28 fevereiro 2007

DECLARAÇÃO DE AMOR À MINISTRA DA EDUCAÇÃO (3)


Os critérios para definição dos docentes titulares, ou seja, dos ‹‹professores de primeira classe›› pela nossa Ministra da Educação são verdadeiramente extraordinários:

Com os congelamentos na carreira de (pelo menos) dois anos de serviço, só podem concorrer os docentes que, em regra, tenham mais de 45 anos; ou seja, podemos ser candidatos à presidência da república com 35 anos, mas a professor titular só a partir dos 45. É a esta Gerontocracia que a nossa Ministra chama ‹‹mérito››. E ocupados os lugares, só depois da vacatura se pode concorrer, nesta Terra do Nunca. Depois,

para esta nova categoria — bem além da dos jovens agricultores que só vai até aos 40 —, os professores maiores de 45 anos têm de, como nos cartões da GALP, ter já somado pontos (sem saber que tinham de) para poder concorrer com o mínimo de 120... E a maior pontuação anual vai para os pontos atribuídos aos titulares dos cargos de gestão. Ou seja, para a nossa Ministra da Educação os melhores professores são (por esse país fora) os profissionais do Conselho Executivo. Vamos aplicar este critério a uma Escola perto de Si e vejamos as ‹‹boas práticas›› que a Ministra releva em sua reforma:

— não dar aulas, ou haver uma turma só: neste caso, faltar muito, justificadamente;

— chamar os alunos com assobios estrídulos, como os caçadores a seus cães;

— deitar educadamente o quadro abaixo da sala dos alunos, sem burra preta nem burra branca, mal se não aprecie a música;

— haver na parede autoritária a máxima salazarista: ‹‹eu sou professor, vocês são alunos››.

— dar 'trucos' (esta expressão dos alunos é grosseira, mas a do docente ainda vai mais sexualmente explícita, quando lhes dá... ‹‹à galo››) na nuca ‹‹uma bicada››, por distracção ou mau comportamento;

— finalmente, fazer quase sempre de Homem Invisível no local de trabalho.

Fosse a comunidade educativa (professores, funcionários, pais, alunos) a atribuir o mérito a estes senhores, por esse país fora, e estariam por regra a concorrer não ao Óscar dado pela Ministra, pois tal se trata de uma sua boa interpretação, mas ao prémio de Pior Artista do Ano. Que

os alunos nunca deles se lembrariam quando se lhes pergunta por aquele professor que os marcou pela sua competência, apoio às aprendizagens e inovação, ajudando os alunos a crescer e a atingir melhores resultados. Nunca lhes fariam uma Declaração de Amor, como o grande poeta Fernando de Castro Branco a seu mestre José Augusto Seabra, (que decerto nunca chegaria a titular pela margem que trilhou), agora e na hora da sua morte:

(...)

Tu na verdade

eras um professor; e sempre foste um poeta.

E eras a inquietação, a pausa adiada,

ou asas movendo-se, agudas, pelo vento

das pedras, pelas veredas do fel.

Navegava-te um sonho que durasse mais que a noite,

e na noite vigiasses os precários clarões,

e os ousasses à beira dos precipícios,

entre a exactidão dos seixos e a água matinal.

Não longe das águias e do fulgor das

auroras, incomensuráveis as fadigas

e os ecos dos eclipses. Seguiste o lume

dos cometas, a linha quente do sol.

Todavia, partiste de leve,

rente à sombra.

Mas não te desapercebi.

Continuo no anfiteatro do campo Alegre,

lá ao fundo, à tua espera, para a aula de

Teoria da Literatura, como quem espera

o mar que varresse escombros e sargaços

até à exaustão da falésia.

Como habitualmente, talvez não chegues

às cinco em ponto da tarde, que o teu relógio

é o rasto do sol, o outono das sombras.

Mas nós, os teus alunos, esperar-te-emos algum tempo,

escondidos nesta paisagem sem Natal, lá fora.

vitorino almeida ventura

Ressalvo: os alunos nunca deles se lembrariam, a não ser para lhes exigirem de volta o dinheiro dos impostos. Fosse na América, disseram o Joaquim José Ribeiro, o Emanuel Costa, o Jota. &tc.

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