precisam que lhe reconheçam o mérito das palavras que lhe saem da boca ou da escrita. São os que sentem sempre o seu ego alimentado!Explicando melhor:são os que não puxam a brasa à sua sardinha, porque até crua se pode comer ...