18 agosto 2013

Leituras de fim de verão: Guerra Junqueira

Benção da Locomotiva


                

A obra está completa. A máquina flameja,

Desenrolando o fumo em ondas pelo ar.

Mas, antes de partir mandem chamar a Igreja,

Que é preciso que um bispo a venha baptizar.



Como ela é concerteza o fruto de Caím,

A filha da razão, da independência humana,

Botem-lhe na fornalha uns trechos em latim,

E convertam-na à fé Católica Romana.



Devem nela existir diabólicos pecados,

Porque é feita de cobre e ferro; e estes metais

Saem da natureza, ímpios, excomungados,

Como saímos nós dos ventres maternais!



Vamos, esconjurai-lhes o demo que ela encerra,

Extraí a heresia ao aço lampejante!

Ela acaba de vir das forjas d'Inglaterra,

E há-de ser com certeza um pouco protestante.



Para que o monstro corra em férvido galope,

Como um sonho febril, num doido turbilhão,

Além do maquinista é necessário o hissope,

E muita teologia... além de algum carvão.



Atirem-lhe uma hóstia à boca fumarenta,

Preguem-lhe alguns sermões, ensinem-lhe a rezar,

E lancem na caldeira um jorro d'água benta,

Que com água do céu talvez não possa andar.

3 comentários:

Carlos disse...


A Arte de ser Poeta

Muito se tem falado a respeito de Guerra Junqueiro.
Ora, desde já digo que o Guerra Junqueiro de filosofismo político ou religioso não me interessa. Esse fica fora do que vou escrever.
Quem vem à liça de crítica estético-literária e filológica é o Guerra Junqueiro, Artista da palavra.
Também não falarei do livro A Velhice do Padre Eterno, porque o próprio Junqueiro escreveu isto: “A Velhice do Padre Eterno é um livro da mocidade. Não o escreveria já aos quarenta anos”.
Vou, pois, chamar à nossa admiração o poeta lírico das imagens e das figuras, o poeta das metáforas e das hipérboles e não o poeta caricatural ou apaixonado.
Há quem o negue, mas eu afirmo e demonstro que uma das mais admiráveis qualidades da poesia junqueiriana é a musicalidade dos seus versos.
Muitos destes, por um sortilégio de ritmo, melodia e harmonia, ao lerem-se têm como que um andar musical irreprimível.
Por exemplo, estes de Os Simples:

“Pobres de pobres são pobrezinhos,
Almas sem lares, aves sem ninho.”

É em novembro, rugem procelas…
Deus nos acuda, nos livre delas!”

A sequência, a distribuição e o andamento destas palavras são como verdadeiros motivos sonoros de musicalidade.
Junqueiro compara os “pobres de pobres” a almas sem lares, a aves sem ninhos; mas, continuando, e ao observar que no tempo em que surgem procelas os pobrezinhos trazem “mantas aos ombros”, logo o seu espírito arquiteta outras imagens, e diz:

“Como farrapos, coisas sombrias,
Trapos levados nas ventanias…”

Diz-se que a sorte ajuda os audazes.
Pois, se assim é, a sorte poética de Junqueiro sempre o ajudou nas suas audácias expressionais.
Por exemplo, a chamada prosopopeia, aquela figura de colorido verbal que atribui vida inteligente e ativa a seres carecentes dessa vida, tal figura é amiúde uma das magias da poética junqueiriana.
Ao cantar essa moleirinha, que “pela estrada plana guia o jumentinho”, “um jerico ruço de uma linda cor”, Guerra Junqueiro atreve-se a uma prosopopeia colossal, que esmaga pelo arrojo, mas que, por outro lado, encanta pela ideia e pela forma:

“Pela estrada plana, toc, toc, toc,
Guia o jumentinho uma velhinha errante,
Como vão ligeiros ambos a reboque,
Antes que anoiteça, toc, toc, toc,
A velhinha atrás, o jumentinho adiante!”

Terminarei, realçando um facto que eu quisera ficasse bem nítido - a poesia de Junqueiro é uma poesia que vive e sobrevive pela magnitude das imagens, das tropologias, das figuras, das alegorias.
Esta magnitude, por um compreensível paradoxo não deixa de manter-se, quando esse Gigante do verbo poético descansa a sua força verbal nas linhas simples dos versos simples.

Fez bem José Mesquita em trazer-nos este "Monstro".

CF

Anónimo disse...

Claro que a análise que fez C.F. só ele consegue fazer.Para mim,para lá da forma poética,encantatória,da beleza da rima,sobreleva com maior importância a relevância posta no valor da ciência e respectiva tecnologia em contraposição com o obscurantismo duma religião que era altamente impeditiva do progresso.
JLM

Anónimo disse...

Afinal, CF acaba por ir ao encontro da liça estético-literária do nosso fabuloso poeta transmontano (das bordas do Freixo...)! E com que suprema nitidez e sapiência o fez! Gostei muito. Sinceramente.

HR