Mude a sua Vida, de comboio… se o tiver.
Fui confrontado recentemente na blogosfera com fotos de um mesmo cartaz, em duas cidades portuguesas, que são no mínimo insólitas. A ocupar um terço do cartaz, o Alfa Pendular perfila-se numa plataforma, com um passageiro a bordo e uma senhora de costas para o comboio, coroados sob os dizeres “Mude a sua vida, Vá de comboio”. Se as cidades onde as fotos foram tiradas fossem as do Porto e Lisboa, ou por exemplo Braga e Faro, cidades servidas pelo Alfa, ou mesmo por uma qualquer cidade servida por Intercidades, como Guimarães ou a Guarda, o facto passaria despercebido. Só que as cidades visadas foram nada menos que Vila Real e Sines.
Para quem não conheça o legado de Cavaco Silva e Ferreira do Amaral entre 1987 e 1992, um Primeiro-Ministro e outro Ministro dos Transportes, período no qual exterminaram mais de 800Km de vias-férreas em Portugal sob o hipócrita e embusteiro pretexto da falta de rentabilidade, condenando ao agravar do despovoamento regiões como Trás-os-Montes e Alto Douro e o Alentejo, relembro que a 1 de Janeiro de 1990 cessaram os comboios de passageiros entre Vila Real e Chaves (71Km da Linha do Corgo) e entre Ermidas-Sado e Sines (a totalidade do Ramal de Sines). Recentemente, em Março de 2009, a coberto da noite, a CP suspendia o tráfego ferroviário na Linha do Corgo e do Tâmega, ao que se seguiu pouco tempo depois a subtracção da via nestas duas linhas. Mas num gesto de boa fé, alguém na CP decidiu apelar às populações de Sines e de Vila Real para mudarem de vida… viajando no comboio que lhes foi roubado. Bravo. Dá vontade mesmo é de perguntar, se o comboio realmente existisse, e nem é preciso ser o Alfa, basta um moderno serviço Regional, rápido, cómodo e flexível, como estariam hoje Sines e Vila Real, ou Chaves e Bragança, ou mesmo Reguengos de Monsaraz e Moura? Com previsões de aumentar a população residente em 100% como está projectado para Toledo com novos serviços ferroviários a Madrid? Quem sabe…
E agora somos confrontados com 600 postos de trabalho em risco na CP, mais 250 mil euros de honorários a um único consultor especialista para um estudo sobre as ligações urbanas do Porto e de Lisboa, no que se perfila o desmembramento da CP. Pretende-se 15% de cortes nos custos de um funcionamento (e aqui se junta a REFER) alimentado a escândalos de carros novos e vencimentos chorudos, contratos por ajustamento directo escandalosos e obras caríssimas que se afirmaram erros clamorosos ou simplesmente desnecessários, comboios e horários desencontrados, linhas suspensas e o diabo a quatro. Ah, e cartazes a gozarem com populações que perderam o comboio sob a égide destas empresas.
Como se tal fosse pouco, inúmeras linhas do Alentejo vão ser pura e simplesmente descartadas. Pasmo só em continuar a ver que existe um Alfa entre Lisboa e Faro, mas nem sequer um Regional ou Interregional digno desse nome entre Beja e Faro, e que se contempla neste funesto pacote o troço Casa Branca – Évora, alvo de total recuperação há 5 anos! E eu só pergunto, do alto da minha inocência de cidadão perplexo perante esta arruaça, onde os erros se repetem, geralmente vindos dos mesmos personagens e das mesmas políticas, que não deixam o caminho-de-ferro português desenvolver-se de forma madura e sustentável: será que os autores estão entre os 600 a rescindir contrato com a CP? Que prenda de Natal seria para o país ver que quem paga pelos erros são os seus autores, e não os suspeitos do costume. Isso e experimentar entregar a Linha do Tua a uma empresa trasmontana sob a égide da espanhola FEVE. Será que tal como na Linha de la Robla, em 5 anos haveria serviços rápidos de passageiros, comboios de mercadoria e comboios de turismo de longa duração, numa linha que de Lisboa se diz não ter passageiros, ou mercadorias, ou atractividade, ou mesmo valor patrimonial algum?
Soube ainda, e em jeito de finalização, que a FEUP vai apresentar ao IGESPAR uma candidatura da Ponte da Arrábida a Património Nacional. Merecido e inquestionável galardão, que a ninguém obrigará favor algum se for atribuído. Deposito aliás plena confiança na sua atribuição, uma vez que esta obra ímpar de engenharia, projectada e concretizada por portugueses e para a mobilidade dos portugueses, com quase 50 anos, está demasiado longe da barragem da Crestuma-Lever, e não existe nenhuma barragem projectada entre ela e a foz do rio Douro. Menos sorte parece – ênfase em parece – ter a Linha do Tua, obra ímpar de engenharia, projectada e concretizada por portugueses e para a mobilidade dos portugueses, com mais de 120 anos, por se atravessar no caminho da barragem do Tua. De facto, vive-se e sente-se a energia poderosa que uma barragem imprime onde estas se impõem, custe o que custar, doa a quem doer.
PS: Faz hoje 19 anos que encerrou o troço Macedo de Cavaleiros – Bragança, após um descarrilamento. Dez meses depois era o fim do comboio entre Mirandela e Bragança…
Daniel Conde
Mirandela, 17 de Dezembro de 2010.

Senhor Daniel Conde, eu gostaria de acreditar que os Amigos da linha do Tua, tivessem êxito na luta contra os interesses instalados da EDP e do Estado.Sabe-se que é mínima a produção de energia elétrica, porém há outros argumentos como seja o de reservatório de água. Seja como fôr,infelizmente os nossos políticos não têm força para travar a obra. Os deputados estõ-se nas tintas,os Presidentes dos municipios envolvidos, querem é algo, mesmo que seja uma cenoura,como aquela históriua com um asno, até o Dr. Silvano, que dá a cara em defesa da continuidade da linha do Tua, está resignado.Também penso que é utópico levar a linha do Tua até Puebla de Sanábria, era sim uma enorme obra, que trazia imensos benefícios, lucravam os transmontanos, os espanhois, o turismo, enfim todos, seria meter uma lança em Àfrica, pena é ter tão pouca vida, para apreciar tão bela obra.
ResponderEliminarHorário de Natal da linha do Tua (muito curioso):
ResponderEliminarhttp://www.cp.pt/StaticFiles/CP/Imagens/PDF/Passageiros/Avisos/2010/12/natal_regional/linha_do_tua.pdf
O tal que estava escondido
ResponderEliminarhttp://aiacirca.apambiente.pt/Public/irc/aia/aiapublico/library?l=/recape366_aproveitamento/parecerca_ppa366pdf/_PT_1.0_&a=d
5. CONCLUSÕES
Face ao acima exposto e tendo a CA constatado que embora o presente Projecto
contempla, no geral, as condicionantes, as medidas de minimização e os planos de
recuperação paisagística e monitorização, referidos na DIA, considera-se que o
Projecto de Execução do “Aproveitamento Hidroeléctrico de Foz Tua” não dá
cumprimento integral à DIA, pelo que os aspectos mencionados no presente
parecer deverão ser esclarecidos e justificados.
Estes elementos deverão ser entregues à Autoridade de AIA para apreciação e
aprovação pela CA, nos termos e prazos previstos no presente parecer.
Salienta-se ainda que o proponente terá de informar a Autoridade de AIA do início
da fase de construção, a fim de possibilitar o desempenho das suas competências
na Pós-Avaliação do Projecto.
Os relatórios de acompanhamento ambiental da obra e os relatórios de
monitorização deverão ser entregues à Autoridade de AIA
BARRAGEM DE FOZ TUA - GOVERNO ADAPTA CALENDÁRIO DA AVALIAÇÃO AMBIENTAL ÀS “ENCOMENDAS” DA EDP
ResponderEliminarDas declarações e informações prestadas hoje pela Ministra Dulce Pássaro, na Comissão Parlamentar de Ambiente, Ordenamento do Território e Poder Local da Assembleia da República, não restam dúvidas aos “Verdes” que o Governo se estava a preparar para licenciar a Barragem de Foz Tua sem que a DIA (Declaração de Impacte Ambiental) estivesse plenamente cumprida, tal como manda a legislação relativa à Avaliação de Impacte.
Confrontada pelos Verdes, que estiveram na origem desta vinda da responsável pela tutela da pasta do Ambiente e Ordenamento do Território à Assembleia da República, para esclarecer a nebulosidade que tem pairado sobre os procedimentos relativos à avaliação de impacte desta barragem, Dulce Pássaro, ao mesmo tempo que reconheceu que as exigências e determinações da DIA não tinham sido plenamente cumpridas, assumiu que os prazos exigidos pela CA (Comissão de Avaliação) no parecer dado no quadro da Pós-avaliação dos impactes da barragem e do RECAPE (Relatório de Conformidade Ambiental do Projecto de Execução) em Agosto passado, tinham sido renegociados posteriormente a pedido da EDP, admitindo o adiamento de muitos para uma fase posterior ao licenciamento. O que levou “Os Verdes”, através da deputada Heloísa Apolónia, a acusarem o Governo de “amparar” os interesses da EDP e não os das populações e do ambiente e de não respeitar a legislação relativa à Avaliação de Impacte que condiciona o licenciamento ao cumprimento pleno das condicionantes da DIA.
Para “Os Verdes”, que desde o inicio contestaram a construção desta barragem pelos numerosos impactes negativos que esta tem, nomeadamente a submersão da Linha e Vale do Tua e que em Agosto passado denunciaram, não só o facto de a DIA não estar a ser cumprida, como também o facto de o RECAPE tornar visível impactes negativos não estudados e não avaliados e outros negados ou minimizados, como por exemplo os impactos sobre a paisagem do Alto Douro Vinhateiro ou sobre a navegabilidade do Douro, ficou claro que o Governo está pronto a tudo, até a pôr em causa as exigências que tinha imposto à EDP no quadro do concurso público e da DIA, para “proteger” as pretensões e os interesses da EDP, o que levou a Ministra a declarar que “o licenciamento da obra ainda não aconteceu, mas não é nosso papel obstaculizar o promotor”.
Para “Os Verdes”, para quem os interesses da EDP não podem ser confundidos com o interesse nacional e regional, nem com os valores ambientais e culturais, fica claro que esta regateia todas e quaisquer compensações às populações e à região pelos danos causados. Situação para “Os Verdes” visível na recusa assumida pela empresa em construir uma linha ferroviária alternativa à do Tua a pretexto dos altos custos, quando a mesma empresa tem as mãos largas nas despesas que faz em propaganda enganosa, à volta da biodiversidade ou do desenvolvimento.
Neste confronto com o Governo sobre a Barragem do Tua, “Os Verdes” reafirmaram mais uma vez mais a defesa da Linha do Tua e a recusa das soluções apresentadas pela EDP, sejam elas a rodoviária para a mobilidade das populações, como a “dos barquinhos” para os turistas, e condenaram ainda a postura do Governo no ano em que se comemora a biodiversidade.
Eheheheh; fui eu quem fez este layout dos Horários da Linha do Tua, que depois enviei para a CP. Só estava longe de sonhar que eles iam adicionar apenas o seu logotipo, sem censurar nada, uau!
ResponderEliminarAo senhor Anónimo: acha mais utópico um TGV e uma TTT, a ultrapassarem o milhar de milhão de euros, ou a Linha do Tua a chegar à Sanábria (linha de AV Madrid - Vigo) e ao renovado aeródromo de Bragança (vai receber voos low cost de 200 passageiros por avião), a custar uma centena de milhão?
Se calhar utópico é ver alguns dos autarcas da nossa praça terem ditos cujos para assumirem as suas responsabilidades e uma boa dose de risco calculado, em vez de se dobrarem imediatamente atrás das migalhas que caem da mesa de certos senhores da nossa ínclita capital, só para dali a uns tempos chegarem (novamente) à conclusão que os trasmontanos foram (outra vez) ludibriados que nem o mais embrutecido saloio.
Ver o meu Sporting chegar a campeão da Europa, isso sim é utópico. Ver a Linha do Tua chegar à Sanábria é visionário e progressista, mantendo ambos os pés bem assentes no chão pátrio de Trás-os-Montes e Alto Douro.