30 abril 2011

Citações ao sabor da crise: Camões - Cá nesta Babilónia

Cá nesta Babilónia, donde mana
Matéria a quanto mal o mundo cria;
Cá, onde o puro Amor não tem valia,
Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

Cá, onde o mal se afina, o bem se dana,
E pode mais que a honra a tirania;
Cá, onde a errada e cega Monarquia
Cuida que um nome vão a Deus engana;

Cá, neste labirinto, onde a Nobreza,
O Valor e o Saber pedindo vão
Às portas da Cobiça e da Vileza;

Cá, neste escuro caos de confusão,
Cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

26 abril 2011

Ficções

(a todos aqueles que defendem a linha do Tua)



Foi ao passar junto ao pedaço de espelho pendurado na porta, aí a metro e meio do chão, que o Agripino se assustou. Levava um molho de lenha ao peito, amparado pelas duas mãos mas nem deu por isso. Aquela cara ali espelhada na porta era de alguém que ele conhecia muito bem, só que ao vê-la, assustou-se e deu um passo atrás. Mas que diabo era aquilo? Os cabelos desgrenhados e brancos, quase lhe cobriam os olhos e as orelhas nem se viam, tapadas com os mesmos e com as barbas que ali nasciam e lhe chegavam ao segundo botão da camisa.
Repôs o passo em frente e aproximou mais o rosto do pedaço de espelho. Os olhos do Agripino e os do espelho abriam e fechavam em simultâneo, como simultâneas eram as caretas. Esta agora, dizia o velho quando se descobriu ali espelhado. E desatou a rir, primeiro baixinho e incrédulo, depois gradativamente mais alto até chegar às gargalhadas sonoras que transportou para o interior da casa, em direção à lareira, onde pousou o molho de lenha para acender o lume.
Das profundezas do bolso de fora do velho casaco tirou uma caixa de fósforos e do outro bolso arrancou um pedaço de cigarro que foi direitinho para o meio dos lábios. Riscou o fósforo na lixa e os dedos, um pouco trémulos, transportaram a pequena chama bruxuleante até à ponta do cigarro que logo brilhou na semi obscuridade, à primeira fumaça que o velho puxou. Só depois, ainda com a pequena chama quase a extinguir-se no fósforo, chegou-o às giestas que ficaram sob o molho de lenha e, como se houvera um milagre, as chamas começaram a crescer e a crepitar até se transformarem em altas labaredas a iluminar e a aquecer o lar.
Como o fumo acompanhava o lume a erguer-se, o velho começou a tossir e saiu, quase aflito, para repor o ar puro da rua nos pulmões.
Já mais aliviado, ficou-se então no meio da plataforma, olhando, distraído para um lado e outro dos carris ferrugentos, como se estivesse à espera do comboio que nunca mais chegaria, pois o iriam substituir por uma barcaça navegando sobre as águas paradas de uma barragem.
Depois de olhar para os lados, olhou em frente, para as águas do rio que ali corriam num sussurro, tranquilas e transparentes, entre pedregulhos e tiras de areia.
Não, o comboio não mais passaria ali nem pararia à frente daquele triste apeadeiro que o tempo e o abandono de muitos anos, quase tinham destruído.
Foi por isso que o velho Agripino se alojou ali, sozinho, sem família e sem saúde, e fez do apeadeiro a sua primeira casa.



Hélder Rodrigues

25 abril 2011

“Aqui d’el Rei!”: Carlos Fiúza

Irmã de política, é polícia uma outra palavra criada para bem da “civilização”, mas, infelizmente, atraiçoada no seu profundo e benemérito significado.
Tal como “política”, a “polícia” é uma das palavras que visam à civilização.
Ora vamos por partes:
Um homem é um homem, assim como dizem alguns que um gato é um bicho. Até aqui nada de novo, e estamos todos de acordo.
Dois homens são dois homens, assim como dois gatos são dois bichos… e isto agora começa a complicar-se, porque dois homens ou dois gatos, e quem diz gatos pode dizer dois cães ou dois lobos… já são coisa mais séria.
Imaginai, por exemplo, dois homens primitivos, à busca de alimento. Bateram a floresta, lá arranjaram o que puderam. Mas suponde que conseguiram muito pouco. Acreditais que jogaram à bulha, em disputa do que algum deles angariou para sustento?
Talvez sim, e talvez não. É possível que uma vez ou outra dois homens primitivos repartissem do seu pão. É possível também que muita vez zaragateassem na procura, ou na repartição, ou na divisão dos alimentos.
Tudo dependeria, afinal, da abundância ou da escassez do que arranjassem.
Quando a comida falta, falta a moral por vezes.
O “pão” ainda é o melhor sermão da moralidade. A fome é má conselheira, e tão negra que até enegrece as almas cândidas.
Isto verifica-se entre os homens e entre os bichos.
Dois gatos, cada um com o seu carapau, não se zangam em geral. Mas dois gatos e um só carapau… já é outra história.
Recuando nós em espírito à primitividade humana vemos, destarte, que dois homens juntos não se salvam, se a luta de interesses os dividir.
Porém, os homens devem ter notado logo que a união faz a força. E a vida precisa de sociabilidade.
Assim nasceu naturalmente a tendência para a associação humana, para a sociabilidade.
Não são os homens “sócios” uns dos outros na viagem para a morte, que é afinal a nossa existência?!
Cada segundo é um passo para a eternidade. E em cada segundo, mesmo afastados, nós podemos estar em espírito na companhia de outras pessoas.
Aquilo a que chamamos “cidade” é o produto mais visível da sociabilidade e da civilização humanas.
De facto, a “polícia” visa a guardar ou a salvaguardar a “civilização”, quero dizer, a “compostura da cidade”.
E existe toda uma curiosa família de palavras provindas de “polis”, a cidade. Essas palavras foram-se desenvolvendo em derivações formais e semânticas, ao serviço do progresso humano, ou melhor, ao serviço dos desejos do progresso humano, porque estou a pensar que nem sempre o progresso é “progresso”; muitas vezes é regresso à animalidade.
Haja em vista o que se tem passado nos últimos tempos nas cidades deste mundo do século XXI.
A ironia do destino faz com que a pretensa civilização das cidades recebesse um outro reconhecimento: o de que muita gente junta não se salva.
Quanto mais populosa é uma cidade, mais necessário se torna a “polícia”.
Ora, isto é uma dupla ironia, na qual agradecia que me acompanhassem a meditar.
Disse eu há pedaço que muita gente junta não se salva. Isto é, quantos mais bichos humanos houver na cidade, tanto maior será a prudência em salvaguardar a “civilização dos costumes” - a “polícia”.
E aqui chegamos ao ponto de considerar que “política” e “polícia” são termos necessariamente ligados.
Havia em grego uma outra palavra também derivada de “polis”, a cidade. Era “politeia”, e significava igualmente o “governo da cidade”.
Em “polícia” (que nos veio de “politeia”) existe, portanto, um sentido etimológico com a ideia de - defesa da cidade contra tudo o que lhe seja prejudicial e, consequentemente, em favor de tudo quanto convenha ao seu progresso moral e material.
Pelo motivo de se considerar o adiantamento social da cidade em confronto com a vida mais atrasada fora dela (tanto assim que “civilização” e “civilidade” se prendem com “civilis”, digno da cidade), a palavra “polícia” teve o significado de “civilização”, de “cultura”.
Quando Camões, em “Os Lusíadas”, descreve as festas celebradas pelo rei pagão de Melinde, em honra dos Portugueses, diz que os jogos, as danças e outras alegrias se fizeram segundo a “civilização melindana”. Mas, em vez de “civilização”, o Poeta chama-lhe de “polícia”:

“Com jogos, danças e outras alegrias,
A segundo a polícia melindana,
……………
Este famoso rei todos os dias
Festeja a companhia lusitana”.
(Lusíadas, VI, 2)

Entre “política” e “polícia” há, por conseguinte, uma relacionação de sentido etimológico facilmente compreensível; e tudo isto vem, como disse, do facto de a aglomeração humana precisar de ser “vigiada”, “guiada”.

É curioso, porém, ver como as palavras ora fogem, ora regressam, ora se afastam, ora se reencontram.
Hoje para chamar a polícia há vários processos e um deles (muito “civilizado”) é pelo… telefone. No entanto, em caso de aperto, ainda em nossos dias se grita “ó da guarda!”, locução elíptica muito fluente, que foi substituindo o antigo “aqui d’el rei”.
“Ó da guarda” porquê? Porque se quer socorro urgente de alguém da “guarda”, ou até mais gente “da guarda”.
Esta exclamação faz-nos entrar na observação de que a palavra “guarda” e a palavra “polícia” se ajustam às mil maravilhas.
E o povo que não sabe etimologias (mas como que as adivinha) muita vez envolve o termo “guarda” pelo devido respeito e, dirigindo-se a um polícia, quase nunca diz - “Ó senhor polícia” mas, sim, “Ó senhor guarda”.
Destas congeminações que aqui ficam se conclui que a “civilização” precisa de “ordem”, e a “ordem” pressupõe, por natural exigência, a “POLÍCIA”.
Mas…
Para haver “polícia” no velho sentido de “civilização de costumes”, tem de haver “política”, mas “POLÍTICA” na verdadeira aceção de “ARTE DE GOVERNAR”, isto é, aquilo que em grego se chama “POLITIKÉ”.

Carlos Fiúza

24 abril 2011

Páscoa Feliz

Que o doce das amêndoas ajude a esquecer a amargura dos tempos de crise e o sabor do Folar mitigue os tempos difíceis que se aproximam.
Neste tempo de renascimento, arregaçamos mangas, juntando forças para um futuro melhor .
Desejamos a todos os carrazedenses uma
Páscoa Feliz.

22 abril 2011

Orelhas moucas

Afinal alguém me representou nas negociações com a troika (CE, BCE e FMI) que vai impor as condições para o empréstimo que presumivelmente resgatará Portugal da falência - Carvalho da Silva.

Após a reunião, o líder sindical reiterou na “recusa de medidas de austeridade que condenam o país». Reconheceu a necessidade de “resolver o défice”, associada a “políticas de desenvolvimento económico” e “politicas para evitar a ruptura social”. Lembrou ainda que nos últimos meses Portugal assistiu a uma quebra da «protecção social que assusta», com quebras na «ordem dos 40 por cento, em sectores como o abono de família». O dirigente sindical acrescentou que “o prazo de redução do endividamento deverá ser alargado até 2016” e a taxa de juros não pode ser o “dobro e o triplo da que pagam os países que não têm problemas”.

Carvalho da Silva defendeu que «Portugal tem que ter medidas de crescimento económico através da dinamização de um programa nacional, nomeadamente, no sector primário», defendendo o combate à “economia clandestina”, o reequilíbrio entre distribuidores e produtores para que não sejam sempre os mesmos a ganhar, a reorientação do crédito para actividades dinamizadoras da capacidade de produção.
Questionado se tinha sido ouvido pelos negociadores, respondeu ironicamente que “não viu nenhum deles com os ouvidos tapados”.

Disse o que tinha de ser dito, ao contrário de alguns que não quiseram negociar, e não perdeu capacidade de luta. Creio que foi ouvido, porém dificilmente será escutado, a factura será paga pelos mais fracos. Como sempre…

O vídeo aqui.

Sondagens

PSD em queda

Esta dá um empate técnico.

Intervalo - missa dominical

21 abril 2011

Intervalo - crucifixação

Esta Páscoa fica para a História - "Jesus" crucificado a uma "Quarta-feira Santa"…

SEMÁFOROS - VERDE E VERMELHO

Diálogo entre o Novo e o Povo.
Povo- O compadre sabe que há em Carrazeda de Ansiães, uma Piscina Municipal concebida para o futuro com estas características: - Tem uma piscina adequada à aprendizagem da natação para os miúdos e aulas de hidroginástica para os seniores. Tem uma piscina com dimensões de piscina de competição. Tem um tanque “Jacuzi” e balneários para mulheres e homens, instalações para os instrutores e funcionários, e ainda umas bancadas para o público assistir a eventuais provas de competição, está claro.
Novo- Ó compadre, está mais escuro que claro. Diga-me cá, quantas provas de natação ali se efectuam durante o ano? Quais os campeonatos distritais ou mesmo nacionais,que constam do calendário das provas a realizar na Piscina? E ainda quantas pessoas frequentam a Escola da Natação ou mesmo as aulas de hidroginástica?!!!
Povo: - Na verdade compadre, em verdade são muito poucas as pessoas que frequentam as aulas de hidroginástica – que são benéficas para os seniores- o que é pena, ainda menos os que vão à natação e não existe escola ou grupo de nadadores, que formem uma equipa. Também não há provas que ali se realizem..!!
Novo: - Compadre, mesmo assim,com todas as dificuldades inerentes ao funcionamento das Piscinas. E porque e obra, foi feita em grande escala.Aqui ficam as sugestões para quem de direito possa e deva fazer alguma coisa, para que as Piscinas cumpram a missão que lhes está atribuída.Vamos atribuir a classificação de luz verde.
Povo: - De aplaudir, para sorrir foi a festa da inauguração da II Feira do Folar de Carrazeda de Ansiães. A gente aceitou o convite, a entrada franca, e foi com alegria e prazer que vimos gente miúda, gente interessada na musica e na dança com o Rancho Folclórico de Ansiães, autarcas que nos dão música, que formam conjuntos “Os sons da terra” e a recém formada escola de cordas e cavaquinhos do Pombal, com 3 meses de vida, já mexe e convida e ainda a escola de cordas da Junta de Freguesia de Carrazeda. Bom, com tanta alegria e som, não admira a satisfação do Presidente da autarquia, ele que tão bem canta no lugar que ocupa e sabe reger uma Banda, além de que até já criou uma academia de música, onde todos podemos aprender e podemos viver sem música? Podemos. Mas não é a mesma coisa.
Novo: - Bolas, que baile, que baile ó compadre. Mas será que essas escolas, esses grupos que se formam vão avante? Que é feito da escolinha de Parambos?!! Ainda existe? E a de Zedes?!... E será que daqui a um ano ainda vamos ter estas formações musicais em actividade?!!.. Aguardamos e enquanto o pau vai e vem, folgam as costas.Vamos atribuir luz verde.
Povo: - Boa compadre, boa. Mas no nosso semáforo há que dar luz vermelha, à eterna obra da Avenida Engenheiro Camilo Mendonça- grande e ilustre transmontano – que nem ata nem desata. Agora é o arranjo dos passeios, mais tarde arranjam outra coisa e quando o betuminoso – alcatrão - for aplicado, esgotou-se a paciência de quem tem de aturar isto, olha compadre o povo que represento. Não compreende esta situação e a demora com a obra. Não se justifica que o contrato não seja cumprido. Os prazos de entrega da obra foram ultrapassados? A empresa deve ser multada. Há direitos e deveres por ambas as partes, não há direito é estar a obra neste impasse. Vem aí o Verão os turistas e até já na Páscoa quem nos visita o que vê? Uma Avenida estragada, cujo arranjo foi herança do executivo anterior.
Novo: - Mas há mais e a porcaria da invenção do mini-semáforo na entrada norte da vila?!!! O tempo que se perde, o pó que se apanha e logo nesta altura, que jeito de governar a casa dos outros. O Tempo é de Sol, há poeira, vem a chuva e a lama e será que vão ser concluídas rapidamente?! Mas será que vamos pelo menos aqui suspirar de alivio ou é a mesma empresa. Quem é o pai da criança? Eu sei lá, sei lá….Logo aqui luz vermelha
Povo: - Para terminar este semáforo uma alusão ao velho e respeitoso semáforo de Luzelos a aldeia mais Sportinguista de Portugal e sabem a razão?!. Pois aquele semáforo está sempre, sempre no verde.
Novo: - E por aqui nos ficamos. Mas quando tal se justifique vamos regressar com novos motivos de aplauso ou com outras críticas de quem pensa que “EM TERRA DE CEGOS QUEM TEM UM OLHO, É REI". Povo que lavas no rio que talhas com teu machado, as tábuas do teu caixão….(cantiga popular)

20 abril 2011

Discórdias

"O presidente da distrital de Bragança do PSD, José Silvano, expressou a sua «discordância absoluta» com a «imposição» de Francisco José Viegas para cabeça de lista por esta região.
«Discordo em absoluto da escolha da nacional. Bragança tinha outra expetativa, que fosse uma pessoa da região», disse, em declarações à Agência Lusa.
(...)
José Silvano lamentou ainda que a distrital de Bragança "há já vários mandatos sucessivos veja a sua posição contrariada pela nacional até quando tem um líder do PSD e um vice-presidente do grupo parlamentar que são transmontanos"


O PSD de Bragança tem obtido, salvo uma rara excepção, as maiores votações no distrito. Terá o maior número de militantes e daí uma putativa melhor escolha para as várias candidaturas. Porém… as diversas propostas da distrital são chumbadas pelo directório nacional que impõe, à excepção de Duarte Lima, um nome de fora da região.
A última candidatura foi encabeçada pelo ilustre portuense e professor universitário José Ferreira Gomes. Um esforço de pesquisa na internet para saber da sua actividade em pró do distrito, torna-se infrutífera, e só a notícia da sua candidatura e do seu brilhante percurso universitário. Alguém conhece uma intervenção, uma tomada de posição, um suspiro deste ilustre representante bragançano?
Conclui-se que no nordeste não há um transmontano com curriculum suficiente para encabeçar tão importante desiderato. As tarefas hercúleas que se propõem para o distrito são tão admiráveis e transcendentes que só alguém com peso nacional as poderá concretizar. As intenções são deveras nobres, mas perante os resultados apenas se poderá exclamar: “de boas intenções está o inferno cheio!”
Os transmontanos agradecem e votam e votam, ou votarão em quem quer que fosse?

19 abril 2011

Citações ao sabor da crise 3 - Antero de Quental - causas da decadência...

(...)
"Em tudo isto acompanháramos a Europa, a par do movimento geral. Numa coisa, porém, a excedemos, tornando-nos iniciadores: os estudos geográficos e as grandes navegações. As descobertas, que coroaram tão brilhantemente o fim do século XV, não se fizeram ao acaso. Precedeu-as um trabalho intelectual, tão científico quanto a época o permitia, inaugurado pelo nosso infante D. Henrique, nessa famosa escola de Sagres, de onde saíam homens como aquele heróico Bartolomeu Dias, e cuja influência, directa ou indirectamente, produziu um Magalhães e um Colombo. Foi uma onda que, levantada aqui, cresceu até ir rebentar nas praias do Novo Mundo. Viu-se de quanto eram capazes a inteligência e a energia peninsulares. Por isso a Europa tinha os olhos em nós, e na Europa a nossa influência nacional era das que mais pesavam. Contava-se para tudo com Portugal e Espanha. O Santo Império alemão oferece a orgulhosa coroa imperial a um rei de Castela, Afonso, o Sábio. No século XV, D. João I, árbitro em várias questões internacionais, é geralmente considerado, em influência e capacidade, como um dos primeiros monarcas da Europa. Tudo isto nos prepara para desempenharmos, chegada a Renascença, um papel glorioso e preponderante. Desempenhámo-lo, com efeito, brilhante e ruidoso: os nossos erros, porém, não consentiram que fosse também duradouro e profícuo. Como foi que o movimento regenerador da Renascença; tão bem preparado, abortou entre nós mostrá-lo-ei logo com factos decisivos. Esse movimento só foi entre nós representado por uma geração de homens superiores, a primeira. As seguintes, que o deviam consolidar, fanatizadas, entorpecidas, impotentes, não souberam compreender nem praticar aquele espírito tão alto e tão livre: desconheceram-no, ou combateram-no. Houve, porém, uma primeira geração que respondeu ao chamamento da Renascença; e enquanto essa geração ocupou a cena, isto é, até ao meado do século XVI, a Península conservou-se à altura daquela época extraordinária de criação e liberdade de pensamento. A renovação dos estudos recebeu-a nas suas Universidades novas ou reformadas, onde se explicavam os grandes monumentos literários da Antiguidade, muitas vezes na própria língua dos originais. Entre as 43 Universidades estabelecidas na Europa durante o século XVI, 14 foram fundadas pelos reis de Espanha. A filosofia neoplatónica, que substituía por toda a parte a velha e gasta escolástica, foi adoptada pelos espíritos mais eminentes. Um estilo e uma literatura novos surgiram com Camões, com Cervantes, com Gil Vicente, com Sá de Miranda, com Lope de Vega, com Ferreira. Demos às escolas da Europa sábios como Miguel Servet, precursor de Harvey, filósofos como Sepúlveda, um dos primeiros peripatéticos do tempo, e o português Sanches, mestre de Montaigne. A família dos humanistas, verdadeiramente característica da Renascença, foi representada entre nós por André de Resende, por Diogo de Teive, pelo bispo de Tarragona, Antonio Augustin, por Damião de Góis, e por Camões, cuja inspiração não excluía uma erudição quase universal. Finalmente, a arte peninsular ergue nessa época um voo poderoso, com a arquitectura chamada manuelina, criação duma originalidade e graça surpreendentes, e com a brilhante escola de pintura espanhola, imortalizada por artistas como Murillo, Velásquez, Ribera. Fora da pátria guerreiros ilustres mostravam ao mundo que o valor dos povos peninsulares não era inferior à sua inteligência. Se as causas da nossa decadência existiam já latentes, nenhum olhar podia ainda então descobri-Ias: a glória, e uma glória merecida, só dava lugar à admiração.
Deste mundo brilhante, criado pelo génio peninsular na sua livre expansão, passamos quase sem transição para um mundo escuro, inerte, pobre, ininteligente e meio desconhecido. Dir-se-á que entre um e outro se meteram dez séculos de decadência: pois bastaram para essa total transformação 50 ou 60 anos! Em tão curto período era impossível caminhar mais rapidamente no caminho da perdição.


Antero de Quental - "Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos últimos três séculos"

15 abril 2011

GNR apreendeu coelhos importados ilegalmente

A GNR apreendeu na zona de Vila Flor, 350 coelhos bravos provenientes ilegalmente de Espanha para repovoamento de zonas de caça naquele concelho transmontano.

Se a fiscalização se alarga, atenção à capital do país...

A grande operação

Aqui está:
A GNR de Carrazeda de Ansiães anunciou hoje a detenção de dois indivíduos suspeitos de serem os autores do furto de diversos materiais na zona industrial de concelho.

Os dois larápios têm idades próximas dos 30 anos e quando foram abordados pela patrulha não tardaram a confessar o crime


O senhor comandante interino de Mirandela destacou: “A patrulha deslocou-se ao bairro do Iraque para identificar dois indivíduos suspeitos do furto que ocorreu na zona industrial e confirmou-se pois confessaram.
E acrescentou:
“Houve queixa por parte do senhor a quem foi furtado. Os investigadores foram chegando a estas conclusões e depois interrogaram os autores do crime. Furtaram sete lâminas de corte, bidões de cobre e um martelo pneumático.”
De facto é uma grande notícia tal apreenssão, porém faltou a chave de ouro, pois, como refere a fonte noticiosa,  não foi ainda recuperado o material roubado. Contudo, confia-se na GNR de Carrazeda.

Tempo de consumir em português

Não sei se será verdade ou não, mas tem circulado no correio electrónico que se cada português consumir 100€ de produtos nacionais (em vez de importados), a economia cresce acima de todas as estimativas e ainda cria postos de trabalho em Portugal!

Em tempos de crise, gestos como este, de empenhamento colectivo e de fervor patriótico, podem ajudar a superar os tempos difíceis. Os portugueses sabem envolver-se em iniciativas solidárias, sempre da iniciativa da sociedade civil.

Lembre que o dinheiro que aí vem? vai ser bem pago em juros... E ao consumirmos produtos espanhóis, franceses, alemães, finlandeses... estamos a ajudar essas economias e a prejudicar nossa.

Consumir português parece-me uma boa ideia.

Já agora nas deslocações ao supermercado, saiba que OS PRODUTOS PORTUGUESES COMEÇAM POR "560" NO CÓDIGO DE BARRAS.

14 abril 2011

Citações ao sabor da crise 2 - Precisa-se de matéria prima

Precisa-se de matéria prima para construir um País

A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia,bem como Cavaco, Durão e Guterres.

Agora dizemos que Sócrates não serve.

E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada.

Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates.

O problema está em nós. Nós como povo. Nós como matéria-prima de um país.

Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro.

Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais.

Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal
E SE TIRA UM SÓ JORNAL,
DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.

Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos... e para eles mesmos.

Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos.

Pertenço a um país:

-Onde a falta de pontualidade é um hábito;

-Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano.

-Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e, depois, reclamam do governo por não limpar os esgotos.

-Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros.

-Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é 'muito chato ter que ler') e não há consciência nem memória política, histórica nem económica.

-Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar alguns.

Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser 'compradas', sem se fazer qualquer exame.

-Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços,
ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não lhe dar o lugar.

-Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão.

-Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes.

Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado.

Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas.

Não. Não. Não. Já basta.

Como 'matéria prima' de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que o nosso país precisa.

Esses defeitos, essa 'CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA' congénita,essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até se converter em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente má, porque todos eles são portugueses como nós,
ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não noutra parte...

Fico triste.

Porque, ainda que Sócrates se fosse embora hoje, o próximo que o suceder terá que continuar a trabalhar com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos.

E não poderá fazer nada...

Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá.

Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, nem serve Sócrates e nem servirá o que vier.

Qual é a alternativa ?

Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror ?

Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa 'outra coisa' não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados... igualmente abusados !

É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda...

Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um messias.

Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer.

Está muito claro... Somos nós que temos que mudar.

Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a acontecer-nos:

Desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e, francamente, somos tolerantes com o fracasso.

É a indústria da desculpa e da estupidez.

Agora, depois desta mensagem, francamente, decidi procurar o responsável, não para o castigar, mas para lhe exigir (sim, exigir) que melhore o seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido.

Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO DE QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO.

AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO NOUTRO LADO.


Eduardo Prado Coelho - in Público

13 abril 2011

Intervalo - o negociador

Intervalo

Citações ao sabor da crise 1

"Ao mesmo tempo que estes nobres de Portugal se servem da sua nobreza, não para imitar os seus passados, (...) mas sim para fazer à sombra da sua qualidade, quantas indignidades e extorsões podem excogitar; v.g. pedindo emprestadas enormes somas de dinheiro, que nunca pagam, vexando os pobres, (...) insultando as justiças, fazendo mortos e outras e outras violências inauditas. Se lhe perguntardes a razão, responder-vos-ão que é porque são nobres e que a um homem de bem lhe é permitido muitas vezes obrar contra as leis, que só firmam para os vilões ruins"
 in "cartas de um viajante francês a um seu amigo residente em Paris", final do século XVIII

Divulgação - Prova de Vinhos 2011 - ARCPA

Divulgação - BTT

07 abril 2011

SOS!... Assalto a idosos

Há poucos dias uma idosa de Bragança, 80 anos, foi assaltada de madrugada, dentro de casa, por dois homens e uma jovem. "Roubaram-lhe as alianças, arrancaram-lhe os brincos das orelhas e tentaram silenciá-la com violência".
Os assaltantes bateram à porta, gritavam por ‘mãe’, e a senhora pensando ser a sua filha, abriu-lhes a entrada. Aqui

São muitos os estratagemas utilizados nos assaltos, mas quase sempre ligados aos laços afectivos e aos chamados contos do vigário, explorando a ingenuidade e o forte sentimento de família dos nossos idosos. Escolhem quase sempre as vítimas isoladas e/ou indefesas.
Da parte das autoridades policiais, municipais e de assistência social deverão redobrar os cuidados para este tipo de precaridade, a segurança dos idosos.
Cabe às juntas de freguesia, entidade singular das aldeias, a coordenação de campanhas de sensibilização e mesmo medidas de apoio e alerta para as entidades de segurança de modo a prevenir e dissuadir estes actos.
As jóias e os objectos em ouro são uma das prioridades dos meliantes. Veja-se: agora, em qualquer espaço comercial, pode-se trocar ouro por "dinheiro vivo".  A crise simplificou a lavagem dos objectos roubados.

Segundo o jornal, este assalto teve um epílogo feliz. Será?
A idosa conseguiu gritar por socorro. Acorreu uma vizinha, que acordou com o barulho. Os ladrões acabaram por fugir após ouvirem passos no piso superior. A PSP deteve o trio pouco depois na posse dos objectos furtados. Foram notificados para ir a tribunal.
Desconfia-se que serão ilibados por não terem sido apanhados em flagrante, ou... Continuarão a senda do crime para desespero de toda a sociedade.

04 abril 2011

Um abraço a um Rio de problemas...


Foi agradável o passeio entre as estações do Castanheiro e do Tua. Perante a indiferença das autoridades que aguardam pela Barragem, Nós sabemos que não vai haver ligação pelo "Funicular" mais tarde "Barco" e finalmente na estação de Brunheda o "Metro" para finalmente chegar a Mirandela.Jamais isso acontece, porque não há vontade política, nem a recentemente criada Associação para o Desenvolvimento do Vale do Tua, está empenhada nisso.As autarquias, querem dinheiro, o vil metal para suportar "obras de fachada" que lhes garantam a reeleição e há que aproveitar, enquanto a Reforma Administrativa não vem.Ainda espero ver uma Reforma que acabe com os Governos Civis, com as freguesias e mesmo com alguns Municipios, é que em tempo de crise, a porca da politica, não aguenta dar de mamar a tantos filhos....