Parabéns aos benfiquistas do concelho da Casa do Benfica de Carrazeda e
desta pequena aldeia chamada Brunheda. Aqui se realizou a 1ª mostra do
folar e como curiosiade, a preparação com os motivos de Páscoa, os ovos,
os ninhos e os passarinhos. Trabalho delicado, feito por sábias mãos. O
Benfica teve a sua 4ª taça consecutiva- é obra- e ainda é o melhor de
Portugal, vamos ver o campeonato ou como diria o outro, não há bela sem
senão...Não é todos os dias que se encontram imagens que falam por si. Comentários para quê?. Brunheda em Abril de 2012
16 abril 2012
15 abril 2012
Nas bocas do mundo: Prémio à nossa miséria
O Prémio de Fotojornalismo Estação Imagem/Mora "foi
atribuído ao trabalho "Iraquianos" de António Pedrosa, sobre o bairro
onde vive uma comunidade de cerca de 120 pessoas de etnia cigana, que,
até aos anos 90, andava "de aldeia em aldeia, a fazer pequenos arranjos,
cestos ou utensílios para cavalos".
A comunidade foi "expulsa do acampamento no centro da vila" e deslocada "para o topo de um monte onde, nos anos 40, laborava uma mina de volfrâmio alemã, atualmente lixeira de materiais de obras", pode ler-se na ficha explicativa da reportagem..."
Daqui
A comunidade foi "expulsa do acampamento no centro da vila" e deslocada "para o topo de um monte onde, nos anos 40, laborava uma mina de volfrâmio alemã, atualmente lixeira de materiais de obras", pode ler-se na ficha explicativa da reportagem..."
Daqui
Poeiras do meu sótão… (Carlos Fiúza)
III - Os
“macaquinhos”!
Sempre que estou a ler um livro, vou anotando as
reflexões que uma frase ou um período me suscitam.
Este hábito foi "herdado" de meu Pai, que
sempre me dizia: "Rapaz, tem sempre contigo lápis e papel para anotares
tudo o que te mereça reparo. Verás que essas anotações ainda te vão ser
úteis".
Vem isto a propósito de um livro que retirei da estante, um ensaio de semântica sobre a língua francesa, de que é autor Thomassom e que se intitula "Naissance et Vicissitudes de 300 Mots et Locutions".
Abri o livro... e elas (as anotações) lá estavam, arrumadinhas, em letra bem miudinha (e a lápis!), marginando meditações referentes à língua
Vem isto a propósito de um livro que retirei da estante, um ensaio de semântica sobre a língua francesa, de que é autor Thomassom e que se intitula "Naissance et Vicissitudes de 300 Mots et Locutions".
Abri o livro... e elas (as anotações) lá estavam, arrumadinhas, em letra bem miudinha (e a lápis!), marginando meditações referentes à língua
portuguesa.
Quero dizer, reflexões sobre factos da língua francesa
descritos por Thomasson e relacionados com tantos outros correntes na nossa
língua.
No livro, como o próprio título indica, o autor procura seguir o caminho semântico de 300 palavras e locuções da língua francesa.
Limito-me aos apontamentos que suponho mais interessantes, tirados das observações comparativas que (então) realizei.
Thomasson apresenta sete nomes de animais que entram em locuções populares francesas, de sentido figurado, e com as quais se indicam doenças ou falhas cerebrais.
"Avoir une araignée dans le plafond", ter uma aranha no teto (à letra), diz o autor que significa, em francês, ter o cérebro sujeito a caprichos extravagantes (le cerveau sujet à des lubies).
Pois, então, lembrarei que a aranha serve para indicar quase o mesmo em português.
Não dizemos que "fulano tem muitas teias de aranha" quando se prende com devaneios, falsas ideias, com fantasias desastrosas, ou até argumentos facilmente combatíveis pela vassoura da reflexão?
Entre a expressão que o autor francês cita, avoir une araignée dans le plafond, e a nossa das teias de aranha, não deixo de elogiar a intensidade expressiva da locução portuguesa, porque a palavra teia dá boa ideia do embaraço cerebral.
A teia é tão facilmente rasgável como o é qualquer teia de ideias ilusórias ou argumentos absurdos.
Regista o autor do ensaio de semântica francesa a expressão avoir des rats dans la tête, isto é, ter ratos na cabeça.
A nós, portugueses, ocorre-nos imediatamente a engraçadíssima expressão ter macaquinhos no sótão.
No livro, como o próprio título indica, o autor procura seguir o caminho semântico de 300 palavras e locuções da língua francesa.
Limito-me aos apontamentos que suponho mais interessantes, tirados das observações comparativas que (então) realizei.
Thomasson apresenta sete nomes de animais que entram em locuções populares francesas, de sentido figurado, e com as quais se indicam doenças ou falhas cerebrais.
"Avoir une araignée dans le plafond", ter uma aranha no teto (à letra), diz o autor que significa, em francês, ter o cérebro sujeito a caprichos extravagantes (le cerveau sujet à des lubies).
Pois, então, lembrarei que a aranha serve para indicar quase o mesmo em português.
Não dizemos que "fulano tem muitas teias de aranha" quando se prende com devaneios, falsas ideias, com fantasias desastrosas, ou até argumentos facilmente combatíveis pela vassoura da reflexão?
Entre a expressão que o autor francês cita, avoir une araignée dans le plafond, e a nossa das teias de aranha, não deixo de elogiar a intensidade expressiva da locução portuguesa, porque a palavra teia dá boa ideia do embaraço cerebral.
A teia é tão facilmente rasgável como o é qualquer teia de ideias ilusórias ou argumentos absurdos.
Regista o autor do ensaio de semântica francesa a expressão avoir des rats dans la tête, isto é, ter ratos na cabeça.
A nós, portugueses, ocorre-nos imediatamente a engraçadíssima expressão ter macaquinhos no sótão.
E esta nossa locução está bem pensada, não só em
virtude de se figurar a parte superior da cabeça como um sótão do nosso
edifício humano, mas, ainda por cima, em vista de lá se arquitetar a instalação
de uma aldeia de macaquinhos, causadores, pelos destrambelhos tão próprios da
sua natureza, dos desatinos de quem os alberga.
Outro assunto relacionável com problema da nossa língua é a pequena nota a respeito de chèvre.
Ao lê-la, renovei esta interrogação a mim mesmo:
- Porque será que se diz em português - prender o burro ou estar com o burro preso, no sentido de se zangar?
- Será possível descobrir-se a razão de ser de tal locução?
Em português o burro entra, inexplicavelmente nestas frases - estar com o burro, estar com o burro preso e prender o burro.
Outro assunto relacionável com problema da nossa língua é a pequena nota a respeito de chèvre.
Ao lê-la, renovei esta interrogação a mim mesmo:
- Porque será que se diz em português - prender o burro ou estar com o burro preso, no sentido de se zangar?
- Será possível descobrir-se a razão de ser de tal locução?
Em português o burro entra, inexplicavelmente nestas frases - estar com o burro, estar com o burro preso e prender o burro.
Temos ainda a expressão "estar de burros com alguém", isto é, zangado com essa
pessoa.
A própria palavra amuam, sinónimo de tais expressões, também é misteriosa, embora pareça que se relaciona com mu ou mulo, animal difícil de domar.
O caso complica-se, quando se estabelece comparação com outras línguas.
Em francês diz-se se cabrer ou prendre la chèvre (prender a cabra), no mesmo sentido de zangar-se.
Uns semasiologistas aventam a hipótese de a locução provir de alguma velha farsa; outros relacionam-na com um antigo "jogo de cabra" (Cf. Thomasson).
Penso não ser de admirar esta divergência de os franceses dizerem "prender a cabra" e nós o "burro". Há divergências mais acentuadas.
Os italianos empregam a locução pigliari la monna, prender a macaca.
Portanto, o animal preso varia.
Já que os semasiologistas, os eruditos, não apresentam solução, aqui vai esta minha hipótese, relacionando-a com a deles:
A palavra burro (veja-se Aulete) pode querer dizer - mau humor.
Ora eu pensei no seguinte - simboliza-se nesses animais o mau humor.
E, assim como os animais (o burro em português, ou a cabra em francês ou a macaca em italiano) quando estão presos, estão mais zangados do que livres, “estar com o burro preso”, “prendre la chèvre”, “se cabrer” ou “pigliari la monna”, simbolizam a zanga.
Limito-me a dar uma hipotética explicação, e não me envergonho, porque os gramáticos confessam-se impotentes para explicar o mistério das correspondentes frases (cientificamente, leia-se).
Aponta o livro francês a expressão faire une chose à la barbe de quelqu'un, a significar que se faz uma coisa provocando insolentemente e de perto.
Nós, em português, também dizemos o mesmo. E muita vez acrescentamos - nas barbas da autoridade.
Penso que o coexistirem estas frases se explica muito facilmente por ser (?), ou por ter sido, a barba um símbolo de respeito.
No próprio francês existe uma locução - rire dans sa barbe, zombar nas próprias barbas.
Declarar, dizer o nome é o que em Português natural dizemos.
Pois, modernamente, anda muito na berra a expressão - declinar o nome, e até declinar a identidade.
Ouçamos o que diz Thomasson: "a locução decliner son nom foi usada primeiramente por gracejo, pois um nome de pessoa não se declina... Dizia-se de um homem de ignorância crassa que nem sequer sabia declinar o nome".
A própria palavra amuam, sinónimo de tais expressões, também é misteriosa, embora pareça que se relaciona com mu ou mulo, animal difícil de domar.
O caso complica-se, quando se estabelece comparação com outras línguas.
Em francês diz-se se cabrer ou prendre la chèvre (prender a cabra), no mesmo sentido de zangar-se.
Uns semasiologistas aventam a hipótese de a locução provir de alguma velha farsa; outros relacionam-na com um antigo "jogo de cabra" (Cf. Thomasson).
Penso não ser de admirar esta divergência de os franceses dizerem "prender a cabra" e nós o "burro". Há divergências mais acentuadas.
Os italianos empregam a locução pigliari la monna, prender a macaca.
Portanto, o animal preso varia.
Já que os semasiologistas, os eruditos, não apresentam solução, aqui vai esta minha hipótese, relacionando-a com a deles:
A palavra burro (veja-se Aulete) pode querer dizer - mau humor.
Ora eu pensei no seguinte - simboliza-se nesses animais o mau humor.
E, assim como os animais (o burro em português, ou a cabra em francês ou a macaca em italiano) quando estão presos, estão mais zangados do que livres, “estar com o burro preso”, “prendre la chèvre”, “se cabrer” ou “pigliari la monna”, simbolizam a zanga.
Limito-me a dar uma hipotética explicação, e não me envergonho, porque os gramáticos confessam-se impotentes para explicar o mistério das correspondentes frases (cientificamente, leia-se).
Aponta o livro francês a expressão faire une chose à la barbe de quelqu'un, a significar que se faz uma coisa provocando insolentemente e de perto.
Nós, em português, também dizemos o mesmo. E muita vez acrescentamos - nas barbas da autoridade.
Penso que o coexistirem estas frases se explica muito facilmente por ser (?), ou por ter sido, a barba um símbolo de respeito.
No próprio francês existe uma locução - rire dans sa barbe, zombar nas próprias barbas.
Declarar, dizer o nome é o que em Português natural dizemos.
Pois, modernamente, anda muito na berra a expressão - declinar o nome, e até declinar a identidade.
Ouçamos o que diz Thomasson: "a locução decliner son nom foi usada primeiramente por gracejo, pois um nome de pessoa não se declina... Dizia-se de um homem de ignorância crassa que nem sequer sabia declinar o nome".
Uma outra nota que se pode relacionar com a língua
portuguesa é a respeitante ao termo réclame.
Lembra o autor que réclame, substantivo masculino, foi termo de falcoaria, voz ou antes assobio, para chamar ou fazer achegar-se a ave; e também chamariz que atrai para armadilha.
Exatamente o mesmo sucedeu na nossa língua a reclamo de mercadoria, equivalente a chamariz.
Findo estas considerações sobre o interessante livro "Naissance et Vicissitudes de 300 Mots et Locutions" por Thomasson, relacionando ao português o que ele diz a respeito de jalousie.
Trata o autor de quatro aspetos semânticos de jalousie:
1º - no sentido de ciúme; 2.º - na aceção militar; 3.º - como termo de marinha; 4.º- na aplicação à “jalousie” das janelas.
Lembra o autor que réclame, substantivo masculino, foi termo de falcoaria, voz ou antes assobio, para chamar ou fazer achegar-se a ave; e também chamariz que atrai para armadilha.
Exatamente o mesmo sucedeu na nossa língua a reclamo de mercadoria, equivalente a chamariz.
Findo estas considerações sobre o interessante livro "Naissance et Vicissitudes de 300 Mots et Locutions" por Thomasson, relacionando ao português o que ele diz a respeito de jalousie.
Trata o autor de quatro aspetos semânticos de jalousie:
1º - no sentido de ciúme; 2.º - na aceção militar; 3.º - como termo de marinha; 4.º- na aplicação à “jalousie” das janelas.
É este último sentido que mais agora nos interessa:
"Como o ciúme incita a espiar
(escreve Thomasson), como incita a olhar
furtivamente, chegamos ao sentido... jalousie des fenêtres (gelosias,
portanto, na nossa língua)... "São grades de
madeira ou de ferro, através das quais se pode ver sem ser visto, ou
guarda-ventos formados por tabuinhas delgadas cuja inclinação se corrige por
meio de um cordão".
E assim,
- Findas as citações...
- Corro as gelosias,
… E acabam
as anotações.
Carlos Fiúza
07 abril 2012
Anglicização sintática ou… vandalização? (Carlos Fiúza)
Lembram-se do folheto de propaganda do “Barateiro” da minha
terra? O tal que vendia sapatos para senhora com “tiras às pernas”?
Pois bem: afinal o pobre homem não está sozinho! Afinal a sua
“expressão” semântica até não é tal mal “construída” assim.
Para começar, apresento estas realidades da nossa expressão,
referidas intencionalmente ao caso do lembrar:
Estação de caminho de ferro. Casa ou Salão de chá. Pau de
bandeira. Cabeça de casal. Cabo de vassoura. Dia de Natal.
Suponhamos que amanhã alguém se lembrava de começar a dizer:
“Caminho de ferro estação”. “Chá casa ou salão de chá”. “Bandeira
de pau”. “Casal de cabeça”. “Vassoura de cabo”. “Natal de dia”.
E assim por aí adiante…
Esse alguém, enquanto a loucura se não tornasse doença
epidémica (em caso de obstinada repetição de tal sintaxe) ingressaria sozinho
num dos hospitais de alienados, talvez para o “pavilhão dos recuperáveis”…
É que, se em inglês, o substantivo determinante, de acordo
com a índole dessa língua, se coloca antes do determinado, em casos como os que
traduzem os exemplos dados, em português a sintaxe normal exige a determinação posposta.
Assim, onde o inglês diz railway-station,
nós dizemos estação de caminho de ferro; sendo tea-room
a construção inglesa, só casa ou salão de chá deve ser a tradução; se na
Inglaterra se fala em flag-staff,
em Portugal refere-se o pau da bandeira; empregando-se em inglês a expressão householder, nem por isso em português se
usa “casal cabeça”, porém sim cabeça de casal; broomstick
não corresponde ao nosso “vassoura cabo”, mas ao portuguesismo cabo de
vassoura; o encantador Christmas-Day
perderia o encanto em Portugal, se a gente lhe chamasse “Natal dia”, em vez de,
à portuguesa, dia de Natal.
Pode a vida da linguagem explicar-se, penso eu, como a vida
dos sentimentos.
Assim como alguém de bom coração se impressiona mais, se
admira mais, ou reage mais com algum ato indigno do que outra pessoa afeita a
patifarias, igualmente, quando nos pomos com íntegro caráter de Portugueses a
presenciar as indignidades da expressão estrangeirada, sentimos crescer em nós
a má impressão, o espanto, a revolta, a que alguns insensíveis acaso chamarão
ingenuidade, mediocridade ou caturrice.
A construção dia de
Natal é puramente portuguesa, como o é cabeça
de casal e as outras referidas. Mas “Natal dia”, se amanhã se passasse a
dizer assim, constituiria uma aberração repulsiva, por contrária à nossa
tradicional sintaxe.
E, no entanto, quanto para aí se diz: “Lusitânia Expresso”, “Londres
Salão”, “Estoril Praia”, “Avenida Palace Hotel”, “Caneças Bar”, etc., etc., há
muita gente que, por acostumada ao exótico de tais chamadoiros, achará essas
anomalias toleráveis, com se de anomalias de construção se não tratasse.
Que se transija, por exemplo, perante o anglicismo “bar”,
ainda se poderá aguentar, posto que botequim
ou taverna digam o mesmo. Mas
aceitar com o “bar” a sintaxe inglesada (e ao mesmo tempo comicamente
portuguesa) de “Caneças Bar”, é coisa que me parece de perigosa desorientação
para a lógica da expressão portuguesa.
Por este andar, lá virá o dia em que se chame ao Sindicato
dos Alcoviteiros, “Alcoviteiros Sindicato”, às Juntas de Freguesia, “Freguesia
Juntas”, à Assembleia da República, “República Assembleia”, etc., etc.
Parecia-me conveniente reagir contra esta desnacionalização
desenfreada, contra esta ridícula subalternização ao espírito das línguas
estrangeiras.
Proliferam em Portugal uns supercultos que se riem, quando
alguém protesta contra a vandalização do Idioma, e repetem, em ar doutoral, que
a Língua “evolui”, que as línguas se “interpenetram”, que, assim, como mudam os
tempos, assim mudam costumes, inclusivamente os de expressão.
Mas… quem diz menos disso?
Hoje nós não vamos falar ou escrever como se falava ou
escrevia no tempo de Afonso Henriques.
Os arcaísmos podem ser tão reprováveis como os neologismos ou
os estrangeirismos. Não se misture, porém, a evolução com a despersonalização,
com a subserviência, com o aniquilamento da dignidade da Língua pátria.
Bem sei que o nacionalismo, levado ao fanatismo, é
incoerente, ou, pelo menos, pueril. Mas a anarquia da expressão, no excesso
oposto, representa um perigo para a integridade do nosso caráter de
Portugueses.
Já mais de uma vez tenho defendido haver prejuízo para a
personalidade idiomática, se a sintaxe portuguesa se deixa desvirtuar pela
influência de outras línguas, principalmente pela inglesa e pela francesa. Na
verdade, o especto das línguas que melhormente lhes traduz o espírito é a disposição,
a combinação, a ordem, numa palavra a sintaxe
dos seus elementos de construção lógica. E acontece tomar-se por vezes por
legítimo progresso da linguagem o que amiúde representa progressivo
desvirtuamento.
Exemplifico:
Noutros tempos havia em Portugal estalagens, pousadas e
hospedarias.
A palavra francesa Hôtel,
tornada internacional, chegou cá à nossa terra. Conforme à índole do português,
albergou-se o termo e, claro está, hoje seria inútil ou tardio protestar contra
o estrangeirismo. Estamos de acordo: hotel,
agora, é palavra portuguesa. Não se discute.
Até aqui, evolução
da língua.
O luxo, contudo, não ficou satisfeito. Exigiu mais. Vejamos o
quê:
Em inglês há a palavra palace,
com acento em pa, a qual significa palácio.
Recorreu-se a ela e engendrou-se isto: Palace Hotel. Em
seguida, como o francês é língua de mais fácil pronúncia, começou a proferir-se
o inglês “palace” à francesa, isto é, com acentuação em la. Esqueceu-se assim o
próprio francês palais e, o que foi pior,
olvidou-se a sintaxe portuguesa, passando a usar-se a barbaridade de “Palace
Hotel”, em vez de, por exemplo, Hotel Palácio, ou coisa equivalente.
Chegados aqui, parecerá ao senso comum que ainda estamos em
“evolução”? Abstenho-me de responder.
Outro exemplo, não me desviando eu de assunto afim:
Tínhamos em Portugal, além do mais, os botequins. Passámos a ter os bares
(em inglês - bars).
Fizemos mal em aceitar o estrangeirismo “bar”?
Quase toda a gente achará que não fizemos mal, e eu não
contrario. Apenas digo que os Italianos (por exemplo), empregando barra, foram mais nacionalistas do que nós.
Na verdade, a palavra inglesa “bar” aplica-se aos botequins, porque significa o balcão
das lojas de bebidas. “Bar”, inglês, proveio do francês antigo “barre”, por sua
vez do baixo latim “barra”. Ora,
este baixo latim “barra” deu-nos o português barra. Portanto, quanto à origem, o francês barre,
o inglês bar, o italiano barra e o português barra
são as evoluções normais da mesma palavra.
Mas fiquemos nisto: bar,
como aportuguesamento do inglês “bar”, explica-se por evolução.
Pergunto agora: “Caneças Bar”, “Cristal Bar”, “Os Três Unidos
Bar” e maravilhas assim explicam-se também por evolução?
Respondam os “evolucionistas”, porque eu acho melhor não
responder.
Considero suficiente a comparação destas denominações com a
construção que amanhã algum maníaco se lembrasse de explicar, generalizando o
inglesamento.
Passaríamos a ter um “Recreio Coliseu”, um “Nacional S.
Carlos Teatro”, uma “Municipal Lisboa Câmara” e, por fim, evolutivamente… um Rilhafoles Hospital.
O estrangeirismo pode investir com um idioma, assaltando-lhe
a fonética, a grafia, a sintaxe e a morfologia, a sintaxe e a semântica. Destes
cinco assaltos pior é, sem dúvida, o contra a sintaxe, pois em tal caso corre
perigo a parte vital do Idioma.
Sofre a Língua portuguesa arremetidas várias e por vários
modos. E, usando de expressão atual, direi que o pior inimigo não é o inimigo
exterior (inevitável influência de línguas estranhas), mas o inimigo interior, “a
5.ª coluna da linguagem”, constituída pelos que roubam a unidade ao Idioma pátrio.
O cúmulo da desnacionalização da Língua atinge-se, quando se
substitui, na sua estrutura sintáxica, a construção própria por construção
alheia, de todo diferente.
Entre a sintaxe portuguesa e a inglesa há pronunciadas
diferenças, que as distanciam grandemente.
E mesmo um ignorante de coisas de gramática deve ter reparado
em que o adjetivo atributo concorda em género e número com o substantivo a que
se refere.
Isto em português, claro está.
Se souber inglês, até sem conhecimento de gramática,
traduzirá, por exemplo, “national films” para fitas nacionais, ou filmes
nacionais.
Haverá em todo o nosso Portugal algum analfabeto capaz de
dizer que tem visto “nacional filmes”?
Suponho que não.
Mas, se não há tal analfabeto, há gente portuguesa semiculta
que denomina à americana uma empresa ou coisa parecida que talvez seja
portuguesa nas intenções e nas obras, mas é estrangeira no chamadoiro.
Chegados aqui, pergunto:
- Será que um Povo, “velho” de quase 900 anos, já não tem
idade para aprender?
Felizmente ainda há quem responda que sim! Veja-se o nosso
Ministro das Finanças (Doutor em Economia, não em Matemáticas) a “ensinar”, em
plena Assembleia da República, a todos os seus “pares” (e aos “ímpares”, como
eu?) que “o ano de 2015 vem depois do ano de 2014”!
Pergunto, ainda:
- Será que o nosso Ministro da Educação (ele sim, Doutor em
Matemáticas), ao não “pôr ordem na casa”, se “esqueceu” que “o ano de 2014 vem antes do ano de 2015”?
Por favor: não me digam que “burro velho não aprende
línguas”… eu (“burro velho”) ando a aprender Mandarim!
Carlos Fiúza
06 abril 2012
Era uma vez... a Páscoa
As grandes barrelas às habitações
eram feitas por altura da Páscoa. As casas eram tratadas de alto a baixo -
varriam-se com as vassoiras de giestas. Nada escapava: as pedras do lar, as
escadas, os sobrados, as farroncas nos cantos mais altos das paredes, as portas
de entrada e mesmo as ruas. As tábuas dos sobrados esfregavam-se a sabão e água
com as escovas de piaçá. Limpavam-se as lojas dos animais e os quinteiros dos
estrumes que se depositavam nas terras para a semeadura das batatas e plantação
das hortas. Os colchões de palha tiravam-se das camas de ferros, esvaziavam-se
do colmo meio desfeito, arejavam-se, lavavam-se, para, de novo, se encherem da
palha de centeio, neles colocada com habilidade e a ajuda de uma cruzeta feita
de uma vara comprida e bifurcada.
Na manhã do domingo de Páscoa,
faziam-se também as limpezas ao físico, para muitos a única do ano:
acendia-se o lume logo pela manhã e enchiam-se os maiores potes de ferro e caldeirões de
lata com água; despejavam-se nas bacias da roupa, temperavam-se com água fria
dos canecos cheios trazidos à cabeça do fontanário público, e lavavam-se os
cabelos e a parte de cima dos corpos com água e sabão – a mãe ou os irmãos mais
velhos ajudavam a deitar um jarro de água pela cabeça para tirar os restos de
sujidade e sabão; a água restante servia para o lavar das pernas e dos pés.
Assim lavados, e penteados de risca ao
meio, quase sempre se estreava farpela nova e se calçavam os sapatos das festas. Todo o vestuário era comprado na feira da vila.
Saía-se para o adro para ver e ser visto. Nos bolsos das crianças a moeda ou a nota do
padrinho trocada pelo ramo de oliveira do domingo anterior e pelo pedido da sua
bênção, tornava-as sorridentes e as mais felizes do mundo. Depressa trocavam o pecúlio pelo copo
da laranjada e a mão cheia de doces na taberna.
Se o Natal era a festa da família, a
Páscoa era a festa da aldeia. A sua preparação começava com a elaboração dos
folares e dos económicos e a sua cozedura nos fornos comunitários. Havia os folares doces e os
de carne. Os doces comiam-se ao pequeno-almoço com o café, ou com um bom cálice
de vinho tratado, que ajudava a
cortar a doçura, diziam. Os de carne feitos com as chichas do porco, incluíam a
chouriça, o salpicão, o presunto e o toucinho, chamávamos-lhe carne gorda, que emprestava à massa um
sabor divinal. Os económicos, na forma de montinhos polvilhados de açúcar,
duravam longos dias e eram sempre o melhor mimo que se metia no saco da escola
para o lanche do dia.
A missa pascal era obrigatória,
antecedida dos três dias de penitências, jejuns, vias-sacras e do silêncio dos
sinos que anunciavam, tristemente, ao meio-dia de quinta-feira a paragem dos
trabalhos e, só despertavam na tarde de sábado e mais tarde na aurora de
domingo, em tom festivo. À Eucaristia seguia-se o almoço melhorado que quase
sempre incluía o borrego ou a ovelha, assados ou guisados, e o delicioso arroz
doce, de sobremesa. À tarde, o compasso visitava todas as habitações para o
beijar da cruz, acompanhado da algazarra da criançada, que pululava de casa em
casa em busca dos “doces”, e do murmúrio de muitos que se visitavam em busca
dos mimos e dos afetos.
05 abril 2012
Poeiras do meu sótão… (Carlos Fiúza)
II - Doutor e professor
Em vários lugares tenho combatido o caricato (por desmedido)
emprego do tratamento de doutor a torto e a direito, sempre preconizando o uso
prestigiado de professor.
Professor é todo o que professa a nobre arte de ensinar.
Doutor é termo insignificante, no generalizado emprego de
hoje.
Doctor, em latim, é o que ensina, porque aprendeu. Doceo era ensinar, instruir, informar.
Há “Doutores” que sabem, de facto, mas há também “doutores”
que por vezes só conhecem o que lhes entrou a martelo na cabeça.
Devemos, pois, dar prestígio à palavra professor e ligar
menos ao batido tratamento de doutor.
O ponto em que insisti e insisto foi e é este:
- A palavra professor, devidamente prestigiada, deve ser
aplicada e atribuída a todos os professores, desde o primário ao universitário.
Porque todos eles professam
a religião de ensinar.
E ensinar não quer
dizer só dar aulas.
Ensinar é dar sinal da Verdade
científica, seja na aula primária, seja na cátedra, no livro, na investigação,
etc.
Professor (já em latim) era não só o mestre que ensinava, mas aquele que era
versado em arte ou ciência.
Em resumo:
Reabilite-se o título e o tratamento de professor, e dê-se este nome ao mestre de qualquer grau de ensino.
Para as distinções de categoria (se as houver), use-se a
palavra ora com maiúsculas, ora com minúsculas, ora em abreviatura, ora por
extenso.
Para mim, as distinções pouco interessam, talvez por não ser
distinto.
Mas o que me interessa é proclamar que os professores devem ser tratados por professores, e não por s’tores e outros mecanismos.
Razão tinha um amigo meu quando me dizia: “o povo antigamente
envolvia o termo doutor na noção de saber. Havia, por exemplo, os Doutores da
Igreja. Hoje, qualquer licenciado é “doutor”, embora de “doctus” não tenha
nada”.
Como comentário direi, que o povo ainda chama “doutorice” à
sabença: “não venhas com doutorices”.
Vamos lá que no Brasil ainda é pior: qualquer professor da
primária é lente.
Como os “lentes” eram ao que “liam”, nas velhas universidades
livrescas, isso ainda é compreensível.
Costumeira que me faz rir a valer é o processo que se está a
adotar em ofícios e outra correspondência, oficial e oficiosa. Os sujeitos
assinam com uns gatafunhos e mandam a assistente pôr por baixo Dr. Fulano de
Tal.
Que é como quem diz: olhe lá, eu cá sou Dr.!
Isto faz-me lembrar que certo dia um americano meu amigo me
disse não compreender por que motivo em Portugal todas as senhoras eram Donas e os homens todos (ou quase todos)
Drs., ao passo que em Espanha os
homens preferiam o Dom.
Respondi-lhe que cada
povo tem a sua abundância:
Em Espanha há Dom e em Portugal há Drs.… como no inverno há cogumelos!
Carlos Fiúza
Propaganda ou solidariedade?
Dizem-nos:
"As famílias dos três trabalhadores mortos no acidente de Janeiro passado nas obras da Barragem do Tua vão ser apoiadas pela EDP." (daqui)
Não seria melhor anunciar os apoios depois de se concretizarem?
A propaganda é um modo específico de apresentar informação que visa
influenciar a atitude do público para uma causa ou atuação. Ela é legítima na publicidade e é aceitável em muitas das atividades humanas.
Contudo, quando se aproveita a tragédia humana, se utiliza a solidariedade para mera propaganda comercial é, no mínimo lamentável e contraproducente.
03 abril 2012
Os cemitérios de Carrazeda: João Lopes de Matos
Sei que voltar a este tema é já cansativo e de todo
inútil:- os dados estão lançados e nada de novo pode acontecer- as obras de
ampliação do velho cemitério decorrem em
bom ritmo e o novo cemitério está destinado a ruir pouco a pouco, por efeito da
passagem do tempo e da ação destruidora do homem.
Porquê, então, voltar ao caminho percorrido?
É que eu, só da minha última estada em Carrazeda, tomei
contacto com as obras em curso no antigo cemitério e pela primeira vez fui ver
o novo, percorrendo o caminho mais direto para lá chegar.
Confesso que fiquei pasmado quer com o tamanho da
ampliação do velho quer com o tamanhão do novo.
Haviam-me dito que o caminho até ao novo era
longo (disseram-me que ele ficava mesmo muito perto de Luzelos) e verifiquei que
fica logo ali ao terminar dum bairro novo.
O novo cemitério é enorme, dividido em quatro partes, com
passeios largos empedrados a separar as várias partes, com uma capela e casas
de banho no seu interior: é um cemitério que podia bem substituir todos os
cemitérios do concelho .Quem o projetou, deve ter partido da ideia segura de
que Carrazeda iria aumentar imenso a sua população (muito provavelmente, sabe
que a vila tem riquezas, secretas para a maioria, que irão provocar uma
explosão demográfica insuspeitada). Sobre a água que o rodeia e o torna
inabitável para os mortos ,nada posso dizer pois quando fui lá não havia o mais ligeiro indício de tal poder
acontecer (havendo muita água, disseram-me que era fácil resolver o problema com
muros mais fortes e a abertura duma grande vala na retaguarda – não sei).
Quanto à ampliação do velho, também me parece enorme,
ficando , depois, o cemitério, inquestionavelmente, a constituir o maior
monumento da vila, uma verdadeira necrópole (cidade dos mortos) bem no
centro do aglomerado urbano, tornando-se
no verdadeiro ex-libris da sede do concelho.
Talvez tudo isto pudesse ter corrido doutra maneira.
Ainda assim, em Carrazeda, não é por falta de cemitérios que os mortos ficam
por sepultar.
João Lopes de Matos
01 abril 2012
Passeio Cultural para "reviver Ansiães"
Mais uma iniciativa do blogue “Pensar Ansiães” que contou
com a participação de mais de duas dezenas de participantes para reviver Ansiães, e particularmente desfrutar da sua memória nos saberes e património edificado.
A atividade iniciou-se na Lavandeira, onde o Padre Bernardo
começou a desvendar mistérios: o primeiro e a mais surpreendente é de que Santa
Eufémia, que nos habituámos a venerar, não corresponde à dos leões da Antiga
Roma, mas nasceria uns duzentos anos depois no norte de Espanha. A Santa
Eufémia, duma ninhada de nove, é irmã de santa Marinha, exato, essa mesma,
venerada em Ribalonga.
A aventura leva-nos ao alto do castelo de Ansiães, com
visita demorada à capela de São Salvador, intramuros e à de São João, extramuros,
“do século IX”, padre Bernardo dixit, “sem dúvida” de inspiração ariana, passando
depois por Selores, com visita às capelas de Nossa Senhora do Prado, S. Brás,
Santo António e à do Espírito Santo, numa passagem pela Igreja da Selores, “a
de construção mais antiga do concelho”, com vestígios de edificação maçónica.
Visitadas algumas joias da construção religiosa em
Lavandeira, Selores e Alganhafres, retemperámos forças no parque de Lazer da
Piscina Municipal, onde assistimos ao lançamento mundial de um néctar das
videiras de Pombal e Selores. Com pesar informam-se os estimados leitores que a
comercialização para a presente época está esgotada.
A tarde, para desvendar outros mistérios, foi destinada ao
Vilarinho da Castanheira, onde ao calcorrear uma rua, que tem nome da irmã da
D. Teresa, nos encontrámos com o vinho generoso e o folar, que a amizade, a
simpatia e a providencial hospitalidade nos presentearam.
Seguiu-se a visita
aos moinhos, consumado com o pôr-do-sol da anta, num abraço coletivo em
comunhão com a natureza.
Barragem do Tua: perto da normalidade
"As obras de construção da barragem do Tua só deverão regressar à normalidade em finais de Abril, princípios de Maio. Para
já está a ser criado um novo acesso à frente da empreitada que está
parada desde 23 de Janeiro, na sequência de uma derrocada de pedras que
matou três operários.A informação foi esta sexta-feira, em Carrazeda de Ansiães, pelo director do projecto da barragem.
António Freitas da Costa, à margem do lançamento do programa de apoio ao empreendedorismo no vale do Tua."
Daqui
Daqui
Carrazeda de Ansiães: A EDP quer dar prémios
"Prémio Empreendedor Sustentável promovido pela EDP alargado à área da barragem de Foz Tua.
A EDP vai alargar aos cinco municípios abrangidos pelo empreendimento hidrelétrico de Foz Tua o Prémio Empreendedor Sustentável, distinção que já ajudou a desenvolver 40 novos projetos empresariais na zona do Baixo Sabor e num total de quatro concelhos.
Este programa de apoio à iniciativa empresarial e criação de emprego nos territórios em torno das barragens foi apresentado sexta-feira, em Carrazeda de Ansiães e abrangerá, para além deste concelho, os municípios de Mirandela, Vila Flor, Murça e Alijó, utilizando os métodos fomentados na região do Sabor."
Daqui
A EDP vai alargar aos cinco municípios abrangidos pelo empreendimento hidrelétrico de Foz Tua o Prémio Empreendedor Sustentável, distinção que já ajudou a desenvolver 40 novos projetos empresariais na zona do Baixo Sabor e num total de quatro concelhos.
Este programa de apoio à iniciativa empresarial e criação de emprego nos territórios em torno das barragens foi apresentado sexta-feira, em Carrazeda de Ansiães e abrangerá, para além deste concelho, os municípios de Mirandela, Vila Flor, Murça e Alijó, utilizando os métodos fomentados na região do Sabor."
Daqui
30 março 2012
Passeio Cultural: Alganhafres
Alganhafres merece uma visita para todos os que querem
ver pedaços genuínos da arquitetura tradicional transmontana, mantendo as
escadas exteriores, o patamar, por vezes o alpendre, a pedra em cantaria ou
rústica e, maioritariamente, com rés-do-chão e 1.º andar. Logo à entrada está
uma pequena capela em ruínas, mas que salta à nossa atenção pela simplicidade
do seu portal com arco redondo ainda visível. É a Capela do Ferraz ou do Divino
Espírito Santo.
Porém
a não perder é a Capela de Santo António, brasonada, no meio da povoação, bem
enquadrada duma enorme casa rural e de outras construções rurais com pedra
aparelhada, e com muros laterais a ligar as habitações em volta, formando uma
entrada poente com uma espécie de portal que dá acesso ao Largo fronteiriço.
Como alguém disse é “ um local maravilhoso para fazer um filme com cenas rurais
do início do século, pois ainda mantém uma certa traça rural bem campesina
doutros tempos.”
29 março 2012
As três palavras mais estranhas
Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.
Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.
Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.
Wislawa Szymborska (1923 - 2012)
a primeira sílaba já pertence ao passado.
Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.
Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.
Wislawa Szymborska (1923 - 2012)
28 março 2012
Poeiras do meu sótão… : Carlos Fiúza
Confesso um dos meus fracos, uma das minhas predileções -
gosto muito de conversar com os antigos.
E gosto de conversar com os antigos pela razão simples de que
encontro sempre no que eles dizem algo que me faz refletir. Além disso, os
antigos têm o condão de falar com uma singeleza tão cativante que o proveito
das suas lições traz consigo o prazer da meiguice no modo humilde ou discreto
e, por vezes, encantadoramente ingénuo da exposição dos assuntos.
Quando posso, refugio-me, pois, na leitura dos velhos
autores, dando-me assim ao prazer espiritual de escutar a voz ensinadora do
passado.
Hoje deu-me para aprender… gramática!
Não a gramática rabugenta em que vós estais a pensar. Não!
A gramática com quem estive conversando foi uma velhinha de
476 anos de idade (um “fac-simile” que me caiu nas mãos, desencantado na
Biblioteca Municipal), mas uma velhinha simpática, muito simples, com um
gracioso modo natural de falar, dir-se-ia elegante na sua rudeza primitiva.
Justamente, a primeira Gramática de Portugal, feita há quase
cinco séculos, em 1536, por Fernão de Oliveira!
Julgarão alguns modernistas que as velharias não interessam.
Redondo engano. As velharias ensinam-nos muita coisa.
Esta velinha do século XVI convida-nos a muita observação que
ainda terá, pelo menos, este mérito: ensinar aos estudiosos da língua que
certos factos que a moderna ciência linguística apregoa já na antiguidade se
haviam observado, anotado e comentado.
Apraz-me conceder já a palavra à mais velhinha das gramáticas
portuguesas, verdadeira alma do outro mundo, a qual virá, com voz sumida de
mais de quatro séculos, dizer algo da sua ciência.
Para abrir o apetite dos estudiosos descrentes e até dos
investigadores bisonhos, aqui lhes ofereço o modo formidavelmente vivo como a
veneranda gramática de quinhentos ensinava, por exemplo, a pronúncia do X em português:
“… pronuncia-se com as queixadas apertadas no meio da boca,
os dentes juntos, a língua ancha dentro da boca e o espírito ferve na humidade
da língua”.
Diga-se o que se disser, este modo de, no século XVI, se
explicar o X tem um não sei quê de
“experimental”, que há de envergonhar certos gramáticos teóricos dos nossos
dias.
Na verdade, muitos gramáticos de agora dizem que o X é uma
consoante “constritiva”, coisa que nem toda a gente percebe ser referente à
constrição ou aperto na passagem do ar. Pois a gramática de 1536 não esteve com
meias medidas: Quer-se proferir o X? - Apertem-se as queixadas no meio da boca.
Mas porquê “língua ancha”? Ora essa! Para que o espírito
ferva na humidade da língua…
Hoje diz-se que o X é
consoante fricativa palatal. Cientificamente, é mais exato; mas a “fervura do
espírito na humidade da língua” tem maior poder “descritivo”- É muito mais
“imitativo”.
Não vá daqui supor-se que a velha gramática só tem conselhos
provocadores do sorriso ou até do riso dos modernos.
Nada disso!
Pelo contrário, seus pareceres e ensinamentos são bem
atiladamente objetivos.
Ora, escutai isto, por exemplo, na vetusta obra de antanho:
“As dições usadas são estas que nos servem a cada porta
(como dizem), estas, digo, que todos falam e entendem, as quais são próprias do
nosso tempo e da nossa terra; e quem não usa delas é desentoado, fora do tom e
música dos nossos homens de agora… De todas elas (dições usadas) ou são gerais…
como pão, vinho, céu e terra, ou são particulares… porque os da Beira têm umas
falas e os do Alentejo outras, e os homens da Estremadura são diferentes dos
dantre Douro e Minho; e os mecânicos, outros; e os mercadores, outras. Saibamos
que a primeira e principal virtude da língua é ser clara e que a possam todos
entender e, para ser bem entendida, há de ser a mais acostumada entre os
melhores dela; e os melhores da língua são os que mais leram e viveram,
continuando antre primores sisudos e assentados, e não amigos de muita mudança”.
Finda a transcrição, indago:
Que nos ensinou a velhinha neste seu discretear?
1.º - Ensinou-nos que a linguagem corrente e natural é a que
todos falam e entendem;
2.º - Disse-nos que há palavras pertencentes ao falar geral
(v.g. pão, vinho, céu e terra) e palavras particulares, pertencentes a ofícios
e a tratos sociais.
3.º - Cada terra tem seu uso de falar. Isto nos ensinou a
obra velhinha, com esta observação perspicaz: “assim como os tempos assim
também as terras criam diversas condições e conceitos”. Já o nosso povo diz:
“Cada terra com seu uso e cada roca com seu fuso”.
4.º - “A clareza é a primeira e principal virtude da língua”.
E onde está essa virtude? Na permanência da linguagem dos “primores sisudos e
assentados”.
E isto é uma verdade.
Se alguém não concordar, far-lhe-ei advertir em que, para a
intercomunicação espiritual, os homens dispõem de dois grandes meios - a
linguagem falada e a linguagem escrita. (Não interessam agora os outros
recursos comunicativos, como o gesto, etc.) Ora, cada uma delas - a falada e a
escrita - mesmo na relativa unidade
idiomática varia pela qualidade (e também pela quantidade) nas bocas das
pessoas cultas, e nas das incultas, nas penas dos letrados e nas dos
hemianalfabetos.
Quero dizer, tanto no falar como no escrever, qualquer idioma
diferencia-se em linguagem popular e linguagem culta.
Pois bem.
Quer a linguagem popular (aquela que é corrente, espontânea
no expressar livre das gentes que falam sem qualquer polimento literário ou
gramatical), quer a linguagem culta (a que é orientada estética e
gramaticalmente), ambas serão vistosas pela clareza, se não caírem na
leviandade de exageradas mudanças.
Portanto, os sobreexpostos conselhos da velhíssima gramática
podem muito bem repetir-se nos nossos tempos.
No fim de tais falas dessa alma do outro mundo, que é a
primeira Gramática de Portugal, nascida em 1536, eu fico a pensar que, há
séculos, na nossa Terra, já havia um gramático, pelo menos, que sentia, por
intuição, a realidade psicológica nas palavras.
Carlos Fiúza
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