Lembram-se do folheto de propaganda do “Barateiro” da minha
terra? O tal que vendia sapatos para senhora com “tiras às pernas”?
Pois bem: afinal o pobre homem não está sozinho! Afinal a sua
“expressão” semântica até não é tal mal “construída” assim.
Para começar, apresento estas realidades da nossa expressão,
referidas intencionalmente ao caso do lembrar:
Estação de caminho de ferro. Casa ou Salão de chá. Pau de
bandeira. Cabeça de casal. Cabo de vassoura. Dia de Natal.
Suponhamos que amanhã alguém se lembrava de começar a dizer:
“Caminho de ferro estação”. “Chá casa ou salão de chá”. “Bandeira
de pau”. “Casal de cabeça”. “Vassoura de cabo”. “Natal de dia”.
E assim por aí adiante…
Esse alguém, enquanto a loucura se não tornasse doença
epidémica (em caso de obstinada repetição de tal sintaxe) ingressaria sozinho
num dos hospitais de alienados, talvez para o “pavilhão dos recuperáveis”…
É que, se em inglês, o substantivo determinante, de acordo
com a índole dessa língua, se coloca antes do determinado, em casos como os que
traduzem os exemplos dados, em português a sintaxe normal exige a determinação posposta.
Assim, onde o inglês diz railway-station,
nós dizemos estação de caminho de ferro; sendo tea-room
a construção inglesa, só casa ou salão de chá deve ser a tradução; se na
Inglaterra se fala em flag-staff,
em Portugal refere-se o pau da bandeira; empregando-se em inglês a expressão householder, nem por isso em português se
usa “casal cabeça”, porém sim cabeça de casal; broomstick
não corresponde ao nosso “vassoura cabo”, mas ao portuguesismo cabo de
vassoura; o encantador Christmas-Day
perderia o encanto em Portugal, se a gente lhe chamasse “Natal dia”, em vez de,
à portuguesa, dia de Natal.
Pode a vida da linguagem explicar-se, penso eu, como a vida
dos sentimentos.
Assim como alguém de bom coração se impressiona mais, se
admira mais, ou reage mais com algum ato indigno do que outra pessoa afeita a
patifarias, igualmente, quando nos pomos com íntegro caráter de Portugueses a
presenciar as indignidades da expressão estrangeirada, sentimos crescer em nós
a má impressão, o espanto, a revolta, a que alguns insensíveis acaso chamarão
ingenuidade, mediocridade ou caturrice.
A construção dia de
Natal é puramente portuguesa, como o é cabeça
de casal e as outras referidas. Mas “Natal dia”, se amanhã se passasse a
dizer assim, constituiria uma aberração repulsiva, por contrária à nossa
tradicional sintaxe.
E, no entanto, quanto para aí se diz: “Lusitânia Expresso”, “Londres
Salão”, “Estoril Praia”, “Avenida Palace Hotel”, “Caneças Bar”, etc., etc., há
muita gente que, por acostumada ao exótico de tais chamadoiros, achará essas
anomalias toleráveis, com se de anomalias de construção se não tratasse.
Que se transija, por exemplo, perante o anglicismo “bar”,
ainda se poderá aguentar, posto que botequim
ou taverna digam o mesmo. Mas
aceitar com o “bar” a sintaxe inglesada (e ao mesmo tempo comicamente
portuguesa) de “Caneças Bar”, é coisa que me parece de perigosa desorientação
para a lógica da expressão portuguesa.
Por este andar, lá virá o dia em que se chame ao Sindicato
dos Alcoviteiros, “Alcoviteiros Sindicato”, às Juntas de Freguesia, “Freguesia
Juntas”, à Assembleia da República, “República Assembleia”, etc., etc.
Parecia-me conveniente reagir contra esta desnacionalização
desenfreada, contra esta ridícula subalternização ao espírito das línguas
estrangeiras.
Proliferam em Portugal uns supercultos que se riem, quando
alguém protesta contra a vandalização do Idioma, e repetem, em ar doutoral, que
a Língua “evolui”, que as línguas se “interpenetram”, que, assim, como mudam os
tempos, assim mudam costumes, inclusivamente os de expressão.
Mas… quem diz menos disso?
Hoje nós não vamos falar ou escrever como se falava ou
escrevia no tempo de Afonso Henriques.
Os arcaísmos podem ser tão reprováveis como os neologismos ou
os estrangeirismos. Não se misture, porém, a evolução com a despersonalização,
com a subserviência, com o aniquilamento da dignidade da Língua pátria.
Bem sei que o nacionalismo, levado ao fanatismo, é
incoerente, ou, pelo menos, pueril. Mas a anarquia da expressão, no excesso
oposto, representa um perigo para a integridade do nosso caráter de
Portugueses.
Já mais de uma vez tenho defendido haver prejuízo para a
personalidade idiomática, se a sintaxe portuguesa se deixa desvirtuar pela
influência de outras línguas, principalmente pela inglesa e pela francesa. Na
verdade, o especto das línguas que melhormente lhes traduz o espírito é a disposição,
a combinação, a ordem, numa palavra a sintaxe
dos seus elementos de construção lógica. E acontece tomar-se por vezes por
legítimo progresso da linguagem o que amiúde representa progressivo
desvirtuamento.
Exemplifico:
Noutros tempos havia em Portugal estalagens, pousadas e
hospedarias.
A palavra francesa Hôtel,
tornada internacional, chegou cá à nossa terra. Conforme à índole do português,
albergou-se o termo e, claro está, hoje seria inútil ou tardio protestar contra
o estrangeirismo. Estamos de acordo: hotel,
agora, é palavra portuguesa. Não se discute.
Até aqui, evolução
da língua.
O luxo, contudo, não ficou satisfeito. Exigiu mais. Vejamos o
quê:
Em inglês há a palavra palace,
com acento em pa, a qual significa palácio.
Recorreu-se a ela e engendrou-se isto: Palace Hotel. Em
seguida, como o francês é língua de mais fácil pronúncia, começou a proferir-se
o inglês “palace” à francesa, isto é, com acentuação em la. Esqueceu-se assim o
próprio francês palais e, o que foi pior,
olvidou-se a sintaxe portuguesa, passando a usar-se a barbaridade de “Palace
Hotel”, em vez de, por exemplo, Hotel Palácio, ou coisa equivalente.
Chegados aqui, parecerá ao senso comum que ainda estamos em
“evolução”? Abstenho-me de responder.
Outro exemplo, não me desviando eu de assunto afim:
Tínhamos em Portugal, além do mais, os botequins. Passámos a ter os bares
(em inglês - bars).
Fizemos mal em aceitar o estrangeirismo “bar”?
Quase toda a gente achará que não fizemos mal, e eu não
contrario. Apenas digo que os Italianos (por exemplo), empregando barra, foram mais nacionalistas do que nós.
Na verdade, a palavra inglesa “bar” aplica-se aos botequins, porque significa o balcão
das lojas de bebidas. “Bar”, inglês, proveio do francês antigo “barre”, por sua
vez do baixo latim “barra”. Ora,
este baixo latim “barra” deu-nos o português barra. Portanto, quanto à origem, o francês barre,
o inglês bar, o italiano barra e o português barra
são as evoluções normais da mesma palavra.
Mas fiquemos nisto: bar,
como aportuguesamento do inglês “bar”, explica-se por evolução.
Pergunto agora: “Caneças Bar”, “Cristal Bar”, “Os Três Unidos
Bar” e maravilhas assim explicam-se também por evolução?
Respondam os “evolucionistas”, porque eu acho melhor não
responder.
Considero suficiente a comparação destas denominações com a
construção que amanhã algum maníaco se lembrasse de explicar, generalizando o
inglesamento.
Passaríamos a ter um “Recreio Coliseu”, um “Nacional S.
Carlos Teatro”, uma “Municipal Lisboa Câmara” e, por fim, evolutivamente… um Rilhafoles Hospital.
O estrangeirismo pode investir com um idioma, assaltando-lhe
a fonética, a grafia, a sintaxe e a morfologia, a sintaxe e a semântica. Destes
cinco assaltos pior é, sem dúvida, o contra a sintaxe, pois em tal caso corre
perigo a parte vital do Idioma.
Sofre a Língua portuguesa arremetidas várias e por vários
modos. E, usando de expressão atual, direi que o pior inimigo não é o inimigo
exterior (inevitável influência de línguas estranhas), mas o inimigo interior, “a
5.ª coluna da linguagem”, constituída pelos que roubam a unidade ao Idioma pátrio.
O cúmulo da desnacionalização da Língua atinge-se, quando se
substitui, na sua estrutura sintáxica, a construção própria por construção
alheia, de todo diferente.
Entre a sintaxe portuguesa e a inglesa há pronunciadas
diferenças, que as distanciam grandemente.
E mesmo um ignorante de coisas de gramática deve ter reparado
em que o adjetivo atributo concorda em género e número com o substantivo a que
se refere.
Isto em português, claro está.
Se souber inglês, até sem conhecimento de gramática,
traduzirá, por exemplo, “national films” para fitas nacionais, ou filmes
nacionais.
Haverá em todo o nosso Portugal algum analfabeto capaz de
dizer que tem visto “nacional filmes”?
Suponho que não.
Mas, se não há tal analfabeto, há gente portuguesa semiculta
que denomina à americana uma empresa ou coisa parecida que talvez seja
portuguesa nas intenções e nas obras, mas é estrangeira no chamadoiro.
Chegados aqui, pergunto:
- Será que um Povo, “velho” de quase 900 anos, já não tem
idade para aprender?
Felizmente ainda há quem responda que sim! Veja-se o nosso
Ministro das Finanças (Doutor em Economia, não em Matemáticas) a “ensinar”, em
plena Assembleia da República, a todos os seus “pares” (e aos “ímpares”, como
eu?) que “o ano de 2015 vem depois do ano de 2014”!
Pergunto, ainda:
- Será que o nosso Ministro da Educação (ele sim, Doutor em
Matemáticas), ao não “pôr ordem na casa”, se “esqueceu” que “o ano de 2014 vem antes do ano de 2015”?
Por favor: não me digam que “burro velho não aprende
línguas”… eu (“burro velho”) ando a aprender Mandarim!
Carlos Fiúza