12 julho 2015

Uma Figura ímpar: Helder Carvalho


 Francisco Manuel Alves é o nome daquele que ficou conhecido por Abade de Baçal.
Comemoram-se este ano os 150 anos do seu nascimento.
Mas afinal quem foi o Abade de Baçal para além de Padre da aldeia de Baçal no concelho de Bragança!?
Para mim foi uma figura ímpar na cultura e na história do nosso Nordeste Transmontano.
Francisco Manuel Alves dedicou a vida a recolher testemunhos arqueológicos, antropológicos e históricos respeitantes à região de Trás-os-Montes, em especial do nosso distrito e, só por isso hoje, nos podemos gabar de possuir esse espólio publicado (Memórias Arqueológicas e Históricas do Distrito de Bragança), e guardado no Museu que iniciou em Bragança (Museu Abade de Baçal).
 Os críticos comentavam a sua condição de autodidacta nestas áreas da cultura, mas não se pode contestar o seu grande trabalho de recolha e o que com isso acrescenta ao sentido de identidade, com o qual hoje podemos reconstituir o passado. Seria por conseguinte a tratar o seu espólio, a sistematizá-lo e a interpretá-lo que poderíamos homenageá-lo agora e dar continuidade à sua obra.
Festejar e louvar quem fez pela sua região, o que mais ninguém foi capaz, em qualquer outra região deste país.
 Do que se fala é de tirar partido da competência de muitos que na área da cultura, procuram uma oportunidade para mostrar também a sua competência.
 A partir daqui poderia alancar um largo role de sugestões de trabalho onde a ideia de organizar e divulgar o espólio que ficou deveriam ser os objectivos essenciais.
Refiro-me por exemplo a tratar e organizar exposições temáticas, que poderiam ser itinerantes pelo Distrito; Criar bolsas de estudo específicas sobre a sistematização da sua obra; Organizar prémios escolares alusivos á obra e ao seu criador; Arranjar patrocínios para o restauro de materiais e objectos em arquivo, mais carecidos; Tratar temas e conteúdos da cultura trasmontana e apresentá-los pela vertente pedagógica; Criar dinâmicas pró-activas de interacção no Museu Abade de Baçal que levasse as pessoas a interagir e conhecerem mais e melhor. Criar condições para a publicação de obras alusivas.
E assim louvar a obra do Abade de Baçal que, fruto de um trabalho dedicado, cheio de intenção pela importância que reconhecia no valor patrimonial, material e imaterial, e que considerava decisivo para perpetuar o sentido identitário do seu povo.
Neste tempo de negrume que o Abade de Baçal nos sirva de modelo e exemplo.

E os mais responsáveis na questão dirão - Ámen 

Helder Carvalho


08 julho 2015

A queima do gato


Todos os transmontanos e os durienses aprendem a viver e a conviver com todo o tipo de bichos desde os primeiros momentos da vida: Ainda no berço temos a companhia dos cães e dos gatos que se postam aos pés do menino e vigiam a sua segurança. Logo que de forma autónoma nos locomovamos desatamos a gatinhar atrás das galinhas e outros rabos da capoeira à procura de companheiros de brincadeira. Aos primeiros passos, espreitamos os grilos nos lameiros e a curiosidade faz-nos subir à copa das árvores para descobrir os ninhos.  Muito púberes saltamos para cima do burro ou os mais sortudos para a garupa do cavalo e aí vamos passear pelo campo e a sonhar aventuras de cobóis. Nos passeios pelo campo aprendemos a defender-nos dos animais que nos podem fazer dano e a respeitar as distâncias dos que prezam a insubmissão. Todos, ou quase todos, aprendemos a respeitar os bichos pelo prazer da companhia, a dependência reciproca numa luta igual pela vida e a liberdade.
Então é hora de escrever, que gosto dos animais e serei sempre contra qualquer forma de abandono e maus-tratos, e por isso sinto indignação pelo gato chamuscado na aldeia do Mourão. Porém, nesta história da "Queima do Gato" confesso algumas irritações.
A primeira é a de colar esta chamada barbárie ao "pacóvio" do aldeão, em comparação à suprema civilidade do citadino. Esse mesmo fulano que mantém silêncio quando esconde a miséria humana em guetos residenciais; que mostra um indisfarçável enfado pela insistência diária do pedido de uma moeda no estacionamento da praça; que chuta caixas de cartão, único lar dos sem-abrigo, da entrada do prédio onde habita; que aprisiona pássaros, passarinhos e passarocos em minúsculas gaiolas; que enclausura cães e gatos numa varanda de um metro quadrado e os abandona todos os verões no ermo ou na estrada bem distante…
Uma outra exasperação é a quantidade de desaforos para as gentes da aldeia vertida na forma de insultos nas redes sociais, nos depoimentos entusiastas e militantes de virtude e moral dos programas de rádio e televisão. São esses paladinos da ética que exigem uma fogueira para uma aldeia inteira em troca da remissão de um pecado e de uma tradição idiota, mas que nunca teve por objetivo queimar o pobre gato. Apetece-me lembrar-lhes as palavras do Nazareno: “aquele que nunca pecou atire-lhe a primeira pedra”...
Para terminar, é sempre bom lembrar a desproporção da natureza do ato, lamentável sem dúvida, perante situações mais preocupantes da condição humana e que toma índices alarmantes da convivência misericordiosa: o abandono dos idosos nos hospitais e lares de terceira idade, a violência doméstica, o genocídio perpetrado no terrorismo e na bem atual falta de acolhimento dos apátridas.

Pois salvem os gatos, mas não se esqueçam também de salvar alguns homens.

05 julho 2015

O direito a mijar fora do penico do sistema: Helder Carvalho



Possivelmente Carlos Fernandes terá tido uma infância feliz. Conheci o seu voluntarismo e empenho a trabalhar quando se tornou assistente na monitorização de um curso de cerâmica em que participamos. Também soube da sua dedicação ao escutismo que, como sabemos esteve muito activo na nossa terra. Ali terá alicerçado os seus ideais de obediência às regras e devoção aos Chefes. Paralelamente tentou sempre aprender mais e não consta que não venha sendo um bom chefe de família. Quando para resolver o problema de todos os que por aqui insistem em manter-se, o Sr. Presidente da Câmara de então, impôs a sua entrada para os quadros do Município eu, na altura com algumas responsabilidades, questionei-o sobre que encargo lhe iria destinar. E quando considerei que, para fiscal ao serviço já havia muitos, do alto da sua cátedra o Sr. Presidente assumiu que seria um fiscal para controlar os desmandos do ambiente. Não consegui contra-argumentar. E assim nasceu em Carrazeda mais um fiscal que nunca terá fiscalizado o que devia, porque julgo que nunca terá sido preparado para tal. Isto porque não consta que alguma vez tenha sido feita uma fiscalização séria aos erros ambientais e me dizem que o Carlos era drástico a impor-se na fiscalização das leis que regem o urbanismo, leis essas que lhe cumpria selar e que naturalmente não tinha sido ele a criar. A tal ponto que se tornava um terror para o poder instalado em período de campanha eleitoral. Não sei o que terá sido que lhe mudou a agulha. Terão sido as incongruências que tivera que engolir! Terão sido as desconsiderações! O certo é que desta vez o Carlos decidiu mijar fora do penico. Este gesto é imperdoável e o Carlos, com o longo percurso que já levava de zeloso e obediente trabalhador autárquico devia saber isso. Devia ter-se lembrado por exemplo de outro Carlos também Fernandes cuja vida de funcionário autárquico foi um inferno, só por ser socialista.
O destino do Carlos ficou assim traçado. Passou a integrar o quadro dos excedentários e foi aprender a fazer tricô para a Piscina Municipal. Dizem-me que ainda se esforçou por aprender mas consta que a superior hierárquica exigia antes que ele executasse “manicura”. Possivelmente não lhe valeu ter recordado um passado impoluto e temente ao senhor, quando tentou reaver a dignidade perdida e assim o Carlos soçobrou.
Esta história terá portanto continuidade já que haverá alguns que a partir de agora gostarão de conhecer os capítulos seguintes. Iremos tentar corresponder às expectativas.

Iremos por exemplo tentar explicar de que outro modo se poderá planear o quadro de excedentários do Município, o enredo de eventuais processos judiciais pendentes sobre o assunto do Carlos, como evolui o seu estado de saúde, qual a moralização das tropas que actuam no cenário que se descreve, a opinião do contraditório, etc.

Helder Carvalho

03 julho 2015

Projecto de Resolução contra introdução de portagens na A4 chumbado na Assembleia da República

Para registo futuro, conquanto a memória não é uma das boas qualidades do povo transmontano! 

"Foi chumbado o Projecto de Resolução do Partido Ecologista Os Verdes contra a introdução de portagens na A4 na Assembleia da República. Os deputados da maioria parlamentar, CDS e PSD votaram contra, tendo obtido os votos favoráveis do PS, PCP, Bloco de Esquerda e Partido Ecologista Os Verdes..." 

Daqui

30 junho 2015

Uma região com história 3

A companhia geral de agricultura e das vinhas do alto douro

A partir de 1740 o sector dos vinhos do Alto Douro entra em crise.
Na opinião de Jorge de Macedo as causas podem-se encontrar na concorrência em Inglaterra dos vinhos de outras regiões portuguesas, no desenvolvimento do comércio vinícola com o Brasil que provocaria a degradação da qualidade do produto e ainda uma baixa de produção entre 1750 a 1755 o que levou também a uma redução drástica da exportação (de 1716 a 1749 a exportação atingiu as 19 000 pipas, de 1750 a 1753 decréscimo para 16 000 pipas e de 1754-56 apenas 13 000 pipas; Se as exportações diminuíram 30%, os preços no mesmo período diminuíram 80% (!). A adição de baga de sabugueiro e de outras especiarias orientais para corresponder aos paladares ingleses é também fator segundo vários autores para o descrédito do vinho do Alto Douro.
Nas semanas que se seguiam à vindima, normalmente feita nos fins de Setembro ou em Outubro, os exportadores ingleses ou os seus corretores portugueses costumavam deslocar-se ao Alto Douro, onde inspecionavam os vinhos novos e efetuavam as suas encomendas.” A ganância de alguns e o descrédito do vinho do Douro e a baixa produção dinamizaram a procura em outros locais do país. Acresce a pouca regulamentação existente que instalava o caos no sector. Se a qualidade não tinha garantia os preços sofriam as regras duras do mercado não regulado “Os vinhos do Douro corriam o risco de se dissolverem economicamente numa região vinícola nacional, desaparecendo o privilégio natural do seu quase exclusivo na exportação; a região e os seus vinicultores estavam ameaçados de perder a preponderância no mercado de vinhos.” A crise atinge muitas famílias da região. A fome, a doença e o aumento da mortalidade proliferam.
Vários fatores se conjugavam para uma urgente regulamentação e estiveram na origem da Companhia: a necessidade sentida pelos operadores portugueses e o poder real de retirar o controlo do comércio dos vinhos aos ingleses; a preocupação sentida da defesa da integridade e qualidade dos vinhos combatendo-se o contrabando e os “taberneiros” da Invicta que os “adulteravam” para defesa da saúde pública, numa palavra lutar contra o deterioramento da reputação do vinho do Alto Douro; e a decadência assustadora dos rendimentos da produção.
            Deveremos atender à reforma profunda do País protagonizado pelo Marquês de Pombal que não se adequava a este desnorte e desorganização. Esta reforma visava a criação de uma burguesia nacional forte, o combate aos interesses estrangeiros (particularmente dos ingleses) com a receita mercantilista e monopolista, implementando todo um conjunto de           “medidas de um poder do Estado intervindo na luta da concorrência comercial entre vários produtores vinícolas nacionais.” A criação da Companhia constituía o processo predileto de Pombal contra os inoportunos comerciantes ingleses com quem tanto antipatizava [...] o seu principal objetivo era destruir o monopólio inglês.” Bastava um clique para se desencadear o processo.
Reafirma-se que, nesta época, o vinho do Porto tornara-se a bebida obrigatória das classes alta e média de Inglaterra e como escreveria, mais tarde, Croft em 1788 “Um inglês de certa linhagem e posição não pode dispensá-lo depois de um bom jantar.” Os ingleses virão a ser os principais prejudicados com a conceção da Companhia e o próprio marquês nunca negou que eles eram dos principais visados.

Estava tudo pronto para verdadeira revolução no Douro, mas esta não foi feita de veludo, nem pacífica, pois muito sangue havia de correr, como iremos ver.


27 junho 2015

Anomalias na Barragem do Tua



A Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) fez mais uma inspecção ao estaleiro da barragem do Tua e detectou “excesso de tempos de trabalho e problemas de segurança”. A barragem da EDP está a ser construída junto à foz do rio Tua, entre Carrazeda de Ansiães e Alijó, envolvendo actualmente mais de mil trabalhadores. Desde o início dos trabalhos, em 2011, já lá morreram cinco pessoas. Elementos da ACT de Bragança e Vila Real voltaram (...) aos estaleiros das empresas Mota Engil, Somague e MSF, e depararam-se com “problemas graves no que respeita a excesso de tempos de trabalho e problemas de segurança”.Em comunicado, a ACT diz que a detecção das anomalias conduziu a “três suspensões de trabalhos por situações de perigo grave e iminente para a vida de trabalhadores”. 
Apresentou ainda “45 notificações para tomadas de medidas e seis autos de notícia de segurança e saúde no trabalho”.   Escrito por Rádio Ansiães (CIR)

daqui 

Porque é que ainda, quem deve e pode não detetou a grande anomalia? A inutilidade da obra...

30 maio 2015

Uma região com história 2

São largos os vestígios da ocupação romana da região e da correspondente exploração vinícola. “O vale do Douro constitui um corredor de povos e culturas, que, pelo menos desde a período da romanização desenvolveram a cultura da vinha”. As descobertas arqueológicas têm revelado fragmentos de cerâmicos associados ao armazenamento de vinho, inúmeras lagaretas cavadas na rocha (ver gravura 3), vestígios de lagares e mesmo de adegas que reportam aos séc. III e IV que atestam a viticultura e a vinificação da época romana.
             Para uma compreensão de toda a dimensão duriense é necessário ter em conta esta acumulação de culturas e influências diversas.
As sucessivas conquistas aos mouros e a consolidação do território a que viria a chamar-se Condado Portucalense, propiciou uma atenção dos reis de Leão na concessão de privilégios às populações da região do Douro que se concretizou na necessidade da concessão de um foral a um conjunto de povoados da bacia norte e sul do Douro: S. João da Pesqueira, Ansiães, Linhares, Paredes e Penela; pois o vale pressupunha fragilidade às investidas mouriscas e a distribuição de privilégios garantiria a fidelidade das populações e evitaria que se unissem ao inimigo.
As primeiras cartas forenses do rei Fernando Magno (séc. XI) doadas a Ansiães, S. João da Pesqueira, Penela, Paredes e Linhares são os documentos mais antigos referentes a territórios que hoje constituem o nosso país, estabelecem como imposto de “parata regis” uma paga em géneros para as despesas do palácio “duos panes uno de tritico et alio de centeno et uno almude de vino et alium de cevada” (dois pães de trigo e outro de centeio e um almude de vinho e outro de cevada) por cada vizinho (família na mesma habitação).
Em finais da idade Média intensificam-se as trocas comerciais, acelera-se o povoamento e desenvolve-se a agricultura. Nascem e crescem vilas e cidades principalmente as muralhadas (Freixo de Espada à Cinta, Torre de Moncorvo, Vila Nova de Foz Côa, Vila Flor, Ansiães, Freixo de Numão, Lamego, etc.) A instalação de diversas ordens religiosas predominantemente os monges de Cister dão grande contributo à produção, melhoria de qualidade do vinho e comércio que se faz exclusivamente pelo rio Douro até á foz em Gaia e no Porto. São exemplos desta atividade vitivinícola os mosteiros de Salzedas, S. João de Tarouca e S. Pedro das Águias. A este período de expansão do vinhedo não é alheio o movimento de senhorialização a que se assiste no séc. XII e XIII, que consiste, grosso modo, no poder dos nobres sobre extensos territórios,.
                        Em 1254 o conflito entre o rei D. Afonso III e o bispo do Porto D. Julião por via do desembarque das mercadorias dos barcos que desciam o Douro termina na sentença régia que determina que dois terços dos barcos descarreguem no Porto e um terço em Gaia.
Em 1502, D. Manuel manda demolir os canais de pesca no rio Douro para facilitar a navegação desde a Pesqueira até ao Porto. A navegação a montante do rio é completamente impossível devido ao Cachão da Valeira. A produção de vinha a montante deste rio revela-se muito problemática e é incipiente devido a este facto e à dificuldade do transporte.
Em 1552, o cronista Rui Fernandes escrevia que os vinhos de Lamego eram “os mais excelentes vinhos e de mais dura que no reino se podem achar, e mais cheirantes, porque há vinhos de 4, 5, 6 anos e de quantos mais anos é, tanto mais excelente, e mais cheiroso.”
Ainda no séc. XVI, João de Barros refere na sua geografia de entre Douro e Minho e Trás-os-Montes os vinhos de qualidade produzidos nas terras próximas do Douro e em Pinhão.
A partir do séc. XVII, o cultivo da vinha e a produção do vinho tem um grande incremento com o estabelecimento no Porto de diversos negociantes ingleses, flamengos e hamburgueses para daí exportarem vinhos do Douro. Em meados deste século negociantes e produtores de vinhos do Douro manifestam-se contra a Câmara do Porto por esta pretender aumentar os impostos sobre os vinhos que entravam na cidade.
No último quartel do século XVII surgem dois pormenores que hão de marcar etimologicamente e em termos de qualidade o néctar das uvas do Douro. Em 1675 surge, pela primeira vez, a expressão “vinho do porto” no discurso sobre a introdução das artes no reino, da autoria de Duarte Ribeiro de Macedo. Em 1678 um inglês refere a junção de aguardente aos vinhos de embarque. Esta serviria para garantir a não deterioração nas grandes viagens marítimas e terrestres a que era submetido.
A celebração do tratado de Methwen em 1703 e a diminuição dos impostos sobre os vinhos portugueses contribui para um grande incremento das exportações.

No século XVIII, a partir da década de 30 e até à década de 50 assiste-se a fraudes generalizadas que põem em causa a qualidade do produto e a sua comercialização o que leva alguns exportadores e produtores entre os quais o Dr. Beleza de Andrade, D. Bartolomeu Pancorbo e Frei João de Mansilha a iniciarem um processo que culmina na criação da Companhia Geral de Agricultura das Vinhas do Alto Douro que é instituída por Alvará Régio de 10 de Setembro de 1756. Como diz António Barreto é este o “ato fundador” da atual região.

27 maio 2015

Uma região com história


 A Região Demarcada do Douro estende-se por 250 000 hectares, e a plantação de vinha ocupa cerca de um quinto dessa área. Divide-se em três zonas distintas: a oeste, o Baixo Corgo, no centro o Cima Corgo, a leste o Douro Superior e dela fazem parte 22 municípios. Aí se produzem os vinhos correspondentes às denominações de origem “Porto” e “Douro.

O Alto Douro estende-se pelo vale do rio Douro a partir de Barqueiros, cerca de 100 km a montante do Porto até Barca de Alva e pelos vales dos seus afluentes, entre eles, Tua, Corgo, Torto, Pinhão... Abrigada dos ventos por altas serranias é essencialmente constituída por xistos. É um território agreste, ardente no Verão e frio no Inverno.

 No entanto, apenas 24 mil hectares foi classificado pela UNESCO como Património Mundial, ou seja, um décimo dessa área, que engloba treze concelhos, sendo Carrazeda de Ansiães é um deles.
O território do Alto Douro Vinhateiro integra o vale do Douro citado, que já é considerado Património Mundial nos seus extremos, nomeadamente a zona ribeirinha do Porto, e no lado oposto o Parque Arqueológico do Côa.

A acrescentar à principal cultura da vinha que produz os afamados associa-se o azeite e a amêndoa. À importância da região acresce a fauna deste espaço natural, onde se incluí o Parque Natural Arribes del Duero, em zona espanhola, sobretudo no que diz respeito às grandes aves de rapina, e à cegonha negra. As vertentes escarpadas desta área oferecem a tranquilidade necessária para albergar as inúmeras aves que aqui se reproduzem, como o Grifo, o Abutre do Egipto, símbolo do Parque Natural do Douro Internacional, a Águia-real, a Águia de Bonelli, a Águia Cobreira e a Cegonha-preta. Importantes populações de mamíferos podem também ser encontradas neste parque: o lobo, o corço, o javali, a lontra, a raposa, o coelho selvagem, entre outros.

Sendo os bosques de Carrascos (Quercus rotundifolia) os mais representativos encontramos também os sobreirais (quercus suber), os zimbrais (juniperus oxycedrus) e os carvalhais de carvalho negral (quercus pyrenaica). Proliferam ainda um conjunto de arbustos característicos: as estevas, as giestas, as cornalheiras, as lavandas e as urzes, conjuntamente com salgueiros e amieiros que aparecem junto das linhas de água.

Do alto das serranias, vem o coelho, a perdiz e o javali, tornando esta região um ponto de encontro para quem se dedica à caça. Dos rios e riachos chegam às mesas os barbos, as bogas, os escalos, as enguias, o sável, a tenca e a carpa. Terra do bom comer e bom beber, a região pode oferecer a quem chega um magnífico cardápio: cabrito assado, pratos de caça, presunto, alheiras, trutas com presunto, carne assada de porco (a famosa marrã), carnes de porco fumado; e doçaria variada: pão-de-ló, celestes, chila no forno, rosquilhas, bolinhos de amor.

As fortes tradições de recreação têm visibilidade nas inúmeras e dispersas romarias, nas festas religiosas anuais (Natal, Janeiras, Reis, Páscoa...) e nos trabalhos agrícolas principalmente as vindimas.

A paisagem do Douro é toda ela de enorme atrativo. Das cercanias serranas às margens do rio, da beleza da giesta selvagem aos socalcos da videira domesticada, passando pelas amendoeiras e cerejeiras em flor desdobra-se esta paisagem singular em cambiantes múltiplas.


O Alto Douro é um exemplo significativo da construção de uma paisagem a que concorreram várias civilizações e povos e em que o vinho foi sempre traço de união. A história da cultura do vinho no Alto Douro é muito antiga e reporta à pré-história como o atesta a descoberta de vestígios de grainhas de “vitis vinifera” na estação arqueológica do Buraco da Pala, no regato das Bouças, perto de Mirandela e datadas do século XX a.C. Este “intercâmbio de influências culturais diversas, continuamente sobrepostas, configurou um espaço de sincretismo cultural quer no imaginário coletivo tradicional, quer nos vestígios arqueológicos”, como se dizia no texto da apresentação da candidatura a património mundial e que merece um próximo olhar com revelações porventura surpreendentes.


25 maio 2015

Que não caiam em saco roto

O único episódio dos Evangelhos, que recordo, em que Jesus utiliza a força física é o da expulsão dos vendilhões do templo. Nesta ocorrência, Jesus e seus discípulos viajam a Jerusalém para celebrar a Páscoa judaica. Aí chegado, expulsa os cambistas do Templo de Jerusalém, acusando-os de tornar o local sagrado numa cova de ladrões através das suas atividades comerciais.

O bispo de Bragança, José Cordeiro ao aproveitar o dia em que se assinalam os 470 anos da fundação da diocese, pega no chicote da sua escrita e divulga uma nota pastoral, em que não poupa alguns mordomos e comissões de festas religiosas.

Pode ler-se: "Algumas organizações ou comissões de festas chegam até a contradizer o Evangelho e a fé da comunidade cristã devido ao desequilíbrio, às vezes escandaloso, nos seus gastos com os elementos exteriores, entre eles a excessiva quantidade de foguetes ou as somas avultadas para conjuntos musicais".

Ressalvando que, "muitos mordomos e comissões de festas religiosas populares dedicam-se de alma e coração ao serviço deste espírito genuinamente cristão que envolve" estas festas, no entanto verifica, que "alguns mordomos e comissões de festas se movem mais nas vertentes económica e lúdica das festas do que na sua dimensão cristã fundamental".

D. José Cordeiro alerta para a necessidade de um maior "cuidado com a gestão das esmolas, salientando bem que as coletas (ofertórios) e as promessas levadas ao altar da eucaristia devem reverter exclusivamente para o culto, a evangelização e a caridade".

 O bispo de Bragança-Miranda refere ainda que se mantêm atuais as disposições relativas à prestação de contas e ao destino das receitas das festas. Todavia, "algumas organizações ou comissões de festas chegam até a contradizer o Evangelho e a fé da comunidade cristã devido ao desequilíbrio, às vezes escandaloso, nos seus gastos com os elementos exteriores, entre eles a excessiva quantidade de foguetes ou as somas avultadas para conjuntos musicais"

Que não caiam em saco roto

 Nota pastoral aqui

23 maio 2015

Lemos:Pousada da Juventude de Bragança vai ser concessionada a privados. Alguém comentou: "tem servido com excelência o concelho e toda a região. Foi das últimas a ser construída, apresenta das maiores taxas de ocupação de todo o país mas, pelos vistos, apresenta um problema geográfico irreparável que é não se situar no litoral. Esta é uma discriminação clara”. Outro respondeu: “Entendemos que a Pousada da Juventude tem vindo a desempenhar um papel importante e continuará a fazê-lo quer seja concessionada, quer seja da responsabilidade da Movijovem” Conclui-se: Aqui há gato escondido com o rabo de fora.
"...o Estado tem de garantir justiça a todos os cidadãos e a todas as regiões. As diligências judiciais devem se efectuadas nos concelhos onde ocorreram os factos"

Marinho Pinto

27 abril 2015

1929

(a propósito da homenagem do senhor Américo Ribeiro)

No ano de 1929 nasceram:
A 15 de Janeiro o Rev. Martin Luther King Jr., líder americano de direitos civis e Nobel da Paz 1964 (m. 1968). A 12 de junho - Anne Frank, vítima alemã do Holocausto e mundialmente conhecida após a publicação póstuma de seu Diário (m.1945) e a 24 de Agosto, Yasser Arafat, líder palestino (m. 2004).

E faleceram: a 4 de Abril - João Franco, político e estadista português (n. 1855). A 17 de dezembro - Manuel de Oliveira Gomes da Costa, militar, político e presidente da República Portuguesa em 1926 (n. 1863).

Neste último ano da década de 20, Thomas Mann, autor de Morte em Veneza, ganha o prémio nobel da literatura.

Um pouco antes, em abril de 1928, com 38 anos, Salazar toma posse como ministro das Finanças e termina o discurso de posse com uma frase sobejamente conhecida. “Sei muito bem o que quero e para onde vou mas não se exija que chegue ao fim em poucos meses”. Tempo não lhe faltaria para transformar o país em 42 anos de exercício do poder. Em finais de 1929, anuncia ao país e pede desculpa aos seus delatores pelo saldo positivo no orçamento de estado de 300 000 contos. O êxito nas Finanças Públicas são o principal trampolim para a chefia do Governo em 1932 e para a criação no ano seguinte do chamado Estado Novo. O prestígio alcançado irá usá-lo para congregar em torno de si e do seu projeto nacionalista e autoritário todas as direitas, cativando ou liquidando os opositores.
“Tudo pela nação, nada contra a nação” é o lema. O país dispunha assim de um plano messiânico para um futuro risonho. O modelo foi encontrado no passado, os acontecimentos heroicos e os chefes exemplares, passaram a “alimentar as grandes certezas da alma coletiva”. A obediência, isto é, o respeito pela hierarquia social constituir-se-ia como a virtude fundamental. A resignação, e a caridade, a disciplina, a piedade, o trabalho, o patriotismo e a vida familiar rural. A escola torna-se um aparelho de doutrinação bem presente na circular distribuída em 1934, “a escola é o viveiro de que uma sociedade dispõe para cultivar os valores éticos e ensaiar o homem que lhe convém”. A educação intelectual do liberalismo e a educação para a cidadania da República é substituída pela doutrina cristã, fulcro da verdadeira virtude; o sistema escolar assume-se claramente discriminatório. Antes do aparecimento do livro único, aprovam-se em março (19) de 1932 com publicação em anexo no Diário da República, as máximas seguintes: “obedece e saberás mandar”, “na família, o chefe é o pai, na escola, o chefe, é o mestre, no estado, o chefe é o governo”; “se tu soubesses o que custa mandar, gostarias mais de obedecer toda a vida”. O consequente aparecimento do livro único tornou a doutrinação mais evidente e organizada.
 Para assinalar os dez anos de governo de Salazar, é editada, em 1938, uma série de sete cartazes intitulada “A Lição de Salazar”, distribuída por todas as escolas primárias do país. Estes cartazes faziam parte de uma estratégia de inculcação de valores por parte do Estado Novo, destinando-se a glorificar a obra feita até então pelo ditador, desde o campo económico-financeiro às obras públicas. Durante muitos anos, estes cartazes didáticos foram utilizados como forma de transmitir uma ideia central: a superioridade de um Estado forte e autoritário sobre os regimes demoliberais. Para acentuar a importância do Estado Novo enquanto garante da ordem e progresso do país, os cartazes fazem uma comparação sistemática entre a obra do regime salazarista e a 1ª República: à desorganização económica e financeira e ao alheamento do Estado democrático e liberal republicano face aos problemas do país, sucede a organização financeira, a melhoria das vias de comunicação, a construção de portos, o ordenamento e progresso social promovidos pelo Estado Novo. Os cartazes acentuam esta ideia a partir de uma imagem cinzenta e triste da época da 1ª República, enquanto o “depois” da obra salazarista nos aparece colorido, organizado, moderno.
Este projeto ditatorial terá o seu pico na celebração em 1940 da exposição do Mundo Português, celebrando-se um triplo centenário. a fundação de Portugal (1140), a restauração da independência (1640) e o chamado pico da expansão marítima (1540):. Salazar alude ao evento como, “uma síntese da nossa ação civilizadora, da nossa ação na História do Mundo, mostrando, por assim dizer as pegadas e vestígios de Portugal no globo.” Esta foi a imagem ideológica dos portugueses, um povo humilde e respeitador da ordem pública, vivendo num lugar idílico, tocado pelo sagrado e predestinado. No dizer de Eduardo Lourenço, “Um país sem problemas, oásis da paz, exemplo das nações, arquétipo da solução ideal que conciliava o capital e o trabalho, a ordem e a autoridade com um desenvolvimento harmonioso da sociedade”.

Entretanto, nos EUA, em outubro de 1929, ocorre a chamada Quinta-Feira Negra. Este foi o crash do mercado de ações mais devastador na história, levando em consideração a extensão e a duração das suas consequências. Bancos e fábricas faliam, muitas pessoas perderam o emprego, levando algumas ao suicídio e os efeitos da crise espalharam-se pelo mundo. O facto marcou o início de 12 anos da Grande Depressão, que afetou todos os países ocidentais industrializados. Em Espanha cai o rei, a 14 de Abril de 1931. Na Alemanha, nas eleições de Julho de 1932, o partido nazi de Adolfo Hitler com 37,3% dos votos ascende ao poder com as consequências conhecidas. Nos EUA, Roosevelt, eleito em 1933, inaugurava as “conversas à lareira” para explicar a sua política em palavras simples e com o seu programa denominado NEW DEAL, apoiado no investimento público e nas grandes obras públicas regenera a economia.

Em Carrazeda, a 15 de abril de 1929, um incêndio destrói a casa de habitação, haveres e estabelecimento comercial de António dos Santos Moura com prejuízos estimados em 200 contos. Nesse mesmo ano realizam-se espetáculos para angariação de uma bomba e de um motor e oficializam-se os estatutos dos Bombeiros Voluntários. A 15 de Agosto, a Comissão Administrativa da Câmara Municipal decide mandar construir um campo de aviação no sítio denominado “Pedra do Sapato”, limite da vila, e destinado à Aeronáutica Militar. Em 1930 forma-se uma comissão para instalar na vila os Bombeiros Voluntários. A 6 de fevereiro desse ano e depois de uma petição assinada por muitas pessoas delibera fixar três feiras mensais nos dias dez, vinte e trinta. A 24 de Julho, a pedido dos Bombeiros, determinou ceder a título gratuito os baixos do Posto de Socorro médico-cirúrgicos, onde ensaiava a Filarmónica para ali se instalar o material contra incêndios que a instituição possuía. Em 1931 sai a público o livro, Carrazeda de Ansiães, notas monográficas de D. Cândida Florinda Ferreira.
Enquanto isso, no país, alguns banham-se na praia, se bem que a exibição dos corpos deva subordinar-se ao respeitinho. As praias começam a ser preferidas às termas e acrescentam-se 500 km à rede de estradas.
Em 18 de Junho de 1931, estreia o primeiro filme falado português, a Severa, de Leitão de Barros. Em 1931 estreia-se como realizador Manuel de Oliveira, com o documentário, Douro Faina Fluvial, mal acolhido pela crítica nacional. Dois anos depois estrearia o grande êxito a canção de Lisboa.
Em 1927 realiza-se a I Volta a Portugal em bicicleta, que só terá reedição três anos depois por falta de organizador. José Maria Nicolau (vencedor em 1931 e 1934) e Alfredo Trindade (vencedor em 1932 e 1933) protagonizaram uma das primeiras rivalidades da Volta, fazendo vibrar o país, disputando cada volta até à última gota de suor. Em 1929, o Benfica vence o campeonato nacional, antecessor da Taça de Portugal, batendo o Barreirense por 3 a 1. Era disputado em sistema de eliminatórias que o Porto iniciou como vencedor na década de 1920/21.
Os contestatários ao regime, particularmente os comunistas, acossados pela polícia inventam uma forma de fazer-se ouvir: os comícios relâmpagos: gritavam-se uns vivas e morras, desfraldava-se uma bandeira vermelha, e em passo de corrida fugia-se à polícia.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   
A população portuguesa crescia a uma taxa de 1,32% por ano, uma das mais elevadas da Europa, para se situar nos 6 825 883, dos quais mais de metade eram analfabetos: 4 627 988. Também se morria muito e cedo: a tuberculose e a pneumónica, tornaram-se uma calamidade nacional; a taxa de mortalidade infantil situava-se acima dos 130 falecidos por 1000 nascimentos.

De meados do séc. Xix até ao final do século tínhamos evoluído de 7 dias uma viagem entre Porto e Lisboa de liteira puxada por dois machos para as 14 horas de comboio a vapor e cerca de metade para viajar de Porto a Barca de Alva.

Como já escrevi noutro lugar, “mourejava-se de sol a sol na busca do pão nosso de cada dia, numa luta titânica com a terra e as fragas que se cavavam em redor mesmo sabendo que nada produziriam. Sempre que a necessidade obrigava, emigrava-se para terras estranhas e ganhava-se dinheiro no mesmo mourejar com que partiram e regressavam ufanos e remediados, edificavam quatro paredes, compravam uma courela e continuavam a cavar a vida inteira.” Sem televisão, rádio e cinema, a taberna e o adro da igreja eram os locais de passar algum tempo livre. A filarmónica e a tuna onde pontuavam a viola e o acordeão acendiam as alegrias coletivas…

26 março 2015

Mário Vasco Fernandes, cientista que ajudou a criar a vacina da raiva, é pintor e expõe em Carrazeda de Ansiães

Médico de profissão, Mário Vasco Fernandes estudou pintura e desenho em vários centros particulares e na Academia de Arte de Paris, passando a dedicar-se exclusivamente à pintura quando se reformou da Organização Mundial de Saúde, onde trabalhou entre 1965 e 1989.

O médico, cientista e pintor, vive atualmente em Parambos, aldeia do concelho de Carrazeda de Ansiães, mas foi em Filadélfia, Washington e Rio de Janeiro que fez todo o seu percurso profissional.

Foi um dos três virulogistas que criaram a vacina da raiva que substituiu a descoberta de Pasteur e foi um quadro superior da Organização Mundial de Saúde durante 30 anos.

Mário Vasco Fernandes criou também o instituto que conseguiu a erradicação da febre aftosa na américa do sul, dirigiu depois a instituição que coordena a saúde em toda a América Latina, cujos países conheceu pormenorizadamente.

Publicou cerca de 100 trabalhos em revistas científicas, tais como Nature, Texas Report on Biology and Medicine, Journal of Experimental Medicine, entre outras publicações de referência mundial.

Estudou pintura e desenho em escolas particulares durante o Liceu e a Universidade e na Academia de Arte Livre de Paris em 1954 e 1955.

Reformado e com 73 anos, dedica-se agora à pintura e à produção de vinho na terra de onde a sua família era originária.

A sua pintura versa sobretudo sobre temas do Nordeste Transmontano, tendo a casa do Beco, quadro de apresentação desta exposição, marcado de forma indelével o seu percurso artístico com um inequívoco retorno às raízes e um regresso emocionado a Trás-os-Montes.

 Enquanto artista participou em várias exposições coletivas e individuais de onde se destacam as realizadas no Instituto Pasteur em Paris (1955), Salão de Exposições da Faculdade de Medicina da Universidade do Texas em Galveston, Texas, Estados Unidos da América (1959), «Exhibit Hall» da Organização Mundial da Saúde em Washington, D.C., Estados Unidos da América (1977), Galeria Páteo das Artes em Lisboa (1992), Galeria «Inn Art» em Lisboa (1994), Galeria Multiface em Lisboa (1994), Salão de Exposições da Câmara Municipal de Carrazeda de Ansiães (1994) e da Câmara Municipal de Caminha (1995), Salão de Exposições do Centro Galego em Lisboa (1995), Forum Picoas em Lisboa (1995), Galeria Penta - Lisboa (1995), Galeria Le Meridien-Park Atlantic - Lisboa (1998), no Atelier da casa de Parambos (2000), Coisas do Arco do Vinho no Centro Cultural de Belém (2003), Academia do Vinho no Vintage House - Pinhão (2004), Centro Cultural Municipal de Bragança (2005).

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19 março 2015

Salvem-se os sapos: Helder carvalho

Que é dos sapos? 
Dizem-me que tarda em chover e eu preocupo-me com os sapos.
Estes anfíbios costumavam aparecer com a chuva. Já alguém viu algum!? Se houvesse uma comparação possível entre um carrazedense como eu e um simples animal talvez a comparação pudesse ser com o sapo. Bicho inofensivo, como por exemplo o burro, que não precisa de ser carnívoro para se alimentar, o sapo é adulador mas também inofensivo. Quando enfuna é só para se ver enfunado, reflectido no charco. Não sei quais são os inimigos do sapo, mas dá a ideia que anda sempre assustado. Nem mesmo a pata do burro, que, quando desatento o pisa lhe dá a vontade de avançar mais rápido. O sapo não sobressai, vive na penumbra gramando a vida.   
 A falta de chuva preocupa outros, por outras razões. Por exemplo os nossos produtores de maçã, de certeza que recordam a última vez que choveu. De certeza que sonharam na altura com aquela ideia de haver maneira de se ter retido a água que correu em direcção ao rio. Para a rega das macieiras, só se justifica uma barragem de rega agrícola se não chove. Acreditemos então que a chuva chegará a tempo, para regar as macieiras e por tabela se criarão condições também para a protecção dos sapos. Contudo se a prioridade para mim e para os muitos ecologistas que os há, é a preservação da espécie – sapo, talvez se esteja a preparar para breve um ecossistema paradisíaco para eles. Refiro-me à  edificação do Campo de Futebol do Carrazeda. Estou convencido de que naqueles intervalos em que o relvado estiver disponível, este será um paraíso para os nossos sapos de estimação.
 Para finalizar procurei um poema adequado, mas não consegui encontrar nenhum que estabelecesse a relação entre macieiras e sapos. 
Paciência.


Os Sapos
Manuel Bandeira, 1918

Enfunando os papos, 
Saem da penumbra,
 
Aos pulos, os sapos.
 
A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra, 
Berra o sapo-boi:
 
- "Meu pai foi à guerra!"
 
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".
O sapo-tanoeiro, 
Parnasiano aguado,
 
Diz: - "Meu cancioneiro
 
É bem martelado.
Vede como primo 
Em comer os hiatos!
 
Que arte! E nunca rimo
 
Os termos cognatos.
O meu verso é bom 
Frumento sem joio.
 
Faço rimas com
 
Consoantes de apoio.
Vai por cinquüenta anos 
Que lhes dei a norma:
 
Reduzi sem danos
 
A fôrmas a forma.
Clame a saparia 
Em críticas céticas:
 
Não há mais poesia,
 
Mas há artes poéticas..."

Helder Carvalho

16 março 2015

400 Eufóricos da Grei: Helder Carvalho


Foi empolgante acompanhar as notícias e comentários, observar o ar garboso e a pose entusiasta dos comentadores e comentados, a classe com que se discutiu e defendeu o evento.
Avaliados os resultados, louvem-se os indicadores de aderência e receptividade.

 O povo estava ufano de contentamento com o regalo e com o protagonismo que lhe dedicou a TV. Para mim a dúvida está em saber se foi um golpe de marketing ou um evento cultural como argumentou o nosso Presidente. Sem pôr em causa a sua argumentação inclino-me para a conjugação dos dois factores. Cumpre-nos dar os parabéns aos protagonistas em geral por terem conseguido pôr Carrazeda nas “bocas do mundo”. Ninguém tem memória de uma tão mediática atenção, dada a um evento por estas redondezas. Há quem recorde o espectáculo das buscas do cadáver do malogrado maquinista que descarrilou no Rio Tua, em 2008; outros lembram a visita triunfal do actual Presidente da Republica, quando veio descerrar a lápide nas muralhas do Castelo de Ansiães, mas julgo que tendo em atenção os custos, nenhum destes exemplos terá tido tanta repercussão. Sou dos que acreditam que este evento se tornará um “ caso de estudo”, nas diferentes áreas do conhecimento e, é facto que consolidará a ideia de que se tratou de acto meditado, cultural e sociológico. Sexólogos e Sociólogos haverá que, estudarão a inclinação sexual e aderência maciça das massas que disseram presente e monitorizarão os seus comportamentos futuros. Politólogos questionarão as novas tendências e estratégias para mobilizar as massas. Psicólogos analisarão os efeitos psíquicos que o evento terá desencadeado. Filósofos meditarão sobre atracções do gosto e sobre a importância da fantasia em meios adversos. Teólogos questionarão os conteúdos do evento e a sua relação com a simbologia da quadra pascal em que ocorreram. Os eruditos da cultura dissertarão sobre a abrangência da classificação deste campo de acção. Até os historiadores não deixarão de narrar para a posterioridade os factos mais dignos de realce.

Helder Carvalho

15 março 2015

A Fraga do Cachão da Rapa



As pinturas rupestres da Fraga do Cachão da Rapa nos termos de Ribalonga e Linhares são uma das provas da antiguidade do povoamento nas terras de Ansiães.
O acesso à Fraga do Cachão da Rapa, popularmente conhecida por “Curral das Letras”, faz-se pelo lugar do Zimbro, descendo o caminho em terra batida, mas acessível para qualquer veículo motorizado, até à estação de caminho-de-ferro com o mesmo nome. Aí, segue-se pela linha do comboio de ferro até ao túnel da mesma linha (km 142,2 da linha do Douro) a pouco mais de 2 km da estação do Tua (não deve esquecer-se que o trânsito na linha é proibido). O acesso, por ser difícil, tem contribuído para a conservação das pinturas. As pinturas encontram-se num penedo granítico sobranceiro ao rio Douro. Um outro acesso é procurar o sítio das Ferraduras, na eira da Codeceira, percurso que se faz facilmente de jipe e descer pelas fragas até ao local, tendo como referência o túnel referido.
 As pinturas são constituídas por um conjunto de cerca de três dezenas de figuras megalíticas elaboradas com formas geométricas, quadrangulares com o interior seccionado em xadrez. São encimadas por dois traços vermelhos. Existem ainda motivos quadrangulares mostrando o interior segmentado de forma oval ou circular. Foram usados o vermelho cor de vinho e o azul-escuro, quase negro.
Muitos autores que têm incluído nos seus trabalhos referências e estudos sobre as pinturas: De entre eles, Ribeiro Sanches refere que as pinturas da fraga estão associadas a um pequeno povoado que se encontrava por cima, em pequenos socalcos encaixados na rocha, que se manteria principalmente à custa da pesca. Porém a primeira nova data de 1706, em que o Padre António Carvalho da Costa dá a primeira notícia escrita sobre as pinturas:
“Junto ao Douro neste sitio aspero, aonde chamão as Letras, està huma grande lage com certas pinturas de negro, & vermelho escuro quasi emfórma de xadres, em dous quadros com certos riscos, & sinaes mal formados, que de tempo imemorial se conservão neste penhasco (…): os naturaes dizem, que estas pinturas se envelhecem humas, & se renovão outras, & que guarda esta pedra algum encantamento: porque querendo por vezes algumas pessoas examinar a cova, que se occulta debaixo, forão dentro mal tratadas, sem ver de quem”.
Este excerto demonstra que os naturais da região chamavam já às pinturas rupestres “letras”. De facto na toponímia de sítios com arte rupestre surgem muitas vezes denominações como Pedra das Letras ou Pedra Escritas. O envelhecimento e a renovação supracitados deve-se à exposição à luz, e todos aqueles que as visitam vêm-nas sempre de maneira diferente dependendo do momento do dia e da estação do ano. O mesmo texto revela ainda uma superstição relativa às pinturas, acreditando os populares que a pedra teria “algum encantamento”. Eis um deles:
Ao fundo deste penedo havia uma entrada para uma gruta, cujo centro ainda ninguém se atreveu a investigar. Num relatório que António de Sousa Pinto e o reitor João Pinto de Moraes, mandaram à Academia Real das Ciências, consta que “querendo um clerigo de Linhares examinal-a, sahiu d’ella mudo, não tornando a recobrar a falla, e nem por escripto disse o que lá dentro viu. Já se não vê a tal gruta, mas vê-se o sitio onde, pelos annos 1705, entraram uns desconhecidos, com picões, alavancas e outros instrumentos, e convidando operarios do logar de Nogarêllo (aos quaes pagaram generosamente) para os ajudar, romperam a gruta, e consta que levaram uma grande cruz de prata e outros objectos de valor. Diz-se que no verão mana das fendas d’este rochedo um betume, semelhante a petroleo. Ao fundo do penedo, da parte que olha para o Douro, existe um portal, que parece obra da natureza, e dá entrada para uma grande sala, com assentos em redor, e no meio uma grande meza, tudo de pedra. N’esta sala ha uma porta, que provavelmente conduz a outras interiores, que ninguem tem querido examinar. Consta que o padre Domingos Mendes, na manhã de S. João, do anno de 1678, com sobrepeliz e estola, pretendeu penetrar n’estas concavidades, em busca de thesouros encantados; mas que, entrando na segunda sala, sentiu um cheiro tão pestilente, e teve tal medo, que fugiu tremendo, e ficou mentecapto o resto dos seus dias, que foram poucos. Também se diz que pouco depois de sahir d’este antro, lhe cahiram todos os dentes.

No que se refere à publicação de desenhos de arte rupestre, o exemplo mais antigo conhecido até hoje surge em 1734, ficando a dever-se a Jerónimo Contador de Argote, e são relativo a estas pinturas. Trata-se evidentemente de uma reprodução efetuada ao gosto da época, impregnada de um estilo barroco que se visualiza, por exemplo, nos anjos que seguram o painel com as pinturas.

14 março 2015

Categoria jurídica de interioridade

"Antigo edifício das Finanças na zona histórica vai acolher Observatório e Biblioteca Jurídica. Vai ser instalado provisoriamente no Auditório Paulo Quintela, enquanto o município recupera o edifício das antigas Finanças no centro histórico da cidade.
O primeiro passo para a criação do Observatório já foi dado, com a assinatura de um protocolo entre o Município de Bragança e a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Um dos objectivos com a criação deste espaço em Bragança é a criação de um estatuto jurídico para as regiões do Interior, como explica Eduardo Vera-Cruz, da direcção do Observatório. “Vai procurar reunir toda a informação que está dispersa sobre Interioridade. Tratar um bocadinho daquilo que tem sido o poder local e a importância do poder local nas terras do Interior e tentar construir uma categoria jurídica de interioridade, como existe a da insularidade, e conseguir que ela tenha projecção constitucional".
Nordeste

Parece-me ser uma boa iniciativa. Temo que não passe de boas intenções e delas está o inferno cheio... e também todos nós... Apesar das acessibilidades criadas, do desenvolvimento das comunicações e do desenvolvimento humano realizado, a interioridade está bem presente no nosso quotidiano. O encerramento dos serviços públicos, a ausência de transportes públicos e a presença de um grande número de gente idosa e de muitos outros com baixa qualificação acentuam esta especificidade que não encontra eco na administração do país. O conceito de insularidade presente, e bem, em múltiplos aspetos da vida económica e social do país não tem paralelo com o da interioridade, que deveria merecer um tratamento semelhante.


05 março 2015

Bordel de fantasmas: Helder Carvalho

 Este título criativo ajuda a chamar à atenção.
O que eu quero é manifestar-me sobre as mais recentes demonstrações culturais que a nossa autarquia vai promovendo e aproveitar para lhes mostrar o meu incondicional apoio. Assisti no Carnaval ao exuberante cortejo carnavalesco e devo dizer que gostei muito. Uma palavra especial para quem coordenou e implementou o concurso que deu origem ao desfile. Pareceu-me que também o povo rejubilou a olhar para a numerosa assistência. Agora dizem-me que a autarquia vai disponibilizar gratuitamente uma sessão de cinema contemporâneo criteriosamente seleccionado pelo respectivo pelouro. O filme “Cinquenta sombras de Grey”, dizem-me que trata do tema atualíssimo das taras sexuais, que naturalmente dará origem à sequente palestra moderada pelos sociólogos ao serviço na autarquia. Tudo indica que terá sido também pela persistente vontade e querer do povo que tal desiderato se atinge. Finalmente começo a ver surgir na minha terra a predisposição da autarquia para proporcionar igualdade de meios de oportunidades aos seus cidadãos, para que possam cultivar-se também por aqui. Evidentemente que se não for possível trazer ópera ou ballet a Carrazeda não vejo porque não se patrocinem excursões a Lisboa, com esse fim. Para se assistir ao espectáculo de Júlio Iglesias ou da Ana Moura só patrocinando a ida ao grande centro. No limite talvez houvesse gente motivada para ter-mos ido em conjunto à Feira de Arte de Madrid. A próxima é em Paris onde todos temos também muitos amigos e, conterrâneos emigrantes para visitar. Espera-se portanto o aval do pelouro que avalia a qualidade dos eventos e espectáculos que acontecem por todo o lado. A esse pelouro eu tomava a liberdade de lhes fazer um pedido pungente.É que há eventos no concelho que poderiam exigir também algum trabalho que motivasse os nossos concidadãos a participar. Refiro-me por exemplo a vê-los assistir e intervir nas reuniões de Assembleia e de Junta de Freguesia; vê-los a frequentar, os museus, as bibliotecas e exposições; vê-los a participar com opiniões em discussões e encontros, que se vão organizando sobre causas que nos dizem respeito; vê-los a assistir a cerimónias solenes. E se há dinheiro, não acho mal que se destine a patrocinar também a entrada nestas participações.
E para tentar relacionar o título com o texto, podemos sempre sugerir que a visita a um bordel pode ter o seu “quê” de pedagógica, portanto passível de ser patrocinada.

HELDER CARVALHO

22 fevereiro 2015

Como Unhais da Serra, também nós: Helder Carvalho

Como Unhais da Serra, também nós

Na condição de cidadão carrazedense assisti a uma recente Reunião de Assembleia porque tinha algumas questões, que me pareceu pertinente, colocar aos nossos membros da dita.
Na devida altura e por especial favor, que eu agradeci, foi-me dada a oportunidade de expor ao Sr. Presidente da Câmara uma suscitação que se prendia com o projecto, que sabia estar a ser desenvolvido pelo município, sobre a viabilização das Termas para o São Lourenço.
Sou dos que consideram que, as Termas de São Lourenço poderiam constituir uma mais-valia económica para o nosso concelho se fosse potenciados os seus recursos. Nesse sentido achava eu que seria de todo o interesse as pessoas inteirarem-se dos planos que a autarquia tivesse para implementar e apoiar potenciais interessados em ali investir. Propus então que se tornasse público e divulgasse o processo em andamento e, assim abrir a todos a discussão deste projecto.
Fui esclarecido pelo Senhor Presidente. Disse-me que tinha assumido pessoalmente liderar todo o processo, que o tinha estudado profundamente e que este corria às mil maravilhas. Se quisesse conhecer algo de parecido com o que se projectava fosse a Unhais de Cima apreciar as instalações de turismo termal lá existentes.
Dispensavam-se pois outros “parteneres”ou “opinion makers”. O processo seguia já a sua velocidade de cruzeiro, tinha a conduzi-lo o seu piloto natural. O sucesso vinha a caminho.
Rejubilei. Fiquei tão assombrado com a eficácia e convicção propaladas que acreditei que ninguém mais fazia falta ou acrescentaria para o êxito do fenómeno.
 A partir daqui pus-me a sonhar. Imaginei uma autarquia capaz, auto-suficiente a investir e a construir com sucesso este “ projecto pin”, a diversificar e fazer render o seu “know how”, enfim, a liderar empresarialmente, pelo menos na industria turística da região. Visualizei a obra feita em função dos meus projectos de futuro reformado. Vi-me esticado na marquise a experimentar uma massagem delicadamente realizada por uma funcionária autárquica entretanto reciclada, após o banho sulfuroso. Tudo para curar o reumático que virá.
Entenderão agora porque me sinto preocupado com as notícias que dão conta dos entraves que põem ao projecto, já avançado. É tudo para nos tramar. Sim porque eu não acredito que o projecto não tenha sido estudado e dimensionado com a certeza de ser inserido no lugar certo. Também não acredito que não se conheçam as regras que regem o REN nem o parque natural para ali entretanto unanimemente aprovado e autorizado por todos. Estou convencido de que o Senhor Presidente há-de conseguir com a sua vontade indomável, a sua força política e o apoio incondicional de todos os carrazedenses, se necessário, convencer os nossos ambientalistas da Agência da bondade do nosso projecto. Da minha parte, é nos seus braços que eu ponho toda a minha crença, já que o meu contributo dispensado de outro modo, se resume ajudar a pagar as despesas com os meus impostos.
Estou em crer que bastará exibir as competências ganhas na área e manter a convicção com que respondeu às minhas dúvidas em reunião de Assembleia, para destroçar os demónios que agora irromperam e que só nos querem fazer mal. Sou dos que confiam e acreditam na capacidade e na vontade indomável do nosso timoneiro para levar para diante, contra ventos e marés, a demanda a que se propôs. Que nunca lhe falte o crer e o querer.
 Afinal de contas se foi concretizado o Projecto de Unhais, porque não havemos de ter também nós o nosso.

(Entretanto vou seguir o conselho do Senhor Presidente. Vou ver se conheço o complexo termal de Unhais da Serra, para ter uma ideia de como vai ser o nosso).

Helder Carvalho

11 fevereiro 2015

Alegria, Entrudo, que amanhã será cinza



É entrar, meus senhores, que é tempo da brincadeira e da reinação!
Que tal “botar” um casamento? Não estará na hora de deitar “as pulhas”? Mas ainda há quem vá aos bugalhos  para as “bugalhadas”? E panelas de barro para as cacadas? Sobram ainda, por aí, rendas para esconder a cara?
É entrar porque espreita o Entrudo e é preciso romper com a monotonia do inverno e a seriedade da vida. É aproveitar porque ainda há muito tempo cinzento e frio e daqui a nada ninguém tem vontade de conversar. É lembrar o estio e deixar-nos envolver pelo brilho dourado do sol. É recordar os miosótis azuis, as papoilas vermelhas nos campos de trigo amarelo e o verde das folhas dos arbustos porque é altura de pintar as cores no pensamento.
É tempo de dar mais fôlego à brincadeira, à imaginação e à transgressão das normas, seja com fatos e chocalhos abanado com as raparigas, seja com a realização de casamentos ridículos: É tempo de distribuir riso e justiça (quantas vezes a mesma coisa) e se não nem todos se podem julgar, julgue-se o Pai da Fartura.
Em muitas aldeias do concelho, por alturas do Entrudo, era uso “botar os casamentos” à noite. Os rapazes mais afoitos subiam aos montes, ou lugares mais elevados, ou mesmo as árvores altas e afastadas e munidos de uma folha, que é como quem diz um funil de medir o vinho, iniciavam um diálogo sempre jocoso e disparatado, quantas vezes apimentado, quantas vezes inconveniente que o silêncio da noite fazia ecoar nas quebradas dos caminhos e corar de vergonha as corujas, e outras que tais, dos campanários das igrejas. E lá se prometia casar a moça mais jeitosa com o viúvo velho, as belas e as bestas, as pobres e os remediados, pois se não houvesse exagero e caricatura, não havia graça.
Dizem-nos que era assim, em diálogo:
 - Ó camarada! – começava  um
- Olá camarada! – respondia o outro.
- Vamos fazer um casamento?
- Olha que vai de carreira.
- Casa o senhor Isaías com a senhora Teresa Carreira.
- Ó companheiro, vamos fazer outro casamento?
- Arranja lá o rapaz, que eu arranjo a rapariga.
- Pode ser o João Moças. E a rapariga?
- A Maria do arrasta o tamanco
- E é bem arranjadinho! Hi! Hi! Hi!
- Ele já não tem dentes!
- Mas acha-os num caminho.
- E que lhe havemos de dar de dote?
- Uma panela e um pote.
Ou então, na forma de quadra:
Aqui vai um casamento
Este vai bem arranjadinho
Vai casar a velha da Maria Antónia
Com o menino João Ratinho
Em Foz-Tua, ainda alguém se lembra de deitar “as pulhas”. Alguns rapazes iam para a estrada e procuravam o sítio mais alto e com um funil na boca diziam mal das pessoas, criticavam namoros escondidos… Do outro lado do rio Douro estavam outros rapazes que lhes respondiam.
Nas vésperas do Entrudo, pelo mesmo processo, também se usava partir o burro pelas raparigas da aldeia. Cada peça do arreio e do corpo do burro era repartido pelo mesmo processo, dizendo o que cabia a cada rapariga e para que servia. No Mogo de Malta, alguém se lembrou desta: À menina Maria / Que é a forneira / Leva as ferraduras / Para raspar a masseira.
 As bugalhadas do Entrudo eram comuns em outros locais, em que as pessoas ainda aceitavam brincadeiras. Juntava-se um grupo de jovens com sacos de bugalhos anteriormente apanhados. Pela calada da noite eram atirados na casa das pessoas escolhidas a propósito. Logo que lançados, fugiam para o breu da escuridão. O barulho provocado assustava e indispunha os presentes. Os bugalhos podiam ser substituídos por cacos de panelas velhas de barro, só que a esta "brincadeira" chamava-se "cacadas".
Por alturas do Entrudo, era costume também vestirem-se roupas velhas, colocarem-se rendas na face, e, sob quase anonimato, percorrer-se a aldeia, assustar-se os transeuntes e atirar-se farinha.

O cozido do palaio, acompanhado das cascas e das batatas, e regado pelo vinhito, ajudava a digerir as brincadeiras, menos engraçadas porque “sábado filhoeiro, domingo gordo e pelo Entrudo come tudo.”

08 fevereiro 2015

A "matança"


Todos os anos se matava o “reco”, pois o  porco, como alguém disse, é a máquina ecológica perfeita: transforma os vegetais em carne; alimenta-se dos restos dos alimentos; produz estrume para os campos; e depois de morto, serve de talho para o ano inteiro.
A matança decorria entre novembro e fevereiro, habitualmente nos domingos, e era um dia marcante para a família e os vizinhos chamados a ajudar. O animal era preparado no dia anterior: de manhã, dava-se-lhe uma vianda de água e farelos e jejuava durante a tarde e noite, para “limpar”, amaciar e descongestionar o aparelho digestivo.
O cerimonial, começava bem cedo com o mata-bicho, figos e bagaço e também pão e azeitonas e algum enchido do defunto do ano anterior. O bicho saía do cortelho para o quinteiro ou até mesmo para a rua, onde passeava calmamente. A passeata era fundamental para apaziguar a vítima.
O “matador”, de faca em riste, de corda na mão com um laço na ponta, prendia-o pelo focinho. Aproximado do banco do martírio com jeito, força e paciência, aguardavam-no quatro, cinco, seis homens. Dois pegavam-lhe nas orelhas, outros dois nas patas traseiras, um outro no rabo e assim o estendiam no banco do suplício. O “matador” introduz-lhe lentamente a lâmina com a sabedoria que só ele possuía. O sangue jorrava vivo e vermelho para o alguidar da dona de casa que violentamente agitava o fluido encarnado até fazer uma espuma abundante. Quanto mais sangue, melhor: superior carne, mais mouras e mais sangue cozido que se distribuía, num intervalo, pelos presentes, com azeite e alho e uma boa porção de vinho.
À dor lancinante e muito ruidosa do porco seguia-se um longo silêncio, interrompido pelo crepitar da palha para tostar a pele e é fundamental à extração da epiderme com pedras bem lisas e à raspagem dos pelos com ajuda de água e de facas bem afiadas. Despojado das unhas, escaldadas as orelhas, retirados os restos das fezes com um rolo de palha e bem lavado era preparado para a primeira operação que fornecia a primeira carne para a mesa da matança, os rojões do soventre, a barriga do porco.
As tripas são cuidadosamente apartadas para uma bacia ou alguidar. Ainda quentes retiram-se-lhe alguma gordura, para serem fervidas numa panela. Mais tarde, serão lavadas na ribeira. Por último, cuidadosamente é também retirado o “de dentro”: coração, rins, fígado, pulmões, o estômago, a bexiga que cumprirão uma função especial no fumeiro ou na grelha da assada. Limpo de tudo vai ser dependurado na trave da loja ou da adega.
Um, dois, três dias depois, desfaz-se o porco. Volta o “matador” para a “desmancha” meticulosa. Retirada cada peça é cortada, preparada e colocada na salgadeira, na avinha d`alhos ou guardada para o fumeiro. Nada é estragado: ao resto do sangue, junta-se-lhe alho e vinho, que irá ajudar a fazer as moiras.
Nesse dia há o hábito de "dar o prato". Consiste em levar aos lares mais chegados, um prato com carne... para que todos provem da matança. Com o dar nada se perde. Eles vão retribuir, propiciando carne fresca naquele lar durante semanas.
Após os “enchimentos”, as cozinhas modificam a sua fisionomia, mostrando a fartura dos seus enchidos que secam e fumam durante semanas e hão de durar, aí dependuradas ou em azeite, o ano inteiro: alheiras, chouriços doces, chouriços de sangue, chouriças de carne e de boche e os salpicões deliciosos e outros mais especiais como o bulho e a bexiga.  
Será também o alto da lareira o destino final dos presuntos e das pás que aí ficarão dependurados e sujeitos aos apetites dos da casa, até não passarem de um simples osso despojado de carne e couro e há de repousar para temperar o caldo de cascas e adubar uma boa feijoada.
Em Janeiro, um porco ao sol outro ao fumeiro, ao sol, e também para dormir no cortelho para o cevar e preparar para a matança que se segue.

Retirado do livro - "Selores... e uma casa"

01 fevereiro 2015

Convite

Convite


Este é um convite para todos aqueles que gostam da sua terra, da sua história e tradição e, gostam de comer bem.

Vem de longe a bom hábito de bem cozinhar e bem servir no nosso concelho.
Gerações de produtores, cozinheiras e comensais garantiram esta fama que foi longe, tem vindo a perder-se e nós gostaríamos de a ver ressurgir para proveito de todos. Muitos produtos locais resistem, alguns fruto de técnicas mais apuradas aumentaram a qualidade (pão, vinho, batata, carne, fruta, legume, azeite).
Porque faltará recuperar as antigas ementas que nos distinguiam e delas desfrutar, desejamos promover um desses gostosos pratos, que foi típico da nossa ementa e que desapareceu praticamente da nossa mesa. Era um prato que se degustava ao almoço sempre que lá em casa era dia de fazer alheiras. Falamos das “Sopas de Alheiras” (porção de pão cortado sobre o qual se deita a calda da cozedura das carnes das alheiras, servida dessas carnes cozidas e, a acompanhar, batata regada com azeite).

A ideia é a de convidar os amigos para reavivarmos o prazer que era a degustação deste prato, que hoje só resta na memória de muitos.

Assim convocamo-la/o para:

Almoço de confraternização e degustação no dia 14 de Fevereiro pelas 13 horas na antiga Escola Primária da Aldeia de Ribalonga (Carrazeda de Ansiães).

Para os madrugadores inclui um tratado de honra ao meio da manhã.

Ementa:

Caldo de nabo;
Sopas de alheiras com carnes da assuã e batata regada com azeite;
Arroz doce/fruta;
Café

Nota:
 Serão servidos (vinhos maduros e vinho generoso de Ribalonga; água e sumos).

Dolorosa: - 15 Sopas.

Notas Finais:

Na organização do evento e com a responsabilidade das inscrições estão:
Helder José Teixeira de Carvalho
917817866
ldrcarvalho@gmail.com
José Alegre Mesquita
914569517;
josealegre@sapo.pt
Tito Reis
918750264
 Com a responsabilidade gastronómica e de organização do serviço à mesa - Adriana Barata.
O número limite de inscrições é de 60 convivas.


Prazo limite de inscrição 8/2/2015, o próximo domingo.