13 maio 2010

Pensar dos leitores. Grécia e Portugal

"Nós estamos num estado comparável somente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma decadência de espírito. Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país caótico que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa da Europa - citam-se, a par, a Grécia e Portugal. Nós, porém, não possuímos como a Grécia, além de uma história gloriosa, a honra de ter criado uma religião, uma literatura de modelo universal e o museu humano da beleza da Arte. Apenas nos ufamos do Sr. Lisboa, barítono, e do Sr. Vidal, lírico."

Eça de Queiroz, in "Uma Campanha Alegre", (1872) pág. 235, edição Livros do Brasil

Eça de Queiroz escreveu esta reflexão em Janeiro de 1872. Ou seja, passaram-se entretanto 138 anos e cinco meses. Reler, agora, as observações de Eça faz o país corar de vergonha. O diagnóstico, pela sua actualidade, é aterrador. A terapia, por seu lado, continua ausente. Portugal continua entretido a enganar-se a si próprio, praticando o desporto preferido das avestruzes - o de enterrar a cabeça na areia.


Mário Carvalho

1 comentário:

mario disse...

José Régio - Soneto quase inédito
Em memória de Aurélio Cunha Bengala

Surge Janeiro frio e pardacento,
Descem da serra os lobos ao povoado;
Assentam-se os fantoches em São Bento
E o Decreto da fome é publicado.

Edita-se a novela do Orçamento;
Cresce a miséria ao povo amordaçado;
Mas os biltres do novo parlamento
Usufruem seis contos de ordenado.

E enquanto à fome o povo se estiola,
Certo santo pupilo de Loyola,
Mistura de judeu e de vilão,

Também faz o pequeno sacrifício
De trinta contos só! por seu ofício
Receber, a bem dele... e da nação.


JOSÉ RÉGIO


Soneto (quase inédito) escrito em 1969, no dia de uma reunião de antigos alunos.
Tão actual em 1969, como hoje... E depois ainda dizem que a tradição não é o que era!!!

Elisa Carvalho

uma grande amiga