27 setembro 2015
18 setembro 2015
TRADIÇÃO… É
TRADIÇÃO!....
Veio o mês de Setembro como todos
os anos, trouxe o Sol e a esperança de uma boa colheita de uvas, para
transformar em vinho. E, como vem sendo tradição em anos anteriores a chuva
apareceu no dia da festa em honra de Santa Eufémia, a ultima festa deste ano no
concelho de Carrazeda. A Chuva para regar as oliveiras, os campos, e as vinhas
para alegria dos lavradores.
Aumenta a quantidade do vinho, mas diminui o
grau dizia em tom magoado um negociante de vinhos, e rematou se a àgua for em
muita quantidade o que não é o caso. Pois o Instituto Português do Mar e da
Atmosfera, diz que a partir de 17 deste mês a chuva parou, o tempo melhora,
volta o Sol e temperaturas que convidam o corpo a ír ao banho na mar salgado.
Em Barrancos a tradição impõe-se
á lei que proíbe os touros de morte, porém aqui nas Festas, todos os anos,
cumprem a tradição e os touros morrem. A força da tradição tem muita força e
não há nada a fazer. E tradicionalmente nesta época nas aldeias vinhateiras a
azáfama é grande, as vinhas enchem-se de gente que vai tirar o filho á mãe,
saem os cachos em contentores para as firmas que vão transformar as uvas em
vinho generoso, vinho fino ou vinho do Porto. Nas aldeias os lavradores
satisfeitos se a quantidade é boa, a qualidade também, mas a tradição clama por
justiça no preço. Não há contrato, não há condições pré estabelecidas, não há
preços para as uvas do benefício e muito menos para as uvas de consumo. É a
tradição… já vem dos tempos dos nossos avós. ….
Agora que a Casa do Douro deixou
de existir, com as competências funcionais que todos conhecíamos, o Instituto
do Vinho e da Vinha, que representa o Estado, favorece os interesses da
companhias Inglesas e outras firmas que estão no negócio. São estes que ditam
os preços a pagar aos lavradores, e sabem o velho ditado: - Quando o mar bate
na rocha, quem se coze é o mexilhão. Há a esperança que isto um dia vai mudar,
com a Associação que recebeu a herança da Casa do Douro, é preciso dar o
benefício da dúvida. E de tradição virar as coisas para a transformação de ideias, castigando traidores
que nos enganam, com falsas promessas.
Chegou a hora de terminar, a
vindima está marcada, o pessoal está certo, o tempo promete ajudar, e naquele
dia o despertar é mais cedo, o tempo segue o ritmo de trabalho e quando a
balança cumpre com a sua obrigação, descansam finalmente as uvas no lagar. Mas
ainda há trabalho a fazer e até ao lavar dos cestos é vindima. Só em Janeiro de
2016, é que vai estar a pagamento os
Kilos de uvas vendidas nos meses de Setembro e Outubro de 2015. Aqui a tradição
foi quebrada, pois era até ao fim de Dezembro do ano da vindima, que pagavam ao
lavrador, para ter um Bom e Feliz Natal, mas isso foi chão que deu uvas… E por
aqui fico bebam com moderação o nosso vinho, sorriam e façam por serem felizes.
18/9/2015 Manuel Pinto
15 setembro 2015
01 setembro 2015
Tempestade de verão ou conto de fadas
Uma tempestade de verão é sempre localizada, imprevista,
assustadora, rápida e, não poucas vezes, danosa. A borrasca lançada por Paulo
Rangel ao elogiar na universidade de verão do PSD o pretenso "ataque sério
e consistente" feito nos últimos tempos à corrupção e à promiscuidade, de
modo a trazer para o espaço da discussão política a natureza das investigações
a Sócrates e a Ricardo Salgado. Isto é, elas só existirão porque, explica na
sua crónica semanal do Público, a magistratura vive “imersa” numa “cultura” e
num “ambiente” que os “influencia”. O “ar respirável” que agora viveremos
deve-se ao programa de ajustamento que criou o clima de “moralização”, à
atitude de Passos Coelho de “reserva e neutralidade” e ao desanuviamento da
ministra da justiça pontuando o seu ministério pelo acento “na autonomia da
investigação e da independência judicial”.
As tempestades de verão assemelham-se às narrativas da literatura
fantástica pelo ambiente, imprevisibilidade, terror e danos associados, porém
estas estão centrada em elementos não existentes ou não reconhecidos na
realidade. A moralização trazida pelo ajustamento embica na subalternização do
poder político face ao poder económico, no aumento da concentração da riqueza, na
fratura social e na degradação dos sectores básicos e fundamentais, entre eles
a justiça. A reserva e a neutralidade do primeiro-ministro embica nos seus
ataques ao Tribunal Constitucional. A autonomia da investigação esbarra na
diminuição dos funcionários, em menos tribunais (um deles o de Carrazeda) e num sistema informático
caótico.
Esta narrativa fantástica, de heróis reconhecidos, tem um
propósito, está perfeitamente localizada e transporta a pretensa moralidade dos
contos de fada, o ódio a Sócrates e ao banqueiro imoral, para supostamente no
fim os heróis se casarem e subirem ao trono.
31 agosto 2015
26 agosto 2015
REINA A EXPECTATIVA: Helder Carvalho
Entre os que como eu aguardam com altas expectativas a
inauguração do novo Campo de Futebol, há os críticos e os incondicionais da
obra. Eu, sem conhecer o projecto, estou à partida entre os incondicionais.
Claro que sentimos a crise e poderiam justificar-se outras prioridades, mas os
carrazedenses não têm culpa de serem os únicos que não tem no seu roteiro
turístico um Campo de Futebol. Dizem que o investimento só aconteceu pela
pressão do lobby do Club de Futebol de Veteranos da Câmara Municipal. Este argumento
não colhe porque nesse caso o Campo também teria de ter uma Pista de Ciclismo.
Para a dúvida que alguns têm sobre, se verdadeiramente existe alguma politica
de desporto no concelho para justificar um Campo de Futebol, outros argumentam
que o espaço deve ter outras valências. Pode servir também de Campo de Râguebi,
pode servir para instalar o Circo quando vem a cidade, pode servir para
Concursos de Equitação e os mais hodiernos sonham mesmo com a organização de Concerto
de Musica Tecno ou Garraiadas (também há um lobby no concelho).
Haja esperança e que
venha a inauguração para conhecermos e apreciar “in loco”, a estética do
Estádio. As bilheteiras, a qualidade da relva, as bancadas e camarotes, se os
balneários também têm jacuzzi, a sala de troféus e o museu, as cabines dos
árbitros, jornalistas e comentadores, e finalmente a iluminação artificial e o
parque de estacionamento.
Também se pergunta sobre, quem será dos membros do Governo
que integrará a comitiva que virá cortar a fita? Que espectáculo desportivo nos
irá patentear a infra-estrutura que se inaugura! Evidentemente que a cerimónia
inaugural já de si terá grandeza para justificar o bilhete. Será este Estádio o
pretexto que faltava para “O Carrazeda” voltar à distrital de veteranos? Que
empresas patrocinarão estes eventos desportivos? Quem ganhará o concurso de
snak-bar para a venda do tremoço e das bejecas? Quem será a madrinha da
esperada inauguração? Quem será que dará o nome imorredouro ao Complexo Desportivo
que se inaugura? Uma questão para a qual não faltam desportistas de renome, que
passaram além fronteiras, nados e criados aqui e que justificam a honra do
nome. Recordar por exemplo grandes guarda-redes como o primo Carlos “Lord”, o
mais elegante Keeper de que houve memória, de nome A. Ervilhas, ou mesmo o
também primo Pás da Isaura. Recordar o nosso malogrado Toninho Beiço Rachado,
talvez o mais baixo médio a jogar futebol de qualidade, n´O Carrazeda. Recordar
ainda o mais completo Massagista, Sr Macieira que também era endireita ou o Sr.
Abel Ruço, com o seu tiro fulminante. Enfim seria fastidioso continuar.
A realidade sobrepõe-se pois à ficção. É um facto que O
Carrazeda ficará nos anais da História ao provar que mesmo em tempo de crise
profunda, com o esforço de todos, sobretudo dos mais desfavorecidos, é possível
esquecer as amarguras e misérias, e dar uma alegria ao Povo.
Saibamos pois merecer tal empenho, prova da visão de futuro
dos nossos governantes mas sobretudo do amor e carinho que o nosso Presidente
tem por todos nós.
Nota: Se alguém souber da hora da bênção do Estádio que me
diga que eu quero lá estar.
Helder Carvalho
Mirando o Douro em Linhares
Um rio que sulca um mar de pedras e solidão, escoando ilusões de riqueza e abundância. Tal qual o barco que o trilha, breve miragem de sonho e progresso, que se esvai num frémito de olhares assombrados. Rio e barco regressam aos portos de abrigo realizados e ufanos e novamente o mar de pedras e solidão.
25 agosto 2015
Moinho de vento em Carrazeda de Ansiães
Qual D. Quixote, eis o resultado da minha fortuna depois do ataque a este gigante. Bem me segredava Sancho que não eram mais que pedras, madeira e velas. Porém, ao contrário do cavaleiro do Rocinante, depois da investida depressa reconheci que mesmo sopradas pelo vento as velas apenas rangem, não fazem girar a mó, nem produzem farinha...
24 agosto 2015
14 agosto 2015
Introdução - Helder Carvalho
Gostamos de ser
malvados mas de modo nenhum, ridículos (Moliére)
Conhecem a minha
condição de carrazedense a quem tem custado acreditar no destino que vem sendo
reservado para o nosso concelho. Embora me declare um vencido pelo sistema,
jamais penso perder a liberdade e o direito de pensar, direitos ora adquiridos
e pelos quais tantos lutaram. Mesmo assim e se não pagasse impostos juro que me
remeteria para a minha condição de simples apreciador da paisagem desértica, a
aguardar a minha entrada no Lar de Terceira Idade. Contudo e enquanto pagar impostos,
sinto que contribuo para o sustento do sistema o que me obrigar ao dever de
denunciar a desvirtuação, a corrupção e a fraude que me vejo obrigado a
sustentar. Excepcionalmente os embustes, disfarces, enganos e dissimulações que
têm ocorrido entre nós resultaram de factos que trazem consigo muito de
caricato e de cómico o que vem ao encontro do género literário que vou voltar a
usar. Na prática a corrupção instaura a comédia, com a manipulação de papéis
entre os manipuladores e as vítimas.
A minha ideia é a de, utilizando a farsa, retomar a denúncia
dos actos e factos de que me recorde e cuja anormalidade nos remeteu a este
presente.
Prevejo que resultem
textos de comédia bufa, cheia de figurantes, entre impostores, bufões, heróis e
vigaristas, por vezes simpáticos e matreiros, destacados para explorar as fraquezas
e misérias do povo e onde as vitimas assumem já, muitas vezes, o hábito da vitimização.
Sim porque a ignorância e analfabetismo, não desresponsabilizam de tanto
desatino ao longo de tanto tempo. Tentarei descrever sem reverências,
acontecimentos e episódios breves, usando a ferocidade satírica de que for
capaz e o verbo às vezes soez, sobre assuntos porventura já arrecadados no sótão
a aguardar arquivamento.
Não havendo milagres
que nos transformem a realidade que ao memos se parodie o ridículo das
carreiras triunfais dos que nos têm feito a cama.
Destes e para os que
ainda estão vivos, deixo esta citação tardia de J.M. Servan – “ Um déspota
imbecil pode obrigar uns escravos com correntes de ferro: mas um verdadeiro
político amarra muito mais fortemente com as correntes das próprias ideias. È
nas frouxas fibras do cérebro que assenta a base inflexível dos Impérios mais
sólidos.”
O título para estes temas “Entre o ridículo e soez”
Helder Carvalho
12 agosto 2015
12 julho 2015
Uma Figura ímpar: Helder Carvalho
Comemoram-se este ano os 150 anos do seu nascimento.
Mas afinal quem foi o Abade de Baçal para além de Padre da
aldeia de Baçal no concelho de Bragança!?
Para mim foi uma figura ímpar na cultura e na história do
nosso Nordeste Transmontano.
Francisco Manuel Alves dedicou a vida a recolher testemunhos
arqueológicos, antropológicos e históricos respeitantes à região de
Trás-os-Montes, em especial do nosso distrito e, só por isso hoje, nos podemos
gabar de possuir esse espólio publicado (Memórias Arqueológicas e Históricas do
Distrito de Bragança), e guardado no Museu que iniciou em Bragança (Museu Abade
de Baçal).
Os críticos comentavam
a sua condição de autodidacta nestas áreas da cultura, mas não se pode
contestar o seu grande trabalho de recolha e o que com isso acrescenta ao sentido
de identidade, com o qual hoje podemos reconstituir o passado. Seria por
conseguinte a tratar o seu espólio, a sistematizá-lo e a interpretá-lo que
poderíamos homenageá-lo agora e dar continuidade à sua obra.
Festejar e louvar quem fez pela sua região, o que mais
ninguém foi capaz, em qualquer outra região deste país.
Do que se fala é de
tirar partido da competência de muitos que na área da cultura, procuram uma
oportunidade para mostrar também a sua competência.
A partir daqui
poderia alancar um largo role de sugestões de trabalho onde a ideia de
organizar e divulgar o espólio que ficou deveriam ser os objectivos essenciais.
Refiro-me por exemplo a tratar e organizar exposições
temáticas, que poderiam ser itinerantes pelo Distrito; Criar bolsas de estudo
específicas sobre a sistematização da sua obra; Organizar prémios escolares
alusivos á obra e ao seu criador; Arranjar patrocínios para o restauro de
materiais e objectos em arquivo, mais carecidos; Tratar temas e conteúdos da
cultura trasmontana e apresentá-los pela vertente pedagógica; Criar dinâmicas
pró-activas de interacção no Museu Abade de Baçal que levasse as pessoas a
interagir e conhecerem mais e melhor. Criar condições para a publicação de
obras alusivas.
E assim louvar a obra do Abade de Baçal que, fruto de um
trabalho dedicado, cheio de intenção pela importância que reconhecia no valor
patrimonial, material e imaterial, e que considerava decisivo para perpetuar o
sentido identitário do seu povo.
Neste tempo de negrume que o Abade de Baçal nos sirva de modelo
e exemplo.
E os mais responsáveis na questão dirão - Ámen
08 julho 2015
A queima do gato
Todos os transmontanos e os durienses aprendem a viver e a
conviver com todo o tipo de bichos desde os primeiros momentos da vida: Ainda
no berço temos a companhia dos cães e dos gatos que se postam aos pés do menino
e vigiam a sua segurança. Logo que de forma autónoma nos locomovamos desatamos
a gatinhar atrás das galinhas e outros rabos da capoeira à procura de
companheiros de brincadeira. Aos primeiros passos, espreitamos os grilos nos
lameiros e a curiosidade faz-nos subir à copa das árvores para descobrir os
ninhos. Muito púberes saltamos para cima
do burro ou os mais sortudos para a garupa do cavalo e aí vamos passear pelo
campo e a sonhar aventuras de cobóis. Nos passeios pelo campo aprendemos a
defender-nos dos animais que nos podem fazer dano e a respeitar as distâncias
dos que prezam a insubmissão. Todos, ou quase todos, aprendemos a respeitar os
bichos pelo prazer da companhia, a dependência reciproca numa luta igual pela
vida e a liberdade.
Então é hora de escrever, que gosto dos animais e serei
sempre contra qualquer forma de abandono e maus-tratos, e por isso sinto
indignação pelo gato chamuscado na aldeia do Mourão. Porém, nesta história da
"Queima do Gato" confesso algumas irritações.
A primeira é a de colar esta chamada barbárie ao
"pacóvio" do aldeão, em comparação à suprema civilidade do citadino.
Esse mesmo fulano que mantém silêncio quando esconde a miséria humana em guetos
residenciais; que mostra um indisfarçável enfado pela insistência diária do
pedido de uma moeda no estacionamento da praça; que chuta caixas de cartão,
único lar dos sem-abrigo, da entrada do prédio onde habita; que aprisiona
pássaros, passarinhos e passarocos em minúsculas gaiolas; que enclausura cães e
gatos numa varanda de um metro quadrado e os abandona todos os verões no ermo
ou na estrada bem distante…
Uma outra exasperação é a quantidade de desaforos para as
gentes da aldeia vertida na forma de insultos nas redes sociais, nos
depoimentos entusiastas e militantes de virtude e moral dos programas de rádio
e televisão. São esses paladinos da ética que exigem uma fogueira para uma
aldeia inteira em troca da remissão de um pecado e de uma tradição idiota, mas
que nunca teve por objetivo queimar o pobre gato. Apetece-me lembrar-lhes as
palavras do Nazareno: “aquele que nunca pecou atire-lhe a primeira pedra”...
Para terminar, é sempre bom lembrar a desproporção da
natureza do ato, lamentável sem dúvida, perante situações mais preocupantes da
condição humana e que toma índices alarmantes da convivência misericordiosa: o
abandono dos idosos nos hospitais e lares de terceira idade, a violência
doméstica, o genocídio perpetrado no terrorismo e na bem atual falta de
acolhimento dos apátridas.
Pois salvem os gatos, mas não se esqueçam também de salvar
alguns homens.
05 julho 2015
O direito a mijar fora do penico do sistema: Helder Carvalho
Possivelmente Carlos Fernandes terá tido uma infância feliz.
Conheci o seu voluntarismo e empenho a trabalhar quando se tornou assistente na
monitorização de um curso de cerâmica em que participamos. Também soube da sua
dedicação ao escutismo que, como sabemos esteve muito activo na nossa terra.
Ali terá alicerçado os seus ideais de obediência às regras e devoção aos
Chefes. Paralelamente tentou sempre aprender mais e não consta que não venha
sendo um bom chefe de família. Quando para resolver o problema de todos os que
por aqui insistem em manter-se, o Sr. Presidente da Câmara de então, impôs a
sua entrada para os quadros do Município eu, na altura com algumas
responsabilidades, questionei-o sobre que encargo lhe iria destinar. E quando
considerei que, para fiscal ao serviço já havia muitos, do alto da sua cátedra o
Sr. Presidente assumiu que seria um fiscal para controlar os desmandos do ambiente.
Não consegui contra-argumentar. E assim nasceu em Carrazeda mais um fiscal que
nunca terá fiscalizado o que devia, porque julgo que nunca terá sido preparado
para tal. Isto porque não consta que alguma vez tenha sido feita uma
fiscalização séria aos erros ambientais e me dizem que o Carlos era drástico a
impor-se na fiscalização das leis que regem o urbanismo, leis essas que lhe
cumpria selar e que naturalmente não tinha sido ele a criar. A tal ponto que se
tornava um terror para o poder instalado em período de campanha eleitoral. Não
sei o que terá sido que lhe mudou a agulha. Terão sido as incongruências que
tivera que engolir! Terão sido as desconsiderações! O certo é que desta vez o
Carlos decidiu mijar fora do penico. Este gesto é imperdoável e o Carlos, com o
longo percurso que já levava de zeloso e obediente trabalhador autárquico devia
saber isso. Devia ter-se lembrado por exemplo de outro Carlos também Fernandes
cuja vida de funcionário autárquico foi um inferno, só por ser socialista.
O destino do Carlos ficou assim traçado. Passou a integrar o
quadro dos excedentários e foi aprender a fazer tricô para a Piscina Municipal.
Dizem-me que ainda se esforçou por aprender mas consta que a superior
hierárquica exigia antes que ele executasse “manicura”. Possivelmente não lhe
valeu ter recordado um passado impoluto e temente ao senhor, quando tentou
reaver a dignidade perdida e assim o Carlos soçobrou.
Esta história terá portanto continuidade já que haverá
alguns que a partir de agora gostarão de conhecer os capítulos seguintes.
Iremos tentar corresponder às expectativas.
Iremos por exemplo tentar explicar de que outro modo se
poderá planear o quadro de excedentários do Município, o enredo de eventuais
processos judiciais pendentes sobre o assunto do Carlos, como evolui o seu
estado de saúde, qual a moralização das tropas que actuam no cenário que se
descreve, a opinião do contraditório, etc.
Helder Carvalho
03 julho 2015
Projecto de Resolução contra introdução de portagens na A4 chumbado na Assembleia da República
Para registo futuro, conquanto a memória não é uma das boas qualidades do povo transmontano!
"Foi chumbado o Projecto de Resolução do Partido Ecologista Os Verdes contra a introdução de portagens na A4 na Assembleia da República. Os deputados da maioria parlamentar, CDS e PSD votaram contra, tendo obtido os votos favoráveis do PS, PCP, Bloco de Esquerda e Partido Ecologista Os Verdes..."
Daqui
"Foi chumbado o Projecto de Resolução do Partido Ecologista Os Verdes contra a introdução de portagens na A4 na Assembleia da República. Os deputados da maioria parlamentar, CDS e PSD votaram contra, tendo obtido os votos favoráveis do PS, PCP, Bloco de Esquerda e Partido Ecologista Os Verdes..."
Daqui
30 junho 2015
Uma região com história 3
A companhia geral de agricultura e das vinhas do alto douro
A partir de 1740 o sector dos
vinhos do Alto Douro entra em crise.
Na opinião de Jorge de Macedo as
causas podem-se encontrar na concorrência em Inglaterra dos vinhos de outras
regiões portuguesas, no desenvolvimento do comércio vinícola com o Brasil que
provocaria a degradação da qualidade do produto e ainda uma baixa de produção
entre 1750 a 1755 o que levou também a uma redução drástica da exportação (de
1716 a 1749 a exportação atingiu as 19 000 pipas, de 1750 a 1753 decréscimo
para 16 000 pipas e de 1754-56 apenas 13 000 pipas; Se as exportações
diminuíram 30%, os preços no mesmo período diminuíram 80% (!). A adição de baga
de sabugueiro e de outras especiarias orientais para corresponder aos paladares
ingleses é também fator segundo vários autores para o descrédito do vinho do
Alto Douro.
Nas semanas que se seguiam à
vindima, normalmente feita nos fins de Setembro ou em Outubro, os exportadores
ingleses ou os seus corretores portugueses costumavam deslocar-se ao Alto
Douro, onde inspecionavam os vinhos novos e efetuavam as suas encomendas.” A
ganância de alguns e o descrédito do vinho do Douro e a baixa produção dinamizaram
a procura em outros locais do país. Acresce a pouca regulamentação existente
que instalava o caos no sector. Se a qualidade não tinha garantia os preços
sofriam as regras duras do mercado não regulado “Os vinhos do Douro corriam o
risco de se dissolverem economicamente numa região vinícola nacional,
desaparecendo o privilégio natural do seu quase exclusivo na exportação; a
região e os seus vinicultores estavam ameaçados de perder a preponderância no
mercado de vinhos.” A crise atinge muitas famílias da região. A fome, a doença
e o aumento da mortalidade proliferam.
Vários fatores se conjugavam para
uma urgente regulamentação e estiveram na origem da Companhia: a necessidade
sentida pelos operadores portugueses e o poder real de retirar o controlo do
comércio dos vinhos aos ingleses; a preocupação sentida da defesa da
integridade e qualidade dos vinhos combatendo-se o contrabando e os
“taberneiros” da Invicta que os “adulteravam” para defesa da saúde pública,
numa palavra lutar contra o deterioramento da reputação do vinho do Alto Douro;
e a decadência assustadora dos rendimentos da produção.
Deveremos atender à reforma profunda
do País protagonizado pelo Marquês de Pombal que não se adequava a este
desnorte e desorganização. Esta reforma visava a criação de uma burguesia nacional
forte, o combate aos interesses estrangeiros (particularmente dos ingleses) com
a receita mercantilista e monopolista, implementando todo um conjunto de “medidas de um poder do Estado
intervindo na luta da concorrência comercial entre vários produtores vinícolas
nacionais.” A criação da Companhia constituía o processo predileto de Pombal
contra os inoportunos comerciantes ingleses com quem tanto antipatizava [...] o
seu principal objetivo era destruir o monopólio inglês.” Bastava um clique para
se desencadear o processo.
Reafirma-se que, nesta época, o
vinho do Porto tornara-se a bebida obrigatória das classes alta e média de
Inglaterra e como escreveria, mais tarde, Croft em 1788 “Um inglês de certa
linhagem e posição não pode dispensá-lo depois de um bom jantar.” Os ingleses virão
a ser os principais prejudicados com a conceção da Companhia e o próprio
marquês nunca negou que eles eram dos principais visados.
Estava tudo pronto para
verdadeira revolução no Douro, mas esta não foi feita de veludo, nem pacífica,
pois muito sangue havia de correr, como iremos ver.
27 junho 2015
Anomalias na Barragem do Tua
A Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) fez mais uma inspecção ao estaleiro da barragem do Tua e detectou “excesso de tempos de trabalho e problemas de segurança”.
Apresentou ainda “45 notificações para tomadas de medidas e seis autos de notícia de segurança e saúde no trabalho”.
21 junho 2015
30 maio 2015
Uma região com história 2
São largos os vestígios da
ocupação romana da região e da correspondente exploração vinícola. “O vale do
Douro constitui um corredor de povos e culturas, que, pelo menos desde a
período da romanização desenvolveram a cultura da vinha”. As descobertas
arqueológicas têm revelado fragmentos de cerâmicos associados ao armazenamento
de vinho, inúmeras lagaretas cavadas na rocha (ver gravura 3), vestígios de
lagares e mesmo de adegas que reportam aos séc. III e IV que atestam a
viticultura e a vinificação da época romana.
Para
uma compreensão de toda a dimensão duriense é necessário ter em conta esta
acumulação de culturas e influências diversas.
As sucessivas conquistas aos
mouros e a consolidação do território a que viria a chamar-se Condado
Portucalense, propiciou uma atenção dos reis de Leão na concessão de
privilégios às populações da região do Douro que se concretizou na necessidade
da concessão de um foral a um conjunto de povoados da bacia norte e sul do
Douro: S. João da Pesqueira, Ansiães, Linhares, Paredes e Penela; pois o vale
pressupunha fragilidade às investidas mouriscas e a distribuição de privilégios
garantiria a fidelidade das populações e evitaria que se unissem ao inimigo.
As primeiras cartas forenses do
rei Fernando Magno (séc. XI) doadas a Ansiães, S. João da Pesqueira, Penela,
Paredes e Linhares são os documentos mais antigos referentes a territórios que
hoje constituem o nosso país, estabelecem como imposto de “parata regis” uma
paga em géneros para as despesas do palácio “duos panes uno de tritico et alio
de centeno et uno almude de vino et alium de cevada” (dois pães de trigo e
outro de centeio e um almude de vinho e outro de cevada) por cada vizinho
(família na mesma habitação).
Em finais da idade Média
intensificam-se as trocas comerciais, acelera-se o povoamento e desenvolve-se a
agricultura. Nascem e crescem vilas e cidades principalmente as muralhadas
(Freixo de Espada à Cinta, Torre de Moncorvo, Vila Nova de Foz Côa, Vila Flor,
Ansiães, Freixo de Numão, Lamego, etc.) A instalação de diversas ordens
religiosas predominantemente os monges de Cister dão grande contributo à
produção, melhoria de qualidade do vinho e comércio que se faz exclusivamente
pelo rio Douro até á foz em Gaia e no Porto. São exemplos desta atividade
vitivinícola os mosteiros de Salzedas, S. João de Tarouca e S. Pedro das
Águias. A este período de expansão do vinhedo não é alheio o movimento de
senhorialização a que se assiste no séc. XII e XIII, que consiste, grosso modo,
no poder dos nobres sobre extensos territórios,.
Em
1254 o conflito entre o rei D. Afonso III e o bispo do Porto D. Julião por via
do desembarque das mercadorias dos barcos que desciam o Douro termina na
sentença régia que determina que dois terços dos barcos descarreguem no Porto e
um terço em Gaia.
Em 1502, D. Manuel manda demolir
os canais de pesca no rio Douro para facilitar a navegação desde a Pesqueira
até ao Porto. A navegação a montante do rio é completamente impossível devido
ao Cachão da Valeira. A produção de vinha a montante deste rio revela-se muito
problemática e é incipiente devido a este facto e à dificuldade do transporte.
Em 1552, o cronista Rui Fernandes
escrevia que os vinhos de Lamego eram “os mais excelentes vinhos e de mais dura
que no reino se podem achar, e mais cheirantes, porque há vinhos de 4, 5, 6
anos e de quantos mais anos é, tanto mais excelente, e mais cheiroso.”
Ainda no séc. XVI, João de Barros
refere na sua geografia de entre Douro e Minho e Trás-os-Montes os vinhos de
qualidade produzidos nas terras próximas do Douro e em Pinhão.
A partir do séc. XVII, o cultivo
da vinha e a produção do vinho tem um grande incremento com o estabelecimento
no Porto de diversos negociantes ingleses, flamengos e hamburgueses para daí
exportarem vinhos do Douro. Em meados deste século negociantes e produtores de
vinhos do Douro manifestam-se contra a Câmara do Porto por esta pretender
aumentar os impostos sobre os vinhos que entravam na cidade.
No último quartel do século XVII surgem dois pormenores que
hão de marcar etimologicamente e em termos de qualidade o néctar das uvas do
Douro. Em 1675 surge, pela primeira vez, a expressão “vinho do porto” no
discurso sobre a introdução das artes no reino, da autoria de Duarte Ribeiro de
Macedo. Em 1678 um inglês refere a junção de aguardente aos vinhos de embarque.
Esta serviria para garantir a não deterioração nas grandes viagens marítimas e
terrestres a que era submetido.
A celebração do tratado de Methwen em 1703 e a diminuição
dos impostos sobre os vinhos portugueses contribui para um grande incremento
das exportações.
No século XVIII, a partir da
década de 30 e até à década de 50 assiste-se a fraudes generalizadas que põem
em causa a qualidade do produto e a sua comercialização o que leva alguns
exportadores e produtores entre os quais o Dr. Beleza de Andrade, D. Bartolomeu
Pancorbo e Frei João de Mansilha a iniciarem um processo que culmina na criação
da Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro que é instituída por
Alvará Régio de 10 de Setembro de 1756. Como diz António Barreto é este o “ato
fundador” da atual região.
27 maio 2015
Uma região com história
A Região
Demarcada do Douro estende-se por 250 000 hectares, e a plantação de vinha
ocupa cerca de um quinto dessa área. Divide-se em três zonas distintas: a
oeste, o Baixo Corgo, no centro o Cima Corgo, a leste o Douro Superior e dela
fazem parte 22 municípios. Aí se produzem os vinhos correspondentes às
denominações de origem “Porto” e “Douro.
O Alto Douro estende-se pelo vale do rio Douro a partir de
Barqueiros, cerca de 100 km a montante do Porto até Barca de Alva e pelos vales
dos seus afluentes, entre eles, Tua, Corgo, Torto, Pinhão... Abrigada dos
ventos por altas serranias é essencialmente constituída por xistos. É um
território agreste, ardente no Verão e frio no Inverno.
No entanto, apenas 24
mil hectares foi classificado pela UNESCO como Património Mundial, ou seja, um
décimo dessa área, que engloba treze concelhos, sendo Carrazeda de Ansiães é um
deles.
O território do Alto Douro Vinhateiro integra o vale do
Douro citado, que já é considerado Património Mundial nos seus extremos,
nomeadamente a zona ribeirinha do Porto, e no lado oposto o Parque Arqueológico
do Côa.
A acrescentar à principal cultura da vinha que produz os
afamados associa-se o azeite e a amêndoa. À importância da região acresce a
fauna deste espaço natural, onde se incluí o Parque Natural Arribes del Duero,
em zona espanhola, sobretudo no que diz respeito às grandes aves de rapina, e à
cegonha negra. As vertentes escarpadas desta área oferecem a tranquilidade
necessária para albergar as inúmeras aves que aqui se reproduzem, como o Grifo,
o Abutre do Egipto, símbolo do Parque Natural do Douro Internacional, a
Águia-real, a Águia de Bonelli, a Águia Cobreira e a Cegonha-preta. Importantes
populações de mamíferos podem também ser encontradas neste parque: o lobo, o
corço, o javali, a lontra, a raposa, o coelho selvagem, entre outros.
Sendo os bosques de Carrascos (Quercus rotundifolia) os mais
representativos encontramos também os sobreirais (quercus suber), os zimbrais
(juniperus oxycedrus) e os carvalhais de carvalho negral (quercus pyrenaica).
Proliferam ainda um conjunto de arbustos característicos: as estevas, as
giestas, as cornalheiras, as lavandas e as urzes, conjuntamente com salgueiros
e amieiros que aparecem junto das linhas de água.
Do alto das serranias, vem o coelho, a perdiz e o javali,
tornando esta região um ponto de encontro para quem se dedica à caça. Dos rios
e riachos chegam às mesas os barbos, as bogas, os escalos, as enguias, o sável,
a tenca e a carpa. Terra do bom comer e bom beber, a região pode oferecer a
quem chega um magnífico cardápio: cabrito assado, pratos de caça, presunto,
alheiras, trutas com presunto, carne assada de porco (a famosa marrã), carnes
de porco fumado; e doçaria variada: pão-de-ló, celestes, chila no forno,
rosquilhas, bolinhos de amor.
As fortes tradições de recreação têm visibilidade nas
inúmeras e dispersas romarias, nas festas religiosas anuais (Natal, Janeiras,
Reis, Páscoa...) e nos trabalhos agrícolas principalmente as vindimas.
A paisagem do Douro é toda ela de enorme atrativo. Das
cercanias serranas às margens do rio, da beleza da giesta selvagem aos socalcos
da videira domesticada, passando pelas amendoeiras e cerejeiras em flor
desdobra-se esta paisagem singular em cambiantes múltiplas.
O Alto Douro é um exemplo significativo da construção de uma
paisagem a que concorreram várias civilizações e povos e em que o vinho foi
sempre traço de união. A história da cultura do vinho no Alto Douro é muito
antiga e reporta à pré-história como o atesta a descoberta de vestígios de
grainhas de “vitis vinifera” na estação arqueológica do Buraco da Pala, no
regato das Bouças, perto de Mirandela e datadas do século XX a.C. Este
“intercâmbio de influências culturais diversas, continuamente sobrepostas,
configurou um espaço de sincretismo cultural quer no imaginário coletivo
tradicional, quer nos vestígios arqueológicos”, como se dizia no texto da
apresentação da candidatura a património mundial e que merece um próximo olhar
com revelações porventura surpreendentes.
25 maio 2015
Que não caiam em saco roto
O único episódio dos Evangelhos, que recordo, em que Jesus utiliza a força física é o da expulsão dos vendilhões do templo.
Nesta ocorrência, Jesus e seus discípulos viajam a Jerusalém para celebrar a Páscoa judaica. Aí chegado, expulsa os cambistas do Templo de Jerusalém, acusando-os de tornar o local sagrado numa cova de ladrões através das suas atividades comerciais.
O bispo de Bragança, José Cordeiro ao aproveitar o dia em que se assinalam os 470 anos da fundação da diocese, pega no chicote da sua escrita e divulga uma nota pastoral, em que não poupa alguns mordomos e comissões de festas religiosas.
Pode ler-se: "Algumas organizações ou comissões de festas chegam até a contradizer o Evangelho e a fé da comunidade cristã devido ao desequilíbrio, às vezes escandaloso, nos seus gastos com os elementos exteriores, entre eles a excessiva quantidade de foguetes ou as somas avultadas para conjuntos musicais".
Ressalvando que, "muitos mordomos e comissões de festas religiosas populares dedicam-se de alma e coração ao serviço deste espírito genuinamente cristão que envolve" estas festas, no entanto verifica, que "alguns mordomos e comissões de festas se movem mais nas vertentes económica e lúdica das festas do que na sua dimensão cristã fundamental".
D. José Cordeiro alerta para a necessidade de um maior "cuidado com a gestão das esmolas, salientando bem que as coletas (ofertórios) e as promessas levadas ao altar da eucaristia devem reverter exclusivamente para o culto, a evangelização e a caridade".
O bispo de Bragança-Miranda refere ainda que se mantêm atuais as disposições relativas à prestação de contas e ao destino das receitas das festas. Todavia, "algumas organizações ou comissões de festas chegam até a contradizer o Evangelho e a fé da comunidade cristã devido ao desequilíbrio, às vezes escandaloso, nos seus gastos com os elementos exteriores, entre eles a excessiva quantidade de foguetes ou as somas avultadas para conjuntos musicais"
Que não caiam em saco roto
Nota pastoral aqui
O bispo de Bragança, José Cordeiro ao aproveitar o dia em que se assinalam os 470 anos da fundação da diocese, pega no chicote da sua escrita e divulga uma nota pastoral, em que não poupa alguns mordomos e comissões de festas religiosas.
Pode ler-se: "Algumas organizações ou comissões de festas chegam até a contradizer o Evangelho e a fé da comunidade cristã devido ao desequilíbrio, às vezes escandaloso, nos seus gastos com os elementos exteriores, entre eles a excessiva quantidade de foguetes ou as somas avultadas para conjuntos musicais".
Ressalvando que, "muitos mordomos e comissões de festas religiosas populares dedicam-se de alma e coração ao serviço deste espírito genuinamente cristão que envolve" estas festas, no entanto verifica, que "alguns mordomos e comissões de festas se movem mais nas vertentes económica e lúdica das festas do que na sua dimensão cristã fundamental".
D. José Cordeiro alerta para a necessidade de um maior "cuidado com a gestão das esmolas, salientando bem que as coletas (ofertórios) e as promessas levadas ao altar da eucaristia devem reverter exclusivamente para o culto, a evangelização e a caridade".
O bispo de Bragança-Miranda refere ainda que se mantêm atuais as disposições relativas à prestação de contas e ao destino das receitas das festas. Todavia, "algumas organizações ou comissões de festas chegam até a contradizer o Evangelho e a fé da comunidade cristã devido ao desequilíbrio, às vezes escandaloso, nos seus gastos com os elementos exteriores, entre eles a excessiva quantidade de foguetes ou as somas avultadas para conjuntos musicais"
Que não caiam em saco roto
Nota pastoral aqui
23 maio 2015
Lemos:Pousada da Juventude de Bragança vai ser concessionada a privados.
Alguém comentou: "tem servido com excelência o concelho e toda a região. Foi das últimas a ser construída, apresenta das maiores taxas de ocupação de todo o país mas, pelos vistos, apresenta um problema geográfico irreparável que é não se situar no litoral. Esta é uma discriminação clara”.
Outro respondeu: “Entendemos que a Pousada da Juventude tem vindo a desempenhar um papel importante e continuará a fazê-lo quer seja concessionada, quer seja da responsabilidade da Movijovem”
Conclui-se: Aqui há gato escondido com o rabo de fora.
"...o Estado tem de garantir justiça a todos os cidadãos e a todas as regiões. As diligências judiciais devem se efectuadas nos concelhos onde ocorreram os factos"
Marinho Pinto
Marinho Pinto
27 abril 2015
1929
(a propósito da homenagem do senhor Américo Ribeiro)
No ano de 1929
nasceram:
A 15 de Janeiro o Rev.
Martin Luther King Jr., líder americano de direitos civis e Nobel da Paz 1964
(m. 1968). A 12 de junho - Anne Frank, vítima alemã do Holocausto e
mundialmente conhecida após a publicação póstuma de seu Diário (m.1945) e a 24
de Agosto, Yasser Arafat, líder palestino (m. 2004).
E faleceram: a 4 de
Abril - João Franco, político e estadista português (n. 1855). A 17 de dezembro
- Manuel de Oliveira Gomes da Costa, militar, político e presidente da
República Portuguesa em 1926 (n. 1863).
Neste último ano da
década de 20, Thomas Mann, autor de Morte em Veneza, ganha o prémio nobel da
literatura.
Um pouco antes, em abril
de 1928, com 38 anos, Salazar toma posse como ministro das Finanças e termina o
discurso de posse com uma frase sobejamente conhecida. “Sei muito bem o que
quero e para onde vou mas não se exija que chegue ao fim em poucos meses”. Tempo
não lhe faltaria para transformar o país em 42 anos de exercício do poder. Em
finais de 1929, anuncia ao país e pede desculpa aos seus delatores pelo saldo
positivo no orçamento de estado de 300 000 contos. O êxito nas Finanças
Públicas são o principal trampolim para a chefia do Governo em 1932 e para a
criação no ano seguinte do chamado Estado Novo. O prestígio alcançado irá
usá-lo para congregar em torno de si e do seu projeto nacionalista e
autoritário todas as direitas, cativando ou liquidando os opositores.
“Tudo pela nação,
nada contra a nação” é o lema. O país dispunha assim de um plano messiânico
para um futuro risonho. O modelo foi encontrado no passado, os acontecimentos
heroicos e os chefes exemplares, passaram a “alimentar as grandes certezas da
alma coletiva”. A obediência, isto é, o respeito pela hierarquia social
constituir-se-ia como a virtude fundamental. A resignação, e a caridade, a
disciplina, a piedade, o trabalho, o patriotismo e a vida familiar rural. A
escola torna-se um aparelho de doutrinação bem presente na circular distribuída
em 1934, “a escola é o viveiro de que uma sociedade dispõe para cultivar os
valores éticos e ensaiar o homem que lhe convém”. A educação intelectual do
liberalismo e a educação para a cidadania da República é substituída pela
doutrina cristã, fulcro da verdadeira virtude; o sistema escolar assume-se
claramente discriminatório. Antes do aparecimento do livro único, aprovam-se em
março (19) de 1932 com publicação em anexo no Diário da República, as máximas
seguintes: “obedece e saberás mandar”, “na família, o chefe é o pai, na escola,
o chefe, é o mestre, no estado, o chefe é o governo”; “se tu soubesses o que
custa mandar, gostarias mais de obedecer toda a vida”. O consequente aparecimento
do livro único tornou a doutrinação mais evidente e organizada.
Para assinalar os dez anos de governo de
Salazar, é editada, em 1938, uma série de sete cartazes intitulada “A Lição de
Salazar”, distribuída por todas as escolas primárias do país. Estes cartazes
faziam parte de uma estratégia de inculcação de valores por parte do Estado
Novo, destinando-se a glorificar a obra feita até então pelo ditador, desde o
campo económico-financeiro às obras públicas. Durante muitos anos, estes
cartazes didáticos foram utilizados como forma de transmitir uma ideia central:
a superioridade de um Estado forte e autoritário sobre os regimes demoliberais.
Para acentuar a importância do Estado Novo enquanto garante da ordem e
progresso do país, os cartazes fazem uma comparação sistemática entre a obra do
regime salazarista e a 1ª República: à desorganização económica e financeira e
ao alheamento do Estado democrático e liberal republicano face aos problemas do
país, sucede a organização financeira, a melhoria das vias de comunicação, a construção
de portos, o ordenamento e progresso social promovidos pelo Estado Novo. Os
cartazes acentuam esta ideia a partir de uma imagem cinzenta e triste da época
da 1ª República, enquanto o “depois” da obra salazarista nos aparece colorido,
organizado, moderno.
Este projeto
ditatorial terá o seu pico na celebração em 1940 da exposição do Mundo
Português, celebrando-se um triplo centenário. a fundação de Portugal (1140), a
restauração da independência (1640) e o chamado pico da expansão marítima
(1540):. Salazar alude ao evento como, “uma síntese da nossa ação civilizadora,
da nossa ação na História do Mundo, mostrando, por assim dizer as pegadas e
vestígios de Portugal no globo.” Esta foi a imagem ideológica dos portugueses,
um povo humilde e respeitador da ordem pública, vivendo num lugar idílico,
tocado pelo sagrado e predestinado. No dizer de Eduardo Lourenço, “Um país sem
problemas, oásis da paz, exemplo das nações, arquétipo da solução ideal que
conciliava o capital e o trabalho, a ordem e a autoridade com um desenvolvimento
harmonioso da sociedade”.
Entretanto, nos EUA,
em outubro de 1929, ocorre a chamada Quinta-Feira Negra. Este foi o crash do
mercado de ações mais devastador na história, levando em consideração a
extensão e a duração das suas consequências. Bancos e fábricas faliam, muitas
pessoas perderam o emprego, levando algumas ao suicídio e os efeitos da crise
espalharam-se pelo mundo. O facto marcou o início de 12 anos da Grande Depressão,
que afetou todos os países ocidentais industrializados. Em Espanha cai o rei, a
14 de Abril de 1931. Na Alemanha, nas eleições de Julho de 1932, o partido nazi
de Adolfo Hitler com 37,3% dos votos ascende ao poder com as consequências
conhecidas. Nos EUA, Roosevelt, eleito em 1933, inaugurava as “conversas à
lareira” para explicar a sua política em palavras simples e com o seu programa
denominado NEW DEAL, apoiado no investimento público e nas grandes obras
públicas regenera a economia.
Em Carrazeda, a 15
de abril de 1929, um incêndio destrói a casa de habitação, haveres e
estabelecimento comercial de António dos Santos Moura com prejuízos estimados
em 200 contos. Nesse mesmo ano realizam-se espetáculos para angariação de uma
bomba e de um motor e oficializam-se os estatutos dos Bombeiros Voluntários. A
15 de Agosto, a Comissão Administrativa da Câmara Municipal decide mandar
construir um campo de aviação no sítio denominado “Pedra do Sapato”, limite da
vila, e destinado à Aeronáutica Militar. Em 1930 forma-se uma comissão para
instalar na vila os Bombeiros Voluntários. A 6 de fevereiro desse ano e depois
de uma petição assinada por muitas pessoas delibera fixar três feiras mensais
nos dias dez, vinte e trinta. A 24 de Julho, a pedido dos Bombeiros, determinou
ceder a título gratuito os baixos do Posto de Socorro médico-cirúrgicos, onde
ensaiava a Filarmónica para ali se instalar o material contra incêndios que a
instituição possuía. Em 1931 sai a público o livro, Carrazeda de Ansiães, notas
monográficas de D. Cândida Florinda Ferreira.
Enquanto isso, no
país, alguns banham-se na praia, se bem que a exibição dos corpos deva subordinar-se
ao respeitinho. As praias começam a ser preferidas às termas e acrescentam-se
500 km à rede de estradas.
Em 18 de Junho de
1931, estreia o primeiro filme falado português, a Severa, de Leitão de Barros.
Em 1931 estreia-se como realizador Manuel de Oliveira, com o documentário,
Douro Faina Fluvial, mal acolhido pela crítica nacional. Dois anos depois
estrearia o grande êxito a canção de Lisboa.
Em 1927 realiza-se a
I Volta a Portugal em bicicleta, que só terá reedição três anos depois por
falta de organizador. José Maria Nicolau (vencedor em 1931 e 1934) e Alfredo
Trindade (vencedor em 1932 e 1933) protagonizaram uma das primeiras rivalidades
da Volta, fazendo vibrar o país, disputando cada volta até à última gota de
suor. Em 1929, o Benfica vence o campeonato nacional, antecessor da Taça de
Portugal, batendo o Barreirense por 3 a 1. Era disputado em sistema de
eliminatórias que o Porto iniciou como vencedor na década de 1920/21.
Os contestatários ao
regime, particularmente os comunistas, acossados pela polícia inventam uma
forma de fazer-se ouvir: os comícios relâmpagos: gritavam-se uns vivas e
morras, desfraldava-se uma bandeira vermelha, e em passo de corrida fugia-se à polícia.
A população
portuguesa crescia a uma taxa de 1,32% por ano, uma das mais elevadas da
Europa, para se situar nos 6 825 883, dos quais mais de metade eram
analfabetos: 4 627 988. Também se morria muito e cedo: a tuberculose e a
pneumónica, tornaram-se uma calamidade nacional; a taxa de mortalidade infantil
situava-se acima dos 130 falecidos por 1000 nascimentos.
De meados do séc.
Xix até ao final do século tínhamos evoluído de 7 dias uma viagem entre Porto e
Lisboa de liteira puxada por dois machos para as 14 horas de comboio a vapor e
cerca de metade para viajar de Porto a Barca de Alva.
Como já escrevi
noutro lugar, “mourejava-se de sol a sol na busca do pão nosso de cada dia,
numa luta titânica com a terra e as fragas que se cavavam em redor mesmo
sabendo que nada produziriam. Sempre que a necessidade obrigava, emigrava-se
para terras estranhas e ganhava-se dinheiro no mesmo mourejar com que partiram
e regressavam ufanos e remediados, edificavam quatro paredes, compravam uma
courela e continuavam a cavar a vida inteira.” Sem televisão, rádio e cinema, a
taberna e o adro da igreja eram os locais de passar algum tempo livre. A
filarmónica e a tuna onde pontuavam a viola e o acordeão acendiam as alegrias
coletivas…
26 março 2015
Mário Vasco Fernandes, cientista que ajudou a criar a vacina da raiva, é pintor e expõe em Carrazeda de Ansiães
Médico de profissão, Mário Vasco
Fernandes estudou pintura e desenho em vários centros particulares e na
Academia de Arte de Paris, passando a dedicar-se exclusivamente à pintura
quando se reformou da Organização Mundial de Saúde, onde trabalhou entre 1965 e
1989.
O médico, cientista e pintor, vive atualmente em Parambos,
aldeia do concelho de Carrazeda de Ansiães, mas foi em Filadélfia, Washington e
Rio de Janeiro que fez todo o seu percurso profissional.
Foi um dos três virulogistas que criaram a vacina da raiva
que substituiu a descoberta de Pasteur e foi um quadro superior da Organização
Mundial de Saúde durante 30 anos.
Mário Vasco Fernandes criou também o instituto que conseguiu
a erradicação da febre aftosa na américa do sul, dirigiu depois a instituição
que coordena a saúde em toda a América Latina, cujos países conheceu
pormenorizadamente.
Publicou cerca de 100
trabalhos em revistas científicas, tais como Nature, Texas Report on Biology
and Medicine, Journal of Experimental Medicine, entre outras publicações de
referência mundial.
Estudou pintura e desenho em escolas particulares durante o
Liceu e a Universidade e na Academia de Arte Livre de Paris em 1954 e 1955.
Reformado e com 73 anos, dedica-se agora à pintura e à
produção de vinho na terra de onde a sua família era originária.
A sua pintura versa sobretudo sobre temas do Nordeste Transmontano,
tendo a casa do Beco, quadro de apresentação desta exposição, marcado de forma
indelével o seu percurso artístico com um inequívoco retorno às raízes e um
regresso emocionado a Trás-os-Montes.
Enquanto artista
participou em várias exposições coletivas e individuais de onde se destacam as
realizadas no Instituto Pasteur em Paris (1955), Salão de Exposições da
Faculdade de Medicina da Universidade do Texas em Galveston, Texas, Estados
Unidos da América (1959), «Exhibit Hall» da Organização Mundial da Saúde em
Washington, D.C., Estados Unidos da América (1977), Galeria Páteo das Artes em
Lisboa (1992), Galeria «Inn Art» em Lisboa (1994), Galeria Multiface em Lisboa
(1994), Salão de Exposições da Câmara Municipal de Carrazeda de Ansiães (1994)
e da Câmara Municipal de Caminha (1995), Salão de Exposições do Centro Galego
em Lisboa (1995), Forum Picoas em Lisboa (1995), Galeria Penta - Lisboa (1995),
Galeria Le Meridien-Park Atlantic - Lisboa (1998), no Atelier da casa de
Parambos (2000), Coisas do Arco do Vinho no Centro Cultural de Belém (2003),
Academia do Vinho no Vintage House - Pinhão (2004), Centro Cultural Municipal
de Bragança (2005).
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19 março 2015
Salvem-se os sapos: Helder carvalho
Que é dos sapos?
Dizem-me que tarda em chover e eu preocupo-me com os sapos.
Estes anfíbios costumavam aparecer com a chuva. Já alguém viu algum!? Se houvesse uma comparação possível entre um carrazedense como eu e um simples animal talvez a comparação pudesse ser com o sapo. Bicho inofensivo, como por exemplo o burro, que não precisa de ser carnívoro para se alimentar, o sapo é adulador mas também inofensivo. Quando enfuna é só para se ver enfunado, reflectido no charco. Não sei quais são os inimigos do sapo, mas dá a ideia que anda sempre assustado. Nem mesmo a pata do burro, que, quando desatento o pisa lhe dá a vontade de avançar mais rápido. O sapo não sobressai, vive na penumbra gramando a vida.
A falta de chuva preocupa outros, por outras razões. Por exemplo os nossos produtores de maçã, de certeza que recordam a última vez que choveu. De certeza que sonharam na altura com aquela ideia de haver maneira de se ter retido a água que correu em direcção ao rio. Para a rega das macieiras, só se justifica uma barragem de rega agrícola se não chove. Acreditemos então que a chuva chegará a tempo, para regar as macieiras e por tabela se criarão condições também para a protecção dos sapos. Contudo se a prioridade para mim e para os muitos ecologistas que os há, é a preservação da espécie – sapo, talvez se esteja a preparar para breve um ecossistema paradisíaco para eles. Refiro-me à edificação do Campo de Futebol do Carrazeda. Estou convencido de que naqueles intervalos em que o relvado estiver disponível, este será um paraíso para os nossos sapos de estimação.
Para finalizar procurei um poema adequado, mas não consegui encontrar nenhum que estabelecesse a relação entre macieiras e sapos.
Paciência.
Os Sapos
Manuel Bandeira, 1918
Enfunando os papos,
Saem da penumbra, Aos pulos, os sapos. A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi: - "Meu pai foi à guerra!" - "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".
O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado, Diz: - "Meu cancioneiro É bem martelado.
Vede como primo
Em comer os hiatos! Que arte! E nunca rimo Os termos cognatos.
O meu verso é bom
Frumento sem joio. Faço rimas com Consoantes de apoio.
Vai por cinquüenta anos
Que lhes dei a norma: Reduzi sem danos A fôrmas a forma.
Clame a saparia
Em críticas céticas: Não há mais poesia, Mas há artes poéticas..."
Helder Carvalho
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16 março 2015
400 Eufóricos da Grei: Helder Carvalho
Foi empolgante acompanhar as notícias e comentários,
observar o ar garboso e a pose entusiasta dos comentadores e comentados, a
classe com que se discutiu e defendeu o evento.
Avaliados os resultados, louvem-se os indicadores de
aderência e receptividade.
O povo estava ufano de contentamento com o regalo e
com o protagonismo que lhe dedicou a TV. Para mim a dúvida está em saber se foi
um golpe de marketing ou um evento cultural como argumentou o nosso Presidente.
Sem pôr em causa a sua argumentação inclino-me para a conjugação dos dois
factores. Cumpre-nos dar os parabéns aos protagonistas em geral por terem
conseguido pôr Carrazeda nas “bocas do mundo”. Ninguém tem memória de uma tão
mediática atenção, dada a um evento por estas redondezas. Há quem recorde o
espectáculo das buscas do cadáver do malogrado maquinista que descarrilou no
Rio Tua, em 2008; outros lembram a visita triunfal do actual Presidente da
Republica, quando veio descerrar a lápide nas muralhas do Castelo de Ansiães,
mas julgo que tendo em atenção os custos, nenhum destes exemplos terá tido
tanta repercussão. Sou dos que acreditam que este evento se tornará um “ caso
de estudo”, nas diferentes áreas do conhecimento e, é facto que consolidará a
ideia de que se tratou de acto meditado, cultural e sociológico. Sexólogos e
Sociólogos haverá que, estudarão a inclinação sexual e aderência maciça das
massas que disseram presente e monitorizarão os seus comportamentos futuros.
Politólogos questionarão as novas tendências e estratégias para mobilizar as
massas. Psicólogos analisarão os efeitos psíquicos que o evento terá
desencadeado. Filósofos meditarão sobre atracções do gosto e sobre a
importância da fantasia em meios adversos. Teólogos questionarão os conteúdos
do evento e a sua relação com a simbologia da quadra pascal em que ocorreram.
Os eruditos da cultura dissertarão sobre a abrangência da classificação deste
campo de acção. Até os historiadores não deixarão de narrar para a
posterioridade os factos mais dignos de realce.
15 março 2015
A Fraga do Cachão da Rapa
As pinturas
rupestres da Fraga do Cachão da Rapa nos termos de Ribalonga e Linhares são uma
das provas da antiguidade do povoamento nas terras de Ansiães.
O acesso à Fraga
do Cachão da Rapa, popularmente conhecida por “Curral das Letras”, faz-se pelo
lugar do Zimbro, descendo o caminho em terra batida, mas acessível para
qualquer veículo motorizado, até à estação de caminho-de-ferro com o mesmo
nome. Aí, segue-se pela linha do comboio de ferro até ao túnel da mesma linha
(km 142,2 da linha do Douro) a pouco mais de 2 km da estação do Tua (não deve
esquecer-se que o trânsito na linha é proibido). O acesso, por ser difícil, tem
contribuído para a conservação das pinturas. As pinturas encontram-se num
penedo granítico sobranceiro ao rio Douro. Um outro acesso é procurar o sítio
das Ferraduras, na eira da Codeceira, percurso que se faz facilmente de jipe e
descer pelas fragas até ao local, tendo como referência o túnel referido.
As pinturas são constituídas por um conjunto
de cerca de três dezenas de figuras megalíticas elaboradas com formas
geométricas, quadrangulares com o interior seccionado em xadrez. São encimadas
por dois traços vermelhos. Existem ainda motivos quadrangulares mostrando o
interior segmentado de forma oval ou circular. Foram usados o vermelho cor de
vinho e o azul-escuro, quase negro.
Muitos autores
que têm incluído nos seus trabalhos referências e estudos sobre as pinturas: De
entre eles, Ribeiro Sanches refere que as pinturas da fraga estão associadas a
um pequeno povoado que se encontrava por cima, em pequenos socalcos encaixados
na rocha, que se manteria principalmente à custa da pesca. Porém a primeira
nova data de 1706, em que o Padre António Carvalho da Costa dá a primeira
notícia escrita sobre as pinturas:
“Junto ao Douro
neste sitio aspero, aonde chamão as Letras, està huma grande lage com certas
pinturas de negro, & vermelho escuro quasi emfórma de xadres, em dous
quadros com certos riscos, & sinaes mal formados, que de tempo imemorial se
conservão neste penhasco (…): os naturaes dizem, que estas pinturas se
envelhecem humas, & se renovão outras, & que guarda esta pedra algum
encantamento: porque querendo por vezes algumas pessoas examinar a cova, que se
occulta debaixo, forão dentro mal tratadas, sem ver de quem”.
Este excerto
demonstra que os naturais da região chamavam já às pinturas rupestres “letras”.
De facto na toponímia de sítios com arte rupestre surgem muitas vezes
denominações como Pedra das Letras ou Pedra Escritas. O envelhecimento e a
renovação supracitados deve-se à exposição à luz, e todos aqueles que as
visitam vêm-nas sempre de maneira diferente dependendo do momento do dia e da
estação do ano. O mesmo texto revela ainda uma superstição relativa às
pinturas, acreditando os populares que a pedra teria “algum encantamento”. Eis
um deles:
Ao fundo deste
penedo havia uma entrada para uma gruta, cujo centro ainda ninguém se atreveu a
investigar. Num relatório que António de Sousa Pinto e o reitor João Pinto de
Moraes, mandaram à Academia Real das Ciências, consta que “querendo um clerigo
de Linhares examinal-a, sahiu d’ella mudo, não tornando a recobrar a falla, e
nem por escripto disse o que lá dentro viu. Já se não vê a tal gruta, mas vê-se
o sitio onde, pelos annos 1705, entraram uns desconhecidos, com picões,
alavancas e outros instrumentos, e convidando operarios do logar de Nogarêllo
(aos quaes pagaram generosamente) para os ajudar, romperam a gruta, e consta
que levaram uma grande cruz de prata e outros objectos de valor. Diz-se que no
verão mana das fendas d’este rochedo um betume, semelhante a petroleo. Ao fundo
do penedo, da parte que olha para o Douro, existe um portal, que parece obra da
natureza, e dá entrada para uma grande sala, com assentos em redor, e no meio
uma grande meza, tudo de pedra. N’esta sala ha uma porta, que provavelmente
conduz a outras interiores, que ninguem tem querido examinar. Consta que o
padre Domingos Mendes, na manhã de S. João, do anno de 1678, com sobrepeliz e
estola, pretendeu penetrar n’estas concavidades, em busca de thesouros
encantados; mas que, entrando na segunda sala, sentiu um cheiro tão pestilente,
e teve tal medo, que fugiu tremendo, e ficou mentecapto o resto dos seus dias,
que foram poucos. Também se diz que pouco depois de sahir d’este antro, lhe
cahiram todos os dentes.
No que se refere
à publicação de desenhos de arte rupestre, o exemplo mais antigo conhecido até
hoje surge em 1734, ficando a dever-se a Jerónimo Contador de Argote, e são
relativo a estas pinturas. Trata-se evidentemente de uma reprodução efetuada ao
gosto da época, impregnada de um estilo barroco que se visualiza, por exemplo,
nos anjos que seguram o painel com as pinturas.
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