09 outubro 2013

Deus e o Diabo: Carlos Fiúza

Etimologicamente a palavra religião deriva:

Segundo uns (Cícero), de relegere, recolher, ajuntar, considerar com cuidado, e opõe-se a negligere, fazer pouco caso, negligenciar - a religião seria, pois, a observância fiel dos ritos;
Segundo outros (Lactâncio, S. Jerónimo, S. Agostinho), de religare, ligar, e teria por fundamento o laço que prende o homem a Deus.

Embora a primeira etimologia pareça mais possível, a segunda é mais simples e indica melhor a razão de ser da religião.
As religiões têm sido, em todos os tempos e em todos os lugares, uma fonte inesgotável de contribuição vocabular e fraseológica.
Das crenças ou dogmas, dos preceitos, do culto, dos ritos e das superstições fluem para a linguagem palavras e expressões em número incalculável.
Lembre-se a grande influência exercida pelo Cristianismo no latim e nas línguas românicas, aspeto este que só por si bastaria para um longo enumerar de ideias e de factos que atingiram palavras, até então desprovidas dos significados religiosos ou com eles relacionados.
Por exemplo, Creator (e, portanto, mais tarde Créateur, Criador, etc.), Salvador (e, ao depois, Sauveur, Salvador, etc.), Tentador, aplicado a Satanás, testamentum, indulgentia, conversio, gloria, peregrinus, etc. são, com muitos outros, termos que devem à Igreja a frequência do seu emprego em latim e, modificados, nas línguas em que estes se transformaram.
Como me cumpre, começarei por Deus. (E aqui me salta logo à mente aquele dito sensato da nossa Língua, segundo o qual se deve ir logo direito a Deus e só depois aos santos).
Ora, está bem de ver que o nome tradutor da divindade se há de mostrar amiúde bem patente na expressão religiosa e na que, não o sendo, dela receba influência.
Lembro ao acaso:
Como chama o povo ao melhor fato, àquele que destina às cerimónias religiosas ou, principalmente, à missa dominical? É o fato de ver a Deus.
De que modo se traduz a maneira imprevista como se há de conduzir aquilo que se entrega incertamente ao acaso? Dizendo - ao Deus dará.
Qualquer que seja a força contrária, se são inalteráveis a resolução, a teima ou o propósito, logo se diz - Nem à mão de Deus-Padre.
Ainda é muito cedo, antes de amanhecer? O povo, autor às vezes de verdadeiras maravilhas de linguagem simbólica, nesse caso não hesita em recorrer à imagem - Ainda a manhã vem na casa de Deus.
A concórdia modelar também encontra excelente imagem - Dão-se tão bem como Deus com os anjos.
Não admira, evidentemente, que as frases nas quais entra a palavra Deus se caracterizem pelo sentimento de veneração, de amor, de agradecimento, de temor, de rogo, de ansiedade pela Sua divina presença, ou de confiança na Sua misericórdia.
Às vezes nós, os que andamos longe das dições do povo, dizemos, referindo-nos a alguém falecido - fulano, que já morreu - Cicrano, que já lá está.
Pois é raro deixar de ouvir-se na fala popular - fulano, que Deus haja. Cicrano, que Deus tem.
Ai Jesus! - Exclamação aflitiva, admirativa, dubitativa, etc. Imaginem a sem cerimónia com que se passou tal desabafo para esta dição - Não trata bem senão aquele filho. É o seu ai-Jesus!
E, depois de falarmos em Deus, passemos agora aos santos.
Não só estes em particular aparecem frequentemente nas mais vernáculas dições. Também o nome comum, isto é, santo ou santos, andava bastas vezes no falar e escrever.
O português Santo António quantas vezes não aparece em exclamações?
Curioso é ver o carinho que se lhe dedica nesta frase: Não sabe o que lhe há de fazer! É um santo-antoninho, onde te porei?!
Nas dições referentes aos santos nota-se muito aquela familiaridade que advém de a gente a eles se apegar frequentemente, quero dizer, do trato espiritual que amiudadas vezes se tem com eles.
É um santo de pau carunchoso.
Expressivo qualificativo da falsa santidade, ou melhor daquilo que se tem por falsa santidade, visto que se trata de qualidade interior, quase somente conhecível de Deus.
Se na linguagem religiosa que se reporta aos santos já se entrevê compreensivelmente maior do que na que se prende com a respeitosa ideia de Deus, se descermos a analisar as expressões em que se alude ao diabo, então o pinturesco toma aspetos imprevisíveis, pelo formidável poder da fantasia popular, apostada em acoimar o espírito do mal de quantas fealdades, trejeitos e desjeitos, irregularidades e coisas deste jaez sejam atribuíveis ao seu poder maligno.
Por exemplo, se tudo corre mal, se há grandes infelicidades, ou desatinos ou coisa que os valha, nós dizemos que anda o diabo à solta. Este à solta tem um poder expressivo muito apreciável, porque dá a perfeita ideia dos destrambelhos que o diabo fará, quando o deixarem andar livremente.
A nossa língua tem uma expressão singularíssima, que julgo sem par noutro idioma e que se pode classificar de audaciosa alegoria pelo cómico do exagero - enquanto o diabo esfrega um olho!
É caso para dizer que tal expressão não lembrava ao diabo!... E cá estamos noutra - não lembrar ao diabo.
Até o diabo se ria - eis outra imaginosa forma de dizer, de inegável valor figurativo.
E quantas mais, como, por exemplo: em casa do diabo, ou até - em casa do diabo mais velho; pobre diabo; é o diabo, etc., etc.
Acontece que, por nada se querer com ele, o nome de diabo ou demónio ocorre também disfarçado ora com alteração desse próprio nome, ora com substituição por qualificativos; isto é, operam-se verdadeiras autonomásias, multiplicáveis pelas alterações fonéticas dialetais.
Assim é que se diz - danho, diacho, damonho, damontres, etc., etc.
E assim é também que se exclama - Cruzes canhoto!
Do predomínio da ideia religiosa sobre a insensibilidade ateia resulta que até os descrentes e os incrédulos recorrem às expressões determinadas pela crença. Não será, pois, difícil dar com uma pessoa sem fé a exclamar: Oh! Aquilo é um céu aberto!
Indignado com alguma patifaria, não há ateu que resista a vociferar - Mas isto brada aos céus!
Se bem que, na maior parte dos casos, se ligue à palavra a própria ideia religiosa que a determinou, não raro acontece que a proveniência religiosa se esqueça e as dições passem a viver por simples mecanismo de repetição.
Até há quem diga - eu cá sou ateu, graças a Deus! - empregando esta expressão no mero sentido de felizmente, e não reparando no valor de grato sentimento para com o Criador.
Deus queira que sim! - quantas vezes este voto não sai da boca de quem não reconhece a Deus?
Mas, o protótipo do esquecimento do significado religioso está, a meu ver, nesta dição portuguesíssima, em que se aplica à palavra Deus (aliás já desvanecida na interjeição que a contém) o grau diminutivo: adeusinho!

É assim a vida da linguagem, toda ela feita de lembranças, esquecimentos, distrações incuráveis, que afinal a tornam atraente, quando não vêm taciturnas exigências gramaticais meter as coisas na ordem.
A terminar só acrescento que se nota em várias línguas uma coincidência compreensível de ditados e de provérbios, que documentam bem o poder de convicção incomparável da verdade religiosa.
O português diz que o homem põe e Deus dispõe.
O mesmo dizem os franceses, ingleses e outros povos, quando afirmam - L’homme propose et Dieu dispose; Man proposes and God disposes, etc.

Carlos Fiúza

5 comentários:

Anónimo disse...

Como não sei discutir com a sua profundidade os temas que para si são tão fáceis, vou tentar brincar um bocadinho com um célebre poema de José Régio:

"Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo".
JLM

Carlos disse...


Bem respondido, JLM.

Quantos de nós não nascemos do "amor que há entre Deus e o Diabo"?!

CF

Fernando Gouveia disse...

Credo! - diria a minha vizinha de 80 anos, benzendo-se várias vezes - cruzes canhoto! - para afugentar o mafarrico!

Mas também diria "credo!" se lhe viessem contar a última desgraça do vizinho a quem os lobos comeram dois cordeiros.

Mau caro Carlos Fiúza: ontem lembrei-me deste seu artigo, que lera umas horas antes, ao passar numa estrada e ver num cartaz um "credo!" de protesto penso que pela concentração de serviços de urgência hospitalares. E pensei: cá está mais uma! Uma expressão popularíssima, uma interjeição cheia de significado, derivada da primeira pessoa do singular do presente do verbo latino "credere". Ora, a flexão verbal, que se tornou a afirmação ritual da fé católica, veio a dar também o subatantivo credo(s) (os vários credos existentes num país, por exemplo). A interjeição, por seu lado, que terá nascido como afirmação de fé perante a ameaça do mal, acompanhada ou não do sinal da cruz, ganhou novo significado, passando a usar-se como manifestação de surpresa, espanto ou até forma de refutação:

Ex: Fulano enforcou-se. -Credo!
Vais à festa saloia? credo! (como quem diz: eu? Era o que faltava!)

Tudo isto para lhe dizer a minha admiração pelo seu belíssimo artigo e pela busca cuidadosa que tem feito de preciosidades da língua portuguesa.

Carlos disse...


Meu Caro Fernando Gouveia

Obrigado pelo seu comentário.
Na verdade, a nossa língua é rica e só é pena que haja quem a não enriqueça indo "estrangeirismoa", a maior parte das vezes desnecessários.
O "credo", que refere, é, na verdade, uma das expressões mais arraigadas no nosso povo (quem "faz" a língua, como se sabe).
De norte a sul, esta expressão "credo", ouve-se a par e passo.
Preciosidade?
Será!
Mas que é vernácula, é!

Abraço.
CF

mario carvalho disse...

Cruzei-me há pouco com um colega na rua e parámos a comentar os
recentes acontecimentos. Dizia-me ele que já não acreditava em
qualquer solução democrática. Perante essa desilusão , perguntei-lhe
porquê e a resposta deixou-me a meditar:

-Porque a primeira consulta democrática de que há memória foi a de
Pôncio Pilatos ao povo: "quem quereis que vos solte, Cristo ou
Barrabás?" E o povo escolheu o ladrão...