27 fevereiro 2006

Escritos dos leitores!

At 24/2/06 5:23 PM, laranja said...
Que ensino nos espera...
Da política de “avestruz” às “reformas à portuguesa”
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Este período, o da década de oitenta do século passado, com seguimento para a década seguinte, caracterizou-se ainda por uma notável dinâmica de construção de infra-estruturas por parte das autarquias locais, mas demasiadas vezes sem qualquer preocupação em avaliar a realidade populacional e o que era já então previsível que viesse a acontecer: perante uma evidente situação de diminuição populacional que as estatísticas demográficas já assinalavam, as sedes de concelho, que registaram maior desenvolvimento, tenderiam a absorver a população das aldeias e estas iniciariam um percurso de despovoamento, por um lado, e envelhecimento populacional, por outro, pondo em causa a sua própria existência a médio prazo.
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Este texto pretende apenas demonstrar que neste contexto de despovoamento nem os Governos, nem as Autarquias foram capazes de olhar com atenção para o que se estava a passar nas escolas primárias, tendo assumido a pior das atitudes: ignoraram pura e simplesmente o assunto, deixando arrastar a situação, mesmo quando todos os indicadores educativos apontavam para a degradação da qualidade educativa e pedagógica que prejudicou várias gerações de alunos, muitos deles obrigados a “estudar” em escolas verdadeiramente vergonhosas, sem o mínimo de condições, muitas vezes colocados na situação de aluno único da sua classe, ou mesmo de aluno único na própria escola.
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Foram, de facto, duas décadas de perfeito obscurantismo educativo, até chegarmos aos dias de hoje, em que é o próprio Ministério da Educação que vem anunciar o encerramento das escolas com menos de 20 alunos, certamente um exagero em muitos casos, sobretudo se atendermos que não foram criadas condições para que a criação de pólos escolares signifique, como se exige, melhoria da qualidade de ensino. Primeiro foi a política da “avestruz”, ou seja, meteu-se a cabeça na areia (entenda-se, ignorou-se o problema ou “tapou-se o sol com a peneira” num ou outro caso) agora temos mais uma “reforma à portuguesa”, pretende-se transformar tudo de um dia para o outro, sem uma avaliação séria da realidade, sem alterar, por exemplo, a velha lógica da rede escolar assente no território municipal, o que só dificulta as possibilidades de concentração escolar, e mais grave ainda, sem definir o tipo de escolas a preparar para os milhares de alunos que vão ser deslocados das suas residências e que necessitarão de transportes adequados, cantinas, salas de aulas com condições, espaços desportivos, equipamentos modernos para a prática pedagógica, apoios ao nível das necessidades educativas especiais, para citar apenas alguns casos e claro está, de professores, decididamente, quanto a nós, não de um professor enciclopédico por turma, mas de uma equipa educativa pluridisciplinar. Mas duvidamos que na generalidade dos casos isto venha a acontecer e no final do próximo ano lectivo não estejamos todos a concluir que afinal todo este processo se resumiu apenas a menos escolas, menos professores e portanto mesmos custos para o Ministério da Educação mas, pelo contrário, mais encargos para as autarquias locais, em transportes, apoios de acção social escolar e equipamentos, para referir apenas alguns aspectos. É aqui que entra a lógica dos pólos escolares e as diferentes realidades de cada município. Não existe uma “receita” única, mas neste processo algo dramático para as populações locais é perfeitamente inadmissível que se utilizem argumentos demagógicos e se produzam afirmações geniais de ignorância e de insensatez.Aliás, num país em que tanto se apregoa o chamado “choque tecnológico”, faz sorrir este agouro de velho do Restelo em relação à mediocridade de um modelo educativo de escola primária que só pode ser sustentado com base em pressupostos corporativos que revelam a continuidade das mentalidades sociais e culturais conservadoras.
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Os pólos escolares são espaços educativos de qualidade ou escolas iguais às que temos, mas com mais alunos?
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Estamos em crer que a maior parte dos pólos escolares que vão ser criados um pouco por todo o país não vão ser muito mais do que as actuais escolas primárias. Terão mais alunos, resta saber até quando, mas não vão garantir mais qualidade educativa. Mas os concelhos têm realidades educativas e geográficas diferentes. Mais ou menos alunos por localidade, mais possibilidade de juntar alunos de várias aldeias noutra aldeia, mais ou menos dificuldades de organizar transportes com qualidade e que não demorem muito tempo no percurso casa-escola Enfim, comparar estas realidades é um exercício verdadeiramente inútil e certamente sem qualquer significado educativo.
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O que nos importa é discutir a melhor solução para o nosso caso, pensando nas perspectivas de futuro e sobretudo no interesse dos alunos do 1º Ciclo, que constituem uma parte significativa do futuro do próprio concelho. E já agora, evitar que em nome de interesses que nada têm a ver com o interesse do concelho e a defesa da qualidade educativa, não acabemos por cair na situação absurda de daqui a alguns anos estarmos a fechar pretensos pólos escolares disseminados pelo concelho, por considerarmos que, afinal, não têm alunos que justifiquem o seu funcionamento, nem garantem a mudança e a inovação no processo educativo deste grau de ensino.
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Só mais duas questões, para terminar esta análise. Antes de avançar com a ideia destes “polos”, não seria importante saber se perante o encerramento da escola na sua localidade de residência os pais dos alunos estão mais interessados que eles estudem na sede do concelho ou noutra aldeia? De facto, é compreensível que as pessoas queiram que a escola da aldeia continue a funcionar, muito embora já toda a gente tenha percebido que isso resulta mais de uma situação emocional do que do reconhecimento da importância que actualmente ela tem no desenvolvimento de cada localidade, funcionando com meia dúzia de alunos e um ou dois professores que param lá o tempo das actividades lectivas. Mas duvidamos que perante essa situação os pais não prefiram que os filhos frequentem a escola na sede do concelho. A transformação das escolas para actividades de turismo, de cultura ou de associativismo pode, por exemplo, ser mais importante para o desenvolvimento das nossas aldeias. É deste tipo de discussão que necessitamos e que todos dela participem com empenho e espírito democrático. Todas as outras podem ser importantes, mas não se centram no fundamental: o desenvolvimento do concelho, que só terá sentido se tiver alguma escala, seja no ensino, na cultura ou na economia.
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laranja

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