- Em primeiro lugar, a frequente incapacidade dos partidos, ao nível concelhio, para mobilizarem os sectores mais dinâmicos da sociedade – o que leva a um afastamento crescente dos cidadãos da vida partidária. Muitas das vezes, e especialmente nas estruturas locais, os partidos têm lógicas de recrutamento e de reprodução do poder perversas que, em lugar de mobilizarem, afastam e promovem a mediocridade. A consequência deste fechamento é a escolha de candidatos autárquicos que nada representam para os eleitores e que resultam apenas de lutas intestinas e claustrófobicas.
- Depois, a tendência para a despolitização das eleições, bem visível em muitas campanhas que, despidas de qualquer linguagem política, valorizam aspectos neutros (por ex. a capacidade de trabalho e a honestidade), como se as escolhas autárquicas não tivessem um sentido político. Esta desvalorização da actividade política pelos seus próprios agentes é um autêntico “cavalo de Tróia” da demagogia.
- E, ainda, o populismo de pendor caudilhista e o caciquismo – frequentemente temperados com afrontas ao Estado de direito – que hoje fazem parte da agenda de muitos presidentes de Câmara. Pelo País fora, nuns casos com mais mediatismo noutros com menos e de todas as cores partidárias, os exemplos de degradação populista da democracia pululam.
É por tudo isto que o que está em causa nas próximas eleições autárquicas é, também, a nossa responsabilidade colectiva enquanto cidadãos de contrariar a degradação da democracia nas suas várias formas. Tal implica votar, em cada concelho, nas candidaturas que revelem abertura à sociedade, que assentem em opções claras – não se escondendo na despolitização da actividade política – e, finalmente, que contrariem o populismo, a demagogia e os ataques ao Estado de Direito.
Votar assim significa, naturalmente, votar em partidos diferentes consoante o concelho. Se os portugueses assim o fizerem, estarão a dar um voto de confiança na democracia e a ajudar aqueles que, em todos os partidos, combatem a tendência para a descredibilização do sistema.»
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