22 fevereiro 2015

Como Unhais da Serra, também nós: Helder Carvalho

Como Unhais da Serra, também nós

Na condição de cidadão carrazedense assisti a uma recente Reunião de Assembleia porque tinha algumas questões, que me pareceu pertinente, colocar aos nossos membros da dita.
Na devida altura e por especial favor, que eu agradeci, foi-me dada a oportunidade de expor ao Sr. Presidente da Câmara uma suscitação que se prendia com o projecto, que sabia estar a ser desenvolvido pelo município, sobre a viabilização das Termas para o São Lourenço.
Sou dos que consideram que, as Termas de São Lourenço poderiam constituir uma mais-valia económica para o nosso concelho se fosse potenciados os seus recursos. Nesse sentido achava eu que seria de todo o interesse as pessoas inteirarem-se dos planos que a autarquia tivesse para implementar e apoiar potenciais interessados em ali investir. Propus então que se tornasse público e divulgasse o processo em andamento e, assim abrir a todos a discussão deste projecto.
Fui esclarecido pelo Senhor Presidente. Disse-me que tinha assumido pessoalmente liderar todo o processo, que o tinha estudado profundamente e que este corria às mil maravilhas. Se quisesse conhecer algo de parecido com o que se projectava fosse a Unhais de Cima apreciar as instalações de turismo termal lá existentes.
Dispensavam-se pois outros “parteneres”ou “opinion makers”. O processo seguia já a sua velocidade de cruzeiro, tinha a conduzi-lo o seu piloto natural. O sucesso vinha a caminho.
Rejubilei. Fiquei tão assombrado com a eficácia e convicção propaladas que acreditei que ninguém mais fazia falta ou acrescentaria para o êxito do fenómeno.
 A partir daqui pus-me a sonhar. Imaginei uma autarquia capaz, auto-suficiente a investir e a construir com sucesso este “ projecto pin”, a diversificar e fazer render o seu “know how”, enfim, a liderar empresarialmente, pelo menos na industria turística da região. Visualizei a obra feita em função dos meus projectos de futuro reformado. Vi-me esticado na marquise a experimentar uma massagem delicadamente realizada por uma funcionária autárquica entretanto reciclada, após o banho sulfuroso. Tudo para curar o reumático que virá.
Entenderão agora porque me sinto preocupado com as notícias que dão conta dos entraves que põem ao projecto, já avançado. É tudo para nos tramar. Sim porque eu não acredito que o projecto não tenha sido estudado e dimensionado com a certeza de ser inserido no lugar certo. Também não acredito que não se conheçam as regras que regem o REN nem o parque natural para ali entretanto unanimemente aprovado e autorizado por todos. Estou convencido de que o Senhor Presidente há-de conseguir com a sua vontade indomável, a sua força política e o apoio incondicional de todos os carrazedenses, se necessário, convencer os nossos ambientalistas da Agência da bondade do nosso projecto. Da minha parte, é nos seus braços que eu ponho toda a minha crença, já que o meu contributo dispensado de outro modo, se resume ajudar a pagar as despesas com os meus impostos.
Estou em crer que bastará exibir as competências ganhas na área e manter a convicção com que respondeu às minhas dúvidas em reunião de Assembleia, para destroçar os demónios que agora irromperam e que só nos querem fazer mal. Sou dos que confiam e acreditam na capacidade e na vontade indomável do nosso timoneiro para levar para diante, contra ventos e marés, a demanda a que se propôs. Que nunca lhe falte o crer e o querer.
 Afinal de contas se foi concretizado o Projecto de Unhais, porque não havemos de ter também nós o nosso.

(Entretanto vou seguir o conselho do Senhor Presidente. Vou ver se conheço o complexo termal de Unhais da Serra, para ter uma ideia de como vai ser o nosso).

Helder Carvalho

11 fevereiro 2015

Alegria, Entrudo, que amanhã será cinza



É entrar, meus senhores, que é tempo da brincadeira e da reinação!
Que tal “botar” um casamento? Não estará na hora de deitar “as pulhas”? Mas ainda há quem vá aos bugalhos  para as “bugalhadas”? E panelas de barro para as cacadas? Sobram ainda, por aí, rendas para esconder a cara?
É entrar porque espreita o Entrudo e é preciso romper com a monotonia do inverno e a seriedade da vida. É aproveitar porque ainda há muito tempo cinzento e frio e daqui a nada ninguém tem vontade de conversar. É lembrar o estio e deixar-nos envolver pelo brilho dourado do sol. É recordar os miosótis azuis, as papoilas vermelhas nos campos de trigo amarelo e o verde das folhas dos arbustos porque é altura de pintar as cores no pensamento.
É tempo de dar mais fôlego à brincadeira, à imaginação e à transgressão das normas, seja com fatos e chocalhos abanado com as raparigas, seja com a realização de casamentos ridículos: É tempo de distribuir riso e justiça (quantas vezes a mesma coisa) e se não nem todos se podem julgar, julgue-se o Pai da Fartura.
Em muitas aldeias do concelho, por alturas do Entrudo, era uso “botar os casamentos” à noite. Os rapazes mais afoitos subiam aos montes, ou lugares mais elevados, ou mesmo as árvores altas e afastadas e munidos de uma folha, que é como quem diz um funil de medir o vinho, iniciavam um diálogo sempre jocoso e disparatado, quantas vezes apimentado, quantas vezes inconveniente que o silêncio da noite fazia ecoar nas quebradas dos caminhos e corar de vergonha as corujas, e outras que tais, dos campanários das igrejas. E lá se prometia casar a moça mais jeitosa com o viúvo velho, as belas e as bestas, as pobres e os remediados, pois se não houvesse exagero e caricatura, não havia graça.
Dizem-nos que era assim, em diálogo:
 - Ó camarada! – começava  um
- Olá camarada! – respondia o outro.
- Vamos fazer um casamento?
- Olha que vai de carreira.
- Casa o senhor Isaías com a senhora Teresa Carreira.
- Ó companheiro, vamos fazer outro casamento?
- Arranja lá o rapaz, que eu arranjo a rapariga.
- Pode ser o João Moças. E a rapariga?
- A Maria do arrasta o tamanco
- E é bem arranjadinho! Hi! Hi! Hi!
- Ele já não tem dentes!
- Mas acha-os num caminho.
- E que lhe havemos de dar de dote?
- Uma panela e um pote.
Ou então, na forma de quadra:
Aqui vai um casamento
Este vai bem arranjadinho
Vai casar a velha da Maria Antónia
Com o menino João Ratinho
Em Foz-Tua, ainda alguém se lembra de deitar “as pulhas”. Alguns rapazes iam para a estrada e procuravam o sítio mais alto e com um funil na boca diziam mal das pessoas, criticavam namoros escondidos… Do outro lado do rio Douro estavam outros rapazes que lhes respondiam.
Nas vésperas do Entrudo, pelo mesmo processo, também se usava partir o burro pelas raparigas da aldeia. Cada peça do arreio e do corpo do burro era repartido pelo mesmo processo, dizendo o que cabia a cada rapariga e para que servia. No Mogo de Malta, alguém se lembrou desta: À menina Maria / Que é a forneira / Leva as ferraduras / Para raspar a masseira.
 As bugalhadas do Entrudo eram comuns em outros locais, em que as pessoas ainda aceitavam brincadeiras. Juntava-se um grupo de jovens com sacos de bugalhos anteriormente apanhados. Pela calada da noite eram atirados na casa das pessoas escolhidas a propósito. Logo que lançados, fugiam para o breu da escuridão. O barulho provocado assustava e indispunha os presentes. Os bugalhos podiam ser substituídos por cacos de panelas velhas de barro, só que a esta "brincadeira" chamava-se "cacadas".
Por alturas do Entrudo, era costume também vestirem-se roupas velhas, colocarem-se rendas na face, e, sob quase anonimato, percorrer-se a aldeia, assustar-se os transeuntes e atirar-se farinha.

O cozido do palaio, acompanhado das cascas e das batatas, e regado pelo vinhito, ajudava a digerir as brincadeiras, menos engraçadas porque “sábado filhoeiro, domingo gordo e pelo Entrudo come tudo.”

08 fevereiro 2015

A "matança"


Todos os anos se matava o “reco”, pois o  porco, como alguém disse, é a máquina ecológica perfeita: transforma os vegetais em carne; alimenta-se dos restos dos alimentos; produz estrume para os campos; e depois de morto, serve de talho para o ano inteiro.
A matança decorria entre novembro e fevereiro, habitualmente nos domingos, e era um dia marcante para a família e os vizinhos chamados a ajudar. O animal era preparado no dia anterior: de manhã, dava-se-lhe uma vianda de água e farelos e jejuava durante a tarde e noite, para “limpar”, amaciar e descongestionar o aparelho digestivo.
O cerimonial, começava bem cedo com o mata-bicho, figos e bagaço e também pão e azeitonas e algum enchido do defunto do ano anterior. O bicho saía do cortelho para o quinteiro ou até mesmo para a rua, onde passeava calmamente. A passeata era fundamental para apaziguar a vítima.
O “matador”, de faca em riste, de corda na mão com um laço na ponta, prendia-o pelo focinho. Aproximado do banco do martírio com jeito, força e paciência, aguardavam-no quatro, cinco, seis homens. Dois pegavam-lhe nas orelhas, outros dois nas patas traseiras, um outro no rabo e assim o estendiam no banco do suplício. O “matador” introduz-lhe lentamente a lâmina com a sabedoria que só ele possuía. O sangue jorrava vivo e vermelho para o alguidar da dona de casa que violentamente agitava o fluido encarnado até fazer uma espuma abundante. Quanto mais sangue, melhor: superior carne, mais mouras e mais sangue cozido que se distribuía, num intervalo, pelos presentes, com azeite e alho e uma boa porção de vinho.
À dor lancinante e muito ruidosa do porco seguia-se um longo silêncio, interrompido pelo crepitar da palha para tostar a pele e é fundamental à extração da epiderme com pedras bem lisas e à raspagem dos pelos com ajuda de água e de facas bem afiadas. Despojado das unhas, escaldadas as orelhas, retirados os restos das fezes com um rolo de palha e bem lavado era preparado para a primeira operação que fornecia a primeira carne para a mesa da matança, os rojões do soventre, a barriga do porco.
As tripas são cuidadosamente apartadas para uma bacia ou alguidar. Ainda quentes retiram-se-lhe alguma gordura, para serem fervidas numa panela. Mais tarde, serão lavadas na ribeira. Por último, cuidadosamente é também retirado o “de dentro”: coração, rins, fígado, pulmões, o estômago, a bexiga que cumprirão uma função especial no fumeiro ou na grelha da assada. Limpo de tudo vai ser dependurado na trave da loja ou da adega.
Um, dois, três dias depois, desfaz-se o porco. Volta o “matador” para a “desmancha” meticulosa. Retirada cada peça é cortada, preparada e colocada na salgadeira, na avinha d`alhos ou guardada para o fumeiro. Nada é estragado: ao resto do sangue, junta-se-lhe alho e vinho, que irá ajudar a fazer as moiras.
Nesse dia há o hábito de "dar o prato". Consiste em levar aos lares mais chegados, um prato com carne... para que todos provem da matança. Com o dar nada se perde. Eles vão retribuir, propiciando carne fresca naquele lar durante semanas.
Após os “enchimentos”, as cozinhas modificam a sua fisionomia, mostrando a fartura dos seus enchidos que secam e fumam durante semanas e hão de durar, aí dependuradas ou em azeite, o ano inteiro: alheiras, chouriços doces, chouriços de sangue, chouriças de carne e de boche e os salpicões deliciosos e outros mais especiais como o bulho e a bexiga.  
Será também o alto da lareira o destino final dos presuntos e das pás que aí ficarão dependurados e sujeitos aos apetites dos da casa, até não passarem de um simples osso despojado de carne e couro e há de repousar para temperar o caldo de cascas e adubar uma boa feijoada.
Em Janeiro, um porco ao sol outro ao fumeiro, ao sol, e também para dormir no cortelho para o cevar e preparar para a matança que se segue.

Retirado do livro - "Selores... e uma casa"

01 fevereiro 2015

Convite

Convite


Este é um convite para todos aqueles que gostam da sua terra, da sua história e tradição e, gostam de comer bem.

Vem de longe a bom hábito de bem cozinhar e bem servir no nosso concelho.
Gerações de produtores, cozinheiras e comensais garantiram esta fama que foi longe, tem vindo a perder-se e nós gostaríamos de a ver ressurgir para proveito de todos. Muitos produtos locais resistem, alguns fruto de técnicas mais apuradas aumentaram a qualidade (pão, vinho, batata, carne, fruta, legume, azeite).
Porque faltará recuperar as antigas ementas que nos distinguiam e delas desfrutar, desejamos promover um desses gostosos pratos, que foi típico da nossa ementa e que desapareceu praticamente da nossa mesa. Era um prato que se degustava ao almoço sempre que lá em casa era dia de fazer alheiras. Falamos das “Sopas de Alheiras” (porção de pão cortado sobre o qual se deita a calda da cozedura das carnes das alheiras, servida dessas carnes cozidas e, a acompanhar, batata regada com azeite).

A ideia é a de convidar os amigos para reavivarmos o prazer que era a degustação deste prato, que hoje só resta na memória de muitos.

Assim convocamo-la/o para:

Almoço de confraternização e degustação no dia 14 de Fevereiro pelas 13 horas na antiga Escola Primária da Aldeia de Ribalonga (Carrazeda de Ansiães).

Para os madrugadores inclui um tratado de honra ao meio da manhã.

Ementa:

Caldo de nabo;
Sopas de alheiras com carnes da assuã e batata regada com azeite;
Arroz doce/fruta;
Café

Nota:
 Serão servidos (vinhos maduros e vinho generoso de Ribalonga; água e sumos).

Dolorosa: - 15 Sopas.

Notas Finais:

Na organização do evento e com a responsabilidade das inscrições estão:
Helder José Teixeira de Carvalho
917817866
ldrcarvalho@gmail.com
José Alegre Mesquita
914569517;
josealegre@sapo.pt
Tito Reis
918750264
 Com a responsabilidade gastronómica e de organização do serviço à mesa - Adriana Barata.
O número limite de inscrições é de 60 convivas.


Prazo limite de inscrição 8/2/2015, o próximo domingo.



17 janeiro 2015

MUDANÇAS: João de Matos

Desde o início da vida humana na terra até aos nossos dias, muita água correu debaixo das pontes e muita água há-de continuar a correr. E, enquanto a água corre, muita coisa se vai alterando em nós e à nossa volta. Para facilitar e porque o homem já viveu milhares de anos, sempre direi que nunca, como nos últimos cem anos se viveu tão bem à superfície do nosso planeta. À medida que vamos recuando séculos na nossa história, facilmente constatamos que , ao recuar no tempo, o ser humano teve cada vez mais dificuldade em sobreviver. Viveu-se melhor no século XX que no XIX, no XIX que no XVIII, no XVIII que no XVII, etc..... No século XXI, começam a vislumbrar-se mudanças provocadas pela evolução da técnica, de tal monta que passámos a questionar-nos se os pensamentos até agora imperantes terão ou não validade no futuro. Sim. Por exemplo, até agora, a distribuição de rendimentos era feita pela remuneração do trabalho. A maior parte da humanidade , para ter dinheiro, tinha que trabalhar e recebia de acordo com o trabalho produzido. Sem trabalho, não havia dinheiro. Sem falar em que o esforço dispendido no trabalho é hoje muito menor que há uns tempos, começa a haver mais dificuldade em arranjar o precioso meio de obter rendimentos. A tecnologia tem-nos facilitado o trabalho mas também tem contribuído para que ele rareie. E se o que até aqui dignificava o homem( o trabalho) se tornar um bem escasso, que não chegue para todos? Depois de muita discussão, lutas e sofrimentos, com certeza que chegaremos à conclusão de ser necessário arranjar outro modo de distribuição dos rendimentos. Muito provavelmente chegará um momento em que teremos dinheiro sem termos tido necessidade de desenvolver qualquer esforço a que possamos chamar trabalho.
Como disse, muita água continua a correr debaixo das pontes. E correrá tanta que a nossa vida, hábitos, pensamentos e normas serão todos alterados.
Para quê e por quê sermos pessimistas? No curto prazo, teremos razões para sê-lo. No longo prazo, poderemos até ter motivos para ser muito optimistas.

João de Matos

29 dezembro 2014

A SOCIEDADE E AS SUAS REGRAS: João de Matos

A vida da sociedade é regulada por normas, que não são tão neutras como se julga: muitas vezes, favorecem umas pessoas e profissões e prejudicam outras. Claro, esta desigualdade de tratamento não é, muitas vezes, propositada. A feitura das regras é que dá, quantas vezes, esse resultado. Logo, acontece que uma actividade é, para alguns, absolutamente legal e exercida à vista de toda a gente,sendo para outros proibida, ilegal e merecedora de punição. No sentido positivo, o favorecimento, traduz-se por uma expressão muito popular: “ A lei dá-o”.
Pois se a lei o dá ou não dá, há que aceitar o seu ditame, com todas as consequências que isso comporta. Há que respeitar as regras, obedecer-lhes, quer quando dão um resultado quer quando dão o outro. Quem prevaricar( no caso do desfavorecimento) sujeita-se a ser condenado e não pode invocar desigualdade de tratamento.
Portanto, ou as pessoas têm a lei a seu favor ou, no caso negativo, conseguem escapar à punição. Se se deixam apanhar, sofrem-lhe as consequências( a punição judicial). Não têm aqui interesse outras considerações, as de ordem ética, por exemplo.
Estas são as regras do jogo social e todos têm que conhecê-las. Se são apanhados não têm de que se queixar a não ser da sua própria inépcia.
Concretizando, há actos que podem ser praticados, por exemplo, por advogados mas não por funcionários. Estes têm que ter cuidado, ao praticá-los, os advogados não. É a lei, amigos, que faz a diferença. Que podemos nós fazer contra isso?


João de Matos

24 dezembro 2014

Bom Natal

Conta-se que, no sítio da Cabreira, no termo de Mogo de Malta, existia uma fraga que todos os anos, dia de Natal, à meia-noite, se abria ao meio, e no interior da mesma se encontrava uma grande fortuna em moedas de ouro.

Contam ainda, que, num determinado ano, uma mulher pobre, ambicionando parte das moedas de ouro ali guardadas, ousou aventurar-se e com uma criança recém-nascida ao colo e dirigiu-se para a fraga. Ao dar a primeira badalada da meia-noite, a fraga abriu-se e a mulher pôde entrar e levou consigo a criança. No interior ficou maravilhada com o que viu. Depressa esqueceu o recém-nascido e encheu o avental de moedas. Ao dar a última badalada tinha que sair porque a pedra fechar-se-ia. Ela abandonou as entranhas megalítica, porém a criança ficou lá dentro esquecida. A mulher ao aperceber-se do que lhe tinha acontecido, com a aflição, levou as mãos à cabeça, soltou o avental, que logo se abriu, espalhando as moedas pela encosta abaixo. Para seu espanto e de todos os que queiram ver, as moedas transformaram-se em grandes pedras.

Conta-se por fim que, no ano seguinte, a mesma mulher, como fazia todos os dias, com o coração ferido de tristeza, agora sem qualquer ambição de riqueza, voltou à fraga, seguiu as mesmas instruções e assim recuperou o filho, porque a criança estava precisamente no mesmo sítio onde o tinha deixado.
Podia contar-se que a partir daí, o seu filho e a sua educação foi, mais que qualquer valor material, o seu projeto de vida e o valor mais alto a que aspirou.

Conto que, por esta esta quadra, ou em outra qualquer, porque Natal é todos os dias, saibamos, no interior de qualquer pedra, aqui simbolizada como dificuldade e coisa sem valor, descobrir um verdadeiro tesouro, um projeto de salvação, também simbolizado pelo Menino Jesus, para deixar que a bondade inicial resplenda e seja.


Bom Natal a todos os amigos de Pensar Ansiães.


19 dezembro 2014

Carta ao Menino Jesus

Meu Menino Jesus:

É a primeira vez que te escrevemos, por isso desculpa-nos o atrevimento. Sabemos que agora se escreve ao Pai Natal, que era um bispo turco, que se chamava Nicolau, senhor de barbas, risonho, simpático e bonacheirão. É rico e bem-sucedido, tem uma grande fábrica de brinquedos, com um complexo e organizado sistema de transportes e, por isso, fica melhor ao espírito de querer tudo de hoje.

Mas, neste ano de memória e identidade, dirigimo-nos a Ti porque era ao menino da manjedoura e quase despido, que os nossos avós dirigiam os pedidos, apesar da mão cheia de nada que recebiam em criança.

O Natal parecia durar tanto tempo e era muito feliz. Todos se juntavam na casa dos avós e todos, mesmo todos, faziam uma grande festa… eram primos, tios, irmãos, todos misturados, riam e brincavam… Os garotos cá fora a correr, nem sentiam o frio! Apenas as caras coradas e o nariz vermelho!

As mulheres todas atrapalhadas a preparar as rabanadas, as bolas e os doces de chila, os bolos de bacalhau, os figos secos, as amêndoas e as nozes, aos sabores e os cheiros misturados, que sempre nos faziam água na boca…

Os homens que já tinham ido buscar os troncos para a fogueira do adro, conversavam com grandes gargalhadas junto à lareira…
E quando o relógio avançava, jogavam ao rapa, ao par e ao pernão e sempre ganhavam rebuçados que era uma boa prenda. As outras prendas se havia eram muito pequeninas, não como agora, mas eram mais sentidas, mais queridas, como uns sapatos que tinham de durar até ao Natal do próximo ano! Agora as exigências são outras! Nós queremos, queremos e tudo nos dão!

E a missa do galo à espera na escuridão da noite, ninguém se queixava do frio ou do cansaço… todos cantavam e beijavam o Menino com uma emoção tão grande que nem cabe aqui neste pequeno texto.
No presépio da Igreja e à Tua volta construíam um mundo que tinha um tapete de musgo e era perfeito de simplicidade, ternura e harmonia. A simples cabaninha do Menino Deus e Salvador reinava sobre um mundo perfeito de pastores e ovelhas, iluminado pela grandiosidade da estrela de Natal.

Fazemos-te um pedido: ajuda-nos a conservar as coisas boas que temos, como, o espírito de comunidade, para termos sempre alguém ao pé de nós na alegria e na tristeza, e sermos uma grande família.
Não esqueças também o habitual: a saúde, a paz e a prosperidade para todos.

Feliz Natal com memória e identidade!

14 dezembro 2014

Acordei, estremunhado, do coma letárgico...: João de Matos

Acordei, estremunhado, do coma letárgico em que me encontrava há já um largo tempo, tempo este de que não tive consciência , dado o meu estado de letargia. Não se tratou dum coma espontâneo mas induzido. Fui eu que quis colocar-me nesse estado para ver se tudo tinha o seu curso natural apesar da minha inexistência mental. E não é que tudo se passou, tudo funcionou, tudo decorreu normalmente apesar da minha ausência! Nasceram pessoas, morreram pessoas, o tempo passou e houve as mudanças habituais; até, dentro de mim, tudo permaneceu operacional: o sangue deambulou por mim, o oxigénio não me faltou, se bem que a minha mente estivesse ausente.
Que importância tem o facto de eu estar consciente, de pensar, de emitir opiniões? Nenhuma. Mas eu quis mesmo que , originado por mim, nada perturbasse o devir normal do mundo, para que quem quisesse pudesse chegar à conclusão de que eu não tenho, no rolar dos acontecimentos, qualquer influência.
Também quis, com o meu coma, habituar-me à minha inexistência, durante séculos e séculos, inexistência certa , para toda a eternidade, pelo menos, na minha ausência permanente deste mundo. Quando estiver do outro lado, há de ser, penso eu, dum modo totalmente diferente, sem transcurso de horas, minutos ou segundos, numa intemporalidade em que não haverá nem passado, nem presente, nem futuro. Simplesmente seremos intemporais, que penso que é o que Deus é: intemporal. Será mesmo uma experiência muito interessante a nossa instalação na intemporalidade.
Tenho a ideia de que saí do meu coma a contragosto, que queria permanecer nele e que me sentia feliz: o meu acordar foi, por isso, doloroso, provocado por ruídos a mim alheios e que fizeram com que voltasse às agruras do viver e do conviver. Mas agora sinto que estarei por cá uns tempos e que têm de contar comigo para o que der e vier.


João de Matos

27 novembro 2014

As gravuras não sabiam nadar

Em novembro de 1994 começaram a surgir as primeiras notícias relativas a importantes achados arqueológicos na área que seria submersa pela barragem do Baixo Côa, vindo depois a confirmar-se.

Para comemorar a efeméride foi preparado um programa evocativo, do qual se destaca, no dia 29 de novembro, a reabertura ao público da sala D do Museu do Côa, ultrapassados que foram os condicionalismos técnicos que levaram ao seu encerramento. Mantendo o espírito da história que se conta no Museu, esta sala continuará dedicada ao chamado coração do "santuário arcaico paleolítico" da Penascosa/Quinta da Barca.

 A 2 de dezembro, dia comemorativo da classificação da arte do Côa como Património Mundial pela UNESCO, as visitas ao Museu e aos sítios de arte paleolítica abertos ao público, serão gratuitas para os grupos escolares, que podem desde já agendar as suas marcações. e que se trata do maior complexo de arte rupestre paleolítico ao ar livre conhecido até hoje.

Este extraordinário legado artístico, em particular da pré-história antiga, que se guarda no Vale do Côa merece uma visita.
Mais aqui



16 novembro 2014

Apertar o cinto

" O director do Agrupamento de Escolas de Carrazeda de Ansiães afirma que tem de fazer uma ginástica financeira “apertadíssima” ao longo do ano lectivo, por causa dos cortes orçamentais impostos pelo Ministério da Educação.
...o dinheiro tem de ser gerido com muito cuidado para fazer face às despesas fixas, como o aquecimento. “Os cortes têm afectado o funcionamento especialmente na gestão das verbas fixas. O Inverno é difícil, vai-se fazendo a gestão possível, em períodos em que o tempo está melhor o aquecimento vai-se cortando, as horas de funcionamento vão-se diminuindo”
... O agrupamento tem perdido em média entre 20 a 30 alunos...
... Ainda há amianto, foi retirado das coberturas exteriores, mas mantêm-se as coberturas dos pavilhões...
... Embora com algumas lacunas, no que respeita à falta de instalações para a prática de Educação Física, de um espaço maior para o recreio e falta de cobertura de ligação à escola sede, porque os miúdos vêm aqui tomar as refeições.Entretanto, a cobertura foi feita, mas só até meio, dentro do centro escolar, falta a cobertura que ligue à escola sede..."

Daqui

15 novembro 2014

Olha o passarinho!

Já são conhecidos os 15 melhores projetos empresariais do Prémio Douro Empreendedor.
Os projetos escolhidos resultaram de um total de 64 candidaturas apresentadas por empresas da região, correspondendo as candidaturas a 35 milhões de euros de investimento, geradoras de 19 milhões de euros de volume de negócios.

Finalistas: Na categoria empresas com menos de dois anos destacam-se a Farma/Inove – Associação para o Empreendedorismo e Inovação da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, Sabonetes Aregos – Douro Memories, Hi Tractor, Douro Skin Care e a Activansilanis.

Ouça aqui, na TSF, a reportagem sobre esta empresa de eventos, em que uma das propostas é a observação de pássaros:

https://www.facebook.com/video.php?v=754037858014692 


Para além das entidades organizadoras – Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N) -, integrou o júri de premiação dos finalistas: Braga da Cruz, presidente da Fundação de Serralves, José Silva Peneda, presidente do Conselho Económico e Social, e Manuel Carvalho, jornalista do jornal Público.
A cerimónia da segunda edição deste prémio, co-financiado pelo "ON.2 - O Novo Norte" (Programa Operacional Regional do Norte 2007/2013), está agendada para o dia 28 de novembro, em Vila Real, e será presidida pelo primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho. F

13 novembro 2014

"A vaca tá seca"

"...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".


João José de Freitas, natural de Misquel, freguesia de Parambos, concelho de Carrazeda de Ansiães





11 novembro 2014

Grande bebedeira

Depois de 82 anos de história, Casa do Douro vai morrer e deixa como herança dívida de 167 milhões ao Estado. Daqui.

E se o stock de nove milhões de litros de vinho do Porto passam para o Estado, é legitimo concluir que vai ser uma grande bebedeira.

A notícia de Manuel Carvalho do Público

Depois de 82 anos de história
  Douro
Casa do Douro vai morrer e deixa como herança dívida de 167 milhões ao Estado
No dia 1 de Janeiro, a outrora mais poderosa organização agrícola do país vai ser extinta. A associação que a substituir não terá natureza pública nem inscrição obrigatória. A sua dívida de 167 milhões e um stock de nove milhões de litros de vinho do Porto passam para o Estado. O sector, a braços com decisões urgentes, prepara-se para meses de vazio e incerteza.

Depois de 82 anos de história como organismo de representação dos produtores de vinho da região, a Casa do Douro vai deixar de existir no dia 1 de Janeiro de 2015. O que está prestes a acabar não é apenas o último vestígio da organização corporativa do Estado Novo nem a única associação de agricultores de direito público e inscrição obrigatória; com o ano novo acaba também o impasse sobre um volume de dívidas que rondam os 167 milhões de euros acumulados pela Casa do Douro (CD).

Extinta a CD enquanto associação pública, fica também em aberto um buraco na representação dos agricultores que ameaça paralisar o processo de decisão de um sector que está longe de viver os melhores dias.

Há mais de 20 anos que a CD ocupa um lugar privilegiado nas agendas dos ministros da Agricultura. “Isto [a paralisia institucional e a dívida] tinha de acabar um dia”, explica o secretário de Estado da Agricultura, José Diogo Albuquerque, que tem gerido o processo. A megalomania da sua gestão no princípio dos anos de 1990 levou-a a adquirir enormes volumes de vinho para os quais teve de obter financiamento.

Num dos negócios mais polémicos dessa época, a CD adquiriu 40% do capital da Real Companhia Velha por 9,6 milhões de contos (pouco menos de 50 milhões de euros a preços actuais) e após anos de disputas judiciais nunca nomeou administradores na sociedade nem recebeu qualquer dividendo. Para acentuar a sua agonia, o Estado, sob pressão intensa dos exportadores, foi-lhe retirando funções e receitas. A CD que se prepara para fechar as portas é, por isso, apenas uma pálida imagem da que foi a mais poderosa, rica e influente organização de agricultores do país.

O clima de insolvência que paira sobre a CD afectou o ritmo de trabalhos do Conselho Interprofissional do IVDP, onde os problemas do Douro e do vinho do Porto são decididos. “No último ano, o conselho reuniu muito pouco”, diz Isabel Marrana, da Associação de Empresas do Vinho do Porto, que explica a paralisia do órgão com o facto de a “representação da produção estar a termo fixo” que lhe retira a “estabilidade”. Questões essenciais como o congelamento por parte do Governo das verbas pagas pelo sector para efeitos de promoção não estão sequer a ser discutidas. E, mais grave para os exportadores é o facto de não se saber quando haverá uma associação que substitua a actual.

O Governo tentou evitar vazios de poder concedendo à actual direcção a possibilidade de renomear os seus actuais corpos dirigentes, que se encarregariam de elaborar estatutos para uma associação privada. Era uma proposta de “mudança por dentro”. Mas, a manutenção da actual equipa teria de ser decidida num prazo de 20 dias, que já terminou. Em duas tentativas, o Conselho Regional de Viticultores, a assembleia magna da região, composta por 125 membros, nunca conseguiu renuir conselheiros em número suficiente para cumprir a exigência de uma maioria absoluta.

Falhando esta meta, o Conselho poderia ter optado pela convocação de eleições. Mas, após 20 dias na tentativa de prolongar o mandato de Manuel António dos Santos, acabaria por concluir que já não tinha tempo para o fazer antes do dia 31 de Dezembro. “Os prazos impostos pelo Governo são inexequíveis”, afirma António Januário, um dos directores da CD. Para o Ministério da Agricultura, o cenário é diferente. “A impossibilidade de a Casa do Douro conseguir quorum é sinal de alguma coisa”, aponta José Diogo Albuquerque.

Sem uma solução de continuidade, a associação que renascerá das cinzas da Casa do Douro, podendo usar o seu nome e receber parte do seu património, será escolhida por concurso. “Uma inovação”, diz Isabel Marrana. Os critérios para a escolha da associação vencedora serão definidos por portaria e, para que não faltem candidatos, o Governo garantiu uma série de benefícios a quem ganhar a corrida. Para além de ficar com a sede, que historicamente é património dos lavradores durienses, a associação vencedora ficará com seis lugares garantidos no Conselho Interprofissional no seu primeiro mandato, poderá receber como quotas as taxas pagas pela produção no IVDP (referentes às declarações de colheita e produção) e terá direito aos bens remanescentes ao processo de liquidação da dívida. Se o gigantesco stock de vinho do Porto vai servir como pagamento das dívidas ao Estado (ver texto ao lado), a Casa do Douro é ainda dona de vários armazéns na Régua, de edifícios em várias vilas da região e da participação na Real Companhia Velha ligeiramente superior a 30%.

A definição de regras do concurso e a criação de uma associação privada a partir do zero ameaçam, no entanto, prolongar o vazio institucional no Conselho Interprofissional, numa altura em que “há no sector imensos assuntos estratégicos a tratar”, avisa Isabel Marrana. Outra preocupação relaciona-se com a falta de dinâmica associativa na região, que, na opinião da secretária-geral da AEVP, faz do concurso “um risco”. Porque “pode surgir uma associação que não tenha legitimidade para representar o Douro”, avisa. Isabel Marrana fala em termos teóricos, mas no Douro esse “risco” está bem identificado: as confederações agrícolas nacionais, a CNA e a CAP, que nunca foram capazes de ganhar protagonismo na região, espreitam agora a oportunidade de entrar num sector que vale 500 milhões de euros por ano – a CNA controla a Avidouro, uma pequena associação.

Mas, até ao dia do concurso, o esvaziamento da natureza pública da Casa do Douro ainda vai exigir trabalho à actual direcção. Até ao final da próxima semana, a instituição terá de levar ao Governo os relatórios de gestão dos últimos cinco anos, a relação das dívidas a privados e ao sector público e realizar uma provisão para garantir a indemnização dos trabalhadores sem vínculo ao Estado que cessam funções a 31 de Dezembro – são cerca de 20; a maior parte, cerca de 30, têm o estatuto de funcionários públicos e passam ao quadro de mobilidade especial.

Quando a nova associação aparecer, estará livre das dívidas, terá a imponente sede da Régua, cerca de seis milhões de euros em vinho e, possivelmente, outros activos imobiliários. Mas estará longe de poder imitar o poder da Casa do Douro antes dos 30 anos de gestão ruinosa que a levaram à irrelevância e à dívida.
Manuel Carvalho in Publico, 2014-11-10

10 novembro 2014

Tempo de castanhas


“Tempo de Castanhas”, exposição patente ao público entre os dias 1 de novembro de 2014 e 26 de abril de 2015 no Centro de Fotografia Georges Dussaud, em Bragança.

Queima da cabra

Quem disse que há impossíveis!
De uma aldeia com apenas 18 habitantes, a  queima da cabra e do canhoto fez-se uma festa que no último fim de semana juntou mais de 2500 pessoas http://www.mdb.pt/noticia/tradicao-recuperada-deu-vida-aldeia-quase-despovoada-3210

02 novembro 2014

O culto dos mortos



O culto aos mortos é tão antigo como a própria história do homem. A primeira manifestação conhecida está ligada às antas, datada dos fins do quinto milénio?, mais tarde, os egípcios e os maias construíram pirâmides, os reis e os imperadores mausoléus, sarcófagos e memoriais e o povo inscrições na pedra.  A Igreja Católica instituirá o Dia de Finados que passou a ser comemorado em 2 de Novembro. Neste dia, os devotos dirigem-se ao cemitério com o sacerdote que em troca de uma entrega pecuniária reza pelos familiares falecidos. Por altura da celebração do padroeiro era comum fazer-se o ofício das almas que consistia numa preleção de dois ou três sacerdotes em latim, envolvendo um cerimonial longo e solene.

Uma das referências do culto dos mortos são as alminhas, que representam as almas do purgatório às quais é necessário rezar para que a sua penação seja curta e a entrada no paraíso o mais breve possível. Estas representações estão normalmente em locais de passagem, encruzilhadas dos caminhos, ou então à entrada das localidades. As Alminhas eram respeitadas e veneradas: os homens descobriam-se e benziam-se quando por elas passavam e todos rezavam. Por vezes, colocavam flores, velas e também uma moeda na caixa das esmolas.

O ritual funerário é diverso e muitas vezes doloroso: o acompanhamento na agonia, o repicar dos sinos, os choros, a lavagem e o arranjo do corpo, o velar noturno, o cortejo, o enterro, o luto e a dor, o apaziguamento das almas... O anúncio da triste notícia era anunciado à população com o repenicar próprio, triste e compassado dos sinos da igreja. Ouvir o tocar aos mortos provocava sempre temor. Aqueles que se encontram no campo descobrem-se respeitosamente, muitos adivinham o acontecido e rezam uma oração pelo falecido, ou tão só exclamam “Que Deus o tenha em eterno descanso”; quase todos abandonam o trabalho rapidamente por respeito e retornam por novas e para confortar e visitar a família.

O cadáver é lavado e aos homens faz-se a barba. As roupas que levam vestidas são as que habitualmente usa ou, mais frequentemente, com as suas melhores peças, o fato de casamento, normalmente pretos no caso dos homens, e guardados especialmente para o último passo. As crianças são vestidas de branco, bem como as mulheres solteiras, presumivelmente virgens, levam um véu da mesma cor. A mortalha com que se embrulha ou cobre o morto é habitualmente de linho branco.

No caixão, o corpo é acompanhado de vários objetos: rosários e orações são comuns. Porém, o imprescindível é uma moeda, uma migalha de pão, um bocado de cera e a seguinte quadra: “Que é que trazes no mangão/ Levo um tostão/ Cera e pão/ Para passar o Jordão.” A moeda é para pagar ao barqueiro; o pão para a viagem e a cera para alumiar o caminho.
No velório, o cadáver permanece em sua casa e é iluminado por velas ou um candeeiro de azeite. Os que entram aspergem o morto com água-benta. Usa-se um ramo de alecrim ou de oliveira fazendo-se uma cruz no ar. As pessoas da família permanecem junto do caixão e recebem as condolências. Durante toda a noite do velório os que guardam o morto rezam orações de mistura com palavras de saudade.
O momento de exéquias com a presença do padre contempla os seguintes momentos: em casa do defunto, na igreja, no percurso e no cemitério; com duas procissões intermédias (da casa do defunto para a igreja e da igreja para o cemitério). O clérigo vai buscar o defunto a casa e é transportado por homens que vestem opas para a igreja, onde é celebrada uma missa de corpo presente, proibida somente no Tríduo Pascal (quintas, sextas e sábados santos), nas solenidades de preceito e nos domingos do Advento, da Quaresma e da Páscoa. À gente “importante” era rezado um ofício de exéquias concelebrado por mais de um sacerdote. Os que se suicidam não têm direito a sepultamentos católicos, isto é sem o acompanhamento do padre são transportados diretamente para o cemitério. No percurso para o cemitério, aos ombros dos homens trajados de opas, de quando em quando fazia-se uma pausa para uma oração, colocando-se o caixão em cima de cadeiras ou bancos transportados a propósito. No cemitério, o clérigo faz a oração final por cima do choro mais forte da despedida. Os sinos fazem-se ouvir com o triste repicar. Ao fim de sete dias é celebrada a missa do sétimo dia.

O luto obriga ao uso da cor negra em todas as peças exteriores do vestuário ou a marcar um sinal negro à volta do braço da camisa, do casaco ou uma fita preta nos chapéus. De uma maneira geral, os homens não fazem a barba durante determinados dias. Porém, o luto atinge sobretudo as mulheres. Nelas é negro o lenço ou o xaile a cobrir a cabeça. A regra é encobrir o mais possível o corpo, em particular o rosto. O período de luto, no caso de maridos ou filhos, prolonga-se quantas vezes até ao fim da vida. O luto manifesta-se também retirando os brincos e outras peças de adorno.

O conjunto das proibições e prescrições observa-se normalmente durante um ano e é neste tempo que têm lugar os vários rituais de comunhão com os mortos: celebração de missas, romagens ao cemitério e esmolas, entre outros. É comum na missa de sétimo dia e de aniversário distribuir-se pão e vinho pela população.

São também vários os exemplos de associar os mortos queridos à vida quotidiana, de comunicar com eles, de aliviar as suas penas: evocações nas preces, nas Trindades, nas esmolas...

As almas manifestam-se e intrometem-se no mundo dos vivos, em todas as horas do seu quotidiano: são os "espíritos" ou "almas penadas", isto é, as almas que não têm as suas "penas" no Purgatório, nem tão pouco lugar no Céu nem no Inferno; são as almas das pessoas que deixaram promessas por cumprir, dívidas por saldar, e também dos que morreram de morte súbita e violenta ou assassinados. Podem, assim, vaguear por qualquer lado, gemendo de noite pelos cemitérios e em encruzilhadas, nas soleiras das portas, por cima dos telhados; introduzindo-se em animais. Muito temido é o redemoinho de vento: são as almas perdidas que não puderam entrar no Céu. Estas almas podem meter-se no corpo dos vivos, e para os quais é necessário o esconjuro, acessível a todos, “Vade retro Satanás” seguido do sinal da cruz; e o exorcismo, uma oração oficial da Igreja, mas reservada aos padres exorcistas. 


In "Selores ...e uma casa"



28 outubro 2014

Ecce Homo



Nas nossas igrejas e capelas repousam objetos de inegável valor. Em Selores, o “Divino Ecce Homo” é uma bela imagem da arte sacra do concelho de Carrazeda de Ansiães e sobre ela se conta uma história, também bela e inspiradora. Apressamo-nos a contar:
Certo dia passou pela aldeia um pobre pedindo esmola. Ao chegar ao largo deparou com um perfeito tronco de amoreira. Era comum esta árvore no povoado, pois a cultura do bicho-da-seda[1] era uma atividade importante e complementar da subsistência da população.
No largo conversavam um grupo de pessoas ao sol: Dirigindo-se a elas disse-lhes:
- Que belo pau para fazer um santo!
- E vós sois capazes de o fazer? – interrogaram-no em jeito de desafio.
- Olhem, põem-me aí num lugar, eu e o pau, fechem a porta e, durante três dias, não ma abram!
Algumas das pessoas que se encontravam no largo soalheiro, breve se aprontaram a arranjar as ferramentas, outras pegaram no tronco e levaram-no para uma casa situada ali bem perto. Conta-se que a casa era dos Araújos e está situada no largo do Bebedouro. Aí se instalou o mendigo. Fechou a porta por dentro e durante três dias ninguém mais pode contactá-lo, nem tão pouco vivalma lhe pôs a vista em cima. A curiosidade das pessoas chegou a tal ponto que ainda pensaram bater à porta e entrar para observarem o trabalho, mas havia sempre alguém que recordava as palavras da misteriosa personagem. Soube-se que um ou outro mais curioso, pois sempre os há, ainda espreitou pelo buraco da fechadura, todavia a escuridão do casebre, nada deixava vislumbrar. (Será mesmo rural este hábito de espreitar para dentro de uma casa? Não o creio, pois rurais e, particularmente, os citadinos, toda a gente gosta de dar uma espreitadela na fechadura da casa famosa de uma televisão. Como teremos autoridade moral para continuar a dizer às nossas crianças, pois o ouvimos aos nossos avós, que, “espreitar é feio”?)
Ao terceiro dia, como fora prometido, a porta da casa, onde se abrigara o mendigo estava aberta e, com ansiedade, por ela alguém entrou. Do mendigo nem um sinal, e, a partir daí, ninguém mais o viu. Muitos juravam que se tratava do próprio Cristo e bem o tentaram procurar por toda a aldeia e arredores, mas em vão. Lá dentro encontrava-se tão só uma belíssima imagem de Jesus de Nazaré, flagelado, atado e com a coroa de espinhos. À imagem que restou e à fé dos homens são atribuídos diversos milagres e bem-aventuranças que os ex-votos susceptos – votos realizados em consagração, renovação ou agradecimento de uma promessa, estão expostos. Entre os muitos milagres conta-se aquele que alguém ouviu por aí contar: “uma ocasião, andava um senhor à caça, um senhor que ainda aqui tem netos (assegurava-se para tornar mais real o milagre). E esse senhor andava então lá prás ribeiras, quando se lhe disparou um tiro na barriga, que até as tripas lhe ficaram na mão. E então prometeu-se a ele, ao Divino Senhor Ecce Home, para que o salvasse, e o homem viveu.”
O Divino Ecce Homo, como refere o Evangelho segundo São João (19.5), foram as palavras pronunciadas pelo governador romano Pôncio Pilatos quando apresentou Jesus torturado perante a multidão hostil, à qual Pilatos submeteu o destino final do réu, posto que ele, Pilatos, lavava as mãos. Na iconografia cristã costuma chamar-se Ecce Homo ou Senhor da Cana Verde, vulgarmente com ela na mão a servir-lhe de ceptro, às figurações de Jesus apresentado em sofrimento.
Aí está aquele Cristo na Igreja Paroquial de Selores, meio despido e tão igual ao ser e estar das humildes gentes, uma chaga dos pés à cabeça e tão dorido como as agruras do trabalho e da vida provocam na pobre gente, ao mesmo tempo, um Cristo que mantém a dignidade, tal qual a alma honrada dos rurais. O Senhor da Cana Verde é a personificação da fraternidade que une o homem humilde ao sobrenatural.   Assim sem mais… é belo este pau de amoreira, cortado a golpes de navalha, pincelado com modestas tintas e soprado com o bafo santo da inspiração do Artista Maior que vale nas aflições das gentes de fé.
Para acabar, dizer que, a arte sacra concelhia é património comunitário que convém acautelar. Particularmente as igrejas e capelas das zonas de interior são um alvo apetecível para os amigos do alheio. Uma das primeiras precauções para salvaguardar perdas irreparáveis é o inventário dos haveres, pois pode inviabilizar a sua transação e após uma possível recuperação será mais fácil reaver os artigos; uma outra é proteger as peças valiosas em locais apropriados: museus… e substituí-los por cópias nos locais de culto…
Nesta viagem à Casa da Moura, já começada há algum tempo, vai sendo tempo de contar as histórias das mouras encantadas porque elas viveram e, ainda vivem, em fragas e rochedos, fontes e rios, poços e minas, castelos e ruínas, montes e cabeços da nossa terra… Fica para a próxima.




[1] O concelho de Carrazeda de Ansiães chegou a ser o terceiro na ordem de produção do bicho-da-seda. Um inquérito de 1869 fala de l 1000 a 1500 criadeiras no concelho. A exportação do casulo fazia-se em sacas de algodão, transportadas em carros de bois até à foz do Sabor, rio Douro abaixo, com destino ao Porto e, finalmente, até Marselha.” No século XX, há algumas tentativas para reanimar a produção, mas todas elas se mostram inúteis devido à expansão das indústrias têxteis. João Inácio Teixeira de Meneses Pimentel (1859-1915), engenheiro agrónomo, natural do Mogo de Malta é um dos principais entusiastas. Em 1891 transformou a Estação Químico-Agrícola da Segunda Região Agronómica de Mirandela em Estação de Sericicultura, onde passou exercer as funções de diretor.
Restam ainda algumas amoreiras que lembram a cultura e uma ou outra pessoa ainda a recordam. Para a eclosão dos ovos das borboletas, conta-se, eram colocados num pequeno saquitel de linho que se agasalham no seio, e onde, em um ou dois dias, favorecida pelo calor orgânico do corpo feminino, eclodiam.


04 outubro 2014

Colheita da maçã em Carrazeda de Ansiães




"Até chegar ás grandes superfícies, a maça passa por inúmeras fases, uma delas e talvez a mais importante é a colheita.
Isto não é mais que um pequeno resumo do processo de colheita da maça, fruta que é uma das caras do concelho de Carrazeda de Ansiães, e que é uma das fontes de rendimento de muita gente no concelho desde os produtores até ás pessoas que emprega na área.
Como produtor de maça e pequeno amante de tecnologia, surgiu então esta ideia, peguei numa GoPro e fiz este pequeno trabalho.
Espero que gostem! "
Ricardo Saraiva

29 setembro 2014

Vindimas em Carrazeda ou a mestria do Leonel Castro

As vindimas em Carrazeda: a reportagem de Eduardo Pinto no JN, o poema "Aqui, Douro" de António Cabral, a mestria da locução do Fernando Alves e a sensibilidade do Leonel de Castro

28 setembro 2014

Vistos Gold para o interior

A notícia é do Expresso que  promete investimento estrangeiro no interior a troco da cidadania portuguesa, quiçá transmontana, beirã ou alentejana.
Resta-nos dar as boas vindas aos chineses, russos, árabes...
Bem vindos ao Eldorado!
...


27 setembro 2014

O Marão por um túnel

Em tempo de conversa como as cerejas e, porque parece estar na altura de ir ao celeiro e abrir o mealheiro, dizem-nos que as obras no Túnel do Marão vão arrancar até final de setembro, e a conclusão será lá para o final do próximo ano. Os  cerca de seis quilómetros que ligam parte do percurso de Vila Real a Amarante por um túnel fazem parte da construção da Autoestrada transmontana. A obra começou no Verão de 2009 e deveria estar concluída em Novembro de 2012. Esteve parada três vezes, duas pela interposição de duas providências cautelares e uma outra pela suspensão do consórcio de construção.

Primeiro era tudo muito fácil. A engenharia financeira da construção do projeto era a seguinte: As empresas da Somague e da Soares da Costa concessionaram a obra; a CGD e o Banco Europeu de Investimento financiou-a; os utilizadores pagariam com as portagens. A proteger todo o risco de investimento, a sombra protetora do Estado.
Rapidamente tudo começou a ruir como um castelo de cartas. Primeiro, o dinheiro ficou mais caro. Depois, o fundo de risco, que visa compensar a exploração por eventuais perdas na procura de tráfego, levou a concessionária a meter marcha atrás, porque temeu que passem menos carros do que o inicialmente previsto e, como não se pode obrigar a cumprir contratos porque o risco fica para o Estado e raramente para os privados, a obra parou.

Com mais de setenta por cento da obra realizada e paga (dum valor total estimado de 350 milhões de euros, pagou-se mais de metade, 200 milhões), o ministério das obras públicas veio resgatar a obra, promoveu um novo concurso, de que resultou, agora, o início das obras.


Cinco anos decorridos desde o início da obra, mais de três anos parados, com certeza teria sido mais fácil mudar o Terreiro do Paço uma semana para Vila Real, e obrigar os senhores membros do governo a viajar todos os dias para o Porto nas curvas do IP4. Nenhum transmontano estará completamente crédulo desta nova vontade e resta-lhe esperar sentado!


18 setembro 2014

A Senhora da Assunção aparecida em Parambos

– Uma viagem à Casa da Moura ii –

De cada um destes altares esguios, os miradouros de Carrazeda de Ansiães, majestosos e suspensos nas nuvens, pode desfrutar-se dessa paisagem natural deslumbrante, imponente e a perder de vista. Paisagens que os mortais aproveitaram para implorar a misericórdia dos deuses, apaziguar a sua ira oferecendo sacrifícios nas aras de granito, com eles dialogar inscrevendo nas pedras sinais para os deuses entenderem ou neles erigir belas construções e memoriais de fé. Não será de estranhar esta história, que se fala por aí, e vamos recontar, porque o sagrado sempre preferiu a largueza de horizontes, a beleza envolvente, o silêncio e o encanto das paisagens grandiosas.

Há muitos anos, a Senhora da Assunção, que está no cabeço em Vilas Boas, apareceu primeiro em alguns destes miradouros de Ansiães. Em Parambos, num monte que é conhecido por “Cabeço”, lá nas fragas que aconchegam a aldeia, apareceu Nossa Senhora a uma pastorinha. Será justo aqui perguntar, porque serão os pastorinhos, quase sempre, os intermediários do divino? Talvez seja, pelo muito tempo que dispõem, o silêncio que os envolve e a magia da comunhão com a natureza. Talvez seja, porque o sagrado escolhe a simplicidade das suas origens e a sua pureza infantil. Talvez… A Senhora estava sentada numa cadeira de pedra e logo pediu pela boca da pequenina apascentadora que lhe fosse ali erguida uma capelinha. Informada a população de Parambos e logo crente porque na cadeirinha de granito estava sentada imóvel e calada tão distinta Senhora,vestida toda de branco e mais brilhante que o sol”, embora uma beata entendida logo assegurasse que era a Senhora da Assunção. O piedoso povo ali irmanado, não achando digno o lugar inóspito, pegou-lhe com todo o ardor religioso e imbuído de grande fé, em procissão, levou-a para a sua igreja. Prostrados em oração, todos ali se mantiveram até ao tocar das Trindades, tendo que regressar a suas casas porque a canícula do Verão obrigava a cedo levantar para as lides do campo, exceto a pastorinha que em transe mágico, hipnotizada e envolta da luz divina, ninguém conseguiu arredar para longe da linda Senhora. Só que Ela, no dia seguinte, bem de madrugada apareceu de novo sentada no mesmo cabeço, na mesma cadeira e junto da mesma singela pastorinha. A população tornou A ir buscá-La. Rezando e cantando levou-A de novo para a sua igreja. Pois podia lá haver lugar mais digno e magnífico que o seu magnífico templo? E tudo se repetiu. Foi então que, ao terceiro dia, cansada de ver a Sua vontade contrariada, a Senhora que dizia ser Do Céu levitou na cadeira, com uns pés poisados numa nuvem mais alva que a neve, elevou-se nos ares e desapareceu. Como se constata, só podia ser a Senhora da Assunção,
Foi aparecer no cabeço de Vilas Boas, já no outro concelho vizinho e rival, onde já existiria uma pequena capela abandonada que serviria de abrigo aos gados que pastoreavam a zona. Em quatro de Setembro de 1673, uma segunda-feira, a Virgem Maria, na forma de Senhora da Assunção, aí surgiu a uma outra menina, agora de Vilas Boas, com 10 anos de idade e logo pediu que lhe restaurassem a capela. Sabedores do sucedido na aldeia de Parambos, depressa retiraram os gados e no mesmo dia iniciaram as obras. A Senhora apareceria ainda mais duas vezes nos dias sete e oito desse mesmo mês. Os factos amplificados de boca em boca, mais ainda pelo sucedido em Parambos, deram fama ao local e originaram um grande corrupio de peregrinos que com as suas ofertas contribuíram para a edificação de um grande santuário, como ela pedira e onde agora lhe fazem uma grande festa como todos constatamos a 15 de Agosto. Bem recentemente o arguto e perspicaz edil vila-florense aí erigiu avultadas obras para honra e glória do seu concelho.

O certo é que, no alto do cabeço de Parambos, lá continua uma fraga com o formato de uma cadeira. Tanto mais que, todos os anos, no dia em que ela ali apareceu, esteja sol ou não, a fraga onde apareceu pinga. E dizem que no dia da sua festa, em Agosto, brota ainda com mais intensidade. O povo diz, e deve ser verdade, serem as lágrimas de Nossa Senhora, que chora por lhe não terem construído ali a capela. Só mais tarde, o povo de Parambos começou a pensar que ela queria lá ficar no termo. E isso fez-lhes pena. Fizeram então lá também uma capelinha. É uma capelinha pequenina, mas muito linda. Foi uma pena para a economia do concelho e também para a sua riqueza religiosa não se soubesse aceder aos apelos da simples pastorinha e que a verdadeira Nossa Senhora da Assunção agora more em Vilas Boas.

Foi também por esta razão que agora os pais atendem a todas vontades e todos os caprichos das suas crianças: tudo lhe fazem, tudo lhe compram, tudo lhe permitem, tudo lhe perdoam, estragando-os com mimos e transformando-os em pequenos ditadores: eles põem e dispõem. Perguntamo-nos: quem manda hoje em casa, os pais ou as crianças? Será que ninguém se pergunta que este endeusamento dos meninos minimiza os adultos e está a dar péssimos resultados. É óbvio que é preciso ouvir as crianças, mas nunca poderão ser elas a tudo decidir. Os pais não são respeitados porque não se dão ao respeito e por isso estamos a criar uma geração que não houve um não, que não tem respeito pelos mais velhos e pela autoridade e irá ter um duro embate quando confrontada com o mundo real.

Subamos lá ao alto dos miradouros para observar as obras da natureza e as edificações humanas, símbolos da fé, e se o tempo permitir refletir sobre a procura de infinito que sempre perseguiu o homem, ou tão só inspirar o ar puro porque é sempre retemperador para as agruras da vida e para recarregar baterias na luta do dia-a-dia.



Se quiserem connosco seguir na próxima viagem à casa da Moura, falar-vos-emos dum pobrezinho que transformou um pau de amoreira numa das mais belas figuras da arte sacra do concelho.