25 julho 2010

A tradição dos astronautas

No início da “ Silly Saison” polemizou-se aqui sobre a questão das SCUT e o pagamento de portagens nas Auto-estradas e I.C que estão em construção nas nossas paragens. Por essa altura tivemos por perto a visita do Sr. Ministro da Economia que falou, para dizer que iríamos ter que pagar o benefício dos nossos novos acessos. Depois desdisse-se mas, o mais certo é que, quando as vias estiverem a funcionar, o Sr. Ministro esteja já a fazer o seu período de nojo, numa qualquer empresa pública.
Assim não vai precisar-se dele para obrigar os utentes a pagarem as despesas com os investimentos feitos. Tenho para mim que a obra da IC que passa pelo nosso concelho e há-de dar acesso em todas as direcções, quando concluída, constituirá o maior investimento jamais feito aqui. A obra tem-me eriçado os cabelos ao ponto de não conseguir conjecturá-la concluída nos meus dias. Ao imaginar o preço por que nos vai ficar, o desbaste e nivelamento dos terrenos na nossa zona, consigo até inventar aeroportos a substitui-la (hoje vai-se do Porto ao Algarve de avião, por 20 Euros). Na verdade estas condições de acesso virão potenciar muito a região. Talvez mais do que o fez o comboio, que já lá vai.
Fica portanto a pergunta. Já estamos a preparar-nos para justificar este investimento? Já estamos a pensar no lucro que poderemos tirar da melhoria ímpar, das condições de acesso que vamos ter? Ou só estamos a pensar em fugir ao pagamento das portagens, que tão caras ficarão, se não se lucrar com elas!
É pertinente perguntar-me por exemplo, se a estratégia da Autarquia de prometer para breve um pré-fabricado novo para as Termas do Pombal, já estará integrada na ideia de potenciar os nossos recursos com vista a tirar partido dos acessos a advir.
Afinal são as ideias e projectos, ou é a incompetência e a ignorância para os implementar que, na circunstância, nos manieta!? Tudo factores que hoje em dia se conseguem ultrapassar com dinheiro emprestado, como afinal faz o Governo. Só faltará depois quem imponha o reembolso.

Recordo-me que havia um homem a quem chamávamos Brasa que tinha a obsessão de ir à Lua. Admito que em momentos menos sóbrios se tenha imaginado astronauta e tenha visionado à sua maneira a sensação de ir à Lua. Possivelmente se tivesse conseguido chegar a conhecer os futuros acessos viários talvez tivesse com menos fantasia imaginado ir a Lisboa e voltar. Uma coisa é certa. Nunca foi por falta de visionários que deixámos de sonhar e de voar alto. É assim que daqui deixo um contributo vertido em proposta, assente na tradição de que o Brasa, foi exemplo pioneiro. Que tal a criação aqui de um curso de astronautas: Escola já há.

9 comentários:

Carlos disse...

Um dos mais poéticos aspectos da linguagem é o da expressão das imagens, das comparações e dos contrastes...
"tristeza" no contraste com a "alegria"...
contraste que a própria natureza nos mostra na "luz"e na "esccuridão".
E a língua portuguesa ora nos oferece o "sol da alegria", ora a "escuridão da tristeza".

Noite e Dia, Escuridão e Luz do sol são duas realidades da vida terrena que toda a gente conhece como axioma experimental, desde que o mundo é mundo.

"E Deus viu que a luz era boa; e dividiu a luz das trevas. E chamou à luz Dia e às trevas Noite".

Excelente artigo.
Os meus parabéns.

Carlos Fiúza

João disse...

Desculpe a intromissão:interessante artigo,por tudo,mas,em especial, porque tenta ver o lado positivo e nos obriga a pensar no que vamos fazer com estas pérolas.Será que irão dizer que foi o mesmo que atirar pérolas a porcos?
JLM

Helder Carvalho disse...

Os porcos e as pérolas

Sei poucos destes temas mas acredito que possam ajudar-nos a praticar a dialéctica na base do dito ditado. À partida sei que vou contar já com um o Dr. João de Matos a re/bater.
Nestas coisas era útil haver uma bitola para definirmos a qualidade do produto – porcos e pérolas, que motivam o tema. Imaginemos por exemplo um laparoto de Lisboa. Será que este quando decide usar a auto-estrada para ir ao Friport fazer compras, repara que lhe demos condições de excepção (pérolas) para se deslocar gratuitamente!?
A questão é mesmo a de se saber a partir de quando é que nós, no interior, merecemos verdadeiramente aquilo a que julgamos ter direito. Terá sido desde que do norte partiu a conquista? Ou quando tivemos de nos fazer marinheiros, para encher caravelas que trouxeram as especiarias para usufruto dos que observavam na capital? Terá sido nas sucessivas levas de emigrantes que, com a fome partiram, convencidos que quando voltassem cá teria a valoração das remessas que sempre enviaram?
Olhando para a actualidade não será mais difícil do que sempre foi merecer as pérolas que aqui vingassem.
Optimista como sou até acredito que pudéssemos criar um viveiro de criação de ostras para depois ainda distribuíssemos pérolas aos laregos necessitados.
Bastava acreditar que o valor do trabalho (dos locais e emigrantes) aqui fosse bem investido;
Bastava que a nossa energia e matérias-primas aqui fossem usadas e transformadas;
Bastava que os nossos políticos locais fossem exigentes e competentes;
Bastava que todos os que trabalham olhassem para o exemplo dos avós e o utilizassem com mestria;
Bastava que todos os que aqui vivem ou nasceram, encontrassem bons pretextos para aqui investirem as suas energias e capacidades.
Com jeito acabava por desaparecer o provérbio.

Anónimo disse...

Sim, creio que era muito bom desenvolver-se aqui um curso de "astronautas", já que tivemos, em tempos, uma escola de aviação e, talvez por causa disso, ficaram por aqui muitos "pilotos".

João disse...

Já que conta com a minha colaboração, não quero defraudar as suas expectativas. Vou ser breve porque, hoje mesmo, me disseram que um comentário é, por definição, breve.
Quanto aos considerandos, quero dizer-lhe que não quis chamar porcos aos transmontanos, mas apenas que eles se podem vir a comportar como tal, se não derem o devido valor às vias transmontanas. Os porcos chafurdam na lama e se nesta lhes deitarem pérolas, eles continuam a chafurdar, não dando importância alguma às pérolas que lhes foram lançadas.
Quanto a merecimentos, duma vez por todas, todos os seres humanos (e não só) têm direito a uma vida digna. Mas do merecer ao ter vai uma grande diferença.
Mas vamos aos seus inúmeros “Bastava”.
Quanto ao primeiro, esquece-se que o investimento de que fala teria de ser feito pelos próprios locais e emigrantes a quem o dinheiro pertence. Se estes preferiram depositar o dinheiro e receber os juros, quem o pediu emprestado e o usou aplicou-o onde lhe deu maior lucro.
Quanto ao segundo “Bastava”, esquece-se que os altos-fornos se situam onde os investidores julgam mais conveniente e não onde o sr. Escultor queria que eles se situassem.
Penso que, subjacente aos seus raciocínios, está sempre a ideia de que tudo pertence ao Estado ou que ele tudo pode fazer, se quiser. Não me parece assim. O Estado faz o que lhe compete: infra-estruturas e serviços necessários a que o investimento privado se efective. Esquece-se o senhor, que nunca foi, que eu saiba, colectivista ou defensor do estado totalitário, que a nossa sociedade é regulada pelas leis do mercado e da iniciativa privada. Em grande medida, o Estado procura dar condições para que os privados façam e não pretende ser ele a fazer.
Quanto aos políticos locais, há-os muito competentes e exigentes e outros menos, mas isso não modifica muito o problema.
Quanto ao seguinte”Bastava”, o senhor acha que a visão e o exemplo dos antepassados ésuficiente para resolver os problemas do presente. Eu acho que não. Para que nos servem o exemplo e os conhecimentos dos antepassados para resolvermos os problemas actuais nos domínios da informática, da construção (com os materiais actuais), da agricultura ( com a sofisticação hoje atingida), da indústria (com a automação que hoje conhecemos), dos serviços (com a modernização existente no atendimento, na liberdade de escolha, na limpeza, na delicadeza)? Os antepassados, ainda que os da Idade da Pedra, merecem o nosso respeito e gratidão, mas em que é que eles nos podem ajudar hoje?
Para não ser em tudo contrário ao que diz, concordo com o último “Bastava”.
Mas o provérbio mantém-se e manter-se-á, adaptado às mudanças permanentes, claro.
Isto é já mais que um comentário. Não sou eu o culpado!
Com jeito, ambos nos emendaremos ,de futuro.
JLM

Anónimo disse...

Muitos PILOTOS e PÁRA-QUEDISTAS!

Helder Carvalho disse...

Ousar as Pérolas
O Dr. João de Matos mostra-se tão persuasivo a opinar que fico sem compreender como conclui considerando que “ com jeito ambos nos emendaremos de futuro”. Realmente a ideia que fica é a de que só eu terei de me emendar.
Como as pérolas ainda não chegaram a questão é então a de nos virmos a transformar no futuro em porcos a quem deitam pérolas. Pelas apreciações que me faz dir-lhe-ei que fico assustado com um previsível futuro de porcalhão. Quando me diz que em nada consigo influir ou mostrar razão, já nem a tempo irei de tentar que as pérolas se não distribuam. Se conseguir antever que iremos ser porcos a receber pérolas, pessoalmente prefiro voltar à condição de pobre mas íntegro. È precisamente o papel que desde sempre nos tem cumprido. O curioso é que há muitos de entre nós que não conseguem entender como é cruel este papel. Não conseguem ver como é desequilibrada a distribuição da riqueza, apesar de todos pagarem igualmente impostos. Não entendem a desproporção que há entre as condições de saúde, educação e emprego entre o interior e o litoral. Não conseguem concluir que o Estado não faz o que lhe compete, a pensar em todos mas, a pensar nos que podem mais. È assim que quando lhes propõem uma “camisa nova” pensam que não a merecem. E realmente bastaria que as leis e as regras se cumprissem para, por exemplo eu, indefectível democrata, já não ter o direito de contradizer.
Costumo acabar com sugestões. Amedrontado com um futuro porcalhão lembrei-me de se tentar inviabilizar a pérola que o futuro nos propõe. Convidam-se os nossos queridos ecologistas e, a pretexto dos irreversíveis problemas ambientais que a IC 5 está a criar na paisagem (repare-se nos desventrar da serra do Pinhal), na fauna (rato cabrera, toupeira dourada, morcego mandrião, sardanisca e mosquito tropical), flora (erva moira, amor perfeito, corriola, beldroega e azevinho) e tentemos impugnar a continuação das obras, pelo nosso lado. Outros que no futuro façam de porcos, para se manter o provérbio e a concordância recíproca, não acha amigo e Sr. Dr. João de Matos!

João disse...

Para que termina com uma interrogação,que me é dirigida,embora sujeita a um ponto de admiração?
Para eu lhe responder,para eu exercer o contraditório?
Mas assim a disputa não mais termina.
Eu também tenho que emendar-me muitas vezes mas não curo de emendar-me quando tenho que argumentar contra.
Sempre lhe digo que outra vez partes da sua prosa me causaram engulhos.
1 - Como quer influir e ter razão se só argumenta com pobres cidadãos seus conterrâneos? Faça petições ao governo ou à assembleia da república.
2 - O que é que os impostos pagos têm a ver com a distribuição de riqueza? Se os bens fossem distribuídos na proporção dos impostos pagos,então os transmontanos morreriam de fome.
Essa sua preocupação com a distribuição da riqueza faz-me pensar aquilo de que já suspeito há muito tempo,que o senhor sofre de tentações igualitárias e até totalitárias.Não se aflija:a igualdade está garantida com a morte de todos nós.
Por outro lado, as novas vias de comunicação irão resolver muitas das desigualdades na educação e na saúde,pois a deslocação a Vila Real vai ser muito mais rápida. E sempre é melhor ir morrer a Vila Real que a Mirandela,como agora acontece.
3 - Mais uma vez,concordo com a última parte:o melhor era não se fazerem as estradas.Realmente,quando Carrazeda estava mais isolada mais importante era.
JLM

Helder Carvalho disse...

Efectivamente só sobressai retórica, com mais ou menos desprezo. O que eu afirmo é que somos tão capaz como os outros para merecer aquilo a que temos direito.
Talvez acabar com uma citação do incapaz do Pessoa que ao que me consta nunca pagou grandes impostos nem levou petições à Assembleia… “ cumprir contra o Destino o meu dever. Inutilmente? Não porque o cumpriu”. Ponto final