24 setembro 2013

IDEOLOGIA: Carlos Fiúza

"Só ocasionalmente (escreveu Eduard Spranger) se fala agora de ideias e ideais políticos, e com muito mais frequência de ideologias políticas".

    

A referência a ordem de motivações permite incluir formações espirituais do conhecimento na dinâmica social. A aparência irrevogável de conhecimento (pelo conhecimento em si e a sua aspiração à verdade) está impregnada de sentido crítico. Não só a autonomia mas a própria condição dos produtos espirituais de se tornarem autónomos são pensadas (com o nome de ideologia) em uníssono com o movimento histórico da sociedade. E nesta se desenvolvem os produtos ideológicos e suas funções. Atribui-se-lhes uma utilidade, desejada ou não, a respeito dos interesses particulares. A sua própria separação, a constituição da esfera espiritual e sua transcendência, manifestam-se, entre outros aspetos, como o resultado da divisão do trabalho. Assim é que tal transcendência justifica, de um modo puramente formal (na conceção ideológica) a divisão da sociedade (se é certo que a participação no mundo eterno das ideias está reservada a uns quantos que, por estarem excetuados do trabalho físico, desfrutam de um privilégio).

     Estes e outros motivos que se manifestam onde é usada a palavra ideologia, levaram a estabelecer um contraste entre o conceito de ideologia e da sociologia que o emprega, por uma parte, e a filosofia tradicional, por outra.

     Esta última ainda afirma (embora em palavras algo diferentes) que o seu domínio é o da essência permanente e imutável para além dos fenômenos e das suas variações. É conhecido o dito de um filósofo alemão que comparava a sociologia (na era anterior ao fascismo) com um Fassedenkletterer [um assaltante que entra na casa alheia trepando pelas fachadas dos edifícios]. Ideias deste tipo, que foram inculcadas há tempo na consciência popular e que contribuem para manter a desconfiança em relação à sociologia, obrigam a uma maior reflexão, sobretudo porque, com frequência, nos deparamos com elementos irreconciliáveis ou francamente contraditórios entre si.

     Quanto à dinamização dos conteúdos espirituais (por parte da crítica ideológica) esquece-se geralmente que a própria teoria da ideologia pertence à história e que, se não a substância, pelo menos a função do conceito de ideologia, foi-se modificando historicamente e está sujeita à dinâmica que se quer rejeitar. Assim, o significado de ideologia (e do que são ideologias) só pode ser compreendido se reconhecermos o movimento histórico desse conceito, que é, ao mesmo tempo, o da coisa.

     Os manifestos antidogmáticos de Francis Bacon (em prol da libertação da Razão) proclamam a luta contra os "ídolos", os preconceitos coletivos que preponderavam sobre os homens no começo da burguesia (tal como agora) em seu fim. As formulações de Bacon soam, para nós, como uma antecipação da moderna crítica positivista da linguagem, em sua esfera semântica. Ele caracterizou um tipo de “ídolo” no qual o espírito se deveria libertar, o dos idola fori (que poderíamos traduzir livremente como “ídolos da sociedade de massa”): "os homens associam-se entre si com a ajuda da linguagem; mas os nomes são atribuídos às coisas pelo arbítrio do vulgo. Por isso, o intelecto vê-se tolhido, de maneira singular, pelas denominações inadequadas... As palavras violentam o espírito e turvam todas as coisas".

     O impulso politicamente progressista da teoria da “falsa consciência”, delineada por Bacon, ressurgiu de uma forma muito mais clara com o Iluminismo do século XVII.

     Ressoam, ainda, (aos nossos ouvidos) as frases de Napoleão: "… à doutrina dos ideólogos, essa tenebrosa metafísica que, investigando penetrantemente as causas primeiras, tem como objetivo estabelecer sobre as suas bases a legislação dos povos, em vez de ajustar as leis ao conhecimento do coração humano e às lições da história, devem ser atribuídas todas as desgraças das nossas batalhas da França. Esses erros tinham de conduzir, e conduziram, de facto, ao regime dos sanguinários. Senão, vejamos quem foi que proclamou o princípio da insurreição como dever? Quem adulou o povo, proclamando-o o detentor de uma soberania que ele é incapaz de exercer? Quem destruiu a santidade e o respeito pelas leis, fazendo-as depender não dos sagrados princípios da justiça, da natureza das coisas e da ordem civil, mas da vontade de uma Assembleia composta de homens alheios ao conhecimento das leis civis, penais, administrativas, políticas e militares? Quando se for chamado a regenerar um Estado, é necessário seguir constantemente os princípios opostos a isso [dês príncipes constamment opposés]. A História oferece a imagem do coração humano; na História é preciso buscar as vantagens e desvantagens das várias legislações".

     Por muito pouco lúcidas que sejam essas preposições, (nas quais se misturam o direito natural da Revolução Francesa e a subsequente fisiologia da consciência) é evidente, de qualquer modo, que Napoleão “farejava” em qualquer análise da consciência um perigo para a "positividade" (que lhe parecia melhor assegurada no coração). Em seu pronunciamento, Napoleão também prenunciou o futuro "ideologismo ingênuo" de que acusa os supostos utópicos abstratos, em nome da “realpolitik”.

     Em rigor, quando se regem relações simples e imediatas de poder, não existem ideologia, num sentido estrito. Os pensadores da Restauração (panegiristas dos tempos feudais ou absolutistas) já adquiriram um caráter burguês pela forma da lógica discursiva, da argumentação que empregam e que contém um elemento igualitário e anti-hierárquico. Por isso, nada mais fazem do que minar e desvirtuar tudo o que glorificam. Uma teoria racional do sistema monárquico, que tivesse de fundamentar e justificar a irracionalidade que lhe é própria, soaria a crime de lesa-majestade, onde quer que o príncipe monárquico ainda tivesse uma substancial realidade, pois a fundamentação do poder positivo na razão nega, virtualmente, o próprio princípio do reconhecimento daquilo que como tal subsiste.

     Por isso, a crítica ideológica (como confronto da ideologia com a sua verdade íntima) só é possível na medida em que a ideologia contiver um elemento de racionalidade, com o qual a crítica se esgote.

     Não só o nível literário de escritores como Hitler e Rosemberg está abaixo de toda a crítica, mas a sua trivialidade (sobre a qual é muito fácil triunfar) é sintomática de uma situação que já não se aduz, validamente, da definição de ideologia como falsa consciência que a si própria se basta.

     No chamado "património intelectual" do nazismo não se refletem as formas do espírito objetivo, dado que foi constituído em resultado de manipulações e como instrumento de poder, do qual ninguém (nem mesmo os seus porta-vozes) pensavam seriamente que merecesse crédito ou fosse levado a sério. Havia aí sempre uma insinuação de recursos à força bruta: “tenta fazer uso da tua razão e não tardarás a ver o que acontece”; é claro, o absurdo da tese proposta servia para medir o que ainda era possível fazer com que o ouvinte engolisse, ao mesmo tempo que se lhe insinua, atrás do fraseado vazio, o timbre da ameaça ou a promessa de uma parte do saque. E o mesmo com as ideias (tais como as do liberalismo, individualismo, identidade entre o espírito e a realidade). A crítica ideológica é, no sentido hegeliano, negação determinada, confronto de entidades espirituais com sua realização, e pressupõe a distinção do verdadeiro e do falso no juízo de valores (assim como a pretensão de verdade no objeto da crítica). Por conseguinte, a crítica ideológica não é relativista, mas, outrossim, é-o o absolutismo ideológico de marca totalitária (os decretos de um Hitler, de um Mussolini e de um Zdanov, que não é sem motivo que falam de ideologia a propósito de seus pronunciamentos, são prova disso).

     A crítica da ideologia totalitária não se reduz a refutar teses que não pretendem, absolutamente (ou que só pretendem como ficções do pensamento) possuir uma autonomia e consistência internas.

     Será preferível analisar a que configurações psicológicas se querem referir, para se servirem delas; que disposições desejam incutir nos homens com suas especulações (que são inteiramente distintas do que se apresenta nas declamações oficiais).

     Existe, depois, a questão de apurar por que (e como) a sociedade moderna produz homens capazes de reagir a esses estímulos, dos quais (inclusive) sentem necessidade, e cujos intérpretes são, depois, os líderes e demagogos da massa.

     É necessário o desenvolvimento que conduziu a tais transformações históricas da ideologia (não o conteúdo em que o resultado ideológico se expressa).

     A crítica à ideologia totalitária deve ir para além dos enunciados - as modificações antropológicas a que a ideologia totalitária quer corresponder são consequências de transformações na estrutura da sociedade e nisso (e não nos seus enunciados) encontramos a realidade substancial dessas ideologias.

     A ideologia, em sentido estrito, dá-se onde se regem relações de poder que não são intrinsecamente transparentes, mediatas e, nesse sentido, até atenuadas.

     Mas, por tudo isso, a sociedade atual (erroneamente acusada de excessiva complexidade) tornou-se demasiado transparente.

     Essa transparência é, justamente, o que se admite com maior relutância.

     Quanto menos subsiste de ideologia e quanto mais toscos são os produtos que lhe sucedem, tanto mais se multiplicam as investigações sobre ideologia, com a pretensão de substituir a teoria da sociedade na descrição exaustiva da grande quantidade de fenómenos.

     Enquanto no Bloco Oriental se fez do conceito de ideologia “um instrumento para atacar o pensamento inconformista e os que têm a audácia de alimentá-lo”, deste lado o conceito dissolveu-se no desgaste do mercado científico, perdendo todo o seu conteúdo. Se a determinação e compreensão das realidades ideológicas pressupõem a construção teórica de uma ideologia, então, inversamente e em igual medida, a definição de ideologia depende do que efetivamente atua como produto ideológico. Mas ninguém pode fugir à experiência de uma transformação decisiva, que já se produziu no caso específico dos produtos espirituais. E se é lícito mencionar a Arte como o sismógrafo mais idôneo da História, não é possível duvidar do enfraquecimento ocorrido durante o período heroico da arte moderna (por volta de 1910) e que oferece um flagrante contraste com a época. Não é possível, sem renunciar a ver as coisas em seu contexto social, reduzir esse enfraquecimento, que não respeita outras áreas culturais, como a da filosofia, a uma certa debilidade das energias criadoras ou à nociva civilização técnica. Percebe-se melhor como uma espécie de deslocamento das camadas geológicas. Diante dos acontecimentos catastróficos que ocorrem nas estruturas profundas da sociedade, o mundo do espírito adquiriu um caráter efémero, pálido, impotente. Diante da realidade concreta, não pode manter intacta e segura a sua veleidade e seriedade que, em compensação, era aceite como axiomática na cultura leiga do século XIX. O deslocamento geológico (que ocorre literalmente entre as camadas da infraestrutura e da superestrutura) penetra no mais íntimo dos problemas da consciência e da criação espiritual, ainda os mais subtis e intrínsecos. Assim, paralisa as forças (que não se poderá dizer que faltem completamente). Mas a criação que se recusa a refletir sobre esse processo e que segue o antigo caminho como se nada tivesse acontecido, está condenada à futilidade estéril.

     A doutrina da ideologia sempre serviu para recordar ao espírito a sua fragilidade, mas, hoje, ele deve estabelecer a sua capacidade autoconsciente diante desse aspeto que lhe é característico; e quase podemos dizer (hoje) que a consciência (já definida por Hegel como sendo, essencialmente, o momento da negatividade) só sobreviverá na medida em que assumir (em si mesma) o momento de crítica da ideologia.

     Só se pode falar sensatamente de ideologia quando um produto espiritual surge do processo social como algo autónomo, substancial e dotado de legitimidade. A sua inverdade é o preço dessa separação, em que o espírito pretende negar a sua própria base social. Mas até o seu momento de verdade está vinculado a essa autonomia, própria de uma consciência que é mais do que a simples marca deixada pelo que é e que trata de impregná-la. Hoje, a assinatura da ideologia caracteriza-se mais pela ausência dessa autonomia e não pela simulação de uma pretensa autonomia. Com a crise da sociedade burguesa, também o conceito tradicional de ideologia parece ter perdido o seu objeto. O mundo dos produtos espirituais desintegra-se, por um lado, na verdade crítica, que se despe do elemento de aparência (mas é esotérica e alheia às ligações sociais imediatamente aparentes) e, por outro lado, na administração planeada do que, em dado momento, constitui a ideologia.

     Se esta herança da ideologia for entendida como totalidade dos produtos espirituais que hoje enchem, em grande parte, a consciência dos homens, então essa totalidade manifestar-se-á, sobretudo, como um conjunto de objetos confecionados para atrair as massas em sua condição de consumidoras e, se possível, para adaptar e fixar o seu estado de consciência (e não tanto como espírito autónomo, inconsciente das próprias implicações societárias). A falsa consciência de hoje, socialmente condicionada, já não é espírito objetivo (nem mesmo no sentido de uma cega e anónima cristalização) com base no processo social; pelo contrário, trata-se de algo cientificamente adaptado à sociedade. Essa adaptação realiza-se mediante os produtos da indústria cultural, como o cinema, as revistas, os jornais ilustrados, rádio, televisão, literatura de “best-seller” dos mais variados tipos, dentro do qual desempenham um papel especial as biografias romanceadas. É por demais evidente que os elementos de que se compõe essa ideologia intrinsecamente uniforme não são novos; muitas vezes encontram-se até imobilizados e petrificados. Isto relaciona-se, na verdade, com a distinção tradicional (cujos primórdios já se manifestavam na Antiguidade) entre a esfera cultural superior e inferior, sendo que esta última, entretanto, está racionalizada e integrada por resíduos deteriorados do espírito superior. Para a história dos esquemas da atual indústria cultural, é possível remontar, em particular à literatura inglesa de vulgarização dos primeiros tempos (por volta de 1700). Já aí se encontram presentes, em sua maioria, os estereótipos que hoje nos agridem nas telas do cinema e da televisão. Mas a respeitável antiguidade de certos elementos componentes de um fenómeno qualitativamente novo é um agrupamento para não nos deixarmos dopar em sua consideração como fenómeno social e, ainda menos, na dedução que se pretende fazer de uma suposta necessidade básica que, dessa maneira, seria sempre satisfeita.

     O que conta não são, de fato, os elementos constitutivos, nem sequer a persistência das características primitivas na atual cultura de massa (através de extensas épocas de imaturidade da humanidade), mas o fato de que todos esses elementos e carateres estarem hoje subordinados, em seu conjunto, a uma direção orgânica que converteu o todo num sistema coeso.

     O estudo concreto do conteúdo ideal da comunicação de massa é tanto mais urgente quando se pensa na inconcebível violência que os seus veículos exercem sobre o espírito dos homens, em conjunto (diga-se de passagem) com o desporto, que passou a integrar, nos últimos tempos, a ideologia, em seu mais amplo sentido. Temos aqui a produção sintética da identificação das massas com as normas e condições que regem anonimamente a indústria cultural ou que a propagam (ou com ambas). Qualquer voz discordante é objeto de censura e o adestramento para o conformismo estende-se até às manifestações psíquicas mais subtis. Nesse jogo, a indústria cultural consegue apresentar-se como espírito objetivo, na mesma medida em que readquire, em cada vez maior grau, tendências antropológicas em seus clientes. Ao apegar-se a essas tendências, ao corroborá-las e ao proporcionar-lhes uma confirmação, pode simultaneamente eliminar (ou até condenar), de forma explícita, tudo o que rejeitar a subordinação. A rigidez inexperiente do mecanismo de pensamento que domina a sociedade de massa torna-se ainda mais inflexível (se isso é possível) e a própria ideologia impede que se desmascare o produto oferecido (em sua qualidade) do objeto premeditado para fins de controlo social, em virtude de um certeiro pseudorrealismo que, sob o aspeto da exterioridade, proporciona uma imagem permanentemente exata e fiel da realidade empírica.

     Quanto mais os bens culturais (assim elaborados) forem proporcionalmente ajustados aos homens, tanto mais estes se convencem de ter encontrado neles o mundo que lhes é próprio. Vemos nas televisões coisas que se querem parecer com as mais habituais e familiares e, entrementes, o êxito e a carreira (finalidades supremas da vida?) já estão dados por aceites e postos em prática, desembaraçadamente, para sempre. Para resumir numa só frase a tendência inata da ideologia da cultura de massa, seria necessário representá-la numa paródia da frase: "converte-te naquilo que és", como duplicação e super-ratificação da situação já existente (o que destruiria toda a perspetiva de transcendência e de crítica). O espírito socialmente atuante e eficaz limita-se, aqui, a pôr, uma vez mais, diante dos olhos dos homens, o que já constitui a condição da sua existência, ao mesmo tempo em que proclama o existente como sua própria norma, e, assim, confirma-os e consolida-os na crença (carente de verdadeira fé) em sua pura existência.

     Com isto, a teoria da ideologia fica fragmentada, por um lado num esquema completamente abstrato da totalidade (a que escapa a riqueza das articulações concretas e terminantes); e, por outro, numa acumulação de estudos monográficos. Entre esses dois elementos fica um vácuo em que se perde o problema dialético da ideologia, que é falsa consciência e (entretanto) não só falsa. A cortina que se interpõe (necessariamente) entre a sociedade e a compreensão social da sua natureza expressa, ao mesmo tempo, essa natureza, em virtude do seu caráter de cortina necessária.

     As ideologias verdadeiras e próprias convertem-se em pseudoideologias apenas na relação em que se situam a respeito da própria realidade. Elas podem ser verdadeiras "em si" (como o são as ideias de liberdade, humanidade e justiça) mas não verdadeiras quando têm a presunção de já estarem realizadas.

     Assim, o rótulo de ideologia que se lhes pode apor (em virtude do conceito total de ideologia) documenta não tanto a possibilidade de conciliar a crítica com a falsa consciência, mas, sobretudo, a fúria contra tudo o que (mesmo na forma de reflexão ideal, e por mais impotente que se torne) exige a possibilidade de uma ordem melhor do que a existente.

     Da ideologia só resta o conhecimento do que subsiste… um conjunto de modelos de comportamentos adequados às condições vigentes.

     É pouco verossímil que, hoje em dia, as metafísicas mais eficazes só por causalidade sejam as que se referem à palavra "existência", pretendendo identificar a duplicação do mero existir com as mais elevadas determinações abstratas que é possível obter com esse mesmo sentido de existir. A essa duplicação corresponde, nos resultados, em grande parte, a situação existente na cabeça dos homens.

     Estes já não sofrem a situação - na qual (ante a possibilidade aberta de felicidade) se faz sentir, dia após dia, a ameaça da catástrofe irremediável - de considerá-la a expressão de uma ideia (como poderia ser, ainda, a atitude adotada diante do sistema burguês dos Estados nacionais).

     Hoje, o homem “adapta-se” às condições dadas em nome do realismo.

     Os indivíduos sentem-se, desde o começo, peças de um jogo e ficam “tranquilos”. Mas, como a ideologia já não garante coisa alguma (salvo que as coisas são o que são) até a sua inverdade específica se reduz ao pobre axioma de que não poderiam ser diferentes do que são.

     Os homens adaptam-se a essa mentira, mas, ao mesmo tempo, enxergam através do seu manto.

     A celebração do poder e a irresistibilidade do mero existir são as condições que levam ao desencanto.

     A ideologia já não é mais um envoltório, mas a própria imagem ameaçadora do mundo. Não só pelas suas interligações com a propaganda (mas também pela sua própria configuração) converte-se em terror.

     Entretanto, precisamente porque a ideologia e a realidade correm uma para outra; porque a realidade dada (à falta de outra ideologia mais convincente) se converte em ideologia de si mesma, bastaria ao espírito um pequeno esforço para se livrar do manto dessa aparência omnipotente… quase sem sacrifício algum.

    

     Mas esse esforço parece ser o mais custoso de todos.







Carlos Fiúza

3 comentários:

Anónimo disse...

Caro CF: É-me muito difícil dizer alguma coisa sobre o seu artigo. Porquê?
Porque, para mal dos meus pecados, pouco ou nada percebi.
Haverá, com certeza, pessoas que o terão entendido. Eu não. Bem tentei ver se descortinava uma linha de rumo, conceitos - chave, algo que me permitisse uma crítica, por tosca que fosse.
Desculpe, não é fácil confessar a minha incapacidade. Por isso, peço-lhe que faça um esforço por trocar um pouco(por pouco que seja)a sua linguagem e conceitos por miúdos para ver se sou capaz de sair da escuridão em que complexadamente me encontro.
JLM

Carlos disse...


Meu Caro JLM

Não, não "confesse" a sua incapacidade para entender o meu escrito.
Se alguma incapacidade há, é minha por ter filosofado de mais.
No fundo só quero dizer: mais do que a ideologia, o que deve interessar ao homem são as ideias que conduzem aos ideais.
E quanddo os ideais (ainda que puros) são distorcidos... podem servir qualquer causa.

Razão do meu final:

"Entretanto, porque a ideologia e a realidade correm uma para a outra; porque a realidade dada (à falta de outra ideologia mais convince se converte em ideologia de si mesma..."

CF

Anónimo disse...

Porra amigos!
Não é que eu não gostasse de ler CF mas é cada "testamento" que precisava de + 3 vezes o tempo de vida disponível!
Assim também não consigo!