o Nada que é Tudo
Crente é pouco
Sê-te Deus
E para o Nada que é Tudo
Inventa Caminhos Teus
Passei pelo Carnaval em Monsarraz — onde o grande educador Agostinho da Silva esteve num palacete e fez lá um centro de estudos para os miúdos da escola primária, em 1975.
Além de visitar os arrabaldes, reli a sua poesia e alguns artigos a si dedicados no Jornal de Letras. O Prof. Paulo Borges, presidente da Associação Agostinho da Silva salienta o que pensava ele dos partidos: ‹‹da fragmentação e parcialidade, limitados pela ideologia e apetite do poder, pela incompreensão e ódio ao adversário e pela demagogia, considerava tenderem sempre a sacrificar o bem comum a interesses particulares››.
Agostinho da Silva, como intérprete criativo da história e cultura lusófonas desenvolve uma das dimensões mais apaixonadas do seu pensamento e vida, na linhagem dos grandes poetas e profetas do destino universal de Portugal que foram Luís de Camões, António Vieira e Fernando Pessoa, além de uma ideia metafísico-religiosa e de uma inspiração joaquimita e franciscana do culto do Espírito Santo e dos Descobrimentos, colhida em Jaime Cortesão. Esta parte foi também de muito salientada, no 'pensar ansiães', por José Mesquita, bem como as três Idades: embora lhe possa aditar que na Idade última, a Nova, reside a verdadeira e definitiva revolução, inauguradora ‹‹dos tempos de ser Deus››, desvelamento do universal fundo divino — o nosso —, cumprindo-nos como ‹‹poetas à solta››, crianças livres pela possibilidade de realizar todo o possível e sobretudo o ‹‹impossível›› (Sete Cartas a um Jovem Filósofo).
Sobre isso, outro dia estivera a falar (telefonicamente) com o Hélder de Carvalho — referindo-lhe que Agostinho da Silva nunca se pensou como _ _ doutrinador. Nunca desejou haver seguidores, ‹‹agostinianos››, mas que cada um se encontrasse num sentido de autenticidade, de si para si — a Vida como liberdade enquanto experiência acertada de Verdade, como refere, no JL, Miguel Real. As diversíssimas profissões que teve e a sua travessia de continentes e geografias fazem prova de uma liberdade individual em acto, não no sentido heróico ou épico, de quem experimenta situações-limite para se ultrapassar ou sucumbir, como um alpinista, mas de quem, mais do que teorizando-a, busca descobrir, vivendo-a, _ sua Verdade, que é _ Ideia, no seio da qual apenas pode existir. ‹‹Deus tem diverso modo./Diversos modos sou››, em sua heteronímia de vida.
E a actividade humana, no limiar, divina é sempre o amor... místico.
Finalmente, apesar de ser ausente de Carrazeda há uns tempos, lembrei de uma conversa com João Lopes de Matos, pois para Agostinho da Silva Deus é o inefável, o uno ou absoluto, onde se unificam e superam todos os contrários. É dele que a consciência, a história e a civilização se cindem com a saudade do regresso à paz da não diferenciação do sujeito e objecto. É dessa cisão e do medo assim gerado, diz Paulo Borges, que a religião se origina como busca da religação do que foi separado. Em termos da linguagem trinitária cristã, esse absoluto é o Espírito Santo, inovadoramente pensado como anterior às pessoas da Trindade. Para João Lopes de Matos, lembro bem, o Filho, ou seja, Cristo e o Espírito Santo eram apenas meios ao serviço de Deus. Mas, se Agostinho da Silva parte daí para um pioneiro e ousado ecumenismo, onde religiões, ateísmo e agnosticismo expressam igualmente aspectos parciais da Verdade, João Lopes de Matos também tentou (na nossa conversa) a fusão dos contrários. Como Agostinho da Silva, ‹‹ancorado no Uno busco o vário››, pelo medo que tinha do heterodoxo e do ortodoxo... Que o coibiam de poder conversar com pessoas de vários pensamentos, com a capacidade de as entender em si mesmas, sobretudo quando alguma lhe aparecia com sinal contrário ao seu. Viva Eu! Viva Tu e a diferença! Só nela e
com ela podemos crescer.
vitorino almeida ventura
Post Scriptum: Agostinho da Silva achava que as escolas deviam estar sempre abertas, para que as pessoas pudessem lá ir perguntar o que queriam saber. O acto fundamental era, pois, sua interrogação. A essa que me fizeram alguns amigos por que não escrevia há muito para o blog, se criei expectativas, esclareci e novamente esclareço que por motivos particulares: o facto de estar a leccionar duas acções de formação a docentes, além do habitual, e a rever provas para o meu próximo livro — As Letras como Poesia, o melhor da Pop Rock em Portugal, já agora: a sair brevemente pela novíssima editora de Valter Hugo Mãe (ex-Quasi), intitulada Objecto Cardíaco.
Pelo facto a que sou completamente alheio, não era assim que a televisão pública se desresponsabilizava?, peço as minhas desculpas...
Sem comentários:
Enviar um comentário