08 julho 2009
último latoeiro
(...)
Teresa Baptista no Jornal Nordeste
02 julho 2009
Cinco anos depois - Sophia de Mello Breyner Andresen
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
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Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.
Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.
Há muitas coisas que eu quero ver.
Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o teu reino antes do tempo venha.
E se derrame sobre a Terra
Em primavera feroz pricipitado.
27 dezembro 2007
Pecado mortal
O ilustre transmontano, em Vinhais nascido, é bancário de profissão e à custa do seu engenho, arte e pertinência conseguiu chegar a ministro, um dos poucos transmontanos a consegui-lo, tendo percorrido rapidamente, num percurso político tão meteórico como surpreendente, as várias etapas do poder em Portugal: dirigente distrital, deputado, vice-presidente do Grupo Parlamentar, secretário de estado e ministro. Caiu em desgraça, fruto dos obscuros financiamentos da Fundação para a Prevenção e Segurança que criou. Nada foi provado. E se granjeou inimigos, os amigos não lhe faltaram quando foi nomeado gestor e depois vice-presidente da Caixa Geral de Depósitos perante a estupefacção de meio mundo.
Ali terá realizado um trabalho que muitos caracterizaram de competente e transformou-se no braço direito do administrador, dele não abdicando para a nova aventura do BCP. A sua inclusão na lista de Santos Ferreira despoletou um coro de protestos.
Em que se fundamentam?
Uns dirão que a putativa entrada da nova administração no maior banco privado português pressupõe uma atitude política, isto é, uma aproximação do banco ao poder instituído, no sentido de minimizar os efeitos das irregularidades detectadas pelas autoridades reguladores do mercado. Nesta óptica acusa-se o Governo de se imiscuir nos assuntos de empresas privadas. Vara seria a face. E então porque outros da mesma lista, também do PS, não sofrem da mesma contestação? Há ainda uns outros que advogam a sua falta de competência sem pormenorizarem de forma séria, apenas referindo a inadmissibilidade de um simples “caixa” se tornar administrador de um banco.
As razões desta animosidade são mais simples. Num país pequeno, sem grandes oportunidades, tudo está mais ou menos pré-determinado. Ultrapassar condicionalismos de nascimento, de estatuto social, de raça… é complicado e só o futebol e pouco mais, o parece ter conseguido. A ascensão de Vara não é um caso de heroicidade, teve forte muleta partidária e nos dias que correm isto é pouco valorizado e até depreciado. Depois Vara é um “outsider” na capital, facto agravado por ser originário da província, e isto é um pecado capital.
10 setembro 2007
Os meus heróis
09 fevereiro 2006
Os meus Heróis
Tem como primeiro nome Piedade mas, não acredito que alguma vez tenha pedido piedade para ela. Numa época de grandes privações que aquela por que passou na sua vida activa, conseguiu parir 19 (dezanove) filhos. Conjuntamente com o seu marido de apelido Morais sustentou-os até crescerem e poderem voar. Hoje estes, dispersam-se pelo mundo seguindo o exemplo de trabalho dos pais caldeado pelo sacrifício porque todos passaram até á largada.
Sem recursos herdados foi apenas pelo esforço que brotou este exemplo de vida.
Nas circunstâncias que se depreendem pergunta-se: que seria possível pedir mais! Ou por outras palavras, haverá ou caso parecido, de capacidade, de organização e de coragem! Não consta que tenha roubado. Não consta que tenha pedido. Não consta que tenha tido a sorte e a ventura do seu lado.
Eu que sou dado á reflexão faço este contraponto. Esta família, ao que trabalhou, se em vez de ter gasto as energias a sustentar tanto filho, tivesse amealhado dinheiro, teria hoje a maior fortuna. Seriam venerados pelos bajuladores, passeariam o seu cãozinho de luxo, pelo passeio ao fim da tarde, frequentariam a confeitaria na hora do chá, eram membros das associações filantrópicas, seriam convidados a segurar o pálio e eram com certeza considerados pelo poder.
A realidade é outra bem diferente. A riqueza que produziram parece não representar muito para o país que dela se aproveita.
Assim numa hora em que sei que a doença da Sra. Piedade Morais a tem praticamente retida em casa e embora desconheça em pormenor as circunstâncias em que tenta expurgar a doença, daqui vai a minha admiração pelo seu exemplo de dignidade e distinção entre os carrazedenses.
Hélder Carvalho
26 agosto 2005
Exemplos louváveis
Em 1994 três irmãos, naturais da aldeia de Beira Grande, da família Meireles, um enólogo, outro técnico agrícola e um outro militar, resolveram dinamizar a pequena exploração agrícola da família localizada em Beira Grande. Era um projecto inovador e arriscado que apostava no “saber fazer” e na qualidade das uvas da região.
Reestruturam a pequena Adega da Família, aproveitam os lagares para vinificar os tintos e apetrecham a adega com moderna tecnologia para a produção de brancos. O nome escolhido foi Grambeira (analogismo de Beira Grande). Os resultados foram rápidos. Na primeira colheita, 1995, no 1º Concurso da Casa do Douro conseguiram um primeiro lugar em brancos e um segundo em tintos, a partir de então os seus vinhos, nomeadamente o Grambeira Branco, têm conquistado um lugar de referência no mercado de vinhos nacional e até internacional. Angariados vários prémios dentro e fora das fronteiras, alcançaram sucesso e continuadamente têm dinamizado a empresa.
Em 1996 iniciam o processo de reestruturação das vinhas, com selecção de castas e plantação por talhões. Tem sido um processo muito lento e que desde então não tem parado. Em 1998, fazem novo investimento, constroem uma nova unidade destinada ao engarrafamento, controlo de qualidade e serviços administrativos, o que lhes permitiu controlar todo o processo de produção, desde a produção da uva ao engarrafamento.
Actualmente, e com o propósito de afinar alguns métodos de vinificação estão em última fase de construção uma nova Adega situada em Carrazeda de Ansiães, aproveitando toda a tecnologia existente na anterior, mas introduzindo novos conceitos de produção, a par, dos contínuos investimentos na viticultura. Pretendem assim paulatinamente continuar a melhorar a qualidade e desenvolver a vitivinicultura do concelho.
São exemplos destes que deverão ser incentivados, publicitados e apoiados e é por eles que passa também a requalificação de produtos, o investimento numa região tão necessitada. A capacidade de risco, aliada à inovação, ao gosto da nossa terra e ao espírito empreendedor que conseguíramos dar à volta à mediocridade e à desertificação que nos estrangula. São boas práticas que convém divulgar e multiplicar!
12 julho 2005
Homenagem ao Francisco
Orgulhava-se da égua da família e o nascimento de um potro era o acontecimento mais importante da sua vida. Garboso cavalgava-a pelas ruas da vila, ou segurava as rédeas, sentado na carroça, como se soubesse gritar a expressão ouvida no filme "I`m the King of the world!"
Na escola, Francisco era a simplicidade em pessoa, sempre de aspecto andrajoso, sujo e de "ranho" comprido a sair-lhe do nariz, gaguejava monossílabos se interrogado e, embora só se se pudesse aproximar dele tapando o nariz, tal era o cheiro nauseabundo que exalava, despertava a simpatia de todos. As horas mais felizes eram as do recreio: tomava-se o leite escolar e respirava-se o ar da liberdade.
Festejava os sucessos com uma alegria genuína esticando bem o peito para fora e sorrindo de boca escancarada. Reagia às pequenas injustiças, as que compreendia, de modo exuberante, profundamente sentido: emudecia fulo ou manifestava-se através de poucas palavras esticando bem o dedo acusatório. Em caso de alguma maldade, se era chamado à atenção, baixava a cabeça envergonhado ou então encolhia os ombros em tom de desafio.
Conseguiu aprender a desenhar e a conhecer todas as letras, porém juntar mais que duas revelou-se uma tarefa impossível. Talvez nunca tivesse sentido também muito interesse em aprender a ler, pois o seu mundo se bastava à barraca, aos cavalos, a um bocado de pão e a muita liberdade.
Filho da miséria e do desleixo social encontrou a morte de uma forma miserável. Francisco era de todos os mortais que conheci o que menos merecia esta “sorte madrasta”.
Como é possível?
Como é que numa sociedade que se diz evoluída, ainda encontramos uma comunidade a viver em condições tão miseráveis como a de etnia cigana em Carrazeda?
Que belo tema para tratar nesta campanha eleitoral!
Não será este o papel mais nobre dos políticos e dos responsáveis das instituições de solidariedade social, o de resolver os problemas dos mais necessitados?
13 junho 2005
A morte do Dr. Morais (revisto)
No mínimo deve ser considerado uma figura “muito interessante”. Enredado nas redes do antigo regime, em que manteve alguns cargos importantes, no entanto, foi sempre um homem que tentou sair da mediocridade e através dos mais diversos gestos e obras remou contra a maré e iniciou projectos e práticas que o guindaram à notoriedade.
Fundador de um colégio privado (numa altura em que para estudar se ia para Bragança, Vila Real ou Porto), permitiu a muitos filhos desta terra iniciar um percurso escolar, que de outro modo não teriam conseguido principiar, e em consequência trilhar caminhos do saber que os projectaram para uma vida melhor.
No campo profissional estabeleceu inovações e práticas que atraíram muitos forasteiros e ajudaram a resolver alguns dos problemas de saúde do concelho. Lembro o tratamento controverso, quiçá pouco científico, mas famoso e frutuoso da “cura da dor ciática” que consistiria na destruição do nervo que levava a dor da coluna ao cérebro e que passava por detrás da orelha dos pacientes. Lembro a criação dos primeiros tratamentos dentários, pioneiros na região, a que também acorreram muitos naturais e forasteiros. Lembro a execução de pequenas cirurgias. O Dr. Morais a par do Dr. Alegria e do Dr. Simão constituiu uma tríade de médicos que serviram, algumas vezes com grande abnegação, mas sempre com empenho e tenacidade o concelho como não há memória e dificilmente se repetirá.
A par destas actividades ainda era agricultor e poeta. Que mais pode um homem desejar!?
Nos últimos anos de vida, todos o recordamos nas “secas” que nos pregava quando o encontrávamos na estrada ou ao volante nas ruas da vila. Absorto nas suas divagações, conduzia muito lentamente, impedia-nos a passagem, não largava o meio da estrada ou da rua por mais que lhe vociferássemos "impropérios". Apanhados na sua conversa “sem fim”, calma e conhecedora, educadamente tentávamos fugir-lhe, pois sabíamos que para ele as horas não contavam. Mas tudo lhe perdoámos.
Conseguiu manter-se lúcido e contestatário até quase ao fim dos dias com distribuição e afixação de frases e cartazes controversos, pondo em causa a prática da Casa do Douro, a condução dos destinos do concelho…
Credor de uma homenagem concelhia, faleceu sem que lha tivessem realizado. Houve uma tentativa protagonizada por um grupo de ex-alunos que esbarrou na sua teimosia, um dos seus conhecidos defeitos. Quando vejo atribuídos nomes a ruas e praças que nada nos dizem, enquanto carrazedenses, ou nada fizeram pela vila (casos de Sá Carneiro, Amaro da Costa, Gomes da Costa, Aquilino) seria justo perpetuar este homem com essa atribuição, ou então, porque não dar o seu nome à Escola Profissional?
Partiu, talvez, o último homem deste concelho a que muitos ainda tiravam o chapéu por respeito e consideração.
Descanse em paz!
18 março 2005
Exemplos louváveis
Reestruturam a pequena Adega da Família, aproveitam os lagares para vinificar os tintos e apetrecham a adega com moderna tecnologia para a produção de brancos. O nome escolhido foi Grambeira (analogismo de Beira Grande). Os resultados foram rápidos. Na primeira colheita, 1995, no 1º Concurso da Casa do Douro conseguiram um primeiro lugar em brancos e um segundo em tintos, a partir de então os seus vinhos, nomeadamente o Grambeira Branco, têm conquistado um lugar de referência no mercado de vinhos nacional e até internacional. Angariados vários prémios dentro e fora das fronteiras, alcançaram sucesso e continuadamente têm dinamizado a empresa.
Em 1996 iniciam o processo de reestruturação das vinhas, com selecção de castas e plantação por talhões. Tem sido um processo muito lento e que desde então não tem parado. Em 1998, fazem novo investimento, constroem uma nova unidade destinada ao engarrafamento, controlo de qualidade e serviços administrativos, o que lhes permitiu controlar todo o processo de produção, desde a produção da uva ao engarrafamento.
Actualmente, e com o propósito de afinar alguns métodos de vinificação estão em última fase de construção uma nova Adega situada em Carrazeda de Ansiães, aproveitando toda a tecnologia existente na anterior, mas introduzindo novos conceitos de produção, a par, dos contínuos investimentos na viticultura. Pretendem assim paulatinamente continuar a melhorar a qualidade e desenvolver a vitivinicultura do concelho.
São exemplos destes que deverão ser incentivados, publicitados e apoiados e é por eles que passa também a requalificação de produtos, o investimento numa região tão necessitada. A capacidade de risco, aliada à inovação, ao gosto da nossa terra e ao espírito empreendedor que conseguíramos dar à volta à mediocridade e à desertificação que nos estrangula. São boas práticas que convém divulgar e multiplicar!
24 outubro 2004
P.e Virgílio e a celebração dos 90 anos de idade.
Noventa anos de idade e sessenta e seis de apostolado em Carrazeda de Ansiães foram motivo para uma celebração. O P.e Virgílio Cirne Vila-Velha marcou indelevelmente os crentes ou não do concelho. A sua vida parece-me uma linha recta de simplicidade, obediência e de serviço à Igreja, mais que aos seus paroquianos. Sem rasgos de iniciativa, não construiu obra, não arrostou contra as injustiças e para além do espiritual não olhou para o material dos seus paroquianos. Olha-se para trás e fica a simpatia e uma grande religiosidade. Será suficiente? Sobra o Mogo de Malta, a aldeia do seu coração, e aí sim existe uma obra que é o Centro Social e Paroquial, a sua menina dos olhos. O seu nome estará associado a esta construção e toda a obra desenvolvida pelo Centro. Como em todas as coisas da vida se a honra lhe será concedida na história da aldeia, ela deveria ser atribuída à pertinência e preserverança de três ou quatro filhos da terra, de que saliento uma grande senhora que apenas conheço como a "D. Fernandinha" que sendo solteira toda a gente conhece como dona.