07 abril 2013

ROMARIAS TRANSMONTANAS - SANTA EUFÉMIA. 2: Armindo Jaime Mesquita



À missa dava-se-lhe grande importância e para o dia da festa convidava-se excepcionalmente um pregador de nomeada, que já tivesse dado provas da sua capacidade de eloquência e que soubesse tocar a alma das pessoas. Durante muitos anos o Padre Basílio, que paroquiou todas as 4 freguesias da zona da Poça, foi o pregador preferido das multidões. Ele arrancava lágrimas ao povo, ia buscar exemplos à fé e ao quotidiano do povo comum, episódios reais da vida. Por isso a sua fama chegou a lugares distantes, a cujas festas veio a ser convidado. Grande padre e grande homem, que os de 80/85 anos dele certamente se recordarão. A missa por vezes era acompanhada por um dos músicos da Banda, que concedia à mesma uma elevação de louvores a Deus, que juntamente com as vozes era lindíssima! 

As barracas de comes e bebes já funcionavam, e estas confeccionavam um excelente prato de feijão branco com um molho muito apurado, muito saboroso, que incluía carnes frescas de porco e que era uma delícia! O cheirinho agradável que se desprendia destas era um convite, entranhava-se-nos nas narinas e aguçava de logo o apetite. Recordo esses pratos, que me ficaram na memória. 

Os tendeiros exibiam a sua variada mercadoria. E os miúdos empurravam as mães para estas, exultando de admiração ao descobrirem brinquedos que lhes despertara a cobiça. E tanto insistiam com as mães que acabavam por ceder aos desejos dos filhos, mas só se podiam. 

Ao cair da tarde chegavam grandes multidões de romeiros que vinham preencher a área onde decorria a romaria. E era um verdadeiro delírio, convivia-se, confraternizava-se; era o encontro com velhos amigos e conhecidos, e na barraca ou nas tabernas selava-se esse encontro com o copo do bom vinho da região. Por momentos esqueciam-se os problemas e as lutas do dia-a-dia. E solidários nesta fraternidade, comungando do feliz momento, a alma enchia-se com os diálogos trocados e a franqueza reactivava laços de confirmação de amizade. 

As melancias e os melões casca de carvalho da Vilariça, que produzia em quantidade e qualidade, que eram ambos uma delícia, vinham ocupar lugar perto da igreja. "Oh patrão, escolha-me aí um dos bôs. Para comer já!" 

Naquele ano de 1950 duas famosas bandas foram convidadas: a Banda de Música de Custóias - S. João da Pesqueira e a Banda de Música de Favaios - Alijó. Estas agradavam imenso e havia aquelas criaturas que não desgrudavam de parmenecer junto das bandas, ouvindo com redobrava atenção e prazer. Estas, nesse ano vieram a despicar-se galhardamente, e com verdadeiro brio primaram no toque, tocando músicas populares. O povo pareciam enxames de abelhas, não havia espaço por onde furar, novos e velhos, aguçados pela animação, movimentavam-se, dançavam loucamente. Que raio! Em dia de festa não há tristezas!

O fogo-de-artifício era e é importante. A primeira descarga vinha lá para a meia-noite. Vinham os morteiros à frente, com o seu estrondoso estrépito, seguindo-se as girândolas de belas estrelinhas de muitas cores e o céu enchia-se de assobios e de muita luz; seguiam-se outros foguetes e girândolas de grande potência de fogo que pelos seus ecos parecia que a abóbada celestial iria desabar sobre o povo. E tudo parava para olhar com prazer o fogo-de- artifício, que terminava com fortíssimos morteiros. E recomeçava a música e o baile das multidões. 

Pelas três horas da manhã o povo iniciava o regresso a suas terras, mas alguns só o faziam quando nascia o dia. E lá vinham alguns carregados de vinho e sono, dormir em algum recanto do caminho. Eram assim, naquele tempo, as festas de N. SRª DE SANTA EUFÉMIA - LAVANDEIRA. A MELHOR ROMARIA DO CONCELHO DE CARRAZEDA DE ANSIÃES.

 Armindo Jaime Mesquita

4 comentários:

mario carvalho disse...

Caro Senhor


Bem Haja

Pela forma como nos consegue transmitir a VERDADE em que acreditamos e na qual fomos criados.. ao contrário de outros renegados iluminados pelas luzes de Lisboa .. que de anjos .. se transformaram em mafarricos..

"A queda de um anjo"

com admiração agradeço

mario carvalho

isaura festa disse...

A mocidade de agora,para já,nem acreditam que as coisas eram assim vividas desta maneira, com tanto entusiasmo e alegria,só a ansiedade com que se vivia a espera dessas festas.Cada um á sua maneira e conforme as possibilidades,até se faziam roupas novas para usar nessas festas.Hoje isso não tem valor,lindas são as festas metidos todos numa sala,onde a poluição não os deixa ver uns aos outros.

Manuel Barreiras Pinto disse...

Obrigado pela descrição da maior romaria do concelho.um amigo que levei à festa em 2001 natural de Espanha dizia nunca ter assistido a uma tão grande manifestação de fé.Amigo eu ainda assisti a concertos nos coretos e sempre gostei como ainda gosto dessa musica. A procissão no tempo presente é diferente do ano de 1950, quiçá para melhor.

Anónimo disse...

Caro Armindo:Na última visita feita a Carrazeda,cheguei à conclusão de que nos conhecemos há 60 anos.É do Seixo como eu,é filho do Zé Luís Alfaiate,que me fez uns fatitos e cuja casa tinha uma varanda muito soalheira.Eu sou filho do Joaquim Matos e lembro-me dos seus desenhos.Estarei errado?
João Lopes de Matos