27 junho 2006

Contra a corrente nacional-(cançonetista):Manuel Alegre e Manuel António Pina

A pátria do adepto é o seu clube.

Manuel António Pina

Para Manuel Alegre, Scolari é tão-só um ‹‹génio do marqueting››, que conseguiu uma grande mobilização popular à volta da selecção. Respondendo ao Jornal de Letras: ‹‹Claro que os jogos se ganham dentro do campo, mas esse envolvimento, n1 época de crise e descrença, em que faltam causas, torna a selecção uma espécie de factor de re-identificação. Se calhar há uma certo exagero nas bandeiras, nos cachecóis, em toda essa liturgia, mas a verdade é que funciona, sobretudo na emigração.›› E faz notar que muitos dos emigrantes de 2ª e 3ª geração reencontraram as suas raízes, _ orgulho de ser português, através do futebol... Sobrepondo a selecção à clubite. E

é isso que enerva Manuel António Pina, que não alinha na selecção. Interrompida a Liga de Clubes, o Mundial faz uma espécie de sucedâneo: «Como não há heroína, mete-se metadona para a veia››, ironizou ao JL. Nesta altura do Mundial e da selecção, o futebol é invadido por uma série de intrusos, que são os não-adeptos, pessoas que não ligam nada ao futebol e que agora põem a bandeira à janela e apoiam a selecção. Esses adeptos de ocasião são uma ‹‹espécie de condutores de domingo, a gritarem Portugal, Portugal. A minha relação com o futebol é uma coisa íntima e forte de mais para colaborar em partouzes [como eram chamadas as orgias a seguir ao Maio de 68]», já que gosta de assistir aos desafios na solidão do sofá. Para sublinhar no seu entendimento, invoca o filme de Jean-Luc Godard, Pierrot le fou, numa cena em que Jean-Paul Belmondo interpela o cineasta Samuel Fuller, perguntando-lhe o que é o cinema. ‹‹Emotion››, diz Fuller. E Pina, subscreve, pensando no futebol: ‹‹Também a bola é emoção, representando a vida, porque tem a humilhação e a glória, o medo e a esperança, a alegria e a frustração, a euforia e a desgraça, a justiça e a injustiça, a necessidade e o acaso.››. E

sobre as coreografias… Manuel António Pina diz:

- Qual bailado? O futebol é _ _ _ luta de vida ou de morte. Assim,

UNIÃO NACIONAL

não espanta que o povo se passe uma esponja ao que deveria ser fundamental no Desporto – o fair-play e elejam como protagonistas tipos bárbaros que batam no árbitro, rodeiem os adversários, dêem cabeçadas ou cuspam para o ar, verdadeiros campeões do sururu… Como foi o caso do jogo de full-contact entre os holandeses e os portugueses. Que de exemplos para os nossos jovens seguirem! Embora, claro

se possa, ao menos, apontar um positivo: o nosso Beckenbauer, Ricardo Carvalho, em sua gentlemania… Que raramente se serve de tocar o Outro.

Porque não sou religioso fanático nem uso drogas, como diria Frank Zappa, não me apresento como nacionalista mas como simples patriota, com um projecto crítico-construtivo (ou , na acepção sociológica de Manuel Villaverde Cabral) para a ideia de Portugal… Como no blog a hão José Mesquita e Rui Castro Martins, contra a verdadeira absolutização do Nada ou do Tudo, por alguns… a nível local e nacional. Outros que tais, nacionais-cançonetistas, os quais esqueceram, por exemplo, que a Federação Portuguesa de Futebol ainda tem uma organização fascista, pelo que a divinização do DOUTOR Gilberto Madail (no fado-choradinho que ele-próprio canta à sua eventual saída, por cansaço…) é verdadeiramente orgânico-corporativa… Que Artur Jorge nem pôde concorrer (repito: ser eleito) pois não teve votos suficientes das corporações: associações, treinadores, árbitros, etc., para apresentar a sua candidatura. Assim, vingou (como vinga) a União Nacional, lista única do DOUTOR… Salazar, digo, Scolari – esse verdadeiro nacionalista, que não troca Portugal por Nada… A não ser pelo Tudo de treinar um clube ou selecção que tenha um projecto ainda mais nacionalista... Como os jogadores – não se consta que tenham, para servir o país, jamais cantado o Fado:

- Qual é o prémio de jogo?, e que hotel de luxo, em Fátima a pé?.

Por tudo isto, prefiro os paralímpicos, esses sim, os meus heróis, portando a sua bandeira ao coração, uma vez me darem exemplos de vida – transcendendo-se… Mesmo ao azar da sorte.

vitorino almeida ventura

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