11 agosto 2013

Oralidade e figuras de estilo: Carlos Fiúza



É bem merecedora de atenção crítica a vida da linguagem oral.

Em todas as línguas existem livros, mais ou menos desenvolvidos, a respeito da teoria da composição literária ou de crítica e análise literária.
Em livros de tal natureza e intenção, como é óbvio, estudam-se vários segredos da literatura pelo que toca às belezas e às fealdades do estilo; dão-se, em suma, importantes conselhos técnicos sobre a arte de compor os vários géneros literários, etc.
Ninguém pode negar a esses estudos grande utilidade cultural. Mas o que se pode lamentar, e é isso que eu me atrevo a fazer, é que tanto se tenha escrito sobre a arte literária e que nada exista acerca da arte da linguagem falada.
Do mesmo modo que se expõem e comentam factos esteticamente interessantes da língua literária, assim deverão analisar-se graças da expressão oral, pois esta vive, e continua reproduzindo-se em admiráreis florações.

Aliás, toda a variedade de imagens ou de figuras estilísticas mais não são do que o refinamento do processo imaginoso da expressão falada.
Reparemos em como a nossa língua abunda em figurações tão bem constituídas nos seus elementos, que raro se poderá descobrir-lhes uma incoerência, um artificialismo, uma deficiência de relação.
Escolherei hoje pinturescas demasias, e, por contraste, também imprecisões intencionais.
Ensinam os livros de composição literária que a hipérbole exagera a expressão, para encarecer a ideia ou o sentimento.
Na literatura abusa-se por vezes das hipérboles. Com perspicácia o Padre António Vieira afirmou: “O fim por que a hipérbole se estende tanto fora dos mesmos limites do que pretende persuadir, é porque quer chegar à verdade por meio da mentira: mente e diz mais do que a coisa é, para que se venha a crer o que é”.
Ora, na linguagem falada surgem hipérboles modelares, cujo exagero se explica por bem imaginosas semelhanças.
Vou exemplificar.
Há verdadeiras violências físicas para traduzir violências materiais e morais.
Um fulano rouba tudo a outro, por exemplo, em algum negócio. Para se descrever hiperbolicamente o facto, a nossa língua oferece esta maneira de dizer - “Comeu-lhe os olhos da cara”.
Ir depressa é expressão pouco ou nada convincente da promessa de prontidão. Pois, então, diga-se - “Ir num pé e vir no outro”.
Já agora lembre-se o correr a sete pés, mesmo que se tenham apenas dois …
Coisa inesperada como é que se explica? De mil maneiras. Mas há uma verdadeiramente hiperbólica: este dinheiro caiu do céu aos trambolhões.
Agora mesmo me ocorre outra caída hiperbolicamente desconcertante: Caiu-me o coração aos pés.
Há quem faça patifarias de se levantarem as pedras da calçada. Mais violenta hipérbole do que esta só em estilo bíblico …
Pode acontecer aviventar-se a expressão, por vezes, com sucessão aumentativa de exageros, mesmo sem necessidade de relacionação lógica e, portanto, sem qualquer combinação alegórica: Fiquei varado! Caiu-me em cima este mundo e o outro.

Entre as figuras que servem para realçar a ideia, ora para a atenuar contam-se as perífrases, isto é, os rodeios de palavras, os circunlóquios.
Poderei lembrar, para exemplo de perífrases (ao mesmo tempo hipérboles pelo arrojo de figuração), estas duas - Fala pelos cotovelos e tem o coração ao pé da boca, quer dizer, não se cala, diz, conta ou confessa tudo.
Desejando-se expressar a indiferença com que se atende pedido, recado, admoestação ou coisa semelhante, não seria difícil ocorrer-nos a redundância figurada - Entrou-lhe por um ouvido e saiu-lhe pelo outro. Isto quer dizer em língua chã - não ouviu nada.
Mais fácil nos ficaria empregar a simples palavra dinheiro em alguns dos seus sinónimos populares, de gíria, do que recorrer a perífrases. No entanto, bem amiúde se faz uso desta assim - aquilo com que se compram os melões.
Puxar os cordões à bolsa - eis outro caso perifrástico, este agora tradutor de grande despesa.
Quem se deita cedo poderá limitar-se a este simples advérbio. Mas quê? Tem todo o direito de empregar a dicção - Deito-me com as galinhas.
Em vez de dizermos “há muito tempo”, ou “temos tempo”, ou ainda “é cedo para isso”, podemos usar do circunlóquio - Daqui até lá, não nos doa a cabeça.
Pressente-se que a vida será curta, que se morrerá breve. Dessa vida poderemos dizer que não se chegará a netos, se ainda os não houver, claro.

Por vezes, a figura vem da necessidade de acentuar a energia da afirmação.
Se nos querem enganar, o melhor aviso de que as tentativas de engano sairão frustradas não será dizer apenas “enganas-te”, mas acrescentar-se - enganas-te no número da porta.

Chamam os retóricos eufemismos àquelas figuras que atenuam ou amortecem a expressão de ideias ou impressões violentas, tristes ou de qualquer modo desagradáveis.
E, se há eufemismos os quais, assim que se dizem, logo traduzem com exatidão a verdade que se pretende afirmar indiretamente, outros há cuja imprecisão serve para reforçar as ideias.
Isto é, em algumas dicções o povo deixa vagamente exposto por figuração o pensamento que pretende, insinuantemente, dar a conhecer.
Abundam os exemplos de eufemismos populares.
Poderei trazer à baila alguns deles, escolhendo primeiramente a imprecisão intencional como tema.
Quer-se dizer de alguém que não tem expediente para nada, que se deixa enganar ou que, enfim, é um atado, um ingénuo, um inútil? Usa-se deste eufemismo perifrástico - Anda no mundo por ver andar os mais.
Intenta-se filosofar sobre a responsabilidade de quaisquer na prática de seus atos? Isto mesmo de pode afirmar com a redundância - Ele lá sabe as linhas com que se cose.
Suponhamos, agora, que conhecemos um espertalhão de falas mansas, que já nos tenha pregado boas patifarias. No fim de expormos a sua falsidade, ainda ajuntamos - Quem no ouvir não o levará preso.
E se, não podendo aturá-lo, lhe batemos, não vamos dizer isto com um seco – “bati-lhe”. Escolhemos uma perífrase no jeito desta, por exemplo, cheguei-lhe a roupa ao pelo.
Desejando vincar-se a excecional qualidade, boa ou má, de alguém ou de alguma coisa, emprega-se com frequência uma expressão vaga, que, sem dizer nada, diz tudo - de alto lá com ele.
Bastará dizer que anda a fazer das suas, para se saber que a pessoa referida anda praticando as maroteiras do costume.
No processo eufémico se pode incluir a maneira vaga de dizer - cobras e lagartos.
Coisas e loisas é também forma de aumentar a ênfase por meio de imprecisa expressão. Quando se vê que determinado termo é insuficiente para o reforço que a ideia exige, engendra-se até uma outra palavra por mera semelhança fonética: Que te disse ele? - Eu sei lá! Coisas e loisas.
Este vocábulo “loisas”, com seu poder de imprecisão, pode aumentar muita vez aquilo que se insinua.
Quanto a insinuações, lembre-se que o nosso povo usa de curioso eufemismo, quando quer dizer que certa alusão fica bem neste ou naquele a quem se diz - Ora, apara lá esse pião à unha.
Assenta-lhe bem a carapuça - poderá afirmar-se do sujeito que percebeu e recebeu a alusão.
Quando se fala muito mal de alguém, quem refere o caso pode contar que se afirmou dele o que Mafoma não disse do toucinho.
Dizer as últimas de alguém representa fórmula violentíssima, pelo significado de não admitir piores expressões do que as empregadas. Vendo bem, a dição vale pelo impreciso do adjetivo “últimas”. Sim, quais serão as últimas que se poderão dizer de alguém?
“Que lhe respondeste? Que sim e mais que também.”
Tem ou não tem graça esta dicção vaga com que nos furtamos a qualquer indiscrição?
Em mil outros jeitos idiomáticos se poderá descobrir a imprecisão como figurativo recurso da linguagem: assim assim, mais ou menos, como o outro que diz, diz-me dessas, etc., etc.

A nossa linguagem é riquíssima em figuras de toda a sorte, e para todas as modalidades da expressão podemos encontrar forte manancial exemplificador.

Muito se engana quem pensa que a expressão oral, não trabalhada, não retocada, aquela que sai livre, espontânea, pelo aparente desalinho não sirva de norma, pelo à vontade não dignifique, ou pela fluidez não possa tomar-se para exame crítico.

Nas Escolas Secundárias e nas Faculdades perde-se, por vezes, precioso tempo com frivolidades gramaticais e filológicas e nada se estuda de filosofia da linguagem.
Além disso, o ensinamento da língua artística não deve fazer-se só por meio de autores.
Eu não digo que se dispensem estes, pois sou o primeiro a atribuir ao estudo dos Mestres de qualquer língua as maiores vantagens culturais.
Mas, ao par dos exemplos dos modelos escritos, deviam figurar frases modelares da expressão livre.
Tenho para mim, que em bocas populares há amiúde mais arte do que em penas de escritores.
É indispensável que se vão buscar ao Camões, ao Vieira, ao Namora, aos vários outros modelos as exemplificações literárias. Mas faz-se mister que a exemplificação se inspire também na própria expressão espontânea, na fraseologia idiomática.

Carlos Fiúza

9 comentários:

Fernando Gouveia disse...

Mais uma bela lição de língua dada aqui, gratuitamente, pelo Carlos Fiuza. A oralidade é, a meu ver, a génese da própria língua, e a língua evoluiu essencialmente "empurrada" pela linguagem verbal. Parece-me que a oralidade e o seu estudo está na moda e não é por acaso que o acordo literário invoca em seu abono a oralidade. Por outro lado, a chamada Pragmática Linguística é hoje uma disciplina essencial da Linguística: algumas das expressões a que o Carlos Fiuza chamou, e bem, perífrases, têm que ver com o efeito perlocutório dos actos de fala. Há trabalhos académicos especificamente dedicados, por exemplo, à delicadeza na linguagem, ao convite, ao pedido.

Queria, no entanto, chamar a atenção para uma faceta da linguagem oral que me parece pouco tratada e tem que ver com a forma diferente de ver o mundo nas várias línguas. De facto, a linguagem transporta consigo uma visão particular do mundo, fruto da experiência histórica de cada povo. Apesar de todas as línguas terem muitos recursos para expressar os actos de fala e transmitir a realidade, o certo é que determinadas figuras de estilo, consubstanciadas por vezes em alusões, em provérbios ou em metáforas, recorrem a realidades diferentes da vida para dar expressividade à fala.
Lembrava-me hoje, ao ver um jovem com uma camisa em que estava impressa a palavra "Deutschland", que no hino alemão há uma frase como esta: "daran muss uns alle streben brüderlich mit Herz und Hand" Esta expressão "mit Herz und Hand" traduzida lçiteralmente (com coração e com mão) não faria qualquer sentido. Eu traduzi-la-ia por "de alma e coração". Noutras línguas acontece o mesmo. As referências da vida que originam certas metáforas são diferentes das que usamos em português: Veja-se o nosso provérbio "em casa de ferreiro espeto de pau". Exactamente com o mesmo sentido os franceses dizem "les cordonniers sont les plus mal chaussés".
Parece que os provérbios são a expressão típica das experiências de cada povo. Embora o sentido seja por vezes comum a diversas línguas, a forma como se expressa tem a ver com referências particulares da cada povo.

Carlos disse...


Meu Caro Fernando Gouveia

Obrigado pelo seu comentário.
Se alguma lição há a tirar... é a sua!
Vejo, com agrado, que também é um apaixonado (dria, até, um "campeão") pela nossa língua.
Pena é que sejamos tão poucos!
A língua (qualquer língua) é, como diz, o maior traço de união entre os povos.
Diferentes há, é verdade, mas no fundo essas diferenças são (bem, como diz)"a expressão típica das experiências de cada povo".
Não posso estar mais de acordo com o que escreveu... "a forma como se expressa tem a ver com referências particulares de cada povo".
Nada mais exacta a tradução que proporia para a frase do hino alemão: mit Herz und Hand" (de alma e coração).

Abraço
Carlos Fiúza

Fernando Gouveia disse...

Obrigado, Carlos Fiuza: Penso que o gosto pela língua nos é comum. Tendo passado uma parte importante do meu percurso profissional no estrangeiro, sempre senti que a maior dádiva que tivera do meu país foi a da língua. Considero-a o traço fundamental da minha identidade. Pena que, como diz, sejamos tão poucos a cultivá-la e defendê-la, não do analfabetismo cultural, que esse vai tendo remédio, mas do deslumbramento bacoco duma elite que pensa que a modernidade é meter umas palavras ou frases importadas no discurso.
Abraço amigo.
F.Gouveia

Anónimo disse...

Não sei dizer mais nada a não ser que os dois sabem muito .Parabéns.Houve um tempo em que andei preocupado com problemas semelhantes mas não consegui aprofundar nada e agora já é tarde.
JLM

Anónimo disse...

"O acordo literário invoca em seu abono a oralidade" (até porque a "oralidae é a génese da nossa língua", assim nos diz o excelente Fernando Gouveia. No entanto, escreve ainda como se não tive havido Acordo Ortográfico... E o não menos excelente Carlos Fiúza, que já me tinha habituado à sua escrita enxuta e cordata com o "Vocabulário Ortográfico Atualizado da Língua Portuguesa" (Academia das Ciências de Lisboa), acaba por se "descuidar" (exacta) desse Novo (e polémico) Acordo Ortográfico... É o que acontece a quem se dedica muito à escrita e eu também já tenho tropeçado em pequenos calhaus que sempre vão emergindo do solo... Entretanto, sabem-me sempre bem estas pequenas incursões à linguística...
Um abraço aos dois eruditos.

HR

Fernando Gouveia disse...

Caro HR: do ponto de vista legal, é difícil afirmar que o AO está em vigor, até porque o Brasil suspendeu a sua aplicação. Pela minha parte, enquanto puder, resistirei a aplicá-lo, a não ser quando alguma hierarquia a isso me obrigue. Parece que não estou só nesta posição, já que muito boa gente declara expressamente não o aplicar. As minhas razões são de ordem histórica, etimológica e pragmática.
Obrigado pelo seu comentário.
Um abraço

Anónimo disse...

Caro FG,

sem querer por em causa (longe de mim) as suas respeitáveis razões históricas, etimológicas e pragmáticas) para a recusa do AO, gostaria de o ver continuar a escrever "pharmácia"; "ella/elle"; "football"; "leader", etc.
Haveremos de voltar ao assunto, mas por agora, permita-me lembrar-lhe que o convívio interlinguístico, cada vez mais alargado e interativo, confronta a língua portuguesa com a importação de muitas palavras novas, que parecem corresponder às necessidades de expressão dos falantes e que podem trazer proveito para a nossa língua que tem, como se sabe, caráter dinâmico e económico (pela polissemia...). Gostaria de continuar, mas por ora, o tempo escasseia-me.
Um abraço.
HR

Anónimo disse...

Apetece-me estar de acordo com HR. Há muito pouco tempo,o português se libertou da presença permanente do linguajar latino ,que até fazia o povo abrir a boca de admiração(sem perceber patavina) perante a fala erudita dos doutores da Igreja.Com isso ninguém se importava.Até era motivo de glória para o pregador.Pois a língua venceu, enfrentando as adversidades. Quando começaram as telenovelas,um novo surto de medo eclodiu entre os puritanos.Mais uma vez,a língua seguiu em frente enriquecida até. Não mais, porque os puristas não permitiram que,como os brasileiros,abríssemos as vogais ,o que dava outra sonoridade à língua.Pelo contrário,o pobre Cámões passou a ser Câmões e a bela Àveiro passou a Âveiro.
Claro que agora o português enfrenta ataques de todo o lado e há-de seguir adiante,perdendo aqui,ganhando além. E há pessoas que primeiro conhecem as novas realidades nas línguas estrangeiras(sobretudo o inglês) e é natural que não saibam sequer a palavra correspondente em português e de tanto falarem com estrangeiros só lhes saiam as palavras que costumam usar e não aquelas,que os peritos ainda não tiveram tempo de dizer quais são(em português).
Não me admiraria,se ainda cá estivesse,se a língua falada entre os cosmopolitas (mesmo apenas portugueses) passasse a ser o inglês. O futuro o dirá.Tem que ter uma capacidade muito grande aquele que consegue, em determinadas circunstâncias de poliglotismo, distinguir bem o uso diverso e permanente de línguas diferentes.
As línguas surgiram do isolamento dos povos.É muito provável que desapareçam(algumas) no convívio dos tempos modernos.
Mas as línguas são meios de comunicação das pessoas e persistirão enquanto desempenharem esse papel.
Muita gente quer,na vivência diária,preservar tudo.
Mas não é possível.Tudo,mas tudo, nasce e morre.
Eterno só Deus(e a nossa alma,se alma tivermos e Deus permitir que a alma se aproveite).
JLM

Fernando Gouveia disse...

Estou com dificuldade de enviar comentários, porque o endereço electrónico com que me identifico foi pirateado. Este texto é uma experiência para tentar resolver o problema.