01 maio 2012

Marcelo defende construção do túnel do Marão!?

Marcelo Rebelo de Sousa diz que "é um daqueles casos de justiça gritante" a conclusão da auto-estrada transmontana e do túnel do Marão. O comentador político, que esteve em vila real na semana passada, disse que apesar da falta de dinheiro, o governo tem de concluir esta via.
Daqui


Pena que o não diga nas suas conversas da TVI, onde estas palavras teriam mais força. Dito apenas ali soa a "dizer para parecer bem".

Ipsis verbis: professor Marcelo contra a barragem

"É uma questão de preservar a natureza e o que é que isso significa em termos de perda energética”
Marcelo Rebelo de Sousa na defesa da paragem da construção da barragem do Tua, a 27 de Abril na UTAD.

29 abril 2012

Orações, rezas e crendices


A nossa infância esteve povoada de seres mágicos, encarnado nas bruxas, feiticeiras e mouras encantadas. A bruxa tem mau aspeto, traja farrapos escuros, é velha, decrépita, mal-encarada. A feiticeira é mais nova, de cabelos compridos, ar agradável, porte sedutor. Em comum, uma e outra detêm poder para fazer mal a pessoas e animais. A moura encantada transporta uma outra mitologia, associada à lenda, sempre catarse, ligada à transformação social. A crença popular diz que, quando os mouros, pela força das armas cristãs, se viram obrigados a largar as nossas terras, deixaram lindas mouras encantadas em guarda a seus tesouros, aí continuam à espera de ser descobertos, porque ainda ninguém o conseguiu. Delas falaremos adiante.
Os mais velhos ensinavam que as bruxas e as feiticeiras se reuniam nos montes e nos ermos da Cabeçoita, da Fonte Mateus, do Castelo, da Forca particularmente nas noites escuras como o bréu. Vinham ao povoado de tempos a tempos, enfeitiçar as "boas almas", diabolizar os menos precavidos. Por vezes, as pessoas adoeciam  - as crianças eram, quase sempre, o elo mais fraco e definhavam a olhos vistos, em questão de dias e horas, por causa de um "ar", de um mau-olhado, de uma encruzilhada, de passar à porta do cemitério; os adultos ficavam cismados, calados e depressa também adoeciam gravemente sem razão aparente. Muitas vezes, ou por descuido ou artimanha, faziam-se anunciar com ruídos estranhos: dever-se-iam esconjurar, sempre, e jamais olhar para trás, ou seguir, com pena de uma catástrofe quase certa. Sem remédio para todos os males que transportavam, a solução era a oração e a reza.
As feiticeiras e as bruxas também adquiriam uma existência quase real. Sempre que alguém chegava a uma idade demasiada avançada, depressa se transfigurava. Porventura, era mais fácil explicar a longevidade das pessoas e desculpar o incómodo que representava para as famílias. Em segredo cochichava-se da passagem da “pobre alma” a este estado, quase mágico. Estranha fatalidade, a da mulher idosa! Sim, porque os homens quase nunca atingiam tais idades. Contava-se, que, nessa categoria de feiticeira ou bruxa, jamais morreria e a única solução era colocar-lhe um jugo dos bois sobre os ombros, em cima do pescoço. Esta receita não era segredo para ninguém, o que nunca me contaram, foi se a prescrição foi posta em prática. Conferi em Torga, anos depois, ao ler o conto da montanha, por ele chamado, “Alma Grande”, porventura, a razão verdadeira desse remédio: o jugo poderia ser a habilidade de um qualquer abafador com “a tenaz das suas mãos e o peso do seu joelho” a passarem “guia à moribunda” (Torga, 2002: 336). Seria, pois, o jugo uma qualquer almofada ou travesseiro que antes amparara a cabeça cansada da pobre "feiticeira velha"? Nunca ninguém há de responder a esta pergunta, pois o tempo das bruxas e feiticeiras já terminou e os velhos, agora, morrem, quase sempre tristes e sós, no isolamento das suas casas, na brancura assética e frígida dos hospitais, no desolamento dos lares de terceira idade.
O religioso e o profano misturavam-se em crenças e saberes. Pontuavam o ritmo da vida numa cadência em que tudo se influenciava -  a saúde e a doença, o trabalho e o lazer, a condição social e o porvir estavam condicionados a um conjunto de práticas a que nenhum mortal conseguia escapar. Tal qual marionetas, ligadas por cordéis a um grande prestigiador, os mortais de pouca margem de manobra dispunham. Esse fado pesava como chumbo na vida diária e determinava tudo. Era o destino, e fintá-lo só estava reservado a muito poucos. A condição de pobre e a quase impossibilidade de ascender na vida socialmente, tinha uma explicação, o destino. O Destino era a sucessão inevitável de acontecimentos relacionada a uma possível ordem cósmica, natural, da qual nada que existe pode escapar. Qual moira grega a fabricar, tecer e cortar a vida das pessoas, havia que aceitar pacientemente a catástrofe natural, a doença, a miséria, a fome.
A religiosidade também presente nas crenças populares, misturava-se com um conjunto de seres e acontecimentos que influenciam a sua vida. As pragas e as coisas-ruins, as almas do outro mundo e as bruxarias, os fantasmas e as abantesmas, o mau-olhado e as encruzilhadas, povoavam o imaginário. O uso de palavras e fórmulas mágicas para o esconjuro e o exorcismo da maldição é pertença de apenas alguns eleitos. Na aldeia, apenas um ou outro homem e mulher eram depositário desse poder extraordinário de afastar os males, pois conheciam os segredos das rezas, das mezinhas e dos gestos mágicos, como esta oração para o mau-olhado:
Deus te fez,
Deus te criou.
Deus te tire o mal,
Que em teu corpo entrou.
Se o tens na cabeça,
Que to tire Santa Teresa.
Se o tens no coração,
Que to tire S. João.
Se o tens no corpo todo,
Eu te entrego a Deus
Todo-Poderoso.
         Ao longo dos anos, foram desenvolvendo  diversas rezas e curas para resolverem os problemas de saúde mais frequentes. As boas almas necessitavam dos unguentos, dos chás e das drogas, mas também das rezas e dos gestos mágicos, como do pão para a boca, e apenas as mãos experientes os sabiam executar e lábios sábios as sabiam pronunciar. O azeite, o vinagre, o sal, o mel, as infusões constituíam-se como ingredientes mágicos que serviam a muitas doenças e dores, acrescentados das rezas que também aliviavam as dores da ciática, das costas, da barriga…
         A crença mais comum era a existência de uma inflamação, provocada pelos sapos, salamandras, cobras, aranhas e outros bichos, a que chamavam “coxo”. Para a curar diziam assim:
        Coxo, recoxo vai-te daqui
        Se és de cobra, vai cobrar
        Se és de aranha, vai para a terra
        Se és de sapo, vai para o buraco
       Se és de coelho, vai para a toca
       Se és de galinha vai para o choco
       Pela graça de Deus e da Virgem Maria,
       Um Pai-Nosso e uma Ave-Maria

       A senhora Pulchana retirava o seu lenço preto da cabeça, dobrava-o longitudinalmente, e com ar grave, sério, sacerdotal, dizia a cantilena, sem titubear ou se enganar, e media o farrapo negro, de palmos ,de forma sucessiva, até que, de forma mágica, os palmos acabavam por bater certo em todo o seu comprimento.  Era o momento do corte decisivo do coxo e, magia: num par de dias desaparecia por encanto.
 Não eram só as doenças do corpo que contavam, as do espírito eram tão ou mais importantes que as físicas. Também havia rezas para arrenegar invejas, medos e outros ódios. 
Muitas orações eram individuais, competia a cada um rezá-la, eram conhecidas de quase todos e serviam aos apertos das intempéries como esta Oração para a trovoada
           
Santa Bárbara bendita
Que no Céu está escrita
Com papel e água benta
Livrai-nos desta tormenta



(do sítio do costume, como já referido)

Granizo...

muito granizo... hoje, na Selores
que vai dar que contar...



Notoriedade e visibilidade

“Só pode ser um balanço positivo na medida em que atingimos o nosso objectivo que era dar mais notoriedade e mais visibilidade à região e aos nossos produtos de excelência...", 

presidente do NERBA, Eduardo Malhão a propósito da 1ª edição da Expo Trás-os-Montes, que decorreu no Parque de Exposições do Núcleo Empresarial de Bragança. 
Daqui

O que se viu de Carrazeda: 
- um painel de informação turística, "envergonhado" a um canto da Associação de Municípios da Terra Quente;
- dois ou três livros numa banca de edições municipais;
- Uma caixa de maçãs escondida debaixo de um mostruário de vinhos, onde depois de algum esforço descobrimos duas garrafas de produtores de Carrazeda.

Quem falou em dar "notoriedade e mais visibilidade à região e aos nossos produtos de excelência"?



28 abril 2012

Vemos, ouvimos e lemos...

...não podemos ignorar:

As grávidas de Bragança têm de se deslocar quase 200 quilómetros para fazer um dos mais importantes exames pré-natais, a ecografia morfológica, que permite detectar anomalias no feto, devido à falta de um profissional com a habilitação necessária. A solução passa pela Clipóvoa de Amarante.

daqui

26 abril 2012

Desligado o sinal analógico

A partir do meio-dia foram desligados os últimos 15 emissores analógicos, entre os quais estão os de Bragança, Bornes e Marão. Os quatro canais abertos (RTP1, RTP2, SIC e TVI) passam, a partir de hoje, a ser emitidos pela Televisão Digital Terrestre (TDT). Com este apagão, só quem tiver televisores com esta tecnologia ou um descodificador poderá continuar a ver televisão.

25 abril 2012

1.º de maio pode ser também...

o início da abertura do IC5 em toda a sua extensão.

Um amigo confidenciou-me o seguinte:
"Segundo a última informação que obtive diretamente da Delegação de Bragança das Estradas de Portugal, dia 26 e 27 de Abril serão feitas as vistorias ao IC5. Se tudo estiver OK, o IC5 deve abrir em toda a sua extensão no dia 1 de Maio."

Brevemente comemoramos o facto com uma incursão a Miranda para darmos um abraço a muitos nordestinos, tão distantes, que agora ficam nossos vizinhos. Não vamos deixar de provar a posta à mirandesa. Todos estão convidados. Daremos notícias

Poeiras do meu sótão… (Carlos Fiúza)


IV - Futebol

Quem, (quase) em qualquer dia da semana, ligar a televisão ou o aparelho de telefonia para (quase) qualquer estação, já sabe que lhe entram pela casa dentro palavras como estas, “mutatis mutandis”:
“Bola fora pela linha lateral”. “A bola vai cair junto da bandeirola de canto”. “O esférico passou a rasar a trave”, etc., etc., etc.
E a bola, a bola, a bola rebola, rebola e rebola!
No dia seguinte saem os jornais… á a bola a rebolar, a rebolar nas páginas da imprensa.
Os rapazes, nas escolas, nos liceus, nas universidades; os operários nas oficinas; os empregados nos escritórios, muita e muita gente só discute a bola.
Pois se assim é, eu, (reconhecendo o valor universal da bola, porque tudo afinal neste Mundo é bola, desde o próprio Globo terráqueo até ao cérebro que nos faz pensar), tenho obrigação de falar de bola também.
Venho, portanto, falar de futebol.
A bola é nos tempos atuais o ídolo das multidões. O pontapé ao chamado “esférico” assume proporções de arte.
Milhões de olhos, triliões de braços, sextiliões de gritos - tudo isso a bola impressiona e provoca.
GOLO! - é o grito da vitória nesta nova era da bola. Entrar nas redes é a aspiração “máxima universal”.
Em jornais, em emissoras, em televisões, em conversas, em cartazes, em livros, em revistas, em toda a parte - a bola domina.
Seja, pois, esta conversa a respeito do futebol.
E para começo convém dizer que o futebol não é de origem inglesa. A Inglaterra aperfeiçoou antigos jogos semelhantes. Parece que o futebol não é senão o aperfeiçoamento de jogo equivalente da idade média. E até se pode ir mais longe, porque 3.000 anos antes de Cristo já se jogava à bola no Celeste Império.
Consta que o imperador Ching-Ti era o que hoje se chamaria um “doente da bola”. Quando ele fazia anos, havia desafio e, si vera est fama, o capitão da formação vencida levava uma data de açoites na presença do “celeste imperador”.
Como quer que seja, o jogo da bola é hoje um jogo universal.
Pela parte que nos interessa, devo acentuar que o jogo da bola deu a Portugal uma excelente lição de linguística. Se houve coisa que importámos, essa foi sem dúvida o futebol, que a Inglaterra nos ofereceu aperfeiçoado. Ora, apesar de vindo do estrangeiro, o futebol está hoje quase todo aportuguesado. E a lição de linguística dada pelo jogo da bola a Portugal foi precisamente esta - a prática mais estrangeirada pode aportuguesar-se, havendo boa vontade.
Muito e muito se pode e deve traduzir e adaptar, como o futebol nos ensinou. E assim aqueles que apregoam a impossibilidade de nacionalizarmos o que vem de fora levam no futebol uma formidável lição, porque o futebol português está, na maior parte, nacionalizado na expressão.
Mas vejamos o caso:
O futebol é um desporto que põe em desafio onze jogadores de uma banda contra onze adversários da outra banda do terreno, em cujos extremos se colocam balizas, constituídas por três traves que, com a linha do chão, formam retângulo, com uma rede.
Na essência, o jogo visa a introdução da bola na baliza, introdução que é feita com o impulso da bola por meio dos pés ou da cabeça dos jogadores.
A luta travada pelos jogadores denomina-se em Inglaterra “match”, que é portanto - desafio, encontro, jogo, peleja, contenda, competição, pugna, luta, despique em português. Essa luta trava-se no campo, no terreno, no retângulo, palavras nossas que evitam perfeitamente o inglês “ground”, ou “field”.
O jogo disputa-se, como já se disse, entre dois grupos de onze jogadores, grupos a que se chama “teams” em inglês. Em nossa língua jamais se deveria escrever “team”, pois os termos “grupo”, “formação” e até “onze”, evitam um disparate de alguma gente, que lê “tiã”, em vez de “time”, pronúncia do inglês “team”.
Como se sabe, a nomenclatura desportiva, em particular a do futebol, é quase toda de origem inglesa. E digo quase toda porque me estou a lembrar de termos como “équipe” e mais um ou outro, que nos vieram lá da França.
Esta “équipe” está pegada em “equipa”, tanto no sentido de “grupo”, “turma”, “conjunto”, “onze”, como até no sentido de “camisola” ou “cores”. Já se formou o verbo “equipar”: os jogadores estão a “equipar-se”. E muito se fala no “espírito de equipa”.
Os ingleses chamam aos jogadores “players”. E eu lembro-me bem de que se chegou a empregar em Portugal o “player”, que alguns liam “plaière”, em vez de “plêia”. Hoje, só se diz jogador, e muito bem.
Durante muito tempo se discutiram os termos ingleses do futebol, e os nomes aplicáveis aos jogadores entraram na dança das hesitações. Felizmente, hoje o caso está resolvido.
O guarda das redes (em inglês “goalkeeper”, isto é, “the man who keeps the goal”) deixou de ser o “kipèr”, como por cá se dizia. Nos meus tempos de liceu, quando joguei à bola, era quase só “kipèr” que a gente dizia. Hoje o guarda-redes é forma dominante, palavra expressiva a que correspondem outras nacionalizações fora de Portugal. Por exemplo, no Brasil o guarda-redes é o “arqueiro”. Na Espanha ainda se diz “guardião”…
À frente do guarda-redes estão (nem sempre) dois jogadores defensivos chamados em inglês “full-backs”; “right back” e “left back”, que traduzimos por defesas, defesa direito e defesa esquerdo, usando-se direito e esquerdo no masculino, por se tomar defesa nesse género - o defesa, um defesa.
No meu liceu dizíamos o “beque”. Vingou o defesa, e muito bem. No Brasil o defesa é o “zagueiro”, nome bem engraçado.
.A seguir aos defesas estão os médios: médio centro, médio direito e médio esquerdo, respetivamente traduções do inglês – “centre half, rigt half and left half”.
Recordo-me que se dizia erradamente os “halfes”, quando em inglês o plural é “the halves”. Médios evita o erro de gramática inglesa.`
Á frente vão os avançados, ou the “forwards” em Inglaterra. Como esta palavra “forward” é de fonética e escrita tipicamente inglesa, cá em Portugal nunca se lhe pegou e sempre os avançados foram o termo nacional. No Brasil, em vez de avançados, adotaram-se dois termos pitorescos - os “dianteiros” ou os “ponteiros”.
Além dos jogadores, anda no campo o árbitro, que em inglês é the “referee”. No meu tempo dizia-se o “refe”, com supressão da sílaba tónica inglesa, por não se saber que a do fim é que se acentua.
A designação de “juiz de campo” é demasiado pretensiosa e raramente empregada. Juízes de linha são forçada tradução para os “liners”, os homens da bandeirola sinalizadora de bolas para fora e para dentro do campo, os quais melhor se chamam os fiscais de linha.
O campo é demarcado. Os quatro ângulos do retângulo, “the corners”, estão bem traduzidos por cantos. Pena é que às vezes se empregue o termo inglês “corner” (marcar um “còrnér”), em vez de marcar um canto, que deve ser a forma exclusiva.
O objetivo do jogo da bola é introduzir o esférico na baliza
Tal como aconteceu na Inglaterra a palavra “goal”, que propriamente é baliza (“two goal-posts and a crossbar”, as traves), passou a significar o próprio tento conseguido com a penetração da bola na baliza.
Ora, esta palavra “goal” tem sido muito discutida, e não admira, porque “the goal” é a razão de ser do futebol.
GOAL! - princípio e fim do jogo, a sua única razão de ser. As multidões de quase todo o Mundo vibram de entusiasmo, deliram ou sofrem e até se desesperam quando a bola entra na baliza, no goal.
Ora, o entusiasmo é tal com a palavra golo (na aceção de ponto ou tento), que já me parece inútil protestar contra este termo tornado naturalíssimo na boca dos Portugueses.
Pois, já que o grito sai espontâneo, deixe-se entrar o “golo” nas redes dos dicionários portugueses.
Diante da baliza, temos o que em inglês se chama “the penalty area”, a área da penalidade. Nesta área se marcam os castigos máximos, como indica a palavra inglesa “penalty”, que corresponde à nossa penalidade.
No meu tempo da bola, apreciava-se deveras o chamado “dribbling”, a finta, à brasileira. Hoje, a técnica futebolística recomenda mais o jogo científico de desmarcações, com passagens de bola calculadas.
Por aqui se vê, que tudo (mais tarde ou mais cedo) se traduz.
Todavia, o nosso povo, se bem que diga já naturalmente futebol, o certo é que mais naturalmente ainda o que diz é - vou à bola, estive na bola, hoje há bola, a que horas dá a bola.
Chama-se já por aí ao futebol o desporto-rei. E temos de reconhecer, ainda que seja de má vontade, esta realeza de facto, que eu não pretendo discutir se o é de direito.
O jogo do pau, as touradas, o eixo, a barra, as uvas, a bilharda, o macaco, jogos da rapaziada - tudo isso vai esquecendo ante a doença coletiva dos nossos tempos - a doença da bola!
Apodam-se de “doentes da bola” os seus adeptos fanatizados. Mas não podemos censura-los em demasia, porque não há ninguém que não seja fanático por qualquer coisa.
Aliás, a luta pela bola dura há milénios: começou quando o homem primitivo disputava à pedrada o pão de cada dia.
A própria vida é um desafio de futebol.
Todos nós fazemos de guarda-redes, quando nos defendemos dos nossos inimigos. Todos fazemos de avançados, quando metemos o golo dos nossos interesses.
Mas atenção ao apito!
O apito é a voz da nossa consciência!

Carlos Fiúza

23 abril 2012

Perdemos ou ganhámos com os 800 metros de estrada?

Os cerca de 800 metros da antiga e desclassificada Estrada Nacional 324, que ficaram sem alcatrão novo porque a sua jurisdição era declinada pelos Municípios de Carrazeda de Ansiães e Vila Flor, pertencem, afinal, ao concelho vila-florense.

Veja aqui como Vila Flor ficou com 800 metros de estrada... 
Afinal quem sabia tudo era o ministro Álvaro Pereira.

Bom dia, Olivença!: Daniel Conde

Bom dia, Olivença!

Vem aí mais um 25 de Abril, com todo o seu simbolismo de Liberdade para Portugal e os portugueses. No entanto, é uma data que continua a esquecer que existe um município português onde a Liberdade ainda não chegou: Olivença.

 Soube há dias numa rede social que o autarca de Olivença quer levar a cabo uma recriação da Guerra das Laranjas, num gesto de refinado barbarismo diplomático, já condenado por autarquias vizinhas. A “Questão de Olivença” – tão desconhecida por se ter tornado diplomaticamente num tabu – nasceu aquando da invasão espanhola latrocina à vila alentejana em 1801, quando nada justificava a agressão, ficando a invasão conhecida como a Guerra das Laranjas. Esta vila, pedaço da pátria desde 1230 e como tal novamente confirmada pelo Tratado de Alcanices de 1297 – tratado onde Portugal ganhou alguns territórios, mas também cedeu outros ao então Reino de Castela e Leão – foi assim entregue a Espanha, e firmou-se o Tratado de Paz de Badajoz, no primeiro artigo do qual se estabelecia que haveria “paz, amizade e boa correspondência” entre os dois Estados Ibéricos.

Seis anos depois, em aliança com a França Napoleónica, a “paz, amizade e boa correspondência” foi mandada para as urtigas com o Tratado secreto de Fontainebleau, no qual o “Príncipe da Paz” Godoy – o mesmo que houvera promovido a Guerra das Laranjas – concertou com o próprio Napoleão Bonaparte a passagem das tropas francesas por Espanha para a invasão de Portugal, e a total divisão do território português continental e ultramarino por Espanha e pela França, após uma vitória que demasiado cedo tiveram por certa. Em suma, este acto anulava inequivocamente as disposições do Tratado de Paz de Badajoz, fazendo com que Olivença devesse ser reanexada a Portugal.

Não obstante, derrotada a França Napoleónica e a Espanha sua aliada, a Europa inteira, reunida pelo Tratado de Viena de 1815, estipulou que os territórios de Olivença deveriam ser devolvidos a Portugal, resolução reconhecida tacitamente por Espanha em 1817. Desde então Portugal nunca mais reconheceu direitos ao país vizinho sobre Olivença, e disso fazem eco decisões como as de classificar a Ponte da Ajuda como monumento de interesse nacional em 1967, e a recusa sobre a construção de uma nova ponte ao lado desta como projecto transfronteiriço, sendo esta construída e financiada inteiramente por Portugal no ano 2000, e sobretudo pelo facto de nunca se terem colocado os marcos fronteiriços correspondentes ao concelho de Olivença até hoje.

Numa busca pela Internet, a pesquisa por “Rua de Olivença” devolve 234 mil resultados, demonstrando ser uma artéria comum a várias localidades portuguesas. E no entanto, a integração clara e inegável de Olivença enquanto território português continua a ser ignorada em todos os mapas e encapotada em todos os discursos diplomáticos apesar das evidências da sua portugalidade, como a língua portuguesa que ainda lá se fala com o inegável sotaque alentejano, ou a calçada e a doçaria tipicamente portuguesas que não encontram eco em redor na Extremadura espanhola.

Faz-me confusão que esta usurpação prossiga, e pior, que se faça troça de quem a queira ver discutida com toda a dignidade que o tema impõe, justificando que Olivença foi “perdida” há tanto tempo – e tem havido tantas coisas mais prementes a tratar nos últimos 195 anos, certo? – que é ridículo debater a “Questão”. Não consigo ver como poderá ser assim tão complicado estabelecer um regime transitório excepcional, que garanta aos oliventinos que a sua passagem à cidadania portuguesa de pleno direito seja um processo tranquilo e honroso. Como? Ajustando o seu regime tributário e contributivo (impostos e outras contribuições) gradualmente, e garantindo que os seus actuais direitos sociais – no que diz respeito por exemplo a reformas e pensões – sejam mantidos; introduzindo o sistema educativo de forma gratuita para o Ensino Básico durante o período de transição; elevar o passado e a tradição portuguesa de Olivença nas suas diversas manifestações, convidando todos os demais portugueses a redescobrir este concelho tão especial, entre tantos outros gestos de estreitamento de laços que, ademais, até já estão no terreno.

 Esta afronta promovida pelo autarca de Olivença deveria ser o toque a rebate definitivo, tanto para os povos de Portugal e Espanha, como sobretudo para os seus diplomatas. Olivença é de jure portuguesa, por muita tinta que se gaste a tentar dizer o contrário. É urgente discutir com franqueza e com coragem a “Questão”, e exigir a Espanha o que esta ratificou em 1817 perante a Lei Internacional: a restituição à pátria portuguesa do concelho de Olivença.

Quando se colocarem milhares de bandeiras nacionais nas janelas das casas portuguesas no próximo Campeonato Europeu de Futebol, que todos se lembrem que um pedaço dessa bandeira continua rasgado desde 1801.

Daniel Conde

Vila Real, 22 de Abril de 2012

22 abril 2012

Alberto Carneiro em Bragança e tão perto de Carrazeda de Ansiães

A obra de Alberto Carneiro pode ser vista no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, em Bragança,  até ao dia 24 de Junho; Alberto Carneiro é um dos mais destacados artistas nacionais da actualidade.
Nas várias salas que compõem o espaço de exposições temporárias estão reunidas dezenas de peças de escultura, fotografia e desenho que o artista define como “a minha carne e a minha alma”, numa “obra de criação poética” que também é autobiográfica. “Tem a ver com a minha própria experiência de vida”.
 O artista está extremamente ligado a Carrazeda, onde está representado com uma escultura denominada  "Os Sete Livros da Vida", junto da Biblioteca Municipal. Foi o inspirador e coordenador do Museu Internacional de Escultura Comtemporânea ao Ar Livre que permitiu a implantação, em vários espaços da vila, de dez obras de escultores de renome internacional.
 Um dos impulsionadores do seu trabalho em Carrazeda de Ansiães foi o ilustre médico ortopedista, Dr. José de Morais Neves, natural de Belver, deste concelho e director do Serviço de Ortopedia do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia que tem desenvolvido esforços para que o seu espólio pessoal venha para Carrazeda. O concelho ficaria mais rico e com mais potencialidades de atrair visitantes e muitos admiradores do insigne artista.
 Alberto Carneiro inaugurou a sua 87.ª exposição em Bragança, "a melhor de sempre", segundo o autor, e contou com muitos ilustres, admiradores, amantes de arte e curiosos. Adivinhem quem não esteve presente, apesar do interesse em mostrar ao artista vontade em trazer a sua obra para Carrazeda. Isso!... nem o mais simples representante carrazedense! 
A ausência só pode dever-se ao mau estado da estrada, fruto das obras da A4...

Se não, dará Deus nozes...

IC5 só em Maio

"Está prevista para a segunda quinzena do mês de Maio, a abertura ao tráfego de toda a extensão do IC5, extensão esta de 131 quilómetros entre Miranda do Douro(Duas Igrejas) e Murça..."

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Quem pediu uma viagem ao estádio da Luz?

"Cerca de duas dezenas de crianças finalistas de um infantário de Mirandela, tiveram como prenda uma visita ao estádio da Luz, em Lisboa, acompanhadas pelos pais. Os custos vão ser suportados por Eduardo Carvalho, o guarda-redes natural de Mirandela que representa actualmente o Benfica e constantemente chamado à selecção nacional."

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21 abril 2012

Dava-lhe jeito uma horta?

Mirandela a faturar à custa da barragem!?

"A EDP, a Escola Profissional de Agricultura e Desenvolvimento Rural de Carvalhais e Mirandela (EPA) e a Câmara de Mirandela entregaram esta semana um total de 30 frações de terreno destinados ao cultivo."

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Ipsis verbis: todos para a agricultura

“Não é por acaso que nós temos vinhos, azeites, castanhas e carne fantásticos e em quantidade … Há uma quantidade produtos que estão a ser tratados de uma forma moderna e actual. E é só dessa maneira que nós iremos conseguir ultrapassar, de facto, os problemas que tantas vezes que tantas vezes nos reduzem a uma situação de miserabilismo qual a qual eu não compactuo nem estou de acordo. A visão que eu tenho de Trás-os-Montes é uma visão positiva, de futuro de quem está aqui para ter uma actividade económica pujante e que permita que tal como eu vim para cá um dia, também possam ficar cá os meus filhos e os meus netos”

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Manuel Cardoso, Diretor Regional de Agricultura



19 abril 2012

Bicos, carne de porco e outros peguilhos


...
De tempos a tempos, matava-se uma galinha. Tudo um ritual. A sua sentença de morte era devida às razões mais diversas: a idade, o tamanho, a maldade, a  ausência da postura de ovos, o livre arbítrio de uma escolha fútil. Era filada, à má-fé, dentro da capoeira, à saída ou numa distração momentânea. Bem presa debaixo de um braço, depenava-se-lhe a crista para o golpe fatal, que a faca afiada e sem dó cortava na horizontal de um só golpe. Aparava-se o sangue numa malga. A galinha ou o frango dava para várias refeições, consoante a largura da família. Do “de dentro”, coração, moela e fígado, a que se juntavam as asas, as pernas e as coxas fazia-se uma arroz divinal condimentado com o sangue, o azeite, o vinagre e a salsa da horta. O restante era quase sempre guisado na panela de ferro, numa mistura de azeite, cebola, alho, salsa e louro; fazia um molho delicioso e aconchegava as batatas cozidas, que sabiam tão bem ou melhor que a carne, distribuída entre todos, de forma parcimoniosa.
O peru reservava-se para uma época especial, o Natal e a Páscoa, quase sempre assado no forno comunitário a que se juntavam as “batatinhas” assadas.
Uma, duas, três vezes por ano comprava-se um pouco de ovelha, de cabra, de borrego ou cabrito, ali morto na loja pelo “matador” da aldeia, que o comprava ao pastor e o distribuía na razão das posses e da vontade dos compradores. Quase sempre era guisado ao lume e comido com as batatas cozidas.
De resto, a carne de porco era o principal “peguilho” das nossas gentes. Em todas as casas se matava o "requinho", cujo tamanho era diretamente proporcional às posses de cada um. A festa social da matança era condimentada pelo sangue cozido e os rojões do soventre- Seguia-se o dia das alheiras, também ele episódio sociável de partilha de afeições e sabores: comiam-se os voluptuosos ossos da suã acompanhados das celestes “migas” polvilhadas de canela e regadas com a calda que os ajudou a cozerem. A elaboração dos grandiosos salpicões e das graciosas chouriças de carne era uma tarefa mais privada. No entanto sempre se permutavam uns “chichos”, a deleitosa carne de a vinha-d´alhos, pelos vizinhos e amigos chegados. Em largos dias se assistia a esse ritual tão natural, a descida da vara do fumeiro de um ou outro agradável enchido para as brasas ou a panela para acompanhar as batatas da horta ou o pão do forno. O resto repousava na salgadeira. Dela se iam retirar os presuntos para serem apimentados, fumados e curados. Cortado a golpes de canivete, misturava-se com um bom pedaço de trigo ou centeio num apetite grandioso a que não podia faltar uma boa “pinga”. Sobravam os pés e as orelhas que ajudavam a fazer cozidos e feijoadas de “comer e chorar por mais”. Todos sabem do que falo?
Esgotadas as salgadeiras, só a Páscoa trazia um pouco de cabrito e as ceifas e malhadas um pedaço de ovelha e cabra, intervalada com um ou outro bico caseiro, até à grande festa da carne do porco, que era a marrã da festa da Santa Eufémia. 
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(do livro "Selores... e uma casa" a sair brevemente)