23 maio 2013

ENGENHARIA FINANCEIRA – A NOSSA TÁBUA DE SALVAÇÃO: João Lopes de Matos



Quem sou eu para me atrever a falar sobre algo em que seguramente não sou perito?

Realmente, que sei eu de  finanças e de engenharia financeira? Em termos técnicos ou académicos, nada. Mas também não é por esse prisma que pretendo tratar o tema.

Quero debruçar-me sobre ele apenas como simples cidadão, ao qual tem causado muitos engulhos a expressão “Engenharia Financeira”.

Após a crise do subprime, tem-se ouvido muitas vezes a referida expressão. Que quererá ela dizer? Trata-se de uma arte de criar artefactos que têm realidade no domínio das finanças.

Eles ou visam ajudar a resolver problemas da economia para que esta flua mais facilmente ou têm em vista apenas satisfazer o apetite de lucro fácil e rápido, pouco importando se têm alguma utilidade real. Por isso, poderemos, desde já, afirmar que há uma engenharia financeira útil e outra prejudicial à atividade económica.

Quando arranjamos soluções no domínio financeiro(bancário, se quisermos) que facilitam, por exemplo, a aquisição de casa própria pelas pessoas que vivem em condições não dignas ,estamos certamente a construir vias de progresso e de bem estar aos nossos concidadãos. Se nós abrimos caminhos financeiros que possam vir a prejudicar um número significativo dos nossos semelhantes e até a pôr em risco toda a vida da sociedade, então seria melhor que ficássemos quietos. 

O que está em causa é louvar a criação de meios de progresso efetivo e não meios de retrocesso e de destruição. De qualquer modo, é necessário ter muito cuidado com o uso da arte de arranjar processos de fluidez da economia. É preciso usar de muita parcimónia.

A engenharia financeira má tem-nos acarretado imensas perturbações nos últimos anos. Porque não emendar a mão e pôr os engenheiros a fabricar produtos que estejam ao serviço do bem estar em vez de ao serviço do lucro fácil e nocivo?

Nesta visão cabem seguramente os modos de fazer sair da crise os estados, em particular os estados da União Europeia, fazendo, por exemplo, com que instituições como o BCE sejam mais úteis a todos, tendo em vista que o sistema económico reinante na Europa funcione como um todo e que tenha um rodar que a todos beneficie, sendo certo que a todos interessa um funcionamento assim, sem grandes desequilíbrios.

Para terminar, parece-me que uma economia próspera exige um sistema financeiro bem oleado. Ainda interessa dizer que os dois aspetos (o económico e o financeiro) são ambos importantes para encontrar as soluções desejadas.

João Lopes de Matos

P.S.: O tema era difícil, o artigo saiu arrevezado.

11 comentários:

Fernando Gouveia disse...

Meu caro JLM:
O tema é de facto complexo e a expressão "engenharia financeira" cobre transacções financeiras de natureza muito diversa. No seu escrito exprime, de uma forma que considero eminentemente cívica, o desejo de que as transacções em questão se processem para o desenvolvimento de toda a humanidade e não para beneficiar uns poucos, em prejuízo de muitos, com cpnstruções ousadas ou desviantes.

Nos anos oitenta do século passado, a expressão era utilizada sobretudo para designar o conjunto de operações financeiras ligadas à vida das empresas: fusões e aquisições, grandes projectos que envolviam sindicatos bancários e seguradoras, aquisições de empresas ou cisões dentro dos grandes grupos, etc. A expressão engenharia financeira fazia sentido. Envolvia muitas vezes a procura de parceiros empresários, múltiplas formas de financiamento das operações de transferência de capitais ou de recapitalização, emissões de obrigações ou aumentos de capital, negociação das condições de lançamento dessas operações com banqueiros, corretores de bolsa, etc. Por conseguinte, todo este conjunto de operações orientava-se pelo objectivo de financiar, do modo mais equilibrado e adequado, grandes operações entre empresas.
Não sei se hoje a expressão cobre novas realidades. Mas, como em tudo, um projecto à partida honesto e com objectivos legítimos, pode, em certos casos, servir objectivos menos honestos e meramente especulativos ou até criminosos. Costuma-se dizer que "o diabo está nos detalhes".
Por isso há autoridades reguladoras a quem compete supervisionar essas operações. Assim elas cumpram o seu dever de supervisão, o que, convenhamos, a avaliar pelos exemplos recentes em Portugal, está longe de ser o caso.

Anónimo disse...

Muito grato pelo seu comentário.Sabe: muitas vezes não é o que nós dizemos que é importante mas sim o que nós suscitamos.É este o caso.Já valeu a pena o que escrevi pelo seu comentário.
JLM

Carlos disse...

Caro JLM

O seu escrito pretende lançar uma pedrada no charco (ou será lodo?).

E, no entanto, para o português comum, as suas perguntas serão (seriam) lógicas:

“Se um credor não "aliviar" as empresas devedoras corre o risco de não receber nada”.

Ouçamos, no entanto, o que nos dizem os números:

BANCO DE PORTUGAL:
- Dívida pública atinge os 127,3% do PIB
- Houve um aumento de 3,7 pontos percentuais do PIB face ao final de 2012

A Dívida Pública atingia os 204,2 mil milhões de euros, subindo até ao final de março para os 208.146 milhões de euros, uma diferença de 3.939 milhões de euros.
O défice público,nos nos primeiros quatro meses, teve um agravamento de 32 por cento.

De acordo com a Direção-geral do Orçamento (DGO), as receitas fiscais estão a subir, mas a metade do ritmo do que está orçamentado.
O IRS até sobe, e muito, devido ao brutal agravamento do imposto. A receita do Estado com este imposto até abril subiu 24,6%, comparando com os primeiros quatro meses do ano passado, mais 778,2 milhões de euros.

Mas há quedas importantes em impostos como o IRC (caiu 13,2%) ou o Imposto sobre Produtos Petrolíferos, como efeito direto da recessão da economia.

O Estado arrecadou apenas 552,8 milhões de euros com IRC, menos 84,3 milhões de euros que o verificado no período entre janeiro e abril de 2012.

Do lado das quedas, está ainda a receita com IVA, com o fisco a receber menos 12,3 milhões de euros até abril face a período homólogo do ano passado.

Paralelamente, felizmente, nem tudo são más notícias:
- os mercados internacionais dão-nos conta que Portugal está a fazer os “trabalhos de casa” (a que custo?), pelo que
- consegui sair do "clube da bancarrota", para onde entrou no segundo trimestre de 2010.

O Iraque tomou o lugar de Portugal, que ontem havia descido para a 10ª posição, com um nível de risco de 22,83%.

Entretanto, os ministros da zona euro acordaram os detalhes do resgate ao Chipre após nove meses do pedido e de 10 horas de negociações.

O grupo de 17 países acordou um pacote de medidas que inclui um imposto extraordinário de 9,9 % sobre os depósitos acima dos 100.000 euros e de 6,7 % para os valores abaixo, bem como um aumento do imposto sobre as empresas até 12,5 %.

Em pânico, depositantes Cipriotas e residentes estrangeiros procuram retirar dinheiro dos bancos após este anúncio de resgate.

"Tudo isto vai fazer com que tenhamos de sair do euro", disse um habitante da capital à France Presse.

As Caixas Multibanco já estão a bloquear transferências a partir de determinado montante, explicou Marios Skandalis, vice-presidente do Instituto das Contas Públicas do Chipre.

Nicósia (Chipre) passa assim a ser o quinto país da Zona Euro a beneficiar de um programa de ajuda internacional.

Palavras para quê?
Esta é a realidade nua e crua do que vai por esta Europa!

Que poder (face ao exposto) terá o devedor (ainda para mais com as "regras vigentes")?

CF

Anónimo disse...

Obrigado CF pela colaboração. Cada vez me sinto mais confuso com toda esta situação.
Sou tentado a pensar que estamos perante problemas inteiramente novos,a requererem soluções novas, que nos poderão ser fornecidas por uma engenharia financeira também ela nova,a raciocinar em moldes diferentes. A distribuição de rendimentos pode ter de fazer-se com base em critérios que não o pagamento do trabalho dispendido. O próprio trabalho vai tomando uma configuração dia a dia nova e não chega para que se possa cumprir o ditame constitucional do direito ao trabalho. O funcionamento de toda uma organização como é a União Europeia vai exigir que,primeiro que tudo, se tenha a preocupação de manter o funcionamento equilibrado de todo o sistema. Será que é possível manter,por muito tempo, a lógica da iniciativa privada e da lei do mercado em toda a sua pureza?
JLM

Anónimo disse...

entretenham-se os entendidos...

mc disse...

"Portugueses ricos andam especialmente tolos"

"Portugueses ricos andam especialmente tolos"
No Festival Literatura em Viagem, em Matosinhos, Francisco José Viegas fez o diagnóstico dos últimos 40 anos e apontou o dedo às elites. 25-05-2013 18:52 por Maria João Costa
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Se alguma coisa falhou não foi o país, foram as elites, afirma o ex-secretário de Estado da Cultura Francisco José Viegas.
O escritor, que falava este sábado no LeV - Festival Literatura em Viagem, em Matosinhos, considera que nos últimos 40 anos tem faltado empenho às elites
“Os ricos portugueses andam especialmente tolos e eles são especialmente responsáveis por esta situação, porque podiam fazer e não fizeram. Se alguma coisa falhou nos últimos 40 anos foram estas elites, não fomos nós todos. Quando nós estamos a deslocar a culpa para nós que votámos ou que governámos, não. Quando me diziam: ‘ agora que já estás fora do poder, eu começava a rir. Poder? Qual poder?”, disse Francisco José Viegas.
"Quarenta anos de insucesso"
Numa conversa subordinada ao tema “Portugal do nosso descontentamento”, o poeta Eduardo Pitta ditou a tónica pessimista.
“Portugal está a andar aceleradamente para trás. Não me admirava que, um dia destes, uma sardinha voltasse a dar para sete pessoas. O estado a que nós chegámos é o resultado de 40 anos de insucesso”, lamentou Eduardo Pitta.
Nascido há menos de 40 anos, o escritor Pedro Vieira fala na actual travessia do nevoeiro vivido em Portugal. O interveniente mais novo da mesa, por usar a escrita como oficio, mostrou-se preocupado com as voltas que o português vai levando.
“O empobrecimento agora chama-se ajustamento, aos trabalhadores agora chama-se colaboradores, o roubo aos depósitos dos cidadãos nos bancos chama-se transformação de créditos credores em acções do próprio banco, despedimento é requalificação. O sequestro da linguagem é uma coisa que me inquieta”, admite Pedro Vieira.

mais .. ainda a taxa ecológica..

como vê caro JLM.. qualquer dia uma sardinha, se a houver .. vai ter que dar para mais de 4 .. já falam em 8 .. e o regresso às cavernas .. estará para breve .. embora pagando, condomínio, água, saneamentos.. residuos sólidos, liquidos e até gasosos..elctcticidade , sem a ter mais as rendas das eólicas ...o IMI da toca etc--.. mais .. ainda a taxa ecológica..porque como não se pode ter água .. cheira-se mal e polui o ambiente.. etc. etc. .. feliz daquele que tiver piolhos e percebejos .. desde que o estado .. não se lembre de os taxar como priveligiados...

cump a todos .. muito de passagem

mc disse...

Ei-los... depois de se terem iludido com as lampadinhas.. os bruns dos pópós e o chanel 5 das badalhocas..renegando as origens e dizendo o dito por não dito.. ei-los --novamente a regressar às origens ... mais puros ou ressabiados??? ESSA A MINHA DÚVIDA

http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=30&did=108788

Portugueses ricos andam especialmente tolos"

"Portugueses ricos andam especialmente tolos"
No Festival Literatura em Viagem, em Matosinhos, Francisco José Viegas fez o diagnóstico dos últimos 40 anos e apontou o dedo às elites.

Anónimo disse...

Caro MC:Que visão tão pessimista a sua. Até fiquei com a careca arrepiada.
JLM

Anónimo disse...

Tinha pensado que o modo que eu vislumbro de distribuição de rendimentos tinha a ver com socialismo.Mas não. Porque,ainda aí, a distribuição é feita de acordo com o trabalho realizado e o que eu vislumbro é uma distribuição sem outro critério que não seja a necessidade de espalhar dinheiro para poderem ser consumidos os imensos produtos saídos dos locais de produção.A não ser que se entre noutra lógica de uma maior racionalidade entre a produção e o consumo que não seja apenas a resultante da lei do mercado(lei da oferta e da procura).
JLM

mc disse...

caro JLM

o socialismo acaba quando... acaba o dinheiro dos outros

cump

mario carvalho

Anónimo disse...

Pelo que parece, para já, a engenharia financeira que se vislumbra para breve consiste numa de duas hipóteses: ou o perdão parcial da dívida ou a emissão de moeda, com a correspondente inflação,permanecendo a dívida nominalmente a mesma, possibilitando assim o seu pagamento.
JLM