
A problemática da unificação da língua numa mesma ortografia vem desde o início do século XX, mais precisamente em 1911. Este foi um acto isolado que o outro grande país falante do português não participou. A reforma introduziu alterações que hoje nos parecem perfeitamente sensatas como a mudança das grafias de theatro, asthma, rheumatismo, polyphonia, christão ou archipélago.
Durante o século XX, foram várias as tentativas de um acordo: 1931, 1943, 1945, 1971/73, 1986. A última reforma ortográfica da Língua portuguesa ocorreu nos anos 70, quando no Brasil e em Portugal (incluídos os territórios denominados ultramarinos) se aboliu o acento grave, em palavras que faziam o advérbio com o sufixo –mente- como amàvelmente, que passou à grafia de amavelmente, e se acabou com o acento circunflexo em palavras como portuguêsmente. Nessa altura, o Brasil também aboliu o acento diferencial, que já não se usava em Portugal (por exemplo, êste, com acento, para distinguir de este, ponto cardial).
O Acordo Ortográfico (veja aqui http://www.portaldalinguaportuguesa.org) assinado em 1990 entre os sete países de língua oficial portuguesa (em 2004 aderiu Timor) apenas estabelece normas ortográficas, isto é muda a grafia de certos vocábulos. Não introduz uma completa uniformização na grafia das palavras, mas naturalmente a redução ao mínimo possível das diferenças. Não altera a pronúncia de qualquer palavra, não cria nem elimina palavras, não estabelece regras de sintaxe, não interfere com a coexistência ou com as regras de normas linguísticas regionais.
O acordo tem motivado uma profunda divisão nos intelectuais portugueses. O rosto pela não ratificação tem sido Vasco Graça Moura que produziu vastos artigos de opinião reunidos no recente livro “Acordo Ortográfico – a perspectiva do desastre”. Entre as várias consequências da ratificação refere a inutilização de milhões de livros adquiridos pelo Governo no âmbito do Plano Nacional de Leitura (Moura, 2008). Na Internet deu-se também início a uma petição online (ver em http://www.petitiononline.com/naoacord/petition.html) para apresentar na Assembleia da República. Os signatários não concordam com a aprovação desse Protocolo, não querem que a Língua Portuguesa, tal como os portugueses a conhecem, seja alterada.
“Nós não queremos escrever palavras como 'Hoje', 'Húmido', 'Hilariante' sem 'h', não queremos escrever palavras como 'Acção' sem 'c' mudo nem palavras como 'Baptismo' sem 'p' mudo. Queremos continuar a escrever em Português tal como o conhecemos agora”.
Do outro lado da barricada o rosto mais visível é Carlos Reis que defende a ratificação:
“Se queremos (eu quero) que o português tenha hipóteses, mesmo que de difícil concretização, de alguma afirmação internacional em confronto com outras línguas, então não podemos continuar a ignorar as debilidades de um cenário linguístico em que alegremente convivem duas ortografias” (Público 22/3/2008)
Esta defesa assenta na defesa da língua enquanto ferramenta de diálogo internacional, bem como na memorização das modificações.
“Se há aspecto do idioma que é marcado por acentuada convencionalidade, esse aspecto é precisamente a ortografia. E as convenções são reajustadas, quando a realidade das coisas a isso aconselha, sem risco de desfiguração cultural e com todas as vantagens de um entendimento possível entre países, sendo inaceitável que um deles se arrogue direitos de propriedade sobre o idioma.” (idem)
Características gerais do novo acordo
A principal característica e também a mais polémica do acordo ortográfico é a de privilegiar “o critério fonético, em desfavor do critério etimológico”, suprimindo consoantes mudas ou não articuladas. Os cês e pês não pronunciados em palavras como director, acção, protecção, baptismo, adoptar e excepção, as quais passam a escrever-se diretor, ação, proteção, batismo, adotar e exceção.
Se actualmente o alfabeto da língua portuguesa consta de vinte e três letras, com a entrada em vigor do acordo ortográfico passa a ter as vinte e seis letras com a entrada do k, do w e do y.
Outra das principais alterações é o emprego do hífen que é simplificado e substancialmente reduzido. Esta modificação, dizem os especialistas, é a que poderá trazer mais confusão.
A utilização das maiúsculas também é simplificada: os meses do ano, os dias da semana e os pontos cardeais e colaterais, títulos de livros, formas de tratamento, domínios do saber, cursos e disciplinas escolares, logradouros públicos, templos ou edifícios.
Suprimem-se também alguns acentos gráficos, é o caso de todas as palavras graves. O ditongo oi em palavras graves não leva acento. Escreveremos boia e heroico em vez de bóia e heróico.
As principais alterações introduzidas pelo Acordo Ortográfico no Brasil são:
Desaparece o trema. Em Portugal escreve-se aguentar, arguido, frequente e tranquilo. No Brasil as normas ortográficas em vigor estabelecem que estas palavras se escrevem agüentar, argüido, freqüente e tranqüilo. O trema é colocado sobre o u para indicar que esta letra é pronunciada. Em Portugal o trema não se usa desde 1945.
O ditongo ei em palavras graves nunca é acentuado graficamente. Por isso, deixa-se de usar acento em palavras como assembléia e idéia. Actualmente tais palavras não levam acento em Portugal.
A cedência dói sempre e neste caso da língua que é uma identificação cultural e até nacional ainda mais, parece-me, no entanto que os ganhos podem ser maiores.
























