09 janeiro 2013

Preciosismos: Carlos Fiúza




Aconselhar a emenda de erros ou de maus costumes da expressão falada e escrita é das mais ingratas tarefas.
Quase sempre ficam incompreendidos os intuitos do emendador, tornado, uma vez ou outra, alvo de antipatia, senão até de ironias.
Mas, se não se apontam os erros deseducadores, só por mero receio de impopularidade, cai-se noutro erro - o da incompreensão do dever de aconselhar os que erram, entre os quais se encontram pessoas de boa vontade.
É a estas que dedico, amigamente, os meus reparos.
Venho aqui ocupar-me de alguns preciosismos.

1.º apontamento: “desejo-lhe um resto de noite muito feliz”.
Pertence à linguagem da Rádio e da Televisão este preciosismo, que já se está a introduzir imitativamente em alguns ambientes.
As saudações na Rádio e nas Televisões deviam fazer-se com naturalidade, o que, infelizmente, nem sempre se verifica nos nossos microfones.
Exemplo típico de tal falta de naturalidade é este: “desejo-lhe um resto de noite muito feliz. Boa noite, muito boa noite”.
Nunca se ouviu no Planeta a referência aos “restos de noite”. A qualquer hora da noite, a despedida era boa(s) noite(s), noite feliz, etc.
Agora a Rádio e a Televisão criaram o “resto da noite”.
Era melhor acrescentarem - “contente-se com o resto! E está com sorte. É o que há. Aproveite”.
Indago: Porque é que se diz um “resto de noite”? Ninguém, ao falar naturalmente, diz “resto de noite”, “resto de tarde”, “resto de dia”. Quando nos encontramos ou quando nos afastamos, seja ao princípio do dia, da tarde ou da noite, o que dizemos é - bons dias ou bom dia; boa(s) tarde(s); boa(s) noite(s).
Jamais se fala em restos
Pense-se no preciosismo desse resto, e ver-se-á que tal fórmula deve ser deitada às urtigas.
Eu não ouço nas estações de outros países coisas dessas, de verdadeiro jeito forçado. Porque será?
Sempre me delicio com a naturalidade dos “announcers” ingleses:
“Goodbye. Till tomorrow”.
Se na nossa Rádio se dissesse - “Adeus, até amanhã”… era o bom e o bonito!

2.º apontamento: “os nossos melhores agradecimentos”.
A afetação cerimoniosa fez nascer esta fórmula, “os nossos melhores agradecimentos”, tornada em estribilho melífluo, muito do gosto do conselheiro Acácio.
Evidentemente, o agradecimento pode ser bem ou mal sentido, bem ou mal feito, e é humanamente compreensível  a atribuição de graus qualificativos a tal sentimento.
Mas o que aqui se requer é que se acabe com o chavão, com a frase feita.
Sim, um jeito muito acacial é este assim: “Os nossos melhores agradecimentos”.
Acácio não diz - Obrigado, muito obrigado; agradecido, muito agradecido; sinceros agradecimentos; bem haja(m); etc.
A índole da nossa língua na graduação qualificativa e quantitativa de agradecimentos dispõe, assim, de variados recursos dispensadores do acacianismo referido. Esses recursos, porém, não servem, por que são português velho e relho.
Além dos acima referidos, temos - muitíssimo obrigado; profundamente agradecido, muitos agradecimentos.

3.º apontamento: o preciosismo de se proferir ministro com um i, na primeira sílaba, muito agudo, irritantemente agudo.
Já uma vez falei das pessoas que vão contra o uso geral do falar, e têm sumo gosto em singularidades de pronúncia.
Repare-se, porém, nisto: a vulgar dissimilação do i em ministro, vizinho e semelhantes vocábulos é fenómeno mais velho do que os quase nove séculos de Portugal. E quem percorrer as páginas de autores antigos encontra grafado - “vezinho”, etc.
Não quer isto dizer que os que pertençam a regiões onde fique natural a manutenção dos ii sejam obrigados à dissimilação. Apenas o que se torna especioso é, sob color de sonoridade, cair-se no mau gosto de ajanotar a fala.
Se esta dissimilação da vogal átona, por efeito da força da tónica, se opera naturalmente há séculos, na sequência dos ii, para que se há de cair no preciosismo de forçar a pronúncia de ministro, vizinho, etc., em vez de se proferir - menistro, vezinho, etc.?

4.º apontamento: Está-me a ocorrer um outro preciosismo deveras cómico.
E está-me a ocorrer, porque se ouvem constantemente uns sujeitos bem falantes a repetirem a palavra coragem, mas proferida assim - córágem
Eu não sei se eles dizem - córação, córdial, récôrdação, acórdar, mas lá que dizem a - córagem, isso dizem!
Abro o livro “Problemas da Língua e do Estilo” (Vasco Botelho de Amaral) e leio:
“Há quem profira “córagem” em vez de “curagem”. Ora, essa pronúncia só convém ao ato de “corar”.”                                                
“A forma coragem, no sentido de ânimo, deve ler-se “curagem”. Julgam alguns inocentes que, vindo a palavra de “cor”, “cordis” (por meio de “coraticu-“, o “o” de “cor” aconselha a abertura do “o” de coragem. Engano. Vejam coração (víscera), que todos lemos diferentemente de còração (ato de còrar)”.
Aliás, não temos nós a palavra recuar? Queiram aqueles que dizem, eufemisticamente, “córagem” fazer o obséquio de decomporem a palavra recuar nos seus elementos… (re + … + ar).

5.º apontamento: já agora a respeito da pronúncia.
Há pessoas que exageram a valorização sónica, pondo-se a procurar uma pronúncia especial, difícil, arrevesada.
Dizem, por exemplo, contra a tendência geral, “o interésse”.
Qual é a prosódia devida?
Seria bom que se guardasse o “interésse” apenas para a forma verbal - que lhe interésse, etc.

O 6.º apontamento pode ser este a respeito de “obcéquio”.
“O senhor faz o “obcéquio”?
A pronúncia natural, há séculos, é “obséquio”.
Gosto sempre de provar ou documentar aquilo que afirmo. Portanto, ao afirmar que há séculos a pronúncia natural é “obzéquio”, e não “obcéquio”, remeto para o livro n.º 1 de Estudos Críticos de Língua Portuguesa, onde se afirma que em documento de 1742 já aparecia a forma “obzéquio”, escrita com z. Isto prova que a pronúncia de s sonoro não é recente. Tem, pelo menos, dois séculos e muito…

7.º apontamento: Para que se não julgue que só na prosódia há preciosismos, citarei agora esta mania relativamente moderna de se dizer “molde”, em vez de “maneira, modo, forma, jeito, arte, sorte, etc.”.
Antigamente dizia-se - de maneira que, de modo que, de forma que, de jeito que, de arte que, de sorte que. Hoje, sem razão nenhuma (a não ser razão de preciosismo), por tudo e por nada, recorre-se a este meneio arrevesado - “de molde a…”.
Há tempos pus-me a escutar uma agradável palestra. Estava encantado com a maneira naturalíssima de quem falava.
Às duas por três, o estilo natural caiu em acacianismo. “De molde a…”
Qual “de molde a”, nem qual carapuça!
De modo que, de maneira que, de forma que, de molde para (se se quiser o molde próprio do conselheiro Acácio) é que é sintaxe portuguesa.
De molde a, de maneira a, de modo a, de forma a - isso é estilo ridículo ou de novo rico semianalfabeto.

8.º apontamento: o preciosismo do “perdão”.
Repete-se até à náusea… o perdão. Mas a forma portuguesa - “peço desculpa” tem a seu favor a naturalidade, o comedimento.
Não significa isto um conselho para deixar de usar-se o “perdão”, “forma de civilidade para pedir desculpa”, como já dizia o Dicionário de Aulete. Apenas se roga que o pedido de “perdão”, com toda a grandeza ou até a sublimidade do arrependimento, não venha a cair em fórmula de artificiosa delicadeza.
Porque o que se presenceia por vezes é esta cena: um sujeito dá um encontrão noutro, pede-lhe secamente “perdão!”, e segue seu caminha, não ligando ao protesto indignado da vítima.
Parece mais humana, mais social aquela comedida fala do povo rude:
“- Ah! Desculpe, mas foi sem querer”.
“- Não faz mal. Vá com Deus!”.

É assim que o Povo faz e mantem a Língua.


Carlos Fiúza

4 comentários:

Anónimo disse...

O Dr. Carlos Fiúza há muito que nos habituou (felizmente) a prodigiosas análises gramaticais, sobretudo, no que concerne à Linguagem nas suas distintas vertentes:ortográfica, morfológica, sintagmática, fonológica, semântica, etc.
São autênticas lições de mestre, que todos recebemos com muito agrado e que enriquecem sobremaneira este nosso espaço do "pensar ansiães"!
Acabo de ler os oito apontamentos com que CF nos presenteia e, concordando, naturalmente, com todos eles, logo me apeteceu deixar aqui a minha opinião (humorística?) sobre dois ou três desses apontamentos (neste momento não tenho tempo para mais...).
Por exemplo, em relação ao 1º apontamento "desejo-lhe um resto de noite...", parece-me que o locutor se refere mais à programação do que à preocupação de o ouvinte passar (ou não) bem a noite. Assim, em vez de desejar um "resto de noite feliz", ele pretenderia dizer "um resto de programação...". (são bem conhecidas as "guerrinhas" das audiências...);
2º apontamento: aqui parece-me haver influência da tradicional correspondência comercial francesa, isto é, do "avec reconnaissance"; "nos remerciements" ou, em suma, do "agréer les sincères remerciements de quelqu'un...";
4º apontamento: esta engraçada "córágem" remete-me, de imediato, para o conhecido regionalismo madeirense, com aquela "mania" de abrirem demasiado as vogais "a" e "o", como o provam alguns dos célebres discursos do Alberto João Jardim, like this: "... é precisa muita córágem para enfrentar os "cubános" do contenante...";
7º apontamento: essa do "de molde a...", só por mera ignorãncia ou até jactância!... ;
8º apontamento: tal como no segundo, parece-me haver aí o galicismo do "pardon!...".
Um abraço.
HR

Fernando Gouveia disse...

Mais um oportuno e justíssimo comentário do CF. Quem sabe sabe!
Poderia continuar por muitas páginas. Preciosidades como as que citou são moeda corrente na comunicação que se vai fazendo neste país.
Lembro-me de mais uma que me irrita particularmente: a utilização do verbo existir.
Deixou de haver o verbo haver. Agora tudo existe, pois já não há nada.

Carlos disse...


Meu Caro HR

Estou muito feliz pelo seu regresso.
Dada a sua ausência, já tinha perguntado ao nosso comum amigo JLM se ele sabia o que se passava.
Foi com tristeza que ele me disse que o meu Amigo estava (ou esteve) doente.
Feliz, pois, por o termos de novo entre nós (sobretudo os que pugnam pela nossa Língua).

Obrigado pelo seu comentário.
Um abraço amigo,

Carlos Fiúza

Carlos disse...


Meu Caros

Fernando Gouveia
Tem o meu Amigo razão em se irritar com a utilização do verbo existir por haver. Sabe que a mim também me irrita?
Saberá, quem utiliza o verbo existir por haver qual a diferença?
Haver pode empregar-se como auxiliar e com o significado de ter. Neste caso conjuga-se em todas as pessoas.
Todavia, como verbo principal, a significar existir, é impessoal, quer dizer, só se usa corretamente na terceira pessoa do singular, ainda que o nome seguinte esteja no plural.
Ainda que Camilo haja empregado o verbo erroneamente (“haviam lágrimas”, etc.) não se deve seguir semelhante prática.
Vai-se olvidando hoje, com prejuízo para a variedade estilística, a prática de usar o verbo haver em lugar de ter, quer como auxiliar quer como principal.
Se a verdade manda dizer que bem grandes estilistas caem por vezes em censuráveis repetições, mentira não é que se nota nas obras dos verdadeiros Mestres o cuidado de as impedir.
Notem-se estes passos:
“… a fortificação, em que se trabalhava havia dias… “ (Frei Luís de Sousa, Vida de D. Frei Bartolomeu dos Mártires).
“… havia mais de trinta anos desde que seu cunhado, que estudava para padre, morrera ético” (Camilo, A Brasileira de Prazins).
Em tais exemplos, a expressão de circunstância temporal está com o verbo haver no pretérito, em correspondência com o tempo usado no verbo principal.
Modernamente, contra a índole da língua dos melhores escritores e do povo, com frequência se perde de vista o paralelismo das formas verbais, e redige-se: “há dias que se trabalhava”.
Que fazer, Caro FG?
“É a vida…”, como diria o nosso ex-PM Guterres!...

Hélder Rodrigues
Tenho o maior respeito pelas suas opiniões (pois de um entendido da matéria se trata).
Se bem que até possa ter alguma lógica, o seu raciocínio é bem humorado… mas não me convence!
Córágem, pois… enfrente os “cubános do contenante”.

Abraço para ambos
CF