Após várias inspecções ao material, melhoramentos na via, limitações de velocidade para tornar mais seguro o troço de caminho de ferro entre Foz-Tua e Mirandela, os acidentes sucederam-se e em pouco mais de um ano foram muitos mais que nos 120 anos da sua história. O caso da linha do Tua é o exemplo acabado da irresponsabilidade e da impunidade política: por um lado gastam-se milhões de euros do erário público na sua conservação e manutenção, por outro sucedem-se acidentes sem que haja uma clara e pública explicação e entrementes negoceia-se a construção de uma barragem que a alagará na sua quase totalidade. O caso seria de rir se não tivessem em causa a vida de pessoas.
Procuro aqui o texto de Manuel Carvalho no Público sobre a metáfora do interior e do abandono da infra-estrutura ferroviária; um e outra decrépitos, abandonados, moribundos. O resultado do inquérito do acidente (o que se sabe) é também bem português: ninguém teve culpa; tudo estava bem, linha, máquina, maquinista. A culpa até parece ter sido dos passageiros. Típica é também a teoria da sabotagem, dos interesses obscuros. Interesses de quem? Da EDP que quer construir a barragem. Ridículo. Então não é claro que a entrega do vale à empresa eléctrica já foi feita com pompa e circunstância perante o beneplácito dos autarcas e das gentes do interior.
A linha do Tua existe graças à teimosia do anterior presidente do Município de Mirandela e mais tarde do seu sucessor José Silvano. Nasceu sob o signo de uma falsa modernidade, o segundo metropolitano a ser construído no país (muito antes do do Porto), com estações baptizadas de nomes sonantes da Europa desenvolvida, Jacques Delors, Jean Monet. Não passou de uma pequena grande vaidade que não encontrou nos frequentadores sustentabilidade. Todos os outros ditos representantes do povo assobiaram para o ar porque este transporte nada lhes interessa. Com as aldeias sem gente, sem qualquer hipótese de concorrer com o transporte rodoviário, dela não retiram qualquer mais-valia. A barragem é “eldorado”: modernidade, espelho de água, canoas, barcos, hotéis, parques de campismo.
Sobra a potencialidade turística alicerçada em atravessar um dos mais belos vales naturais do país, pontuarem no seu percurso duas estâncias de águas termais (S. Loureço e Carlão), entroncar num eixo ferroviário lindíssimo, com potencialidades ligadas ao turismo do Douro e desaguar num interessante pólo citadino, como é Mirandela. Mas o turismo pouco mais é que uma quimera. Os turistas são ocasionais e não se fixam mais que um dia, pois nada mais temos para lhe oferecer que paisagem. A linha do Tua vai desaparecer porque não tem utentes, não serve quaisquer planos concretos de transporte presentes e futuros, não tem utilidade prática. Está morta pelo abandono a que a votaram a CP, a Refer, o Governo, as autarquias e todos nós residentes do interior.
Fixamo-nos em Carrazeda: já se falou no S. Lourenço e na mais valia que a linha férrea lhe aporta, enquadre-se agora num programa turístico e cultural municipal que incluísse um museu do comboio em Foz-Tua emoldurado pela gastronomia (já existente), os passeios de barco no Douro. Depois a oferta de um roteiro que incluísse uma ligação por autocarro ( a partir de Brunheda ou do Tua) para visitas ao vasto património histórico, monumental e ambiental concelhio (castelo, antas, casas senhoriais, solares) e a possibilidade de pernoitar num espaço de turismo rural. Mas isto é apenas um sonho. A linha do Tua morreu. Paz à sua alma.
6 comentários:
in Diario Económico
Escusavam de se incomodar
“Um grupo de jovens terá supostamente entregado à CP ou à REFER um conjunto de “gigantescos parafusos” que conseguiu retirar da linha do Tua sem uso de outras ferramentas que não as suas próprias mãos.”
29-08-2008, João Duque
Um grupo de jovens terá supostamente entregado à CP ou à REFER um conjunto de “gigantescos parafusos” que conseguiu retirar da linha do Tua sem uso de outras ferramentas que não as suas próprias mãos. Com este gesto este grupo de jovens queria homenagear as quatro vítimas mortais que ocorreram nessa linha nos últimos 18 meses e alertar para o que dizem ser a “falta de manutenção e de cuidado com a linha”. Ora aqui está uma péssima e reprovável ideia! Como facilmente se percebe a atitude destes jovens é de todo condenável.
Em primeiro lugar porque exige a presença de um “responsável” de uma instituição qualquer a quem se entreguem os designados “gigantescos parafusos”. Ora quem se julgam estes fedelhos para virem agora, em pleno Agosto, incomodar o justo sono dos guerreiros que no Algarve ou noutra qualquer estância de veraneio desfrutam o merecido gozo das canseiras de um ano de intenso trabalho? Para além disso é necessário um “responsável” o que é uma má ideia pela dificuldade em encontrar um em Portugal. Quem é o responsável na CP ou na REFER, na Direcção Geral, na Secretaria de Estado ou mesmo no Ministério que se assume como tal e se mostra disponível para receber a “encomenda”? Quem é que vem assumir que o que não fez foi a causa do que sucedeu na linha do Tua?
Em segundo lugar, a ideia destes jovens é condenável porque incita outros a repeti-la e isso é o pior que pode suceder. Imaginem agora que se encontram idênticos “gigantescos parafusos” soltos noutras linhas com mais e mais veloz movimento ferroviário? E se a acção se repete em Portugal noutras áreas de actividade, como na descoberta de buracos que antecedem as curvas das estradas, pontes que continuam com os pilares e fundações em situação periclitante mesmo depois de sucessivos avisos dos institutos públicos de engenharia civil, elevadores de edifícios públicos com as datas de inspecção ultrapassadas, etc., etc., etc?
Não sei se conseguem alcançar a gravidade da ideia. É que de repente pode chegar-se à conclusão de que um simples grupo de jovens, quais escuteiros da boa vontade, pode pôr em causa a avaliação e a competência técnica, administrativa e até política de uma hierarquia, de um sistema, de um país! E isso é intolerável?
Além de tudo estes jovens podem pôr em causa a competência de uma administração inteira, o seu sistema de bom governo e diligência de um sistema de transportes ou até as remunerações que são justamente devidas aos que se dedicam à gestão desse sistema.
Pode morrer-se de um destes descarrilamentos, de uma incúria de manutenção, mas morre-se sem medos, sem receios permanentes, em ambiente de suma felicidade, a fruir a paisagem, mesmo que com uns parafusos a menos… Porque se estes meninos desatam a repetir estas façanhas noutras vias férreas ou noutras áreas de actividade de Portugal passamos a viver com a permanente angústia de uma morte que temos certa. Assim que venha ela de mansinho e pelas costas sem se fazer anunciar.
Se estes meninos querem entretém para Agosto, trabalhos manuais ou ATL’s, que peguem em chaves de parafusos ou chaves inglesas e desatem a aparafusar, a atarrachar, a espetar cavilhas ou a apertar porcas nos “gigantescos parafusos”. E calem-se para bem de todos, ganhem vergonha, não vão os turistas ganhar medo a Portugal!
Pondo-me no lugar de um putativo “responsável” procurado por estes jovens e questionando-me sobre o que teria eu para lhes dizer, acho que não poderia encontrar melhor saída que não fosse um “escusavam de se incomodar”! Mas isto se ainda tivesse a ousadia de lhes aparecer pela frente.
Só me recordo de um político pedir uma demissão por um acto de que não teve ligação directa: Jorge Coelho na sequência do desmoronamento da ponte de Entre-os-Rios.
Se a linha morrer espero que todo o Trás os montes vá ao seu funeral
e finalmente demonstre raiva e coragem para se defender..Sinto que os nossos antepassados de remexem nas campas e tentam esticar a mão para dar umas bofetadas nestes mangericos que geraram
No domingo, cerca de 40 jovens entregaram ao chefe da estação do Tua, funcionário da Refer, vários parafusos «soltos» que recolheram à mão e que são, para o grupo, o «símbolo da insegurança» e da «falta de manutenção e de cuidado» que há na Linha do Tua, que liga as Estações de Mirandela e do Tua.
No domingo, cerca de 40 jovens entregaram ao chefe da estação do Tua, funcionário da Refer, vários parafusos «soltos» que recolheram à mão e que são, para o grupo, o «símbolo da insegurança» e da «falta de manutenção e de cuidado» que há na Linha do Tua, que liga as Estações de Mirandela e do Tua.
Pobre de quem morre.
parabéns pela sua carta no Jn de hoje
A submersão da linha do Tua morreu. Paz à sua alma.
Apostamos?
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