19 abril 2012

Bicos, carne de porco e outros peguilhos


...
De tempos a tempos, matava-se uma galinha. Tudo um ritual. A sua sentença de morte era devida às razões mais diversas: a idade, o tamanho, a maldade, a  ausência da postura de ovos, o livre arbítrio de uma escolha fútil. Era filada, à má-fé, dentro da capoeira, à saída ou numa distração momentânea. Bem presa debaixo de um braço, depenava-se-lhe a crista para o golpe fatal, que a faca afiada e sem dó cortava na horizontal de um só golpe. Aparava-se o sangue numa malga. A galinha ou o frango dava para várias refeições, consoante a largura da família. Do “de dentro”, coração, moela e fígado, a que se juntavam as asas, as pernas e as coxas fazia-se uma arroz divinal condimentado com o sangue, o azeite, o vinagre e a salsa da horta. O restante era quase sempre guisado na panela de ferro, numa mistura de azeite, cebola, alho, salsa e louro; fazia um molho delicioso e aconchegava as batatas cozidas, que sabiam tão bem ou melhor que a carne, distribuída entre todos, de forma parcimoniosa.
O peru reservava-se para uma época especial, o Natal e a Páscoa, quase sempre assado no forno comunitário a que se juntavam as “batatinhas” assadas.
Uma, duas, três vezes por ano comprava-se um pouco de ovelha, de cabra, de borrego ou cabrito, ali morto na loja pelo “matador” da aldeia, que o comprava ao pastor e o distribuía na razão das posses e da vontade dos compradores. Quase sempre era guisado ao lume e comido com as batatas cozidas.
De resto, a carne de porco era o principal “peguilho” das nossas gentes. Em todas as casas se matava o "requinho", cujo tamanho era diretamente proporcional às posses de cada um. A festa social da matança era condimentada pelo sangue cozido e os rojões do soventre- Seguia-se o dia das alheiras, também ele episódio sociável de partilha de afeições e sabores: comiam-se os voluptuosos ossos da suã acompanhados das celestes “migas” polvilhadas de canela e regadas com a calda que os ajudou a cozerem. A elaboração dos grandiosos salpicões e das graciosas chouriças de carne era uma tarefa mais privada. No entanto sempre se permutavam uns “chichos”, a deleitosa carne de a vinha-d´alhos, pelos vizinhos e amigos chegados. Em largos dias se assistia a esse ritual tão natural, a descida da vara do fumeiro de um ou outro agradável enchido para as brasas ou a panela para acompanhar as batatas da horta ou o pão do forno. O resto repousava na salgadeira. Dela se iam retirar os presuntos para serem apimentados, fumados e curados. Cortado a golpes de canivete, misturava-se com um bom pedaço de trigo ou centeio num apetite grandioso a que não podia faltar uma boa “pinga”. Sobravam os pés e as orelhas que ajudavam a fazer cozidos e feijoadas de “comer e chorar por mais”. Todos sabem do que falo?
Esgotadas as salgadeiras, só a Páscoa trazia um pouco de cabrito e as ceifas e malhadas um pedaço de ovelha e cabra, intervalada com um ou outro bico caseiro, até à grande festa da carne do porco, que era a marrã da festa da Santa Eufémia. 
...
(do livro "Selores... e uma casa" a sair brevemente)

16 abril 2012

Divulgação: BTT - Amedo


Fotos de António Pedrosa

Após vários programas de combate à pobreza, de milhares de euros gastos, de muito discurso e outras tantas promessas, as imagens não mentem sobre os resultados...



Contagem decrescente

Estaremos prontos para a revolução que irá operar o IC5?
 



fotos recebidas por email

Parabéns...











































Parabéns aos benfiquistas do concelho da Casa do Benfica de Carrazeda e desta pequena aldeia chamada Brunheda. Aqui se realizou a 1ª mostra do folar e como curiosiade, a preparação com os motivos de Páscoa, os ovos, os ninhos e os passarinhos. Trabalho delicado, feito por sábias mãos. O Benfica teve a sua 4ª taça consecutiva- é obra- e ainda é o melhor de Portugal, vamos ver o campeonato ou como diria o outro, não há bela sem senão...Não é todos os dias que se encontram imagens que falam por si. Comentários para quê?. Brunheda em Abril de 2012

15 abril 2012

Nas bocas do mundo: Prémio à nossa miséria

O Prémio de Fotojornalismo Estação Imagem/Mora "foi atribuído ao trabalho "Iraquianos" de António Pedrosa, sobre o bairro onde vive uma comunidade de cerca de 120 pessoas de etnia cigana, que, até aos anos 90, andava "de aldeia em aldeia, a fazer pequenos arranjos, cestos ou utensílios para cavalos".
A comunidade foi "expulsa do acampamento no centro da vila" e deslocada "para o topo de um monte onde, nos anos 40, laborava uma mina de volfrâmio alemã, atualmente lixeira de materiais de obras", pode ler-se na ficha explicativa da reportagem..." 
 Daqui

Poeiras do meu sótão… (Carlos Fiúza)



III - Os “macaquinhos”!

Sempre que estou a ler um livro, vou anotando as reflexões que uma frase ou um período me suscitam.
Este hábito foi "herdado" de meu Pai, que sempre me dizia: "Rapaz, tem sempre contigo lápis e papel para anotares tudo o que te mereça reparo. Verás que essas anotações ainda te vão ser úteis".
Vem isto a propósito de um livro que retirei da estante, um ensaio de semântica sobre a língua francesa, de que é autor Thomassom e que se intitula "Naissance et Vicissitudes de 300 Mots et Locutions".
Abri o livro... e elas (as anotações) lá estavam, arrumadinhas, em letra bem miudinha (e a lápis!), marginando meditações referentes à língua
portuguesa.
Quero dizer, reflexões sobre factos da língua francesa descritos por Thomasson e relacionados com tantos outros correntes na nossa língua.
No livro, como o próprio título indica, o autor procura seguir o caminho semântico de 300 palavras e locuções da língua francesa.
Limito-me aos apontamentos que suponho mais interessantes, tirados das observações comparativas que (então) realizei.
Thomasson apresenta sete nomes de animais que entram em locuções populares francesas, de sentido figurado, e com as quais se indicam doenças ou falhas cerebrais.
"Avoir une araignée dans le plafond", ter uma aranha no teto (à letra), diz o autor que significa, em francês, ter o cérebro sujeito a caprichos extravagantes (le cerveau sujet à des lubies).
Pois, então, lembrarei que a aranha serve para indicar quase o mesmo em português.
Não dizemos que "fulano tem muitas teias de aranha" quando se prende com devaneios, falsas ideias, com fantasias desastrosas, ou até argumentos facilmente combatíveis pela vassoura da reflexão?
Entre a expressão que o autor francês cita, avoir une araignée dans le plafond, e a nossa das teias de aranha, não deixo de elogiar a intensidade expressiva da locução portuguesa, porque a palavra teia dá boa ideia do embaraço cerebral.
A teia é tão facilmente rasgável como o é qualquer teia de ideias ilusórias ou argumentos absurdos.
Regista o autor do ensaio de semântica francesa a expressão avoir des rats dans la tête, isto é, ter ratos na cabeça.
A nós, portugueses, ocorre-nos imediatamente a engraçadíssima expressão ter macaquinhos no sótão.
E esta nossa locução está bem pensada, não só em virtude de se figurar a parte superior da cabeça como um sótão do nosso edifício humano, mas, ainda por cima, em vista de lá se arquitetar a instalação de uma aldeia de macaquinhos, causadores, pelos destrambelhos tão próprios da sua natureza, dos desatinos de quem os alberga.
Outro assunto relacionável com problema da nossa língua é a pequena nota a respeito de chèvre.
Ao lê-la, renovei esta interrogação a mim mesmo:
- Porque será que se diz em português - prender o burro ou estar com o burro preso, no sentido de se zangar?
- Será possível descobrir-se a razão de ser de tal locução?
Em português o burro entra, inexplicavelmente nestas frases - estar com o burro, estar com o burro preso e prender o burro.
Temos ainda a expressão "estar de burros com alguém", isto é, zangado com essa pessoa.
A própria palavra amuam, sinónimo de tais expressões, também é misteriosa, embora pareça que se relaciona com mu ou mulo,   animal difícil de domar.
O caso complica-se, quando se estabelece comparação com outras línguas.
Em francês  diz-se se cabrer ou prendre la chèvre (prender a cabra), no mesmo sentido de zangar-se.
Uns semasiologistas aventam a hipótese de a locução provir de alguma velha farsa; outros relacionam-na com um antigo "jogo de cabra" (Cf. Thomasson).
Penso não ser de admirar esta divergência de os franceses dizerem "prender a cabra" e nós o "burro". Há divergências mais acentuadas.
Os italianos empregam a locução pigliari la monna, prender a macaca.
Portanto, o animal preso varia.
Já que os semasiologistas,  os eruditos, não apresentam solução, aqui vai esta minha hipótese, relacionando-a com a deles:
A palavra burro (veja-se Aulete) pode querer dizer - mau humor.
Ora eu pensei no seguinte - simboliza-se nesses animais o mau humor.
E, assim como os animais (o burro em português, ou a cabra em francês ou a macaca em italiano) quando estão presos, estão mais zangados do que livres, “estar com o burro preso”, “prendre la chèvre”, “se cabrer” ou “pigliari la monna”, simbolizam a zanga.
Limito-me a dar uma hipotética explicação, e não me envergonho, porque os gramáticos confessam-se impotentes para explicar o mistério das correspondentes frases (cientificamente, leia-se).
Aponta o livro francês a expressão faire une chose à la barbe de quelqu'un, a significar que se faz uma coisa provocando insolentemente e de perto.
Nós, em português, também dizemos o mesmo. E muita vez acrescentamos - nas barbas da autoridade.
Penso que o coexistirem estas frases se explica muito facilmente por ser (?), ou por ter sido, a barba um símbolo de respeito.
No próprio francês existe uma locução - rire dans sa barbe, zombar nas próprias barbas.
Declarar, dizer o nome é o que em Português natural dizemos.
Pois, modernamente, anda muito na berra a expressão - declinar o nome, e até declinar a identidade.
Ouçamos o que diz Thomasson: "a locução decliner son nom foi usada primeiramente por gracejo, pois um nome de pessoa não se declina... Dizia-se de um homem de ignorância crassa que nem sequer sabia declinar o nome".
Uma outra nota que se pode relacionar com a língua portuguesa é a respeitante ao termo réclame.
Lembra o autor que réclame, substantivo masculino, foi termo de falcoaria, voz ou antes assobio, para chamar ou fazer achegar-se a ave; e também chamariz que atrai para armadilha.
Exatamente o mesmo sucedeu na nossa língua a reclamo de mercadoria, equivalente a chamariz.
Findo estas considerações sobre o interessante livro "Naissance et Vicissitudes de 300 Mots et Locutions" por Thomasson, relacionando ao português o que ele diz a respeito de jalousie.
Trata o autor de quatro aspetos semânticos de jalousie:
1º - no sentido de ciúme; 2.º - na aceção militar; 3.º - como termo de marinha; 4.º-  na aplicação à “jalousie” das janelas.
É este último sentido que mais agora nos interessa:
"Como o ciúme incita a espiar (escreve Thomasson), como incita a olhar furtivamente, chegamos ao sentido... jalousie des fenêtres (gelosias,
portanto, na nossa língua)... "São grades de madeira ou de ferro, através das quais se pode ver sem ser visto, ou guarda-ventos formados por tabuinhas delgadas cuja inclinação se corrige por meio de um cordão".

E assim,

- Findas as citações...
- Corro as gelosias,

… E acabam as anotações.

Carlos Fiúza

07 abril 2012

Anglicização sintática ou… vandalização? (Carlos Fiúza)



Lembram-se do folheto de propaganda do “Barateiro” da minha terra? O tal que vendia sapatos para senhora com “tiras às pernas”?
Pois bem: afinal o pobre homem não está sozinho! Afinal a sua “expressão” semântica até não é tal mal “construída” assim.
Para começar, apresento estas realidades da nossa expressão, referidas intencionalmente ao caso do lembrar:
Estação de caminho de ferro. Casa ou Salão de chá. Pau de bandeira. Cabeça de casal. Cabo de vassoura. Dia de Natal.
Suponhamos que amanhã alguém se lembrava de começar a dizer:
“Caminho de ferro estação”. “Chá casa ou salão de chá”. “Bandeira de pau”. “Casal de cabeça”. “Vassoura de cabo”. “Natal de dia”.
E assim por aí adiante…
Esse alguém, enquanto a loucura se não tornasse doença epidémica (em caso de obstinada repetição de tal sintaxe) ingressaria sozinho num dos hospitais de alienados, talvez para o “pavilhão dos recuperáveis”…
É que, se em inglês, o substantivo determinante, de acordo com a índole dessa língua, se coloca antes do determinado, em casos como os que traduzem os exemplos dados, em português a sintaxe normal exige a determinação posposta.
Assim, onde o inglês diz railway-station, nós dizemos estação de caminho de ferro; sendo tea-room a construção inglesa, só casa ou salão de chá deve ser a tradução; se na Inglaterra se fala em flag-staff, em Portugal refere-se o pau da bandeira; empregando-se em inglês a expressão householder, nem por isso em português se usa “casal cabeça”, porém sim cabeça de casal; broomstick não corresponde ao nosso “vassoura cabo”, mas ao portuguesismo cabo de vassoura; o encantador Christmas-Day perderia o encanto em Portugal, se a gente lhe chamasse “Natal dia”, em vez de, à portuguesa, dia de Natal.
Pode a vida da linguagem explicar-se, penso eu, como a vida dos sentimentos.
Assim como alguém de bom coração se impressiona mais, se admira mais, ou reage mais com algum ato indigno do que outra pessoa afeita a patifarias, igualmente, quando nos pomos com íntegro caráter de Portugueses a presenciar as indignidades da expressão estrangeirada, sentimos crescer em nós a má impressão, o espanto, a revolta, a que alguns insensíveis acaso chamarão ingenuidade, mediocridade ou caturrice.
A construção dia de Natal é puramente portuguesa, como o é cabeça de casal e as outras referidas. Mas “Natal dia”, se amanhã se passasse a dizer assim, constituiria uma aberração repulsiva, por contrária à nossa tradicional sintaxe.
E, no entanto, quanto para aí se diz: “Lusitânia Expresso”, “Londres Salão”, “Estoril Praia”, “Avenida Palace Hotel”, “Caneças Bar”, etc., etc., há muita gente que, por acostumada ao exótico de tais chamadoiros, achará essas anomalias toleráveis, com se de anomalias de construção se não tratasse.
Que se transija, por exemplo, perante o anglicismo “bar”, ainda se poderá aguentar, posto que botequim ou taverna digam o mesmo. Mas aceitar com o “bar” a sintaxe inglesada (e ao mesmo tempo comicamente portuguesa) de “Caneças Bar”, é coisa que me parece de perigosa desorientação para a lógica da expressão portuguesa.
Por este andar, lá virá o dia em que se chame ao Sindicato dos Alcoviteiros, “Alcoviteiros Sindicato”, às Juntas de Freguesia, “Freguesia Juntas”, à Assembleia da República, “República Assembleia”, etc., etc.
Parecia-me conveniente reagir contra esta desnacionalização desenfreada, contra esta ridícula subalternização ao espírito das línguas estrangeiras.
Proliferam em Portugal uns supercultos que se riem, quando alguém protesta contra a vandalização do Idioma, e repetem, em ar doutoral, que a Língua “evolui”, que as línguas se “interpenetram”, que, assim, como mudam os tempos, assim mudam costumes, inclusivamente os de expressão.
Mas… quem diz menos disso?
Hoje nós não vamos falar ou escrever como se falava ou escrevia no tempo de Afonso Henriques.
Os arcaísmos podem ser tão reprováveis como os neologismos ou os estrangeirismos. Não se misture, porém, a evolução com a despersonalização, com a subserviência, com o aniquilamento da dignidade da Língua pátria.
Bem sei que o nacionalismo, levado ao fanatismo, é incoerente, ou, pelo menos, pueril. Mas a anarquia da expressão, no excesso oposto, representa um perigo para a integridade do nosso caráter de Portugueses.
Já mais de uma vez tenho defendido haver prejuízo para a personalidade idiomática, se a sintaxe portuguesa se deixa desvirtuar pela influência de outras línguas, principalmente pela inglesa e pela francesa. Na verdade, o especto das línguas que melhormente lhes traduz o espírito é a disposição, a combinação, a ordem, numa palavra a sintaxe dos seus elementos de construção lógica. E acontece tomar-se por vezes por legítimo progresso da linguagem o que amiúde representa progressivo desvirtuamento.
Exemplifico:
Noutros tempos havia em Portugal estalagens, pousadas e hospedarias.
A palavra francesa Hôtel, tornada internacional, chegou cá à nossa terra. Conforme à índole do português, albergou-se o termo e, claro está, hoje seria inútil ou tardio protestar contra o estrangeirismo. Estamos de acordo: hotel, agora, é palavra portuguesa. Não se discute.
Até aqui, evolução da língua.
O luxo, contudo, não ficou satisfeito. Exigiu mais. Vejamos o quê:
Em inglês há a palavra palace, com acento em pa, a qual significa palácio.
Recorreu-se a ela e engendrou-se isto: Palace Hotel. Em seguida, como o francês é língua de mais fácil pronúncia, começou a proferir-se o inglês “palace” à francesa, isto é, com acentuação em la. Esqueceu-se assim o próprio francês palais e, o que foi pior, olvidou-se a sintaxe portuguesa, passando a usar-se a barbaridade de “Palace Hotel”, em vez de, por exemplo, Hotel Palácio, ou coisa equivalente.
Chegados aqui, parecerá ao senso comum que ainda estamos em “evolução”? Abstenho-me de responder.
Outro exemplo, não me desviando eu de assunto afim:
Tínhamos em Portugal, além do mais, os botequins. Passámos a ter os bares (em inglês - bars).
Fizemos mal em aceitar o estrangeirismo “bar”?
Quase toda a gente achará que não fizemos mal, e eu não contrario. Apenas digo que os Italianos (por exemplo), empregando barra, foram mais nacionalistas do que nós. Na verdade, a palavra inglesa “bar” aplica-se aos botequins, porque significa o balcão das lojas de bebidas. “Bar”, inglês, proveio do francês antigo “barre”, por sua vez do baixo latim “barra”. Ora, este baixo latim “barra” deu-nos o português barra. Portanto, quanto à origem, o francês barre, o inglês bar, o italiano barra e o português barra são as evoluções normais da mesma palavra.
Mas fiquemos nisto: bar, como aportuguesamento do inglês “bar”, explica-se por evolução.
Pergunto agora: “Caneças Bar”, “Cristal Bar”, “Os Três Unidos Bar” e maravilhas assim explicam-se também por evolução?
Respondam os “evolucionistas”, porque eu acho melhor não responder.
Considero suficiente a comparação destas denominações com a construção que amanhã algum maníaco se lembrasse de explicar, generalizando o inglesamento.
Passaríamos a ter um “Recreio Coliseu”, um “Nacional S. Carlos Teatro”, uma “Municipal Lisboa Câmara” e, por fim, evolutivamente… um Rilhafoles Hospital.
O estrangeirismo pode investir com um idioma, assaltando-lhe a fonética, a grafia, a sintaxe e a morfologia, a sintaxe e a semântica. Destes cinco assaltos pior é, sem dúvida, o contra a sintaxe, pois em tal caso corre perigo a parte vital do Idioma.
Sofre a Língua portuguesa arremetidas várias e por vários modos. E, usando de expressão atual, direi que o pior inimigo não é o inimigo exterior (inevitável influência de línguas estranhas), mas o inimigo interior, “a 5.ª coluna da linguagem”, constituída pelos que roubam a unidade ao Idioma pátrio.
O cúmulo da desnacionalização da Língua atinge-se, quando se substitui, na sua estrutura sintáxica, a construção própria por construção alheia, de todo diferente.
Entre a sintaxe portuguesa e a inglesa há pronunciadas diferenças, que as distanciam grandemente.
E mesmo um ignorante de coisas de gramática deve ter reparado em que o adjetivo atributo concorda em género e número com o substantivo a que se refere.
Isto em português, claro está.
Se souber inglês, até sem conhecimento de gramática, traduzirá, por exemplo, “national films” para fitas nacionais, ou filmes nacionais.
Haverá em todo o nosso Portugal algum analfabeto capaz de dizer que tem visto “nacional filmes”?
Suponho que não.
Mas, se não há tal analfabeto, há gente portuguesa semiculta que denomina à americana uma empresa ou coisa parecida que talvez seja portuguesa nas intenções e nas obras, mas é estrangeira no chamadoiro.
Chegados aqui, pergunto:
- Será que um Povo, “velho” de quase 900 anos, já não tem idade para aprender?
Felizmente ainda há quem responda que sim! Veja-se o nosso Ministro das Finanças (Doutor em Economia, não em Matemáticas) a “ensinar”, em plena Assembleia da República, a todos os seus “pares” (e aos “ímpares”, como eu?) que “o ano de 2015 vem depois do ano de 2014”!
Pergunto, ainda:
- Será que o nosso Ministro da Educação (ele sim, Doutor em Matemáticas), ao não “pôr ordem na casa”, se “esqueceu” que “o ano de 2014 vem antes do ano de 2015”?

Por favor: não me digam que “burro velho não aprende línguas”… eu (“burro velho”) ando a aprender Mandarim!

Carlos Fiúza

06 abril 2012

Era uma vez... a Páscoa

 As grandes barrelas às habitações eram feitas por altura da Páscoa. As casas eram tratadas de alto a baixo - varriam-se com as vassoiras de giestas. Nada escapava: as pedras do lar, as escadas, os sobrados, as farroncas nos cantos mais altos das paredes, as portas de entrada e mesmo as ruas. As tábuas dos sobrados esfregavam-se a sabão e água com as escovas de piaçá. Limpavam-se as lojas dos animais e os quinteiros dos estrumes que se depositavam nas terras para a semeadura das batatas e plantação das hortas. Os colchões de palha tiravam-se das camas de ferros, esvaziavam-se do colmo meio desfeito, arejavam-se, lavavam-se, para, de novo, se encherem da palha de centeio, neles colocada com habilidade e a ajuda de uma cruzeta feita de uma vara comprida e bifurcada.
Na manhã do domingo de Páscoa, faziam-se também as limpezas ao físico, para muitos a única do ano: acendia-se o lume logo pela manhã e enchiam-se os maiores potes de ferro e caldeirões de lata com água; despejavam-se nas bacias da roupa, temperavam-se com água fria dos canecos cheios trazidos à cabeça do fontanário público, e lavavam-se os cabelos e a parte de cima dos corpos com água e sabão – a mãe ou os irmãos mais velhos ajudavam a deitar um jarro de água pela cabeça para tirar os restos de sujidade e sabão; a água restante servia para o lavar das pernas e dos pés.
Assim lavados, e penteados de risca ao meio, quase sempre se estreava farpela nova e se calçavam os sapatos das festas. Todo o vestuário era comprado na feira da vila. Saía-se para o adro para ver e ser visto. Nos bolsos das crianças a moeda ou a nota do padrinho trocada pelo ramo de oliveira do domingo anterior e pelo pedido da sua bênção, tornava-as sorridentes e as mais felizes do mundo. Depressa trocavam o pecúlio pelo copo da laranjada e a mão cheia de doces na taberna.
Se o Natal era a festa da família, a Páscoa era a festa da aldeia. A sua preparação começava com a elaboração dos folares e dos económicos e a sua cozedura nos fornos comunitários. Havia os folares doces e os de carne. Os doces comiam-se ao pequeno-almoço com o café, ou com um bom cálice de vinho tratado, que ajudava a cortar a doçura, diziam. Os de carne feitos com as chichas do porco, incluíam a chouriça, o salpicão, o presunto e o toucinho, chamávamos-lhe carne gorda, que emprestava à massa um sabor divinal. Os económicos, na forma de montinhos polvilhados de açúcar, duravam longos dias e eram sempre o melhor mimo que se metia no saco da escola para o lanche do dia.
            A missa pascal era obrigatória, antecedida dos três dias de penitências, jejuns, vias-sacras e do silêncio dos sinos que anunciavam, tristemente, ao meio-dia de quinta-feira a paragem dos trabalhos e, só despertavam na tarde de sábado e mais tarde na aurora de domingo, em tom festivo. À Eucaristia seguia-se o almoço melhorado que quase sempre incluía o borrego ou a ovelha, assados ou guisados, e o delicioso arroz doce, de sobremesa. À tarde, o compasso visitava todas as habitações para o beijar da cruz, acompanhado da algazarra da criançada, que pululava de casa em casa em busca dos “doces”, e do murmúrio de muitos que se visitavam em busca dos mimos e dos afetos.

05 abril 2012

Poeiras do meu sótão… (Carlos Fiúza)


II - Doutor e professor
Em vários lugares tenho combatido o caricato (por desmedido) emprego do tratamento de doutor a torto e a direito, sempre preconizando o uso prestigiado de professor.
Professor é todo o que professa a nobre arte de ensinar.
Doutor é termo insignificante, no generalizado emprego de hoje.
Doctor, em latim, é o que ensina, porque aprendeu. Doceo era ensinar, instruir, informar.
Há “Doutores” que sabem, de facto, mas há também “doutores” que por vezes só conhecem o que lhes entrou a martelo na cabeça.
Devemos, pois, dar prestígio à palavra professor e ligar menos ao batido tratamento de doutor.
O ponto em que insisti e insisto foi e é este:
- A palavra professor, devidamente prestigiada, deve ser aplicada e atribuída a todos os professores, desde o primário ao universitário.
Porque todos eles professam a religião de ensinar.
E ensinar não quer dizer só dar aulas.
Ensinar é dar sinal da Verdade científica, seja na aula primária, seja na cátedra, no livro, na investigação, etc.
Professor (já em latim) era não só o mestre que ensinava, mas aquele que era versado em arte ou ciência.
Em resumo:
Reabilite-se o título e o tratamento de professor, e dê-se este nome ao mestre de qualquer grau de ensino.
Para as distinções de categoria (se as houver), use-se a palavra ora com maiúsculas, ora com minúsculas, ora em abreviatura, ora por extenso.
Para mim, as distinções pouco interessam, talvez por não ser distinto.
Mas o que me interessa é proclamar que os professores devem ser tratados por professores, e não por s’tores e outros mecanismos.
Razão tinha um amigo meu quando me dizia: “o povo antigamente envolvia o termo doutor na noção de saber. Havia, por exemplo, os Doutores da Igreja. Hoje, qualquer licenciado é “doutor”, embora de “doctus” não tenha nada”.
Como comentário direi, que o povo ainda chama “doutorice” à sabença: “não venhas com doutorices”.
Vamos lá que no Brasil ainda é pior: qualquer professor da primária é lente.
Como os “lentes” eram ao que “liam”, nas velhas universidades livrescas, isso ainda é compreensível.
Costumeira que me faz rir a valer é o processo que se está a adotar em ofícios e outra correspondência, oficial e oficiosa. Os sujeitos assinam com uns gatafunhos e mandam a assistente pôr por baixo Dr. Fulano de Tal.
Que é como quem diz: olhe lá, eu cá sou Dr.!
Isto faz-me lembrar que certo dia um americano meu amigo me disse não compreender por que motivo em Portugal todas as senhoras eram Donas e os homens todos (ou quase todos) Drs., ao passo que em Espanha os homens preferiam o Dom.

Respondi-lhe que cada povo tem a sua abundância:
Em Espanha há Dom e em Portugal há Drs.… como no inverno há cogumelos!

Carlos Fiúza

Propaganda ou solidariedade?

Dizem-nos: 
"As famílias dos três trabalhadores mortos no acidente de Janeiro passado nas obras da Barragem do Tua vão ser apoiadas pela EDP." (daqui)
Não seria melhor anunciar os apoios depois de se concretizarem? 
A propaganda é um modo específico de apresentar informação que visa influenciar a atitude do público para uma causa ou atuação. Ela é legítima na publicidade e é aceitável em muitas das atividades humanas. 
Contudo, quando se aproveita a tragédia humana, se utiliza a solidariedade para mera propaganda comercial é, no mínimo lamentável e contraproducente.

03 abril 2012

Os cemitérios de Carrazeda: João Lopes de Matos



Sei que voltar a este tema é já cansativo e de todo inútil:- os dados estão lançados e nada de novo pode acontecer- as obras de ampliação do velho  cemitério decorrem em bom ritmo e o novo cemitério está destinado a ruir pouco a pouco, por efeito da passagem do tempo e da ação destruidora do homem.
Porquê, então, voltar ao caminho percorrido?
É que eu, só da minha última estada em Carrazeda, tomei contacto com as obras em curso no antigo cemitério e pela primeira vez fui ver o novo, percorrendo o caminho mais direto para lá chegar.
Confesso que fiquei pasmado quer com o tamanho da ampliação do velho quer com o tamanhão do novo.
Haviam-me dito que o caminho até ao novo era longo (disseram-me que ele ficava mesmo muito perto de Luzelos) e verifiquei que fica logo ali ao terminar dum bairro novo.
O novo cemitério é enorme, dividido em quatro partes, com passeios largos empedrados a separar as várias partes, com uma capela e casas de banho no seu interior: é um cemitério que podia bem substituir todos os cemitérios do concelho .Quem o projetou, deve ter partido da ideia segura de que Carrazeda iria aumentar imenso a sua população (muito provavelmente, sabe que a vila tem riquezas, secretas para a maioria, que irão provocar uma explosão demográfica insuspeitada). Sobre a água que o rodeia e o torna inabitável para os mortos ,nada posso dizer pois quando fui lá não havia o  mais ligeiro indício de tal poder acontecer (havendo muita água, disseram-me que era fácil resolver o problema com muros mais fortes e a abertura duma grande vala na retaguarda – não sei).
Quanto à ampliação do velho, também me parece enorme, ficando , depois, o cemitério, inquestionavelmente, a constituir o maior monumento da vila, uma verdadeira necrópole (cidade dos mortos) bem no centro  do aglomerado urbano, tornando-se no verdadeiro ex-libris da sede do concelho.
Talvez tudo isto pudesse ter corrido doutra maneira. Ainda assim, em Carrazeda, não é por falta de cemitérios que os mortos ficam por sepultar.

João Lopes de Matos

01 abril 2012

A montanha há de parir um rato

Campeões da taça


Passeio Cultural para "reviver Ansiães"



Mais uma iniciativa do blogue “Pensar Ansiães” que contou com a participação de mais de duas dezenas de participantes para reviver Ansiães, e particularmente desfrutar da sua memória nos saberes e património edificado.
A atividade iniciou-se na Lavandeira, onde o Padre Bernardo começou a desvendar mistérios: o primeiro e a mais surpreendente é de que Santa Eufémia, que nos habituámos a venerar, não corresponde à dos leões da Antiga Roma, mas nasceria uns duzentos anos depois no norte de Espanha. A Santa Eufémia, duma ninhada de nove, é irmã de santa Marinha, exato, essa mesma, venerada em Ribalonga.
 A aventura leva-nos ao alto do castelo de Ansiães, com visita demorada à capela de São Salvador, intramuros e à de São João, extramuros, “do século IX”, padre Bernardo dixit, “sem dúvida” de inspiração ariana, passando depois por Selores, com visita às capelas de Nossa Senhora do Prado, S. Brás, Santo António e à do Espírito Santo, numa passagem pela Igreja da Selores, “a de construção mais antiga do concelho”, com vestígios de edificação maçónica. 
 Visitadas algumas joias da construção religiosa em Lavandeira, Selores e Alganhafres, retemperámos forças no parque de Lazer da Piscina Municipal, onde assistimos ao lançamento mundial de um néctar das videiras de Pombal e Selores. Com pesar informam-se os estimados leitores que a comercialização para a presente época está esgotada.
A tarde, para desvendar outros mistérios, foi destinada ao Vilarinho da Castanheira, onde ao calcorrear uma rua, que tem nome da irmã da D. Teresa, nos encontrámos com o vinho generoso e o folar, que a amizade, a simpatia e a providencial hospitalidade nos presentearam.
 Seguiu-se a visita aos moinhos, consumado com o pôr-do-sol da anta, num abraço coletivo em comunhão com a natureza. 

Barragem do Tua: perto da normalidade

"As obras de construção da barragem do Tua só deverão regressar à normalidade em finais de Abril, princípios de Maio. Para já está a ser criado um novo acesso à frente da empreitada que está parada desde 23 de Janeiro, na sequência de uma derrocada de pedras que matou três operários.A informação foi esta sexta-feira, em Carrazeda de Ansiães, pelo director do projecto da barragem. António Freitas da Costa, à margem do lançamento do programa de apoio ao empreendedorismo no vale do Tua."

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Carrazeda de Ansiães: A EDP quer dar prémios

"Prémio Empreendedor Sustentável promovido pela EDP alargado à área da barragem de Foz Tua. 

A EDP vai alargar aos cinco municípios abrangidos pelo empreendimento hidrelétrico de Foz Tua o Prémio Empreendedor Sustentável, distinção que já ajudou a desenvolver 40 novos projetos empresariais na zona do Baixo Sabor e num total de quatro concelhos. 

 Este programa de apoio à iniciativa empresarial e criação de emprego nos territórios em torno das barragens foi apresentado sexta-feira, em Carrazeda de Ansiães e abrangerá, para além deste concelho, os municípios de Mirandela, Vila Flor, Murça e Alijó, utilizando os métodos fomentados na região do Sabor."

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