10 março 2005

INCENDIOS – tema actual


A partir dos anos sessenta, com a emigração em grande escala, com a introdução na vida diária de novas técnicas (uso de gás na feitura da comida) e com a diminuição de toda a espécie de animais (bois, cavalos, burros, machos, ovelhas, cabras) ao lado do homem, surgiu um fenómeno novo, até aí quase inexistente – os incêndios.
As zonas cultivadas deixaram de o ser, provocando a continuidade necessária à propagação dos fogos. Os pinhais deixaram de ser limpos, as ervas deixaram de ser tosadas pelos diversos animais.
Gerou-se o abandono generalizado, os incêndios começaram a tomar proporções cada vez maiores e incontroladas, as populações deixaram de acorrer a apagá-los e começaram a lembrar-se de chamar as corporações de bombeiros, até aí com a quase única finalidade de apagar fogos em edifícios.
O abandono foi tão generalizado que até as próprias casas passaram a estar rodeadas de enormes matagais que as põem permanentemente em perigo. Ninguém (governo, autarquias, populações) foi capaz de tomar um mínimo de medidas necessárias (concretas, não exclusivamente jurídicas, não exclusivamente burocráticas) para pelo menos limpar junto das povoações. Em vez disso, passou toda a gente a preocupar-se (à boa maneira inquisitorial) em encontrar os elementos perversos que intencionalmente estavam na origem de tanto mal.
E os culpados foram vários e para todos os gostos: em 1974/75 – os fascistas; em 1975/76 – os comunistas; mais tarde os madeireiros; depois os pastores; também as avionetas; eu sei lá!
Chegámos assim ao inferno actual em que irresponsavelmente se continua na busca de bodes expiatórios em vez de tentar encontrar vias de solução.
O problema, entretanto, não se resolve.
Como poderá ele resolver-se?
É preciso dizer, sem margem para dúvidas, que a solução não é, nem de perto nem de longe, fácil.
Uma evidência clara ressalta aos olhos de todos: é preciso tomar medidas para que casas isoladas, pequenas povoações, vilas e cidades deixem de correr quaisquer riscos quando ocorrerem os próximos incêndios: isto é possível, isto tem de ser possível.
Para além disso, o que será possível fazer mais?
Terá de ser também possível ter um cuidado especial com determinadas manchas florestais (Pinhal de Leiria, Serra de Sintra, Luso, Gerês).
Quanto a grandes zonas do país (florestas e, sobretudo, matagais), durante muito tempo não teremos outra hipótese que não seja deixar arder porque é impossível que a limpeza possa ser feita de outro modo.
Claro que os serviços de combate aos incêndios devem estar organizados de molde a reduzir ao mínimo os malefícios destes eventos.
Claro que deve pensar-se em fazer-se uso do próprio fogo para limpar, em reflorestar de um outro modo e com outras espécies, em disseminar rebanhos de gado ovino e caprino, etc, etc, procurando as soluções que mais se adequem aos tempos actuais.
Mas isso vai levar mesmo muito tempo (gerações, talvez).
Que fazer a nível local?
Estudar a situação das povoações e casas e obrigar a limpar à sua volta ou preparar serviços que colmatem a inacção das pessoas.
Ver bem que manchas florestais devem ser preservadas de maneira a que o concelho não fique irremediavelmente mais pobre em termos florestais. Fazer um levantamento da orografia do concelho para que possamos determinar o que pode e deve ser defendido, o que pode e deve arder, as vias necessárias às intervenções.
Parece-me urgente que isto seja feito e que não se deixe tudo entregue à improvisação, à abnegação, que é muita, dos bombeiros e à sua boa vontade.
J.L.M.

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