Caro Escultor Hélder de Carvalho:
Permita-me que lhe responda em termos públicos aos considerandos que estabelece a propósito do meu texto “Onde pára a oposição?”.
Resido neste concelho há quase meio século, com excepção de um breve hiato (uma dezena de anos) em que tive de rumar a outras paragens por razões que tiveram a ver com o prosseguimento de estudos. Os rendimentos familiares que possibilitaram estas aventuras foram fruto de um trabalho porfiado, sofrido e até sobre-humano dos meus progenitores, baseado numa agricultura tradicional assente nos cereais, no vinho, na batata e alguns frutos, amêndoa e maçã, complementado pelas jornas em tempo de ceifas, podas e vindimas nalgumas propriedades agrícolas e quintas do concelho. Carrego também às costas o estigma do nascimento: humilde e anónimo, o que nos nosso meio não é pequeno defeito.
Porém, orgulho-me de ser filho de gente simples e honrada. Quando olho para as mãos calejadas dos meus pais vejo nelas as marcas de um tempo de miséria, de trabalho esforçado, inacreditável, de antes quebrar que torcer. Nos seus olhos vejo o orgulho de terem proporcionado aos seus filhos um dia a dia melhor. Nas suas palavras oiço os conselhos de incentivo, da necessidade de continuar a acreditar, de preservação do património que adquiriram com tanto sacrifício e que agora face à contínua desvalorização da componente agrícola lhes aparece como “esforço inglório”. Nas suas rugas leio a desilusão de vivermos num concelho sem perspectiva de futuro, sinto a temeridade e incerteza pelo que há-de vir.
Por mais de uma vez contribuí voluntária e gratuitamente para o possível engrandecimento do concelho (assim o achava!). Cinco anos na direcção do clube desportivo e dez na rádio local. Foram trabalhos de carolice, voluntário, desprendido, gratuito e com forte convicção de poder aportar, com o meu esforço e empenhamento, um tijolo a uma construção melhor do desenvolvimento do concelho. Nunca esperei contrapartidas ou reconhecimento, mas o que restou foi nada.
Propus-me, por mais de uma vez, contribuir politicamente para o progresso da minha terra, com convicção, com ideias, com coragem, de mangas arregaçadas, oferecendo a minha capacidade de trabalho. A resposta foi a indiferença total. . Sou um perdedor! Os meus conterrâneos não me reconhecem qualquer valor. Um ou outro até diz que agora deixei de ser “sério” ao meter-me nas lides da blogosfera. O rótulo, o engajamento, e o apêndice político valeram-me alguma perseguição e uma clara marginalização. Podia apontar-lhe muitos exemplos. Aprendi a lição e dificilmente me meterei nessas aventuras, usarei outras armas.
Caro escultor:
Ao contrário do que se subentende das suas palavras, parece-me suficiente o conhecimento que tenho do concelho e o que vejo não me agrada.
Permita-me que lhe responda em termos públicos aos considerandos que estabelece a propósito do meu texto “Onde pára a oposição?”.
Resido neste concelho há quase meio século, com excepção de um breve hiato (uma dezena de anos) em que tive de rumar a outras paragens por razões que tiveram a ver com o prosseguimento de estudos. Os rendimentos familiares que possibilitaram estas aventuras foram fruto de um trabalho porfiado, sofrido e até sobre-humano dos meus progenitores, baseado numa agricultura tradicional assente nos cereais, no vinho, na batata e alguns frutos, amêndoa e maçã, complementado pelas jornas em tempo de ceifas, podas e vindimas nalgumas propriedades agrícolas e quintas do concelho. Carrego também às costas o estigma do nascimento: humilde e anónimo, o que nos nosso meio não é pequeno defeito.
Porém, orgulho-me de ser filho de gente simples e honrada. Quando olho para as mãos calejadas dos meus pais vejo nelas as marcas de um tempo de miséria, de trabalho esforçado, inacreditável, de antes quebrar que torcer. Nos seus olhos vejo o orgulho de terem proporcionado aos seus filhos um dia a dia melhor. Nas suas palavras oiço os conselhos de incentivo, da necessidade de continuar a acreditar, de preservação do património que adquiriram com tanto sacrifício e que agora face à contínua desvalorização da componente agrícola lhes aparece como “esforço inglório”. Nas suas rugas leio a desilusão de vivermos num concelho sem perspectiva de futuro, sinto a temeridade e incerteza pelo que há-de vir.
Por mais de uma vez contribuí voluntária e gratuitamente para o possível engrandecimento do concelho (assim o achava!). Cinco anos na direcção do clube desportivo e dez na rádio local. Foram trabalhos de carolice, voluntário, desprendido, gratuito e com forte convicção de poder aportar, com o meu esforço e empenhamento, um tijolo a uma construção melhor do desenvolvimento do concelho. Nunca esperei contrapartidas ou reconhecimento, mas o que restou foi nada.
Propus-me, por mais de uma vez, contribuir politicamente para o progresso da minha terra, com convicção, com ideias, com coragem, de mangas arregaçadas, oferecendo a minha capacidade de trabalho. A resposta foi a indiferença total. . Sou um perdedor! Os meus conterrâneos não me reconhecem qualquer valor. Um ou outro até diz que agora deixei de ser “sério” ao meter-me nas lides da blogosfera. O rótulo, o engajamento, e o apêndice político valeram-me alguma perseguição e uma clara marginalização. Podia apontar-lhe muitos exemplos. Aprendi a lição e dificilmente me meterei nessas aventuras, usarei outras armas.
Caro escultor:
Ao contrário do que se subentende das suas palavras, parece-me suficiente o conhecimento que tenho do concelho e o que vejo não me agrada.
Revolta-me que durante centenas de anos, se cristalizaram interesses centrados em meia dúzia de famílias que de uma forma ou outra exploraram os residentes e viveram do seu trabalho e da sua miséria como o comprovam os morgadios e as casas senhoriais espalhadas pelo concelho, nas famílias restritas que tiveram acesso aos cargos, privilégios e à mesa das benesses da administração pública e as souberam distribuir criteriosa e meticulosamente de modo a conservar o poder e a dependência dos seus “súbditos”. Esses sentimentos e atitudes chegam aos nossos dias, na forma de um caciquismo completamente ultrapassado, mas com os mesmos objectivos de outrora, acrescidos de novas “nuances” como, por exemplo, a concessão de benefícios aos porta-bandeiras nas eleições locais.
Assustam-me as boas maneiras, a simpatia e a polidez dos instalados, mas quando estão em causa os seus interesses, se transfiguram, tornam-se violentos e trucidam, só se não puderem, quem se lhe mete à frente e os desafia.
Aflige-me que esta terra não tenha possibilidade de acolher os mais jovens, os que fazem o futuro, de lhes proporcionar um lugar para viver. Vejo com total impotência a saída de muita gente válida, alguns meus amigos, perante o apelo do grande centro e a aridez da nossa vida quotidiana.
Magoa-me as nossas aldeias se manterem com meia dúzia de idosos, as escolas fechem e todos sobrevivam tristes e deprimidos.
Angustia-me que o principal objectivo das nossas gentes seja o de conseguir um trabalho na Câmara Municipal ou na Misericórdia local. A iniciativa individual de criação de emprego é nula e quase residual.
Pasmo que se cruzem os braços e se gira a situação, não aspirando a melhor, não se rentabilizem os recursos e sinergias locais, se potenciem os exemplos de sucesso, mas pelo contrário se tentem destruir com a maledicência e a intriga.
Frustra-me que não se desenvolvam nas escolas verdadeiros projectos com base nos interesses do concelho, tendo em vista um melhor conhecimento e intervenção no meio, a ligação à economia da nossa terra, e numa fase mais avançada (o secundário e a escola profissional) a própria criação de emprego, tendo em vista as necessidades regionais e a criação de empresários locais.
É, no mínimo, revoltante o contínuo desprezo e ostracismo a que nos vota a administração local sem que se esboce o mínimo gesto de desacordo e colectivamente digamos: “basta!”
Caro escultor:
Acho fundamental que se construam alternativas, se pense de maneira diferente, se construam projectos opcionais. Mas o que vejo na oposição também não me agrada. Esta tem também usado os mesmos métodos, salvo honrosas excepções, para aceder aos mesmos benefícios. Os seus figurantes utilizam as mesmas armas nas instituições que governam: distribuem empregos aos seus porta-bandeiras. Não fazem grandes ondas para manterem intactos os seus cargos e mordomias. Tal como criticam aos antagonistas aproveitam-se do seu cartão partidário para aceder a cargos de nomeação dependente da onda governativa. O seu objectivo é também serem os conhecidos “boys” e “girls”, agarrados às “tetas” da porca do Estado, como tão bem caracterizou Bordalo Pinheiro. A sua actividade não depende do seu talento, inteligência, currículo, mas do subsídio, do cargo disponibilizado, do trabalho que determinada cor partidária lhe proporciona. Os que neles votaram e acreditaram numa diferente postura, deverão sentir-se defraudados, pois da sua actividade nada se sabe. O que transpira é de que se “governa em coligação”.
As pessoas interessadas no conhecimento da acção autárquica só o podem fazer recorrendo aos órgãos oficiais, como o boletim municipal, presentemente com uma distribuição insuficiente, às entrevistas do senhor Presidente, ou ao “diz que disse” do café. Não conhecemos um comunicado, uma declaração pública, um suspiro, um ai, de um dirigente da oposição.
A Assembleia Municipal deveria ser um espaço privilegiado de debate e de confronto de opinião e pelo que vi e me dizem é um local, onde o enfado e os silêncios são “reis e senhores” e impera a monotonia da aprovação sistemática. E a culpa é maioritariamente da dita oposição que não questiona, não estuda os dossiers, não levanta dúvidas, não agita as águas.
Caro escultor:
Acredito que haja muitos mais a pensar diferente e com vontade de soprar na vela do desenvolvimento. Sejam canalizadas essas vontades e verá que é possível “andar para a frente”. Quanto ao que me foi sugerido considero-o irónico e não vou aceitar a sugestão. Respondo-lhe parafraseando o poeta: “não há machado que corte a raiz ao pensamento”. É preciso sonhar, ser utópico e acreditar que é possível fazer de outra maneira e melhor.
Caro escultor:
Acho fundamental que se construam alternativas, se pense de maneira diferente, se construam projectos opcionais. Mas o que vejo na oposição também não me agrada. Esta tem também usado os mesmos métodos, salvo honrosas excepções, para aceder aos mesmos benefícios. Os seus figurantes utilizam as mesmas armas nas instituições que governam: distribuem empregos aos seus porta-bandeiras. Não fazem grandes ondas para manterem intactos os seus cargos e mordomias. Tal como criticam aos antagonistas aproveitam-se do seu cartão partidário para aceder a cargos de nomeação dependente da onda governativa. O seu objectivo é também serem os conhecidos “boys” e “girls”, agarrados às “tetas” da porca do Estado, como tão bem caracterizou Bordalo Pinheiro. A sua actividade não depende do seu talento, inteligência, currículo, mas do subsídio, do cargo disponibilizado, do trabalho que determinada cor partidária lhe proporciona. Os que neles votaram e acreditaram numa diferente postura, deverão sentir-se defraudados, pois da sua actividade nada se sabe. O que transpira é de que se “governa em coligação”.
As pessoas interessadas no conhecimento da acção autárquica só o podem fazer recorrendo aos órgãos oficiais, como o boletim municipal, presentemente com uma distribuição insuficiente, às entrevistas do senhor Presidente, ou ao “diz que disse” do café. Não conhecemos um comunicado, uma declaração pública, um suspiro, um ai, de um dirigente da oposição.
A Assembleia Municipal deveria ser um espaço privilegiado de debate e de confronto de opinião e pelo que vi e me dizem é um local, onde o enfado e os silêncios são “reis e senhores” e impera a monotonia da aprovação sistemática. E a culpa é maioritariamente da dita oposição que não questiona, não estuda os dossiers, não levanta dúvidas, não agita as águas.
Caro escultor:
Acredito que haja muitos mais a pensar diferente e com vontade de soprar na vela do desenvolvimento. Sejam canalizadas essas vontades e verá que é possível “andar para a frente”. Quanto ao que me foi sugerido considero-o irónico e não vou aceitar a sugestão. Respondo-lhe parafraseando o poeta: “não há machado que corte a raiz ao pensamento”. É preciso sonhar, ser utópico e acreditar que é possível fazer de outra maneira e melhor.
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