07 dezembro 2005

As autarquias e as pessoas

«As autarquias são das instituições do Estado, as mais próximas das pessoas, aquelas que conhecem de perto os problemas das populações, e as que melhor convivem na defesa do interesse público em geral e dos que mais necessitam de apoio ou compreensão em particular.
(...)
Mas têm as populações consciência das suas próprias necessidades e das respostas às mesmas para consequentemente os eleitos se considerarem obrigados a satisfazê-las ?
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Quem visita cidades, vilas ou simples aldeias por essa Europa fora, verifica que existe um extremo cuidado em defender o cidadão daquilo que pode ser a agressão do ambiente urbano e simultaneamente proteger a sua vida e a sua saúde dos acidentes provocados por uma cada vez maior utilização de veículos motorizados.
Em Portugal, de uma maneira muito geral, pensa-se em resolver o problema dos automobilistas e dos automóveis, considerados reis e senhores do espaço público.
O urbanismo è pensado isoladamente, descontextualizado das acessibilidades e de muitos outros aspectos fundamentais para a sua boa qualidade.
Existiam muito maiores preocupações com o urbanismo nos séc. XVII e XVIII do que em muitas urbanizações dos finais do século XX.
Em Portugal, existem milhares de quilómetros de vias que passam por núcleos urbanos de maior ou menor dimensão, sem passeios para os peões, onde o peão arrisca em permanência a sua integridade física muitas vezes mal põe o pé fora da sua porta.
Em Portugal, a esmagadora maioria dos passeios para peões estão ocupados por estacionamento automóvel.
Em Portugal, as estradas municipais não contêm qualquer espaço dedicado aos peões, ou aos ciclistas, estando a sua vida em permanente risco quando nelas circulam.
Uma percentagem muito elevada das mortes nas nossas estradas são-no por atropelamento, sem que ninguém considere isso, no mínimo estranho.
(...)
Olhem com um mínimo de atenção para as nossas ruas, nas cidades, nas vilas e especialmente nas aldeias e verifiquem em quantas não existem sequer passeios ou de tão exíguos representem um exercício de equilíbrio para quem neles circula, já para não falar do espaço ocupado pelo estacionamento automóvel.
Olhem igualmente para as nossas estradas municipais e verifiquem quantas têm ciclo vias ou espaço delimitado para a circulação de peões.
Vejam tudo isto e depois pensem nas dezenas de mortos e feridos que todos os anos por atropelamento engrossam as estatísticas da sinistralidade rodoviária, sem que da entidade responsável pela sua prevenção se ouça qualquer reclamação ou apelo. »
Vitor Gonçalves, in Semanário Económico

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