Em Trás-os-Montes na maioria das casas no Inverno dá gosto entrar numa cozinha porque se pode apreciar a riqueza do fumeiro onde pontuam as alheiras que em tempos serviram para enganar as autoridades e safar os judeus da morte certa. Agora nas cidades e mesmo nas aldeias com o aparecimento dos frigoríficos já é costume congelarem-se, para de quando em vez se descongelarem e servirem para um petisco, diria o meu amigo João Nano, celestial, pois há também quem as imagine como manjar apropriado para um fim de refeição, quase como sobremesa, onde pão e alheira assada na brasa com café, tem um gosto especial…e há gostos para tudo. As alheiras no Inverno só não servem para enganar tolos porque até os tolos gostam de grelos com alheira, e quando a fome aperta, não há alheira que não sirva para tapar o vazio que o apetite sempre gera em qualquer dos mortais.
Mas hoje queria falar da amizade e isto a propósito do artigo que a Pública de Domingo, dia 8 de Janeiro, trazia sobre a amizade. Um trabalho interessante de Paulo Moura que aborda as novas amizades, as amizades da Net, ou casos reais fora do virtual, iguais ao de D que se mostra amigo de N e M mas anda com N a coberto da palavra amizade, o namorado de B anda com a sua melhor amiga C, e um sem número de exemplos e de outras situações e conceitos da dita que hoje em dia serve para tudo e para quase nada, dado o individualismo que campeia por aí. A dado passo Paulo Moura, a quem faço a devida vénia, escreve duma forma magistral: “Ninguém conhece em rigor as regras da amizade. Em Portugal, as velhas redes de solidariedade vão desaparecendo. (…) As antigas estruturas da amizade também se dissolveram. O velho grupo de amigos de infância (…), tudo isso se dissolveu para dar lugar a um individualismo supostamente “moderno”. O termo “amizade” conotou-se com “amiguismo”, tornou-se pejorativo (Campeiam os amigos da onça, de Peniche e os que estão na contemplação das fragilidades humanas para utilidades de momentos! O sublinhado é meu!). “Ter amigos”, estar “bem relacionados” tornou-se sinónimo de ter “cunhas”, de ser oportunista. E de facto a amizade tornou-se um expediente (…). Tornou-se isso na política, no emprego. A amizade continuou a ser um cimento fundamental do tecido social português, embora cada vez mais associada a uma má consciência, a uma noção de subdesenvolvimento”. Tudo se desmorona quando se quebra a confiança absoluta uns nos outros…e num minuto se pode perder a confiança e, por vezes, nem numa vida dificilmente se reganha…
Hoje há muitas confusões. Confunde-se colega com o amigo, a pessoa com quem se dá bem com um grande amigo, e pode não ser, conhecido com amigo e amigo com confidente/cúmplice de traição e por vezes a linha do amigo ultrapassa-se e aparece o “amigante”, porque a amante, o amante é termo pejorativo ou forte e por isso, se fala mais do amigo colorido ou dos momentos, o ombro almofadado, etc. etc. etc. Tudo isso que estão a pensar…
Mas hoje ainda não falei da chouriça de sangue, mas doce, essa sim poderia ser vista como uma boa sobremesa, mas habitualmente acompanha com batata cozida e couves. A minha mãe Ernestina Rodrigues, era uma especialista a fazer alheiras e chouriças de sangue e quando era catraio passei dezenas de horas a picar as alheiras e chouriças com uma agulha, só que agora, com os congelamentos perderam o sabor inicial, é como o café quando se deixa arrefecer, mesmo que se aqueça jamais tem o mesmo sabor, embora saiba a café, é como a amizade, ou como o amor sem paixão ou com traição pelo meio, fica sem o mesmo sabor…Por isso eu gosto mais de alheiras saídas do fumeiro a cheirar a fumo e assadas na brasa, do que congeladas e, pior, do que requentadas a saber a quase nada. Prefiro saber esperar pelo tempo delas do que congelá-las e ter alguma decepção…Mas no campo da amizade, ainda acredito nela, tenho poucos mas bons amigos, mas mais vale poucos ou nenhuns, do que ter dos que se vestem de pele de cordeiro…porque também os há…Aí se adivinhássemos, dirão alguns! Mas o cântaro tantas vezes vai à fonte que deixa lá ficar a asa, já dizia o povo, e o meu amigo João Nano adora relembrar…este ditado!
João Manuel Sampaio (Zedes)
2 comentários:
Uma grelada de chouriço e uma batatada de alheiras...sim tudo em seu tempo. Com todo o sabor.
Amigos à fogueira e um Vinho Fino à mistura...
Com todo o bom gosto Sr. Sampaio.
Mas que "raio" de texto tão desconexo como este, sr. Sampaio; misturar conceitos/diferenças entre amigos/amantes com...alheiras e chouriças de sangue! Só mesmo para TOMAR ar... ou então, foi um mero "repente" provocado pelas saudades gastronómicas dos nossos enchidos!
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