17 outubro 2012

A literatura: João Lopes de Matos

Ultimamente, tem-me assaltado um pensamento esquisito, avesso à literatura. E não só à literatura mas também ao cinema e a todo o tipo de arte que necessita de fantasiar para defender ou, simplesmente, expor um determinado ponto de vista.

O meu cérebro (sim, ele,… e eu, se ele for eu e eu for ele, mas eu não sou apenas o meu cérebro mas também as restantes partes do meu corpo … pelo menos) incomoda-se, farta-se, de ter que ler páginas e páginas para entender a mensagem que o autor quis transmitir.

E como tudo é dito por imagens, metáforas, enredos, estados de alma, corre-se o risco de chegar ao fim sem entender o sentido ou dando-lhe um diferente do inserto na cabeça do escritor. E seria tão simples: bastava que o autor dissesse claramente o que pretendia dizer. Mas a arte reside, ao que parece, na explanação, através de personagens e circunstâncias, daquilo que momento a momento vai surgindo na mente do artista.


A sua imaginação toma o freio nos dentes e ninguém mais a para. Até determinada idade, o leitor comove-se, ri, chora e, em suma, encanta-se com o que vai lendo e até se esquece de buscar qualquer mensagem no texto lido. Depois, embotada com o tempo a sensibilidade, cansa-se e pergunta logo: mas, afinal, onde é que este indivíduo quer chegar?


E, passando por alto pelo texto, como cão por vinha vindimada, vai tentar encontrar rápido uma súmula de todo o arrazoado. Será que esta atitude é natural em quem já não tem o tempo todo da vida? Justificar-se-á também noutro casos como, por exemplo, para
aquilatar se vale ou não a pena ler o livro que tem nas mãos?


João Lopes de Matos

11 comentários:

Carlos disse...


Meu Caro JLM

Claro que vale a pena ler o livro que tem na mão;
Claro que vale a pena deixar fluir a sensibilidade;
Claro que vale a pena questionar-se.

Dada a falta de espaço, melhor dado o tema,
estou a trabalhar a minha "Carta a Garcia.

CF

josé alegre mesquita disse...

Meu caro JLM: os seus textos estão cada vez mais deliciosos de ler. Aliam à clareza e simplicidade da forma (sempre mais difícil que a complexa), uma honestidade de pensamento e uma ternura ideológica que contagia.

Ah, a literatura! Diz o meu amigo: “o meu cérebro (…) incomoda-se, farta-se, de ter que ler páginas e páginas para entender a mensagem que o autor quis transmitir.” Eu creio estar aí o pecado principal da literatura, isto é a quantidade de sentidos que o texto literário transporta, um por cada leitor. Não será esta a sua grandeza? Se quisesse ser irónico (mas não me atrevo por respeito e temor), poderia aconselhar uma literatura mais soft e em que as palavras têm apenas um sentido. Ela abunda no mercado e estes exemplares são até lideres de mercado,

Depois o meu amigo sugere que a idade é limitativa para o texto literário nos emocionar. Eu creio bem que não. Certo é que muitos livros que li na infância e me agitaram, agora talvez não me causassem a mínima sensibilidade. O livro também tem contextos e é datado. Porém, por deveres do ofício leio alguns livros que encantam as crianças pelas aventuras e pelo encantamento que transportam, a mim deliciam-me pelos jogos de palavras, pela clarividência das imagens… por estarem bem escritos…

O Pacheco Pereira defende uma leitura apenas dos clássicos, pois eles são tantos, tão bons e de leitura obrigatória, não restando mais nada no curto período de vida que dispomos. Eu não concordo. Há alguns bons autores que ainda não são clássicos e valem a pena e outros que o serão e não passam de uma “xaropada”. Exemplo: nestas férias dois livros que muito me emocionaram foram: o “Retornar” da Dulce Cardoso e “As estrelas sem brilho” de José Leon Machado. Dois bons exemplos, creio, de boa literatura.
Então concluo que há boa e má literatura. E, para a boa, tudo vale a pena se alma não é pequena.

josé alegre mesquita disse...

E a sua alma não é de certeza pequena...

Unknown disse...

Excedeu-se mais uma vez,JAM.
É certo que uma minha preocupação é a clareza.Também é certo que,mesmo quando pretendo fazer humor,não ponho de lado a honestidade de pensamento.Concordo ainda com essa da "ternura"(ideológica?).
Mas isso que JAM julga ter algum mérito(meu) não o tem.
Já lho disse,julgo eu:o que eu sou não o devo ao meu esforço mas às características biológicas que me transmitiram os meus pais e às circunstâncias sociais que encontrei na vida.
Além disso, que se perde em ser verdadeiro?
JLM

Unknown disse...

É verdade:a literatura.
Sejamos mais uma vez francos: não lhe foi penoso ler alguns trechos de Eça de Queirós,da "Relíquia",de"Os Maias"?
Quando o enredo é excessivo, não se farta dos rodriguinhos?
E não sente que, por vezes, a literatura se preocupa com a aparência das coisas, não indo ao fulcro das questões?
Só para terminar:Alguma coisa terá sentido na vida? Qual? Ganhar o céu? e se não houver céu? Morrer e nunca ter existido?
JLM
PS: Ao CF não faço a pergunta sobre Eça,porque sei que ele não se cansou de nada.
Havendo céu,o que iremos para lá fazer?

Carlos disse...


Obrigado, meu Caro JLM.
Na verdade não cansei de ler o Eca e ttantos outros.
Quando os cultores da Língua são bons... é até um prazer.

CF

Fernando Gouveia disse...

Compreendo essa espécie de cansaço (será isso) do JLM, mas penso, como os outros brilhantes comentadores, que a Literatura vale a pena. Os vários sentidos possíveis de um texto, ou do subtexto, são o ingrediente essencial da arte literária. E mesmo que os caminhos, por vezes enviesados, da narrativa nos compliquem o entendimento linear da história, vale a pena ter de repetir a leitura de algumas páginas para descobrir um novo sentido, sentido que até pode ser a nossa própria descoberta, uma vez que um texto só se completa com a leitura e o leitor.

Boas leituras, LJM.

Carlos disse...


À ATENÇÃO DO MEU AMIGO JLM

Portugal sobe para 8º lugar no "clube" da bancarrota (subiu 1%).

O prémio de risco - diferencial entre o custo da dívida portuguesa e da alemã no prazo a dez anos - agravou-se hoje, tendo fechado em 6,2 pontos percentuais. Ontem fechara abaixo de 6 pontos percentuais. Regressou ao nível de 18 de outubro, dia do início da cimeira europeia em Bruxelas.

Também no mercado dos "credit default swaps" (cds), o preço destes seguros contra o risco de incumprimento da dívida portuguesa subiu ligeiramente.
Fruto dessa situação, a probabilidade de incumprimento num horizonte de cinco anos aumentou de 31,38% no fecho de ontem para 32,38%, no fecho de hoje.

Espanha vê situação agravar-se.
O Prémio de Risco da dívida espanhola subiu para 4,05 pontos percentuais - ontem fechara em 3,88. No dia do início da cimeira europeia baixara para 3,71.

A probabilidade de incumprimento da dívida espanhola subiu de 22,79% no fecho de ontem para 24,67% no fecho de hoje, quase dois pontos percentuais. A 18 de outubro, no dia de início da cimeira europeia, estava em 22,47%. No começo do mês, a situação era, no entanto, pior - o risco estava em 28,73%.

Espanha mantém-se fora do referido "clube", onde estão a Grécia (que lidera com níveis de risco que apontam para iminência de um evento de incumprimento.

Entretanto, a atenção sobre Itália regressou.
O prémio de risco subiu hoje para 3,29 pontos percentuais. O risco de incumprimento subiu de 19.57% no fecho de ontem para 20,67% no fecho de hoje.

Irlanda surge como caso especial.
O ex-Tigre Celta continua a ver a probabilidade de incumprimento descer, ao contrário dos outros três países "periféricos" referidos acima.
Em 1 de outubro estava em 24,25% e hoje desceu já para 15,9%.

Estónia, Luxemburgo e Finlândia são as únicas economias da zona euro com défice abaixo de 3% e dívida inferior a 60%.

Entre os restantes dez países da União Europeia que não fazem parte da União Económica e Monetária também só se contam mais três exemplos: Bulgária, Dinamarca e Suécia

No conjunto, as contas dos países da UE e da zona euro agravaram-se substancialmente desde 2008.
Nesse ano, o défice dos países da moeda única foi de 2,1% e a dívida estava em 45% do PIB.
Em 2011, os valores foram de 4,1% e 87,3%.
No caso dos 27 da União, o défice passou de 2,4% 4,4% nestes três anos com a dívida a engordar de 62,2% para 82,5%.

No caso espanhol, o Eurostat reviu o défice em alta no ano passado para 9,4% do PIB, o mesmo valor que a Grécia, com a dívida a subir para 69,3%.
Trata-se de um salto de quase trinta pontos percentuais desde 2008.
No caso da Irlanda, que era outro país com reduzida dívida antes da crise, o salto foi de 44,5% do PIB para 106,4%, embora inclua o resgate aos bancos.

Para Portugal, o gabinete de estatísticas europeu confirmou as contas do INE, ou seja, um défice de 4,4% do PIB (conseguido com a receita extraordinária da transferência dos fundos de pensões da banca) e uma dívida de 108,1%.

CF

Unknown disse...

Leiam o que diz Vergílio Ferreira na sua” conta- corrente”: “É-me absolutamente insuportável, primário, infantil um romance que me conte ainda uma “história”. E atinge as raias do asco que ainda me descrevam , me façam um relatório da boca, dos cabelos e outros fragmentos de uma personagem. Contar histórias é para as avozinhas. Intolerável. Um romance tem é de fixar o que excede a história, a atmosfera que a envolve, o espírito subtil que de tudo emana, o indício das coisas, aquilo que se toca quando se toca a dedos breves como numa brasa, o que aponta ao subentendido, a fina inteligência que assim anima tudo por dentro.”
Como vêem, Vergílio Ferreira quer fazer romances sem enredo, só com estados de alma, só com os hipotéticos sentidos e sempre chegando à conclusão de que nada tem sentido, sobretudo, a vida. Ele, que não acreditava na metafísica, queria fazer romances só com a metafísica. E a realização dele residia, precisamente, no deixar-se levar pelo estado de alma do niilismo, querendo viver, nos seus momentos de felicidade, no nirvana do nada.
Acho que Vergílio Ferreira, se eu o entendo bem ,exagera. Como se pode ser tão redutor?
No entanto, o romance justifica-se apenas, no meu entendimento, se, com o enredo, se tornar mais explícita uma explicação. Vi um destes dias um filme sobre Freud e Yung e, portanto, sobre a psicanálise. Seduziu-me, no filme, toda a trama, porque, através dela, se tornaram para mim mais claras as pulsões sexuais e, sobretudo, o valor que era dado à interpretação dos sonhos como modo de chegar ao que está por trás do consciente.
É uma visão esta, minha, talvez expositivamente exagerada.
Agradeço a FV o ter-me permitido voltar a este tema.
JLM

Fernando Gouveia disse...

Já fora de tempo, meu caro JLM, atrevo-me a voltar ao tema, porque a conversa consigo e com os intervenientes no mesmo me sugerem pontos de vista que já vi (li) em diferentes ocasiões. Parece haver essencialmente dois caminhos. Um que consiste em fazer literatura contando uma bela história, bem urdida, bem sequencial, em que "não se perca o fio à meada". Acabei de ler um romance famoso, dos anos 60, que encontrou sérias dificuldades para ser publicado e veio a tornar-se, para alguma crítica, uma obra-prima. Trata-se de "O Leopardo" (como o li na versão francesa não sei se foi este o título em Portugal), de Giuseppe Tomasi de Lampedusa. A história é magnífica, bem estruturada, o discurso seguro, as anacronias perfeitamente localizadas e pertinentes, as personagens bem construídas, o efeito do real perfeitamente conseguido. O que demonstra que esta forma de fazer Literatura pode ser tão brilhante como a outra, mais moderna, propugnada pelos teóricos do "nouveau roman", em que a história pode ser sugerida num discurso anárquico, em que a personagem é difusa ou inexistente, o protagonista desaparece e o que fica são apenas impressões subtis, como parece ser o sentido das frases do Vergílio Ferreira que citou. Esta via é bem exemplificada, por exemplo, pelo romance "A Costa dos Murmúrios" de Lídia Jorge, no qual uma primeira história linear é desconstruida e reconstruida em seguida.
Devo confessar-lhe que qualquer das vias me agrada, desde que o romance consiga explorar uma ou outra de forma segura e segundo os códigos da arte. A segunda via é mais trabalhosa, exige mais ao leitor, mas penso que vale a pena.
Agora, também posso dizer-lhe que leio com o mesmo prazer um romance do Saramago como "Ensaio sobre a cegueira", como uma história colada ao real, como "O Retorno" da nossa conterrânea Dulce Cardoso.

Suponho que o seu cansaço (se é esse o caso) passará, e desejo-lhe boas leituras.

Unknown disse...

Caro FG:Só hoje me é possível responder, porque tenho estado longe do meu computador.
Agradeço-lhe o ter-me ajudado a situar as duas correntes de literatura.
Esqueço-me sempre de pôr a hipótese de um dada interpretação minha se situar numa determinada maneira,já catalogada, de pensar e de fazer as coisas.Sinto, por isso, quantas vezes, uma sensação amarga de ignorância, mesmo de uma ignorância atrevida.
Mas alguém tem que desempenhar este papel, para que este desempenho propicie um esclarecimento mais cabal do que está em discussão.E eu não me importo de mostrar ignorância porque sempre conto da parte dos outros com uma compreensão magnânima.
Por outro lado, o que em mim está em causa é também,na realidade,um grande cansaço e a constatação de que já me resta pouco tempo e,por isso, já não ter muito para me deleitar com a arte e ter pressa de chegar rápido ao âmago das questões.
Talvez isso justifique a minha apetência especial pelas ciências exatas e,sobretudo, o meu gosto pelas neurociências,porque estas,mais que tudo o resto,me elucidam sobre a natureza humana e,portanto, sobre mim próprio.
Um abraço.
JLM