29 dezembro 2014

A SOCIEDADE E AS SUAS REGRAS: João de Matos

A vida da sociedade é regulada por normas, que não são tão neutras como se julga: muitas vezes, favorecem umas pessoas e profissões e prejudicam outras. Claro, esta desigualdade de tratamento não é, muitas vezes, propositada. A feitura das regras é que dá, quantas vezes, esse resultado. Logo, acontece que uma actividade é, para alguns, absolutamente legal e exercida à vista de toda a gente,sendo para outros proibida, ilegal e merecedora de punição. No sentido positivo, o favorecimento, traduz-se por uma expressão muito popular: “ A lei dá-o”.
Pois se a lei o dá ou não dá, há que aceitar o seu ditame, com todas as consequências que isso comporta. Há que respeitar as regras, obedecer-lhes, quer quando dão um resultado quer quando dão o outro. Quem prevaricar( no caso do desfavorecimento) sujeita-se a ser condenado e não pode invocar desigualdade de tratamento.
Portanto, ou as pessoas têm a lei a seu favor ou, no caso negativo, conseguem escapar à punição. Se se deixam apanhar, sofrem-lhe as consequências( a punição judicial). Não têm aqui interesse outras considerações, as de ordem ética, por exemplo.
Estas são as regras do jogo social e todos têm que conhecê-las. Se são apanhados não têm de que se queixar a não ser da sua própria inépcia.
Concretizando, há actos que podem ser praticados, por exemplo, por advogados mas não por funcionários. Estes têm que ter cuidado, ao praticá-los, os advogados não. É a lei, amigos, que faz a diferença. Que podemos nós fazer contra isso?


João de Matos

24 dezembro 2014

Bom Natal

Conta-se que, no sítio da Cabreira, no termo de Mogo de Malta, existia uma fraga que todos os anos, dia de Natal, à meia-noite, se abria ao meio, e no interior da mesma se encontrava uma grande fortuna em moedas de ouro.

Contam ainda, que, num determinado ano, uma mulher pobre, ambicionando parte das moedas de ouro ali guardadas, ousou aventurar-se e com uma criança recém-nascida ao colo e dirigiu-se para a fraga. Ao dar a primeira badalada da meia-noite, a fraga abriu-se e a mulher pôde entrar e levou consigo a criança. No interior ficou maravilhada com o que viu. Depressa esqueceu o recém-nascido e encheu o avental de moedas. Ao dar a última badalada tinha que sair porque a pedra fechar-se-ia. Ela abandonou as entranhas megalítica, porém a criança ficou lá dentro esquecida. A mulher ao aperceber-se do que lhe tinha acontecido, com a aflição, levou as mãos à cabeça, soltou o avental, que logo se abriu, espalhando as moedas pela encosta abaixo. Para seu espanto e de todos os que queiram ver, as moedas transformaram-se em grandes pedras.

Conta-se por fim que, no ano seguinte, a mesma mulher, como fazia todos os dias, com o coração ferido de tristeza, agora sem qualquer ambição de riqueza, voltou à fraga, seguiu as mesmas instruções e assim recuperou o filho, porque a criança estava precisamente no mesmo sítio onde o tinha deixado.
Podia contar-se que a partir daí, o seu filho e a sua educação foi, mais que qualquer valor material, o seu projeto de vida e o valor mais alto a que aspirou.

Conto que, por esta esta quadra, ou em outra qualquer, porque Natal é todos os dias, saibamos, no interior de qualquer pedra, aqui simbolizada como dificuldade e coisa sem valor, descobrir um verdadeiro tesouro, um projeto de salvação, também simbolizado pelo Menino Jesus, para deixar que a bondade inicial resplenda e seja.


Bom Natal a todos os amigos de Pensar Ansiães.


19 dezembro 2014

Carta ao Menino Jesus

Meu Menino Jesus:

É a primeira vez que te escrevemos, por isso desculpa-nos o atrevimento. Sabemos que agora se escreve ao Pai Natal, que era um bispo turco, que se chamava Nicolau, senhor de barbas, risonho, simpático e bonacheirão. É rico e bem-sucedido, tem uma grande fábrica de brinquedos, com um complexo e organizado sistema de transportes e, por isso, fica melhor ao espírito de querer tudo de hoje.

Mas, neste ano de memória e identidade, dirigimo-nos a Ti porque era ao menino da manjedoura e quase despido, que os nossos avós dirigiam os pedidos, apesar da mão cheia de nada que recebiam em criança.

O Natal parecia durar tanto tempo e era muito feliz. Todos se juntavam na casa dos avós e todos, mesmo todos, faziam uma grande festa… eram primos, tios, irmãos, todos misturados, riam e brincavam… Os garotos cá fora a correr, nem sentiam o frio! Apenas as caras coradas e o nariz vermelho!

As mulheres todas atrapalhadas a preparar as rabanadas, as bolas e os doces de chila, os bolos de bacalhau, os figos secos, as amêndoas e as nozes, aos sabores e os cheiros misturados, que sempre nos faziam água na boca…

Os homens que já tinham ido buscar os troncos para a fogueira do adro, conversavam com grandes gargalhadas junto à lareira…
E quando o relógio avançava, jogavam ao rapa, ao par e ao pernão e sempre ganhavam rebuçados que era uma boa prenda. As outras prendas se havia eram muito pequeninas, não como agora, mas eram mais sentidas, mais queridas, como uns sapatos que tinham de durar até ao Natal do próximo ano! Agora as exigências são outras! Nós queremos, queremos e tudo nos dão!

E a missa do galo à espera na escuridão da noite, ninguém se queixava do frio ou do cansaço… todos cantavam e beijavam o Menino com uma emoção tão grande que nem cabe aqui neste pequeno texto.
No presépio da Igreja e à Tua volta construíam um mundo que tinha um tapete de musgo e era perfeito de simplicidade, ternura e harmonia. A simples cabaninha do Menino Deus e Salvador reinava sobre um mundo perfeito de pastores e ovelhas, iluminado pela grandiosidade da estrela de Natal.

Fazemos-te um pedido: ajuda-nos a conservar as coisas boas que temos, como, o espírito de comunidade, para termos sempre alguém ao pé de nós na alegria e na tristeza, e sermos uma grande família.
Não esqueças também o habitual: a saúde, a paz e a prosperidade para todos.

Feliz Natal com memória e identidade!

14 dezembro 2014

Acordei, estremunhado, do coma letárgico...: João de Matos

Acordei, estremunhado, do coma letárgico em que me encontrava há já um largo tempo, tempo este de que não tive consciência , dado o meu estado de letargia. Não se tratou dum coma espontâneo mas induzido. Fui eu que quis colocar-me nesse estado para ver se tudo tinha o seu curso natural apesar da minha inexistência mental. E não é que tudo se passou, tudo funcionou, tudo decorreu normalmente apesar da minha ausência! Nasceram pessoas, morreram pessoas, o tempo passou e houve as mudanças habituais; até, dentro de mim, tudo permaneceu operacional: o sangue deambulou por mim, o oxigénio não me faltou, se bem que a minha mente estivesse ausente.
Que importância tem o facto de eu estar consciente, de pensar, de emitir opiniões? Nenhuma. Mas eu quis mesmo que , originado por mim, nada perturbasse o devir normal do mundo, para que quem quisesse pudesse chegar à conclusão de que eu não tenho, no rolar dos acontecimentos, qualquer influência.
Também quis, com o meu coma, habituar-me à minha inexistência, durante séculos e séculos, inexistência certa , para toda a eternidade, pelo menos, na minha ausência permanente deste mundo. Quando estiver do outro lado, há de ser, penso eu, dum modo totalmente diferente, sem transcurso de horas, minutos ou segundos, numa intemporalidade em que não haverá nem passado, nem presente, nem futuro. Simplesmente seremos intemporais, que penso que é o que Deus é: intemporal. Será mesmo uma experiência muito interessante a nossa instalação na intemporalidade.
Tenho a ideia de que saí do meu coma a contragosto, que queria permanecer nele e que me sentia feliz: o meu acordar foi, por isso, doloroso, provocado por ruídos a mim alheios e que fizeram com que voltasse às agruras do viver e do conviver. Mas agora sinto que estarei por cá uns tempos e que têm de contar comigo para o que der e vier.


João de Matos

27 novembro 2014

As gravuras não sabiam nadar

Em novembro de 1994 começaram a surgir as primeiras notícias relativas a importantes achados arqueológicos na área que seria submersa pela barragem do Baixo Côa, vindo depois a confirmar-se.

Para comemorar a efeméride foi preparado um programa evocativo, do qual se destaca, no dia 29 de novembro, a reabertura ao público da sala D do Museu do Côa, ultrapassados que foram os condicionalismos técnicos que levaram ao seu encerramento. Mantendo o espírito da história que se conta no Museu, esta sala continuará dedicada ao chamado coração do "santuário arcaico paleolítico" da Penascosa/Quinta da Barca.

 A 2 de dezembro, dia comemorativo da classificação da arte do Côa como Património Mundial pela UNESCO, as visitas ao Museu e aos sítios de arte paleolítica abertos ao público, serão gratuitas para os grupos escolares, que podem desde já agendar as suas marcações. e que se trata do maior complexo de arte rupestre paleolítico ao ar livre conhecido até hoje.

Este extraordinário legado artístico, em particular da pré-história antiga, que se guarda no Vale do Côa merece uma visita.
Mais aqui



16 novembro 2014

Apertar o cinto

" O director do Agrupamento de Escolas de Carrazeda de Ansiães afirma que tem de fazer uma ginástica financeira “apertadíssima” ao longo do ano lectivo, por causa dos cortes orçamentais impostos pelo Ministério da Educação.
...o dinheiro tem de ser gerido com muito cuidado para fazer face às despesas fixas, como o aquecimento. “Os cortes têm afectado o funcionamento especialmente na gestão das verbas fixas. O Inverno é difícil, vai-se fazendo a gestão possível, em períodos em que o tempo está melhor o aquecimento vai-se cortando, as horas de funcionamento vão-se diminuindo”
... O agrupamento tem perdido em média entre 20 a 30 alunos...
... Ainda há amianto, foi retirado das coberturas exteriores, mas mantêm-se as coberturas dos pavilhões...
... Embora com algumas lacunas, no que respeita à falta de instalações para a prática de Educação Física, de um espaço maior para o recreio e falta de cobertura de ligação à escola sede, porque os miúdos vêm aqui tomar as refeições.Entretanto, a cobertura foi feita, mas só até meio, dentro do centro escolar, falta a cobertura que ligue à escola sede..."

Daqui

15 novembro 2014

Olha o passarinho!

Já são conhecidos os 15 melhores projetos empresariais do Prémio Douro Empreendedor.
Os projetos escolhidos resultaram de um total de 64 candidaturas apresentadas por empresas da região, correspondendo as candidaturas a 35 milhões de euros de investimento, geradoras de 19 milhões de euros de volume de negócios.

Finalistas: Na categoria empresas com menos de dois anos destacam-se a Farma/Inove – Associação para o Empreendedorismo e Inovação da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, Sabonetes Aregos – Douro Memories, Hi Tractor, Douro Skin Care e a Activansilanis.

Ouça aqui, na TSF, a reportagem sobre esta empresa de eventos, em que uma das propostas é a observação de pássaros:

https://www.facebook.com/video.php?v=754037858014692 


Para além das entidades organizadoras – Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N) -, integrou o júri de premiação dos finalistas: Braga da Cruz, presidente da Fundação de Serralves, José Silva Peneda, presidente do Conselho Económico e Social, e Manuel Carvalho, jornalista do jornal Público.
A cerimónia da segunda edição deste prémio, co-financiado pelo "ON.2 - O Novo Norte" (Programa Operacional Regional do Norte 2007/2013), está agendada para o dia 28 de novembro, em Vila Real, e será presidida pelo primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho. F

13 novembro 2014

"A vaca tá seca"

"...e depois, com bigodes de leite, pedem mais paciência e esforço ao povo, que a "vaca 'tá seca".


João José de Freitas, natural de Misquel, freguesia de Parambos, concelho de Carrazeda de Ansiães





11 novembro 2014

Grande bebedeira

Depois de 82 anos de história, Casa do Douro vai morrer e deixa como herança dívida de 167 milhões ao Estado. Daqui.

E se o stock de nove milhões de litros de vinho do Porto passam para o Estado, é legitimo concluir que vai ser uma grande bebedeira.

A notícia de Manuel Carvalho do Público

Depois de 82 anos de história
  Douro
Casa do Douro vai morrer e deixa como herança dívida de 167 milhões ao Estado
No dia 1 de Janeiro, a outrora mais poderosa organização agrícola do país vai ser extinta. A associação que a substituir não terá natureza pública nem inscrição obrigatória. A sua dívida de 167 milhões e um stock de nove milhões de litros de vinho do Porto passam para o Estado. O sector, a braços com decisões urgentes, prepara-se para meses de vazio e incerteza.

Depois de 82 anos de história como organismo de representação dos produtores de vinho da região, a Casa do Douro vai deixar de existir no dia 1 de Janeiro de 2015. O que está prestes a acabar não é apenas o último vestígio da organização corporativa do Estado Novo nem a única associação de agricultores de direito público e inscrição obrigatória; com o ano novo acaba também o impasse sobre um volume de dívidas que rondam os 167 milhões de euros acumulados pela Casa do Douro (CD).

Extinta a CD enquanto associação pública, fica também em aberto um buraco na representação dos agricultores que ameaça paralisar o processo de decisão de um sector que está longe de viver os melhores dias.

Há mais de 20 anos que a CD ocupa um lugar privilegiado nas agendas dos ministros da Agricultura. “Isto [a paralisia institucional e a dívida] tinha de acabar um dia”, explica o secretário de Estado da Agricultura, José Diogo Albuquerque, que tem gerido o processo. A megalomania da sua gestão no princípio dos anos de 1990 levou-a a adquirir enormes volumes de vinho para os quais teve de obter financiamento.

Num dos negócios mais polémicos dessa época, a CD adquiriu 40% do capital da Real Companhia Velha por 9,6 milhões de contos (pouco menos de 50 milhões de euros a preços actuais) e após anos de disputas judiciais nunca nomeou administradores na sociedade nem recebeu qualquer dividendo. Para acentuar a sua agonia, o Estado, sob pressão intensa dos exportadores, foi-lhe retirando funções e receitas. A CD que se prepara para fechar as portas é, por isso, apenas uma pálida imagem da que foi a mais poderosa, rica e influente organização de agricultores do país.

O clima de insolvência que paira sobre a CD afectou o ritmo de trabalhos do Conselho Interprofissional do IVDP, onde os problemas do Douro e do vinho do Porto são decididos. “No último ano, o conselho reuniu muito pouco”, diz Isabel Marrana, da Associação de Empresas do Vinho do Porto, que explica a paralisia do órgão com o facto de a “representação da produção estar a termo fixo” que lhe retira a “estabilidade”. Questões essenciais como o congelamento por parte do Governo das verbas pagas pelo sector para efeitos de promoção não estão sequer a ser discutidas. E, mais grave para os exportadores é o facto de não se saber quando haverá uma associação que substitua a actual.

O Governo tentou evitar vazios de poder concedendo à actual direcção a possibilidade de renomear os seus actuais corpos dirigentes, que se encarregariam de elaborar estatutos para uma associação privada. Era uma proposta de “mudança por dentro”. Mas, a manutenção da actual equipa teria de ser decidida num prazo de 20 dias, que já terminou. Em duas tentativas, o Conselho Regional de Viticultores, a assembleia magna da região, composta por 125 membros, nunca conseguiu renuir conselheiros em número suficiente para cumprir a exigência de uma maioria absoluta.

Falhando esta meta, o Conselho poderia ter optado pela convocação de eleições. Mas, após 20 dias na tentativa de prolongar o mandato de Manuel António dos Santos, acabaria por concluir que já não tinha tempo para o fazer antes do dia 31 de Dezembro. “Os prazos impostos pelo Governo são inexequíveis”, afirma António Januário, um dos directores da CD. Para o Ministério da Agricultura, o cenário é diferente. “A impossibilidade de a Casa do Douro conseguir quorum é sinal de alguma coisa”, aponta José Diogo Albuquerque.

Sem uma solução de continuidade, a associação que renascerá das cinzas da Casa do Douro, podendo usar o seu nome e receber parte do seu património, será escolhida por concurso. “Uma inovação”, diz Isabel Marrana. Os critérios para a escolha da associação vencedora serão definidos por portaria e, para que não faltem candidatos, o Governo garantiu uma série de benefícios a quem ganhar a corrida. Para além de ficar com a sede, que historicamente é património dos lavradores durienses, a associação vencedora ficará com seis lugares garantidos no Conselho Interprofissional no seu primeiro mandato, poderá receber como quotas as taxas pagas pela produção no IVDP (referentes às declarações de colheita e produção) e terá direito aos bens remanescentes ao processo de liquidação da dívida. Se o gigantesco stock de vinho do Porto vai servir como pagamento das dívidas ao Estado (ver texto ao lado), a Casa do Douro é ainda dona de vários armazéns na Régua, de edifícios em várias vilas da região e da participação na Real Companhia Velha ligeiramente superior a 30%.

A definição de regras do concurso e a criação de uma associação privada a partir do zero ameaçam, no entanto, prolongar o vazio institucional no Conselho Interprofissional, numa altura em que “há no sector imensos assuntos estratégicos a tratar”, avisa Isabel Marrana. Outra preocupação relaciona-se com a falta de dinâmica associativa na região, que, na opinião da secretária-geral da AEVP, faz do concurso “um risco”. Porque “pode surgir uma associação que não tenha legitimidade para representar o Douro”, avisa. Isabel Marrana fala em termos teóricos, mas no Douro esse “risco” está bem identificado: as confederações agrícolas nacionais, a CNA e a CAP, que nunca foram capazes de ganhar protagonismo na região, espreitam agora a oportunidade de entrar num sector que vale 500 milhões de euros por ano – a CNA controla a Avidouro, uma pequena associação.

Mas, até ao dia do concurso, o esvaziamento da natureza pública da Casa do Douro ainda vai exigir trabalho à actual direcção. Até ao final da próxima semana, a instituição terá de levar ao Governo os relatórios de gestão dos últimos cinco anos, a relação das dívidas a privados e ao sector público e realizar uma provisão para garantir a indemnização dos trabalhadores sem vínculo ao Estado que cessam funções a 31 de Dezembro – são cerca de 20; a maior parte, cerca de 30, têm o estatuto de funcionários públicos e passam ao quadro de mobilidade especial.

Quando a nova associação aparecer, estará livre das dívidas, terá a imponente sede da Régua, cerca de seis milhões de euros em vinho e, possivelmente, outros activos imobiliários. Mas estará longe de poder imitar o poder da Casa do Douro antes dos 30 anos de gestão ruinosa que a levaram à irrelevância e à dívida.
Manuel Carvalho in Publico, 2014-11-10

10 novembro 2014

Tempo de castanhas


“Tempo de Castanhas”, exposição patente ao público entre os dias 1 de novembro de 2014 e 26 de abril de 2015 no Centro de Fotografia Georges Dussaud, em Bragança.

Queima da cabra

Quem disse que há impossíveis!
De uma aldeia com apenas 18 habitantes, a  queima da cabra e do canhoto fez-se uma festa que no último fim de semana juntou mais de 2500 pessoas http://www.mdb.pt/noticia/tradicao-recuperada-deu-vida-aldeia-quase-despovoada-3210

02 novembro 2014

O culto dos mortos



O culto aos mortos é tão antigo como a própria história do homem. A primeira manifestação conhecida está ligada às antas, datada dos fins do quinto milénio?, mais tarde, os egípcios e os maias construíram pirâmides, os reis e os imperadores mausoléus, sarcófagos e memoriais e o povo inscrições na pedra.  A Igreja Católica instituirá o Dia de Finados que passou a ser comemorado em 2 de Novembro. Neste dia, os devotos dirigem-se ao cemitério com o sacerdote que em troca de uma entrega pecuniária reza pelos familiares falecidos. Por altura da celebração do padroeiro era comum fazer-se o ofício das almas que consistia numa preleção de dois ou três sacerdotes em latim, envolvendo um cerimonial longo e solene.

Uma das referências do culto dos mortos são as alminhas, que representam as almas do purgatório às quais é necessário rezar para que a sua penação seja curta e a entrada no paraíso o mais breve possível. Estas representações estão normalmente em locais de passagem, encruzilhadas dos caminhos, ou então à entrada das localidades. As Alminhas eram respeitadas e veneradas: os homens descobriam-se e benziam-se quando por elas passavam e todos rezavam. Por vezes, colocavam flores, velas e também uma moeda na caixa das esmolas.

O ritual funerário é diverso e muitas vezes doloroso: o acompanhamento na agonia, o repicar dos sinos, os choros, a lavagem e o arranjo do corpo, o velar noturno, o cortejo, o enterro, o luto e a dor, o apaziguamento das almas... O anúncio da triste notícia era anunciado à população com o repenicar próprio, triste e compassado dos sinos da igreja. Ouvir o tocar aos mortos provocava sempre temor. Aqueles que se encontram no campo descobrem-se respeitosamente, muitos adivinham o acontecido e rezam uma oração pelo falecido, ou tão só exclamam “Que Deus o tenha em eterno descanso”; quase todos abandonam o trabalho rapidamente por respeito e retornam por novas e para confortar e visitar a família.

O cadáver é lavado e aos homens faz-se a barba. As roupas que levam vestidas são as que habitualmente usa ou, mais frequentemente, com as suas melhores peças, o fato de casamento, normalmente pretos no caso dos homens, e guardados especialmente para o último passo. As crianças são vestidas de branco, bem como as mulheres solteiras, presumivelmente virgens, levam um véu da mesma cor. A mortalha com que se embrulha ou cobre o morto é habitualmente de linho branco.

No caixão, o corpo é acompanhado de vários objetos: rosários e orações são comuns. Porém, o imprescindível é uma moeda, uma migalha de pão, um bocado de cera e a seguinte quadra: “Que é que trazes no mangão/ Levo um tostão/ Cera e pão/ Para passar o Jordão.” A moeda é para pagar ao barqueiro; o pão para a viagem e a cera para alumiar o caminho.
No velório, o cadáver permanece em sua casa e é iluminado por velas ou um candeeiro de azeite. Os que entram aspergem o morto com água-benta. Usa-se um ramo de alecrim ou de oliveira fazendo-se uma cruz no ar. As pessoas da família permanecem junto do caixão e recebem as condolências. Durante toda a noite do velório os que guardam o morto rezam orações de mistura com palavras de saudade.
O momento de exéquias com a presença do padre contempla os seguintes momentos: em casa do defunto, na igreja, no percurso e no cemitério; com duas procissões intermédias (da casa do defunto para a igreja e da igreja para o cemitério). O clérigo vai buscar o defunto a casa e é transportado por homens que vestem opas para a igreja, onde é celebrada uma missa de corpo presente, proibida somente no Tríduo Pascal (quintas, sextas e sábados santos), nas solenidades de preceito e nos domingos do Advento, da Quaresma e da Páscoa. À gente “importante” era rezado um ofício de exéquias concelebrado por mais de um sacerdote. Os que se suicidam não têm direito a sepultamentos católicos, isto é sem o acompanhamento do padre são transportados diretamente para o cemitério. No percurso para o cemitério, aos ombros dos homens trajados de opas, de quando em quando fazia-se uma pausa para uma oração, colocando-se o caixão em cima de cadeiras ou bancos transportados a propósito. No cemitério, o clérigo faz a oração final por cima do choro mais forte da despedida. Os sinos fazem-se ouvir com o triste repicar. Ao fim de sete dias é celebrada a missa do sétimo dia.

O luto obriga ao uso da cor negra em todas as peças exteriores do vestuário ou a marcar um sinal negro à volta do braço da camisa, do casaco ou uma fita preta nos chapéus. De uma maneira geral, os homens não fazem a barba durante determinados dias. Porém, o luto atinge sobretudo as mulheres. Nelas é negro o lenço ou o xaile a cobrir a cabeça. A regra é encobrir o mais possível o corpo, em particular o rosto. O período de luto, no caso de maridos ou filhos, prolonga-se quantas vezes até ao fim da vida. O luto manifesta-se também retirando os brincos e outras peças de adorno.

O conjunto das proibições e prescrições observa-se normalmente durante um ano e é neste tempo que têm lugar os vários rituais de comunhão com os mortos: celebração de missas, romagens ao cemitério e esmolas, entre outros. É comum na missa de sétimo dia e de aniversário distribuir-se pão e vinho pela população.

São também vários os exemplos de associar os mortos queridos à vida quotidiana, de comunicar com eles, de aliviar as suas penas: evocações nas preces, nas Trindades, nas esmolas...

As almas manifestam-se e intrometem-se no mundo dos vivos, em todas as horas do seu quotidiano: são os "espíritos" ou "almas penadas", isto é, as almas que não têm as suas "penas" no Purgatório, nem tão pouco lugar no Céu nem no Inferno; são as almas das pessoas que deixaram promessas por cumprir, dívidas por saldar, e também dos que morreram de morte súbita e violenta ou assassinados. Podem, assim, vaguear por qualquer lado, gemendo de noite pelos cemitérios e em encruzilhadas, nas soleiras das portas, por cima dos telhados; introduzindo-se em animais. Muito temido é o redemoinho de vento: são as almas perdidas que não puderam entrar no Céu. Estas almas podem meter-se no corpo dos vivos, e para os quais é necessário o esconjuro, acessível a todos, “Vade retro Satanás” seguido do sinal da cruz; e o exorcismo, uma oração oficial da Igreja, mas reservada aos padres exorcistas. 


In "Selores ...e uma casa"



28 outubro 2014

Ecce Homo



Nas nossas igrejas e capelas repousam objetos de inegável valor. Em Selores, o “Divino Ecce Homo” é uma bela imagem da arte sacra do concelho de Carrazeda de Ansiães e sobre ela se conta uma história, também bela e inspiradora. Apressamo-nos a contar:
Certo dia passou pela aldeia um pobre pedindo esmola. Ao chegar ao largo deparou com um perfeito tronco de amoreira. Era comum esta árvore no povoado, pois a cultura do bicho-da-seda[1] era uma atividade importante e complementar da subsistência da população.
No largo conversavam um grupo de pessoas ao sol: Dirigindo-se a elas disse-lhes:
- Que belo pau para fazer um santo!
- E vós sois capazes de o fazer? – interrogaram-no em jeito de desafio.
- Olhem, põem-me aí num lugar, eu e o pau, fechem a porta e, durante três dias, não ma abram!
Algumas das pessoas que se encontravam no largo soalheiro, breve se aprontaram a arranjar as ferramentas, outras pegaram no tronco e levaram-no para uma casa situada ali bem perto. Conta-se que a casa era dos Araújos e está situada no largo do Bebedouro. Aí se instalou o mendigo. Fechou a porta por dentro e durante três dias ninguém mais pode contactá-lo, nem tão pouco vivalma lhe pôs a vista em cima. A curiosidade das pessoas chegou a tal ponto que ainda pensaram bater à porta e entrar para observarem o trabalho, mas havia sempre alguém que recordava as palavras da misteriosa personagem. Soube-se que um ou outro mais curioso, pois sempre os há, ainda espreitou pelo buraco da fechadura, todavia a escuridão do casebre, nada deixava vislumbrar. (Será mesmo rural este hábito de espreitar para dentro de uma casa? Não o creio, pois rurais e, particularmente, os citadinos, toda a gente gosta de dar uma espreitadela na fechadura da casa famosa de uma televisão. Como teremos autoridade moral para continuar a dizer às nossas crianças, pois o ouvimos aos nossos avós, que, “espreitar é feio”?)
Ao terceiro dia, como fora prometido, a porta da casa, onde se abrigara o mendigo estava aberta e, com ansiedade, por ela alguém entrou. Do mendigo nem um sinal, e, a partir daí, ninguém mais o viu. Muitos juravam que se tratava do próprio Cristo e bem o tentaram procurar por toda a aldeia e arredores, mas em vão. Lá dentro encontrava-se tão só uma belíssima imagem de Jesus de Nazaré, flagelado, atado e com a coroa de espinhos. À imagem que restou e à fé dos homens são atribuídos diversos milagres e bem-aventuranças que os ex-votos susceptos – votos realizados em consagração, renovação ou agradecimento de uma promessa, estão expostos. Entre os muitos milagres conta-se aquele que alguém ouviu por aí contar: “uma ocasião, andava um senhor à caça, um senhor que ainda aqui tem netos (assegurava-se para tornar mais real o milagre). E esse senhor andava então lá prás ribeiras, quando se lhe disparou um tiro na barriga, que até as tripas lhe ficaram na mão. E então prometeu-se a ele, ao Divino Senhor Ecce Home, para que o salvasse, e o homem viveu.”
O Divino Ecce Homo, como refere o Evangelho segundo São João (19.5), foram as palavras pronunciadas pelo governador romano Pôncio Pilatos quando apresentou Jesus torturado perante a multidão hostil, à qual Pilatos submeteu o destino final do réu, posto que ele, Pilatos, lavava as mãos. Na iconografia cristã costuma chamar-se Ecce Homo ou Senhor da Cana Verde, vulgarmente com ela na mão a servir-lhe de ceptro, às figurações de Jesus apresentado em sofrimento.
Aí está aquele Cristo na Igreja Paroquial de Selores, meio despido e tão igual ao ser e estar das humildes gentes, uma chaga dos pés à cabeça e tão dorido como as agruras do trabalho e da vida provocam na pobre gente, ao mesmo tempo, um Cristo que mantém a dignidade, tal qual a alma honrada dos rurais. O Senhor da Cana Verde é a personificação da fraternidade que une o homem humilde ao sobrenatural.   Assim sem mais… é belo este pau de amoreira, cortado a golpes de navalha, pincelado com modestas tintas e soprado com o bafo santo da inspiração do Artista Maior que vale nas aflições das gentes de fé.
Para acabar, dizer que, a arte sacra concelhia é património comunitário que convém acautelar. Particularmente as igrejas e capelas das zonas de interior são um alvo apetecível para os amigos do alheio. Uma das primeiras precauções para salvaguardar perdas irreparáveis é o inventário dos haveres, pois pode inviabilizar a sua transação e após uma possível recuperação será mais fácil reaver os artigos; uma outra é proteger as peças valiosas em locais apropriados: museus… e substituí-los por cópias nos locais de culto…
Nesta viagem à Casa da Moura, já começada há algum tempo, vai sendo tempo de contar as histórias das mouras encantadas porque elas viveram e, ainda vivem, em fragas e rochedos, fontes e rios, poços e minas, castelos e ruínas, montes e cabeços da nossa terra… Fica para a próxima.




[1] O concelho de Carrazeda de Ansiães chegou a ser o terceiro na ordem de produção do bicho-da-seda. Um inquérito de 1869 fala de l 1000 a 1500 criadeiras no concelho. A exportação do casulo fazia-se em sacas de algodão, transportadas em carros de bois até à foz do Sabor, rio Douro abaixo, com destino ao Porto e, finalmente, até Marselha.” No século XX, há algumas tentativas para reanimar a produção, mas todas elas se mostram inúteis devido à expansão das indústrias têxteis. João Inácio Teixeira de Meneses Pimentel (1859-1915), engenheiro agrónomo, natural do Mogo de Malta é um dos principais entusiastas. Em 1891 transformou a Estação Químico-Agrícola da Segunda Região Agronómica de Mirandela em Estação de Sericicultura, onde passou exercer as funções de diretor.
Restam ainda algumas amoreiras que lembram a cultura e uma ou outra pessoa ainda a recordam. Para a eclosão dos ovos das borboletas, conta-se, eram colocados num pequeno saquitel de linho que se agasalham no seio, e onde, em um ou dois dias, favorecida pelo calor orgânico do corpo feminino, eclodiam.


04 outubro 2014

Colheita da maçã em Carrazeda de Ansiães




"Até chegar ás grandes superfícies, a maça passa por inúmeras fases, uma delas e talvez a mais importante é a colheita.
Isto não é mais que um pequeno resumo do processo de colheita da maça, fruta que é uma das caras do concelho de Carrazeda de Ansiães, e que é uma das fontes de rendimento de muita gente no concelho desde os produtores até ás pessoas que emprega na área.
Como produtor de maça e pequeno amante de tecnologia, surgiu então esta ideia, peguei numa GoPro e fiz este pequeno trabalho.
Espero que gostem! "
Ricardo Saraiva

29 setembro 2014

Vindimas em Carrazeda ou a mestria do Leonel Castro

As vindimas em Carrazeda: a reportagem de Eduardo Pinto no JN, o poema "Aqui, Douro" de António Cabral, a mestria da locução do Fernando Alves e a sensibilidade do Leonel de Castro

28 setembro 2014

Vistos Gold para o interior

A notícia é do Expresso que  promete investimento estrangeiro no interior a troco da cidadania portuguesa, quiçá transmontana, beirã ou alentejana.
Resta-nos dar as boas vindas aos chineses, russos, árabes...
Bem vindos ao Eldorado!
...


27 setembro 2014

O Marão por um túnel

Em tempo de conversa como as cerejas e, porque parece estar na altura de ir ao celeiro e abrir o mealheiro, dizem-nos que as obras no Túnel do Marão vão arrancar até final de setembro, e a conclusão será lá para o final do próximo ano. Os  cerca de seis quilómetros que ligam parte do percurso de Vila Real a Amarante por um túnel fazem parte da construção da Autoestrada transmontana. A obra começou no Verão de 2009 e deveria estar concluída em Novembro de 2012. Esteve parada três vezes, duas pela interposição de duas providências cautelares e uma outra pela suspensão do consórcio de construção.

Primeiro era tudo muito fácil. A engenharia financeira da construção do projeto era a seguinte: As empresas da Somague e da Soares da Costa concessionaram a obra; a CGD e o Banco Europeu de Investimento financiou-a; os utilizadores pagariam com as portagens. A proteger todo o risco de investimento, a sombra protetora do Estado.
Rapidamente tudo começou a ruir como um castelo de cartas. Primeiro, o dinheiro ficou mais caro. Depois, o fundo de risco, que visa compensar a exploração por eventuais perdas na procura de tráfego, levou a concessionária a meter marcha atrás, porque temeu que passem menos carros do que o inicialmente previsto e, como não se pode obrigar a cumprir contratos porque o risco fica para o Estado e raramente para os privados, a obra parou.

Com mais de setenta por cento da obra realizada e paga (dum valor total estimado de 350 milhões de euros, pagou-se mais de metade, 200 milhões), o ministério das obras públicas veio resgatar a obra, promoveu um novo concurso, de que resultou, agora, o início das obras.


Cinco anos decorridos desde o início da obra, mais de três anos parados, com certeza teria sido mais fácil mudar o Terreiro do Paço uma semana para Vila Real, e obrigar os senhores membros do governo a viajar todos os dias para o Porto nas curvas do IP4. Nenhum transmontano estará completamente crédulo desta nova vontade e resta-lhe esperar sentado!


18 setembro 2014

A Senhora da Assunção aparecida em Parambos

– Uma viagem à Casa da Moura ii –

De cada um destes altares esguios, os miradouros de Carrazeda de Ansiães, majestosos e suspensos nas nuvens, pode desfrutar-se dessa paisagem natural deslumbrante, imponente e a perder de vista. Paisagens que os mortais aproveitaram para implorar a misericórdia dos deuses, apaziguar a sua ira oferecendo sacrifícios nas aras de granito, com eles dialogar inscrevendo nas pedras sinais para os deuses entenderem ou neles erigir belas construções e memoriais de fé. Não será de estranhar esta história, que se fala por aí, e vamos recontar, porque o sagrado sempre preferiu a largueza de horizontes, a beleza envolvente, o silêncio e o encanto das paisagens grandiosas.

Há muitos anos, a Senhora da Assunção, que está no cabeço em Vilas Boas, apareceu primeiro em alguns destes miradouros de Ansiães. Em Parambos, num monte que é conhecido por “Cabeço”, lá nas fragas que aconchegam a aldeia, apareceu Nossa Senhora a uma pastorinha. Será justo aqui perguntar, porque serão os pastorinhos, quase sempre, os intermediários do divino? Talvez seja, pelo muito tempo que dispõem, o silêncio que os envolve e a magia da comunhão com a natureza. Talvez seja, porque o sagrado escolhe a simplicidade das suas origens e a sua pureza infantil. Talvez… A Senhora estava sentada numa cadeira de pedra e logo pediu pela boca da pequenina apascentadora que lhe fosse ali erguida uma capelinha. Informada a população de Parambos e logo crente porque na cadeirinha de granito estava sentada imóvel e calada tão distinta Senhora,vestida toda de branco e mais brilhante que o sol”, embora uma beata entendida logo assegurasse que era a Senhora da Assunção. O piedoso povo ali irmanado, não achando digno o lugar inóspito, pegou-lhe com todo o ardor religioso e imbuído de grande fé, em procissão, levou-a para a sua igreja. Prostrados em oração, todos ali se mantiveram até ao tocar das Trindades, tendo que regressar a suas casas porque a canícula do Verão obrigava a cedo levantar para as lides do campo, exceto a pastorinha que em transe mágico, hipnotizada e envolta da luz divina, ninguém conseguiu arredar para longe da linda Senhora. Só que Ela, no dia seguinte, bem de madrugada apareceu de novo sentada no mesmo cabeço, na mesma cadeira e junto da mesma singela pastorinha. A população tornou A ir buscá-La. Rezando e cantando levou-A de novo para a sua igreja. Pois podia lá haver lugar mais digno e magnífico que o seu magnífico templo? E tudo se repetiu. Foi então que, ao terceiro dia, cansada de ver a Sua vontade contrariada, a Senhora que dizia ser Do Céu levitou na cadeira, com uns pés poisados numa nuvem mais alva que a neve, elevou-se nos ares e desapareceu. Como se constata, só podia ser a Senhora da Assunção,
Foi aparecer no cabeço de Vilas Boas, já no outro concelho vizinho e rival, onde já existiria uma pequena capela abandonada que serviria de abrigo aos gados que pastoreavam a zona. Em quatro de Setembro de 1673, uma segunda-feira, a Virgem Maria, na forma de Senhora da Assunção, aí surgiu a uma outra menina, agora de Vilas Boas, com 10 anos de idade e logo pediu que lhe restaurassem a capela. Sabedores do sucedido na aldeia de Parambos, depressa retiraram os gados e no mesmo dia iniciaram as obras. A Senhora apareceria ainda mais duas vezes nos dias sete e oito desse mesmo mês. Os factos amplificados de boca em boca, mais ainda pelo sucedido em Parambos, deram fama ao local e originaram um grande corrupio de peregrinos que com as suas ofertas contribuíram para a edificação de um grande santuário, como ela pedira e onde agora lhe fazem uma grande festa como todos constatamos a 15 de Agosto. Bem recentemente o arguto e perspicaz edil vila-florense aí erigiu avultadas obras para honra e glória do seu concelho.

O certo é que, no alto do cabeço de Parambos, lá continua uma fraga com o formato de uma cadeira. Tanto mais que, todos os anos, no dia em que ela ali apareceu, esteja sol ou não, a fraga onde apareceu pinga. E dizem que no dia da sua festa, em Agosto, brota ainda com mais intensidade. O povo diz, e deve ser verdade, serem as lágrimas de Nossa Senhora, que chora por lhe não terem construído ali a capela. Só mais tarde, o povo de Parambos começou a pensar que ela queria lá ficar no termo. E isso fez-lhes pena. Fizeram então lá também uma capelinha. É uma capelinha pequenina, mas muito linda. Foi uma pena para a economia do concelho e também para a sua riqueza religiosa não se soubesse aceder aos apelos da simples pastorinha e que a verdadeira Nossa Senhora da Assunção agora more em Vilas Boas.

Foi também por esta razão que agora os pais atendem a todas vontades e todos os caprichos das suas crianças: tudo lhe fazem, tudo lhe compram, tudo lhe permitem, tudo lhe perdoam, estragando-os com mimos e transformando-os em pequenos ditadores: eles põem e dispõem. Perguntamo-nos: quem manda hoje em casa, os pais ou as crianças? Será que ninguém se pergunta que este endeusamento dos meninos minimiza os adultos e está a dar péssimos resultados. É óbvio que é preciso ouvir as crianças, mas nunca poderão ser elas a tudo decidir. Os pais não são respeitados porque não se dão ao respeito e por isso estamos a criar uma geração que não houve um não, que não tem respeito pelos mais velhos e pela autoridade e irá ter um duro embate quando confrontada com o mundo real.

Subamos lá ao alto dos miradouros para observar as obras da natureza e as edificações humanas, símbolos da fé, e se o tempo permitir refletir sobre a procura de infinito que sempre perseguiu o homem, ou tão só inspirar o ar puro porque é sempre retemperador para as agruras da vida e para recarregar baterias na luta do dia-a-dia.



Se quiserem connosco seguir na próxima viagem à casa da Moura, falar-vos-emos dum pobrezinho que transformou um pau de amoreira numa das mais belas figuras da arte sacra do concelho.

17 setembro 2014

Pedidos de ajuda às instituições aumentam no distrito

Pedidos de ajuda às instituições aumentam no distrito O padre Jardim Moreira diz que o Governo fala em retoma da economia, mas o que é certo é que não há melhorias na vida das pessoas.Jardim Gonçalves lamenta ainda que o Governo empurre para as instituições grande parte das responsabilidades sociais do Estado.

PCP acusa autarcas de deixarem encerrar tribunais

PCP acusa autarcas de deixarem encerrar tribunais“Tanto o governo como os partidos da maioria que sustenta este governo como também os autarcas da região fizeram ouvidos moucos às sucessivas propostas do PCP tanto mais não seja pelo facto de terem ficado quedos e surdos e mudos relativamente à necessidade imperiosa do envolvimento das populações nesta questão”

08 setembro 2014

A vergonha faliu: Hélder Carvalho


Não tem justificação dizer-se que, ao longo da história, temos sido uns parasitas do país. O exemplo, demonstramo-lo com a nobreza da nossa história, onde sempre se esteve presente quando foi posta em causa a liberdade e independência do país.
Num passado recente que não se ignore a força de trabalho que se exportou daqui ou os recursos naturais, de que só dou o exemplo da energia hidroeléctrica, que aqui se produz e daqui parte para reabastecer o país. Ainda recentemente houve pacóvios como eu que justificaram a cedência para a construção da Barragem de Foz- Tua como contributo para se obter a independência energética do país.
É claro que a Sra. Ministra da Justiça no seu contributo insensato de assassínio democrático do país, não está capaz de saber olhar a passados nem entender conceitos de territorialidade ou identidade e soberania.
Não se estranha assim a anormalidade da extinção da Comarca, reduzindo-a a vão de escada para recolha de expediente.
O que se estranha é que se aceite este acto leviano sem se perceber o que se ganha ou se perde, em direito ao respeito (próprio e dos outros), em síntese ao direito à justiça e autoridade.
Nesta decisão importa sublinhar a responsabilidade das entidades locais que, apesar das promessas, não souberam defender os direitos do seu povo, antes se resignaram a aceitar esta desconsideração.
Porque o que é posto verdadeiramente em causa é o direito à equidade e à segurança. Recusando-se o poder central a dar-nos iguais circunstâncias em direitos, já que os deveres se mantém, terá de ser o poder local a assumi-los já.
Se for real que brevemente terei de voltar a pertencer à actual Assembleia Municipal, proponho-me desde já estudar uma proposta que garanta aos munícipes que procuram justiça, que o Município preste os serviços de transporte a quem agora tem de procurar instalações para a justiça noutras comarcas. Esta poderia ter sido uma proposta elementar do governo, já que quem paga somos sempre nós.
Dirão alguns que em situação de crise não há dinheiro para tal, já que até os pobres reformados têm sido esmifrados, como se sabe para acudir ao desbarato.

 Teremos pois que rever prioridades e definitivamente concluir que as pessoas estão primeiro e só elas e a sua qualidade de vida, justificam a nossa atenção e o nosso serviço.

Hélder Carvalho

Raízes em Carrazeda de Ansiães

06 setembro 2014

"A queda de um anjo"

“Caiu o anjo, e ficou simplesmente o homem.”
Camilo Castelo Branco



Armando Vara, nascido em Lagarelhos de Vinhais, onde trabalhou numa agência da Caixa Geral de Depósitos, com o canudo liceal numa mão e noutra a tarimba da militância partidária do PS fez um percurso político tão meteórico como surpreendente, percorrendo as várias etapas do poder em Portugal: dirigente distrital, deputado, vice-presidente do Grupo Parlamentar, secretário de estado e ministro, sendo agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique em 2005. Com tão invejável currículo de bancário passou a banqueiro, que é em Portugal constitui, a par de outras, uma das condições mínimas.  
“O ilustre transmontano” agora caído em desgraça foi condenado, no processo “Face Oculta” a cinco anos de prisão efetiva por três crimes de tráfico de influência, provando-se que se encontrou várias vezes com Manuel Godinho, de quem recebeu 25 mil euros.

Duas lições retiro desta história: Se é incomum em Portugal ver poderosos ligados à política serem condenados, torna-se comum, vermos pessoas condenadas a prisão ir descansadas para casa, porque o recurso assim o permite.  

Não resisto a aqui postar o que sobre estes transmontanos escrevi no “Pensar”


02 setembro 2014

Julgamentos à "Pai da Fartura"

O governo defende o chamado novo “mapa judiciário” com os argumentos da contenção de despesas, da racionalização e os outros que se ouvem em surdina, amplificados pelos comentaristas oficiosos, de quem se importa dos “tribunais fecharem em terras que ninguém conhece”. Não conhece, logo não existe. Localidade, lugar ou lugarejo que o querido Manuel Luís Goucha, a estridente Cristina Ferreira, o grandiloquente Jorge Gabriel, a menina Sónia Araújo e a senhora Júlia Pinheiro não indiquem, não visitem ou tão só mencionem não existem. A força argumentativa, a validade da razão só tem verdadeiro peso se tiver votos e honras de aparecer na televisão.

O encerramento e a reconversão de alguns tribunais em secções de proximidade, não são mais que artimanhas para fechar serviços do Estado, põem em causa o exercício da cidadania e a vida em democracia. Todos sabemos que a democracia tem bases fundamentais que decorrem da sua natureza, como são a participação e a igualdade de tratamento, entre outras, e alguns dos valores essenciais sobre os quais assenta são a justiça e a segurança. Porque não queremos a suspensão da democracia em tempos de crise, como alguém advogou, parece-me claro que, na sociedade de informação, beneficiando da rede de transportes existentes, ainda ninguém provou que será mais fácil, mais racional e menos dispendioso para julgamentos não muito complexos, deslocar réus ou arguidos, testemunhas e advogados, em vez de senhores juízes e outros elementos da chamada máquina judicial.Por isso é que a extinção dos tribunais ou a conversão de outros em secções de proximidade, que é a mesma coisa, significa um empobrecimento da vida democrática.

 E se partirmos do princípio de quem pouco tem nada se pode tirar, este é mais um duro golpe para as populações do interior que irá agudizar as suas condições de vida e contribuir decisivamente para mais migração, despovoamento e efetiva desertificação humana.

Face ao exposto não será de desconsiderar a criação de novos “juízes de vara” em todas as povoações do concelho para velarem pela ordem, impedir desacatos, roubos e abusos e também se nomearem os chamados “homens do acordo” do princípio do século XX que tinham como função resolver contendas com marcos nas propriedades, divisão de águas; ou até propor-se que os fiscais municipais alarguem as suas funções com a finalidade de guardarem a azeitona, os pomares e as vinhas; e quiçá voltarmos ao velho conceito de implementação da justiça local trazido pelo liberalismo do regedor e do guarda rural. É comum em alguns locais de Trás-os-Montes proceder-se a um julgamento anual do diabo, de um bode, ou do chamado pai da fartura, e descarregar sobre ele as culpas de todos os males.


Nem que seja só para ter a ilusão...

(revisto)


foto da MJFL daqui

Cortejo etnográfico 1984


Cortejo etnográfico 2014

01 setembro 2014

31 agosto 2014

25 agosto 2014

Início da caminhada para subir aos miradouros

Quantas vezes viajamos à roda do nosso quarto ou caminhamos num trajeto sempre repetido, sem qualquer outro proveito que não seja a imaginada forma física, porque andar é um imperativo que se nos exige, face à vida sedentária, ao aumento de peso, aos valores altos da análise do colesterol e dos triglicerídeos, palavras modernas tão medonhas, como antigamente eram o mau-olhado e as pragas. Abrenúncio! Andar e mourejar era o que não faltava há uns anos a esta parte nos longos e trabalhosos dias do amanho das terras e todas as energias eram poupadas para o efeito e caminhar por caminhar… era um prazer só para quem podia.

Os que também podem, viajam para as praias, ou se o orçamento permite, para umas férias, de preferência um local quente e paradisiaco, para desfrutar de águas tépidas, tempo esplêndido, destinos inesquecíveis, em suma, verdadeiros paraísos naturais que resultam, em aventura e prazer, algumas picadas de mosquitos e uns distúrbios intestinais. Pois, bom proveito! Fico por aqui a concordar com Garrett: “tenho visto alguma coisa no mundo, e apontado alguma coisa do que vi. De todas quantas viagens porém fiz, as que mais me interessam sempre foram as viagens da minha terra”.

Não se olhe ao ditado que “mulher e vinho fazem errar o caminho” porque também o outro é bem mais verdadeiro, “com pão e vinho, anda caminho”, porque essas outras tiradas que terminam com o estender do farnel recheado da trindade gastronómica tradicional, o presunto, o salpicão e o queijo, para partilhar à sombra e em ameno convívio e, valha-nos São Lourenço, repõem ainda mais calorias que as consumidas, são das minhas preferidas.

E então não se hão de fazer caminhadas para os olhos? Porque há tanto que ver, descobrir e aprender em trajetos à volta deste território tão imensamente rico em património oral, arqueológico, monumental e paisagístico. Pegamos o bordão de romeiro e toca a peregrinar pelos caminhos da minha terra em busca de histórias de espantar, e de outras para contar.Caminhemos então e partamos à descoberta para conhecer, aprender e fantasiar. Andemos que se faz tarde nesta viagem á procura da casa da moura, local mágico, onde “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Porfiamos sem temores porque há tesouros encantados por descobrir, belas princesas e perfeitos mancebos para desposar. Reflitamos com empenho porque são muitos os enigmas para decifrar. Mas, tomem atenção porque este é também um caminho viciante e quem nele segue com vontade e compromisso raramente volta atrás… Entremos, pois, sem medos porque só assim conheceremos este reino maravilhoso…

Antes de mais, suba o mais alto que puder para saber o que o espera e com o que se pode contar. Porque “quem namora ninhos cá de baixo, se realmente é rapaz e não tem medo das alturas, depois de trepar e atingir a crista do sonho, contempla a própria bem-aventurança.” E neste deixar que a vista se alargue de “ânsia e de assombro”, porque não escalar os miradouros deste reino de Ansiães: o Alto do Castelo, a Osseira do Seixo, O Síbio do Pinhal do Douro, o ValePedro da Beira Grande, o Pinocro na Fontelonga, a Senhora da Graça da Samorinha, a Senhora da Saúde dos Mogos, do Senhor da Boa Morte do Castanheiro, a Capela do Bom Jesus de Tralhariz, o Monte das Caldas do Pombal…, e depois concluir que “não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso de natureza”. Se houver jeito, deixe-se o verso brotar que há de surgir poesia da boa.

Em íngremes encostas, varandins que nenhum palácio desfruta, janelas de pedra onde cabe o mundo todo e só mais não alcança porque a neblina difusa não deixa vislumbrar o resto, de onde se descortinam vistas de cortar a respiração, claraboias onde se podem espreitar as estrelas e, amiudadas vezes a sublime Lua que persegue o Sol, eterna enamorada em busca do seu amor e esplendor. Nestes miradouros, quais portas do paraíso, deles se avistam e crescem as cepas “como os manjericos às janelas”, estoiram em branco as amendoeiras em flor, para que nenhuma princesa que ali venha habitar sinta saudades da neve, quando a não trouxe a invernia; verdejam as oliveiras que, se vestem de luto de pequenas bolas natalícias, e, atendendo à quadra, tal como o Filho da Virgem, para dar a luz ao mundo mil tormentos padecerão. Os olhos descansam nos carrascos e nos altivos sobreirais e os sentidos procuram as cores das estevas, das urzes, das giestas e das cornalheiras; os odores da arçã, do fiolho e das lavandas. No sol da canícula, desponta o desejo de frescura que os salgueiros e amieiros, surgidos junto das linhas de água, atenuam, mas a sede só pode ser saciada na rara fonte, no rio de ouro ou no seu afluente que é Tua, ainda virgens de barragens e de outras porcarias que os conspurcam, ou no fruto que procede do antigo jardim do Éden; “deixai-me agora falar/ do fruto que me fascina”, é concebido aqui na árvore que é também da sabedoria que mostra de uma só vez todo o processo da criação: flor e fruto, poesia e volúpia, “do fruto que me fascina/ pelo sabor, pela cor, pelo aroma das sílabas,/ ó música de meus sentidos,/ pura delícia da língua,” tangerina, laranja, tangerina…” 

De cada um destes altares esguios, majestosos e suspensos nas nuvens, se se pode desfrutar dessa paisagem natural deslumbrante, imponente e a perder de vista, mas viva e trepidante porque nela habitam uma boa quantidade de animais salvos na arca de Noé. Nas cercanias saltita o coelho assustado, voa a perdiz espantada até se tornar numa mancha confundida com o arbusto que a protege. Se não fosse a raposa, a lontra e o lobo de duas pernas porque o outro já se eliminou, cada uma à sua maneira vêm perturbar a quietude reinante, e seria o paraíso na terra. As vertentes escarpadas oferecem a tranquilidade necessária para albergar as inúmeras aves garbosas e raras que aqui se reproduzem, como o grifo, o abutre do Egipto, a águia-real, a águia-de-Bonelli, a águia-cobreira e a cegonha-preta, nos ares de uma azul doce e cristalino planam os irrequietos abelharucos, na largueza do olhar, salpicam a cor da paisagem os extraordinários papa-figos; e nos muros e armazéns abandonados aparece ao paciente observador o raríssimo chasco-negro; nos rios e riachos nadam em relativo sossego o barbo, a boga, o escalo, o bordalo, o ruivaco, a truta...

Em verdade vos digo que a Nossa Senhora da Assunção que é venerada no cabeço de Vilas Boas, do concelho de Vila Flor, está neste local contra a sua vontade, pois onde queria estar era num destes outros cabeços. A glorificada e louvada senhora tudo fez para ser venerada noutro monte e noutra ermida e assim apreciar para sempre os mares de pedras e as paisagens de sonho, como só no reino maravilhoso de Ansiães podem ser contempladas. Contaremos mais tarde.

(Viagem à Casa da Moura)