27 julho 2013

Equação impossível? - Carlos Fiúza



Portugal pode estar perante uma equação impossível.
Por um lado, não somos um país desenvolvido mas já temos certos “hábitos” dos países desenvolvidos.
Por outro lado, somos um país relativamente atrasado mas não oferecemos (já) as “vantagens” dos países atrasados.
Comecemos pelo investimento estrangeiro.
O que pode levar um investidor estrangeiro a aplicar o seu dinheiro em Portugal?
A localização?
Em princípio não, porque temos uma localização muito periférica em relação à Europa (só tendo vantagens no que respeita ao transporte por mar).
A qualificação dos trabalhadores?
Também não, porque a qualificação dos nossos trabalhadores é muito insuficiente, quer em relação aos países desenvolvidos, quer em relação aos países de leste recentemente integrados na União Europeia.
Os salários?
Também não, porque os nossos salários, ainda que baixos em relação à Europa, são muito elevados em relação aos Países de Leste.
As condições de trabalho?
Também não, porque as leis laborais são muito “rígidas” (dizem), inviabilizando os despedimentos e impossibilitando as empresas de se adaptarem, a cada momento, às flutuações do mercado.
As facilidades?
Também não, porque muitos países oferecem hoje os incentivos que Portugal está em condições de dar e, em contrapartida, temos uma burocracia complexa (veja-se a fiscalidade e os tribunais) que desmoraliza os investidores.
Passemos, agora, do investimento vindo do estrangeiro à situação “real” de Portugal.
A agricultura bateu no fundo, como é público.
As pescas, idem.
Vive-se na subsidiodependência.
A indústria tradicional - as pescas, as conservas, os vidros, os minérios - em grande parte faliu.
As empresas da nova economia e de serviços aparecem e desaparecem - são muito voláteis e não constituem um tecido económico minimamente consistente.
Restam dois ou três setores - a cortiça, os moldes, a pasta de papel - que alimentam as nossas exportações (mas onde temos a desvantagem de não haver uma única “marca” com nome feito no estrangeiro - e as “marcas” são, hoje, as grandes mais valias dos produtos).
Para se ver a situação extremamente frágil das nossas exportações basta dizer que a Autoeuropa alimenta quase 15% do total daquilo que exportamos!
Finalmente, as empresas portuguesas não têm dimensão para competir no mercado internacional e são facilmente trucidadas.
Mas, enquanto isso não acontece, enquanto a situação é trágica em relação ao investimento e à produção, no que respeita ao consumo já temos alguns “hábitos” de países ricos.
Os jovens, os velhos, as populações rurais, mesmo certas camadas urbanas, viram os seus níveis de consumo crescer brutalmente nos últimos 30 anos.
Em consequência disso, as importações dispararam e (como não foram compensadas pelas exportações) a balança comercial tem vindo a desequilibrar-se.
Nos últimos 10 anos o saldo negativo da “balança” duplicou.
O país endivida-se cada vez mais (a dívida já vai em 127% do PIB), apesar das medidas brutais de austeridade que nos são impostas.
Resta-nos o turismo.
Mas, sendo o nosso território pequeno, para termos sucesso, teríamos que “apostar” num turismo mais “seletivo” em lugar do turismo de “massas”.
Só que os nossos empresários não estão preparados para isso (a qualificação profissional também não ajuda) e, assim, temos de nos contentar com um turismo de “classe média-baixa” (que não é muito lucrativo).

Pouco ou nada atrativo para o investimento estrangeiro; sem estruturas produtivas para produzir riqueza cá dentro; sem empresas com dimensão para competir nos mercados internacionais; com níveis de consumo já relativamente próximo dos países ricos, Portugal está numa situação muito difícil.
A acrescer tudo isto, um dos expedientes que tínhamos - a desvalorização da moeda que, de um dia para o outro, tornava os nossos produtos mais baratos lá fora e, portanto, mais competitivos - foi inviabilizado com a entrada no euro.
Uma crise gravíssima (do género da Grécia) não está fora do campo das hipóteses.
Um país não pode, eternamente, consumir muito e produzir muito pouco.
Abrem falência, por dia, dezenas de empresas; são colocados, por dia, no desemprego centenas de trabalhadores…

Será Portugal uma equação impossível?


Carlos Fiúza

11 comentários:

Anónimo disse...

Tão pessimista,CF! Que a situação não é de fácil solução parece evidente.As coisas podem mesmo descambar de tal modo para o negativo que já nem um perdão de dívida poderá chegar para resolver o problema. A austeridade não resolve ,mas quem deve tomar as medidas para inverter o deslizamento?Ou devia ter tomado? Se calhar,vai-se já um tanto tarde porque os danos são dia a dia maiores e irreversíveis.
Bom,eu continuo convicto de que apenas a UE nos pode salvar(ou nos podia ter salvado). Que importam as boas intenções da oposição se o Centro(Bruxelas) não estiver pelos ajustes? A não ser que,como defendia o governo(agora parece já não defender), o país tiver uma força enorme para,no fim,renascer das cinzas.
JLM

Anónimo disse...

Com a força que tem demonstrado para contrariar esta pulhice de governo, nao acredito que tenha força para renascer de lado nenhum, principalmente das cinzas ditas pelo Dr. JLM!

josé alegre mesquita disse...

O Carlos Fiúza elabora um notável exercício de reflexão para chegar à conclusão da inviabilidade do país. Com o devido respeito dir-lhe-ei que este é um problema que nos atormenta desde o nascimento na batalha de São Mamede, para alguns, do tratado de Zamora, para outros, da conquista definitiva do Algarve, para uns tantos. A nossa pequenez e relativo desconforto no contexto da Península Ibérica perante o apetite hegemónico, primeiro de Castela, depois de Espanha e por último de França não augurava um sucesso tão duradouro como nação soberana. Porém diversos fatores que a História assinala permitiram mais de oito séculos e meio de independência nacional, descontados os sessenta de domínio espanhol. Se a bravura, inteligência guerreira e especificidades várias permitiram a fundação da nacionalidade; se na crise de 1383/1385, o sentimento nacionalista e patriótico adicionado à genialidade guerreira de Nuno Álvares Pereira assegurou a manutenção da independência, foi, como refere Herculano, “a rivalidade das grandes nações europeias que nos tem salvado” e a colaboração interesseira de Inglaterra, que, em diversas ocasiões, nos fez o peão dos seus interesses, face às rivalidades com espanhóis e franceses. Eis talvez a razão objetiva da nossa manutenção como povo soberano.

Mas… o que mais valoriza o seu escrito são as questões que coloca e as respostas óbvias, mormente o paradoxo das políticas para a dita “salvação nacional”: sempre o mar, a qualificação, a irracionalidade dos baixos salários, a fiscalidade, a desburocratização, a subsidiodependência e os ruinosos negócios de com o estado…

josé alegre mesquita disse...

Relativamente à sua questão dou-lhe aqui uma resposta por interposta pessoa: Nicolau Santos e o seu escrito "Portugal valeu a pena"
"Eu conheço um país que tem uma das mais baixas taxas de mortalidade de recém-nascidos do mundo, melhor que a média da União Europeia.

Eu conheço um país onde tem sede uma empresa que é líder mundial de tecnologia de transformadores.

Mas onde outra é líder mundial na produção de feltros para chapéus. Eu conheço um país que tem uma empresa que inventa jogos para telemóveis e os vende para mais de meia centena de mercados.

E que tem também outra empresa que concebeu um sistema através do qual você pode escolher, pelo seu telemóvel, a sala de cinema onde quer ir, o filme que quer ver e a cadeira onde se quer sentar.

Eu conheço um país que inventou um sistema biométrico de pagamentos nas bombas de gasolina e uma bilha de gás muito leve que já ganhou vários prémios internacionais.

E que tem um dos melhores sistemas de Multibanco a nível mundial, onde se fazem operações que não é possível fazer na Alemanha, Inglaterra ou Estados Unidos. Que fez mesmo uma revolução no sistema financeiro e tem as melhores agências bancárias da Europa (três bancos nos cinco primeiros).

Eu conheço um país que está avançadíssimo na investigação da produção de energia através das ondas do mar. E que tem uma empresa que analisa o ADN de plantas e animais e envia os resultados para os clientes de toda a Europa por via informática.

Eu conheço um país que tem um conjunto de empresas que desenvolveram sistemas de gestão inovadores de clientes e de stocks, dirigidos a pequenas e médias empresas.

Eu conheço um país que conta com várias empresas a trabalhar para a NASA ou para outros clientes internacionais com o mesmo grau de exigência. Ou que desenvolveu um sistema muito cómodo de passar nas portagens das auto-estradas. Ou que vai lançar um medicamento anti-epiléptico no mercado mundial. Ou que é líder mundial na produção de rolhas de cortiça. Ou que produz um vinho que "bateu" em duas provas vários dos melhores vinhos espanhóis.

E que conta já com um núcleo de várias empresas a trabalhar para a Agência Espacial Europeia. Ou que inventou e desenvolveu o melhor sistema mundial de pagamentos de cartões pré-pagos para telemóveis. E que está a construir ou já construiu um conjunto de projectos hoteleiros de excelente qualidade um pouco por todo o mundo.

O leitor, possivelmente, não reconhece neste País aquele em que vive - Portugal."

(... http://iscad-siap2009.blogspot.pt/2009/10/artigo-portugal-vale-pena-de-nicolau_2433.html"

Anónimo disse...

Caro JAM: Por isso é que os contrários são ambos necessários:neste caso,o optimismo e o pessimismo.E na síntese dos dois é que está a solução. É preciso ser pessimista porque embandeirar facilmente em arco nunca levou a lado nenhum.É preciso ser optimista porque apenas com a negatividade não dá para avançar. É preciso avançar com o pessimismo e o optimismo a vigiarem-se reciprocamente.
JLM

josé alegre mesquita disse...

Tem razão, caro amigo. Concluo então: é preciso realista.

Anónimo disse...

Portugal, ao longo da sua longa e atribulada história, nunca teve equações impossíveis. Houve sempre uma fórmula, mágica ou não, que nos abriu sempre novos caminhos, novas rotas, geração a geração, até à nossa identidade nacional de hoje. Poderemos demorar um pouco mais numa curva mais difícil ou a atravessar um túnel demasiado comprido e escuro, mas havemos, como sempre, de encontrar novos caminhos, pois estes, como alguém diz, são feitos de mudança (e de perseverança)... assim se mude "o ser e a confiança" !!!

HR

Carlos disse...


Meu Caro HR

Palavras esperançosas as suas (e acredito que sinceras).
Estou perfeitamente de acordo com a sua linha de raciocínio e compreendo perfeitamente o seu ponto de vista.
No entanto,
Duas ou três considerações se me oferecem:
“Portugal nunca teve equações impossíveis. Poderemos demorar um pouco mais numa curva mais difícil ou a atravessar um túnel demasiado comprido e escuro…”
É um facto… mas um País é feito de PESSOAS!
Como pode qualquer avô, hoje, dizer para o seu neto de três anos:
- "o País sobreviverá, no entanto, enquanto isso não acontece,
- “NÃO terás emprego, nem futuro até mais duas gerações após a tua!”
- “Os que te entecederam deixaram-te dívidas que, na melhor das hipóteses, estarão pagas daqui a 41 anos… até lá, paciência.”

E isto não é especulação… é um facto.

- “O Mundo está em transformação: a tua “saúde” será mais precária; a tua esperança de vida aumentará; os empregos diminuirão; os teus filhos (e muito possivelmente os teus netos) ficarão a teu cargo!”

Uma das maiores economias do Mundo (dizem), os Estados Unidos da América, está em falência técnica - já há estados em pré-falência (a Califórnia é um paradigma) … cidades há que, para se resguardarem dos credores, já declararam a banca rota: Detroit é o caso mais recente… a própria Nova Iorque esteve por um fio!

Numa sociedade em que as “pessoas” pouco valem, tudo é possível.

“A “esperança” é a última a morrer (ouve-se, por aí) … entretanto tu, meu neto, tem paciência… Portugal sobreviverá!”

Não tenho dúvidas: Portugal sobreviverá.
A que custo, não sei!

Um amigo meu continua a afirmar que o nosso “deficit” não é económico, é agrícola:

- “Temos nabos a mais e tomates a menos!”

Será?

CF

Anónimo disse...

Caro CF: Decididamente deu-lhe para ser derrotista.Claro que Portugal já existe há 1000 anos e não vai desaparecer assim dum momento para o outro.O espaço geográfico não vira água com facilidade: teria que haver um cataclismo sideral,o que não é muito provável,convenhamos,pelo menos nos próximos tempos.E quanto a viverem mal os seus habitantes não é coisa nova pois sempre viveram miseravelmente desde que Portugal é Portugal e eu sei lá quando isto começou a ser um país.
Garantida a sobrevivência da pátria,a vida de cada um de nós o que é que interessa?
Devemos estar preparados para o sacrifício máximo em defesa da nação.E os portugueses sempre mostraram serem capazes de todos os sacrifícios para que este jardim à beira mar plantado continue a florir em todas as primaveras.E a morrer pela pátria,que mais faz morrer com uma espada no peito ou por falta de alimentos.É uma morte gloriosa igualmente. Tem razão,pois,H.R..
JLM

Manuel Barreiras Pinto disse...

Caro CF na verdade esta situação é catastrófica,sim.Naquele tempo em que o escudo, podia flutuar e resolver o problema da dívida interna, isso já foi.Agora que estamos na UE, devem ser os países solidários uns com os outros e resolver os nossos problemas.Infelizmente não temos politicos á altura de resolver os nossos problemas. Penso nos jovens e fico triste.



Manuel Barreiras Pinto disse...

Caro CF na verdade esta situação é catastrófica,sim.Naquele tempo em que o escudo, podia flutuar e resolver o problema da dívida interna, isso já foi.Agora que estamos na UE, devem ser os países solidários uns com os outros e resolver os nossos problemas.Infelizmente não temos politicos á altura de resolver os nossos problemas. Penso nos jovens e fico triste.